Sexta Sei: Bemti canta sobre a terra arrasada sob um governo que odeia arte

Segundo disco do artista, “Logo ali”, foi feito durante a pandemia, com patrocínio da Natura Musical e participações de peso que vão de Joyara a Marcelo Jeneci

por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com

Bemti na linda capa de “Logo ali”, do artista Paulo Marcelo Oz, em foto de  Mateus Lustosa, “reinvenção expandida” de “O Derrubador Brasileiro” (1879), de Almeida Júnior

A coluna desta semana encerra a trilogia do bom mocismo criativo que começou com Julio Secchin e o trio ETC. Bati um papo, por e-mail, com Bemti, 32 anos, artista mineiro cheio de talento que conheci há pouco mais de um ano, no feat com o paraense Jaloo, “Catastrópicos!”, bem lá no começo da coluna. Ele acaba de lançar seu segundo disco, o bom “Logo ali”, com patrocínio da Natura Musical e parcerias com Jaloo, Josyara, ÀVUÀ. Helio Flanders, Marcelo Jeneci, Fernanda Takai,  Roberta Campos, Barro e outros.

No clipe de “Samba!”, com Àvuà

O disco, de queer-folk, MPB e indie-pop, traz a viola caipira como instrumento principal, tanto que está tatuada no corpo do artista e aparece na capa do álbum. Batemos um papo, por e-mail, sobre o movimento quernejo, que eu adoro, as tantas e boas colaborações do disco, em uma  pegada de “celebração coletiva” à distância, a sensação de “terra arrasada” da capa do álbum, como surge a inspiração nos trabalhos autorais e de como é produzir cultura, numa pandemia, sob um governo que odeia arte.

“Catastrópicos”, com Jaloo

Moreira – Você me parece um caso à parte dentro do espectro dos novos artistas do pocnejo/queernejo, com um profundidade e refinamentos na pesquisa musical. Eu gosto muito dessa turma toda – Gabeu, Alice Marcone e Gali Galó estão sempre na coluna. Como você trabalhou a viola caipira de dez cordas no disco novo? Ela está até na capa…

Bemti Eu acho que, como ponto de partida, é importante entender que meu som dialoga com o queernejo, mas não pode ser definido só com esse termo. O fato da viola caipira de 10 cordas ser meu instrumento principal e das influências caipiras e sertanejas estarem bem visíveis é meu link com o movimento, mas em todos os meus perfis em redes sociais ou streamings, por exemplo, está lá: “queer-folk, MPB, indie-pop”. Se você escutar “Livramento”, que está no disco novo, pode perceber que eu compus ela com uma métrica de sertanejo contemporâneo, mas o arranjo bebe muito do indie-folk de artistas como Laura Marling. A sensação final pode ser algo “nossa, que música caipira”, mas tem muitas camadas rolando, assim como nas músicas da Alice Marcone, Gali Galó… Cada artista do movimento tem uma pesquisa sonora bem específica, mais ou menos próxima do que as pessoas definiriam como “isso aqui é sertanejo”. A viola caipira segue sendo a base de tudo, assim como foi no meu primeiro disco, mas você consegue escutar vários gêneros dentro do meu som, ele é muito amplo e sinto que se expandiu muito mais no “Logo Ali”.

“Samba!”, com Àvuà

Moreira – O disco é cheio de participações e tem muitos nomes quentes, como Jaloo, Josyara, Murais, ÀVUÀ. Helio Flanders, Paulo Santos, Marcelo Jeneci, Fernanda Takai,  Roberta Campos, Barro, Nina Oliveira e Pedro Altério. Me fala mais desse processo e como se deram estas trocas e colaborações? Você gosta dessa troca com outros artistas, pelo visto. Como tem sido tocar estes processos colaborativos em meio à pandemia?

Bemti – Eu queria, desde o começo, que o disco tivesse uma pegada de “celebração coletiva”. Esse mundo que só existe ali onde está todo mundo junto, contando essas histórias, até porque com a pandemia a maioria dos processos foi feita à distância. Eu ficaria feliz se o disco funcionasse como uma projeção dessa proximidade que deve voltar a existir num futuro. As colaborações são resultados de muitos anos, vínculos e vontades de fazer coisas juntos. Acredito que sou muito sortudo, porque minhas músicas acabam tocando esses artistas, os que já eram meus amigos próximos e os que eu nem sonhava em colaborar, como o caso do Marcelo Jeneci, que eu chamei para tocar sanfona em “Livramento”. Ele se empolgou tanto que acabou co-produzindo, tocando piano, fazendo várias vozes… A culpa é das músicas!

“Se entrega”

Moreira – A capa ficou muito bonita e é uma “reinvenção expandida” do quadro “O Derrubador Brasileiro” (1879), de Almeida Júnior. Qual foi a mensagem que você quis passar, além de dar uma biscoitada (sei que você gosta, como vejo pelo Twitter, risos)?

Bemti – ​​Acho que tudo precisa encaixar com a proposta. Como exemplo o “grae”, do Moses Sumney, que, para mim, é uma das capas mais bonitas do ano passado, ele está ali botando o corpo dele inteiro para jogo, mas é tudo incrivelmente encaixado com a densidade e a magnitude do que é o disco dele. A capa do “Logo Ali” pega do “Derrubador Brasileiro” mais a sensação de “terra arrasada” e de “tropical obscuro”, temas muito presentes no disco. O quadro original tem uma sensualidade muito pungente que eu propositalmente não tento repetir. Na capa, eu queria parecer vulnerável, porque é assim que eu estou no disco. Estou apoiado na viola caipira e não no machado, cantando minhas experiências pessoais no meio de uma terra destruída por pessoas antes de mim.

Bemti e Fernanda Takai em foto de Patricia Nagano

Moreira – Como é o seu processo criativo? O release conta que, por ter formação como roteirista, você gosta de fazer discos narrativos, por isso a divisão em duas partes, com um interlúdio ao meio.

Bemti – É muito difícil descrever meu processo de composição autoral, porque ele é muito abstrato. Mas sou, geralmente, impelido por experiências, então componho muito quando me desloco, quando conheço pessoas novas, quando vivo novas emoções, etc. É totalmente diferente, por exemplo, de músicas que faço sob encomenda, para trilha sonora ou para outros artistas. É óbvio que a inspiração é sempre importante, mas, nos trabalhos que não são para mim, os objetivos e o meio de concretizar aquilo são mais fáceis de serem traçados. No caso da minha obra autoral, não há um mapa, eu dou todo o tempo do mundo para aquela canção me explicar o que ela quer de mim e como ela quer vir ao mundo. Se ela vai ou não ser uma peça de uma história maior que eu tento contar, seja com o disco ou outra narrativa. Quando eu sinto que a música está madura o suficiente, eu coloco as outras pessoas no meio.

Fotos de Mateus Lustosa

Moreira – Quais têm sido os principais desafios de se fazer arte durante essa pandemia sem fim? Como a Covid afetou o seu fazer artístico e a feitura do disco?

Bemti – Todos os desafios possíveis! Esse disco só existe devido ao apoio do Natura Musical. Eu não teria recurso para fazer um disco nesse último ano e meio e, acredito, não teria sanidade mental para tentar executar um trabalho tão grandioso assim numa pandemia e com um governo que odeia arte. E agora só consigo torcer para que eu possa fazer muitos shows desse disco novo e de fato trabalhar com ele. Materializar esse disco com essa grandiosidade que eu queria, com um número de pessoas apoiando de fato a feitura desse trabalho, foi o que me manteve ativo, vivo e operante desde o início da pandemia. A Covid também aniquilou os cronogramas, multiplicou as dificuldades de se organizar uma gravação, um ensaio, de se fazer um clipe… E, nas letras, rolou um trabalho muito cuidadoso de falar sobre esse período horrível que estamos vivendo, mas de uma forma que não parecesse datada. Assim, alguém que escute o “Logo Ali”, independente de quando, pode, ao mesmo tempo, entender esse contexto e se identificar num nível pessoal com o que está sendo cantado, por mais que seja num tempo ou país totalmente diferente. É assim com os bons filmes, livros, etc. que se dão ao trabalho de registrar e não ignorar o tempo onde nasceram. Espero que as pessoas achem isso do “Logo Ali”.

Abaixa que é tiro!💥🔫

Dois artistas que foram pautas recentes aqui da coluna foram convidados pela Sony Music a participar de ações para comemorar o estouro do álbum de estreia de Lil Nas X, o bom “Montero”, que teve 4,2 milhões de streams em 24h, indo direto para o top 3 dos maiores debuts de um álbum internacional em 2021. Ela merece! Shantay, you stay, gay!

Cazé e Pedro Rajão e o Negro Muro

O artista Victor Libório aka Quimera Vermelha criou um baralho de tarot inspirado no universo visual do álbum. Ele fez nove cartas em três dias, claro que ficou lindo demais. A Sony também convocou a dupla do Negro Muro, formada por Cazé e Pedro Rajão, para pintar  um mural na Avenida Presidente Vargas, no Rio. Parece até que a turma anda lendo a coluna, rs.

Fiquei feliz em conhecer o duo de post-rock instrumental Confeitaria, formado por Gabriel Murilo (guitarras e baixo) e Lucas Mortimer (bateria), de Belo Horizonte. A dupla, que já lançou dois bons discos, “Enero” (2016) e “Confins” (2018), está agora dropando videoclipes com diferentes diretores, até o final do ano, para faixas do último disco. O primeiro foi “Lollipop”, da curitibana Leticiah F. e, esta semana, saiu “Brisa”,  da paraibana Ana Moraes, da Moviola Mídia Livre. O clipe traz imagens estonteantes de João Pessoa ilustrando o som psicodélico. Até o final do ano, a banda ainda lança mais três clipes, com diretores de diferentes estados brasileiros, tudo feito remotamente, orgulho da OMS, com Thiago Dezan, de Cuiabá (MT), Paula Dante, de Belo Horizonte (MG), e Allan Calisto, Dudu Melo e Vinícius Guedes (do grupo de teatro Pigmentar Companhia, de BH).

Elenco Foto: Murilo Alvesso
Thiago Catarino e Lu Vieira. Foto: Murilo Alvesso
Thiago Catarino. Foto: João Marcello Costa

Inspirado nas canções do disco “Partimpim 2”, da cantora e compositora Adriana Calcanhotto, o musical infanto-juvenil Baile Partimcundum” estreia neste sábado (2) e segue em temporada online até 28 de novembro. O espetáculo rola aos sábados e domingos, às 17h, e tem dramaturgia de Adriana Falcão e Matheus Torreão e direção de Renato Linhares

A filmagem foi feita no Teatro Poeira, em Botafogo. As canções são ótimas, como “Ringtone de amor” e “O trenzinho do caipira”. O cenário de papéis de Bia Junqueira evoca o interior de um livro, enquanto os figurinos são uma grande brincadeira surrealista. Dá pra ver um teaser aqui.

Felipe Rocha. Foto: João Costa
Felipe Rocha. Foto: João Costa
Beatriz Rabello e João Rabello homenageiam o pai Pauilnho da Viola
Criolo cantando Djavan em premiação da UBC. Foto: Miguel Sá
Josyara, Bia Ferreira, Melvin Santhana, Nina Oliveira e Theodoro e Hever Alvz _ Melifona- Adima Macena no Festival Negras Melodias
Fábulas de La Fontaine. Foto: Osmar Zampieri
As conchambranças de Quaderna_, da obra de Ariano Suassuna
Peça Era Medeia, Isabelle Nassar e Eduardo Hoffmann em foto de Renato Mangolin
O frenético Dancin Days. Foto: Leo Aversa
Casamentos às cegas Brasil
You chega à terceira temporada
Sintonia, da Kondzilla, em segunda temporada

O Sesc ao Vivo tem Beatriz e João Rabello apresentando o show “Coisas do amor”, no qual prestam tributo ao pai, Paulinho da Viola, nesta sexta (1), às 19h. 

A primeira edição do festival “Negras Melodias Show”, rola de hoje a domingo (3), às 20h, com Josyara e Nina Oliveira & Theodoro (hoje), Melvin Santhana e Hever Alvz & Melifona (2) e Bia Ferreira e Saskia & Felinto (3).

No sábado, já sabe, é dia de Virada SP, com Paula Lima (19h10) e Art Popular (21h55).

​​O JF Rock City faz a última live show da temporada “Perdidos na Nuvem”, sábado (2), às 18h, pela Twitch e pelo YouTube, com as bandas Soul Rueiro e Contratempo.

No sábado e no domingo (2 e 3), às 20h, tem o espetáculo “Fábulas de La Fontaine” no projeto Concertos Astra-Finamax.

O elogiado espetáculo “Era Medeia” faz temporada virtual gratuita, de 4 a 18 de outubro, no Youtube da Firjan SESI. Com texto e direção de Eduardo Hoffmann, a peça faz uma reflexão sobre machismo, abuso de poder e exposição da vida privada. Em cena, estão Eduardo Hoffmann e Isabelle Nassar. Pode ser assistido em qualquer horário entre os dias 4 (a partir das 18h) e 18 (até às 19h).

O espetáculo “As conchambranças de Quaderna”, da obra de Ariano Suassuna, com direção de Fernando Neves, está em temporada, até 11 de novembro, de segunda a quinta, às 19h, no Teatro Sérgio Cardoso (SP), com sessões gratuitas pelo Sympla Streamin.

“O frenético Dancin’ Days”, sucesso do teatro musical brasileiro, conta a história da discoteca de Nelson Motta, aberta em 1976, com direção de Deborah Colker e sessão quinta (7), às 20h30, pelo Sesc em Minas.

Sinônimo de resistência e excelência culturais, o Audio Rebel faz a segunda noite do Festival Rebel Instrumental, na quinta-feira (7), às 20h, com show do   Bernardo Ramos Quinteto transmitido pelo YouTube. O grupo, que tem Felipe Continentino na bateria, segue divulgando o álbum “Cangaço” (2019). 

Também no dia 7, às 19h, rola a quinta edição do Prêmio do Compositor Brasileiro da União Brasileira de Compositores (UBC), em homenagem a Djavan. Criolo vai interpretar “Oceano”, e a noite ainda terá Geraldo Azevedo e Mart’nália.

Este mês, na Netflix, tem a esperada versão da série “Casamento às Cegas Brasil” (6), a terceira temporada de “Você” (15), e a segunda temporada da brasileira “Sintonia” (27), da Kondzilla (amo).

A jovem cantora baiana Josyara que eu gosto interpreta o clássico “Pelas Tabelas”, de Chico Buarque, em gravação feita para a trilha sonora do documentário “The Coup d’État Factory” (“A fantástica fábrica de golpes”), dos brasileiros Victor Fraga e Valnei Nunes. O filme estreia, no domingo, no Festival Parnassiens, em Paris, e traz ainda, na trilha sonora, versão da banda Francisco el Hombre para outra canção de Chico Buarque, “Roda Viva”, que bem passou aqui pelas nossas playlists.

“Pelas Tabelas” foi composta tendo como inspiração as manifestações populares pela volta da democracia em 1985,  no final da ditadura militar, as “Diretas já”. Na versão de Josyara, o violão cru é combinado com canto ardente e suave, com toque final de funk. O documentário investiga o papel da mídia no desmoronamento da democracia brasileira com a eleição de Bolsonaro.

“Roda Viva” na versão de Francisco el Hombre

A trilha ainda traz músicas instrumentais compostas por Erika Nande, como “Pots and Pans Factory” (A fábrica de panelas), uma versão  distorcida do hino nacional brasileiro e “Marielle”, totalizando 15 faixas. Na estreia do filme, em Paris, o lance é chique demais e tem debate dos diretores com Jean Wyllys e Marcia Tiburi.

Sophia Bispo
Yhoung S.M.O.K.E. Foto: Paulinho Felicissimo
Laura Conceição. Foto: Natália Elmor

Jufas tem três representantes disputando a Competição Nacional de Poesia Falada, o Slam BR, que vai até o dia 3. Dois deles já foram perfilados aqui na coluna: Laura Conceição (representando São Paulo) e Yhoung S.M.O.K.E  (Rio) estão lá com Sophia Bispo (MG). Hoje e amanhã, rola das 18h às 22h, e no domingo, das 18h às 20h. Dá pra conferir toda a programação aqui e assistir aos duelos de poesia aqui e aqui. O Slam BR acontece desde 2014 e reúne poetas da cena nacional dos Poetry Slams, batalhas de poesia falada surgidas na década de 1980 nos EUA e que hoje se estabeleceram como uma das mais democráticas formas de expressão popular em todo o mundo.

Playlist com as novidades musicais da semana. Nesse post, tem todas as playlists do ano.  Aqui tem as playlists de 2020.

Playlist de clipes com Pabllo Vittar, A Travestis, IAM DDB, Noporn, Years & Years, Latto, Villa + Tropkilllaz, Bivolt + Emicida, Mariah Nala, Banda Parangolé, Lucas Lucco + Tierry,  Rita Lee + Roberto de Carvalho + Gui Boratto, Tropkillaz + DJ GBR, Filipe Catto, Manu Gavassi, Marcos Bruno, Kynnie + Edi Rock, Gilberto Gil, Martinho da Vila + Teresa Cristina Moacyr Luz  + Diogo Nogueira + Zeca Pagodinho + Goni Garrido + Xand de Pilares + Jorge Aragão + Mart’nália + Paula Toller + Sandra de Sá + Fernanda Abreu e +

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Sexta Sei, por Fabiano Moreira

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