Sexta Sei: Laura Conceição te coloca no seu lugar

Rapper juizforana Laura Conceição antecipa “Sossego”, faixa de seu segundo disco, “Grão de areia”, homenagem a Tim Maia

por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com

Fotos de Natalia Elmor com styling de Radha Damasceno

“Se ponha no seu lugar / Senão eu mesmo te coloco”, avisa, na rima, a rapper Laura Conceição, 24 anos, na faixa “Nada se cria”, de seu disco de estreia, “Tempos efêmeros”. Ela está preparando um EP, “Grão de areia” que, em tempos de coronavírus, ainda não dá pra dizer pra quando exatamente sai, mas, provavelmente, no ano que vem. Laura antecipou a faixa “Sossego”aqui para a Sexta Sei (veja o vídeo), uma homenagem a Tim Maia.

Laura é dessa geração que já veio pronta, livre de preconceitos e que vê o respeito como bem maior. Tanto que, na playlist que fez aqui pra coluna, com rappers femininas e outras vozes, fez questão de buscar o melhor pronome, “delus”, que incluísse todus. Militante, tem entrega total no projeto “Poesia na escola”, que já fez mais de 63 visitas a colégios mineiros. 

Formada em jornalismo e publicidade, encontrou no rap e na poesia as suas melhores mídias. Laura fala porque tem muito a dizer. Confira o papo que a gente bateu pelo whatsapp abaixo.

Você começou na poesia e no rap a partir de aulas de contação de história. Quando você se percebeu rapper e viu que era isso que tinha que fazer? Há muitas barreiras ainda para as mulheres na área?

Me perceber rapper foi  um processo mesmo, eu fiz faculdades de jornalismo e publicidade, e eu sabia que eu tinha vocação para a comunicação, mas não sabia ainda como  fazer. Paralelamente, eu ia correndo com a minha carreira artística. Teve um dia, lá pelos meus 19 anos, me deu um estalo que o jeito de trabalhar com comunicação era por meio da minha arte. Naquele momento, próximo ao campeonato brasileiro de poesia falada, no qual eu representei Minas Gerais, eu pensei: é isso que eu tenho que fazer da minha vida. Esse estalo veio da compreensão da união das coisas que eu estudei e as que eu amo fazer. 

Qual foi o primeiro rap que você ouviu na escola e mostrou o caminho? Quais as rappers que você indica, quais está ouvindo?

Com certeza há muitas barreiras para nós que somos mulheres na área, acho que em qualquer setor da sociedade, mas dentro da música, da poesia, do hip-hop, é mais difícil fechar evento, ter oportunidade, divulgação. As pessoas que controlam os meios de comunicação da área e os eventos são pessoas que tendem a estar envolvidas em um meio muito masculino. Nós que somos mulheres acabamos sendo prejudicadas, não há dúvidas, com certeza, existem muitas barreiras, desde assédio a falta de oportunidade. 

O primeiro rap que ouvi na escola? Um que foi muito marcante foi “Triunfo”, do Emicida, tem mais de dez anos que ele lançou esse som, que mexeu muito comigo, deu um estalo dentro de mim, pra me interessar muito e fazer isso.

Eu escuto muitas rappers, muito Bione, Cristal, parceira da época do Nacional, lá do sul, uma mina que está vindo com tudo. Escuto muito a galera aqui de Juiz de Fora; Las Manas, coletivo do qual eu faço parte, Thainá Kriya. Eu tento me basear na galera que está ao meu redor, que trabalha comigo, canta comigo. Tatá e Tainá são duas mulheres que me ajudaram com a base do hip-hop, quase tudo o que eu sei eu fui aprendendo com elas e com outras pessoas também. Eu gosto muito da Drik Barbosa também. Eu escuto muita gente, muita mina pra indicar, ouço muitos caras, galera LGBT, muito Rap Plus Size, como eu gosto, de São Paulo.  Fiz muito a minha base com Rap Plus Size.

 

Você ainda faz um trabalho nas escolas,  o projeto “Poesia na escola”? E tem outro projeto, o coletivo de poesia “Duas”, que trabalha com crianças em vulnerabilidade social. Conta mais sobre esses trabalhos.

Ainda faço sim esse projeto “Poesia na escola”, ele surgiu em 2017, quando comecei a ir nas escolas a convite dos professores de português, depois dos de história, depois das diretoras. Isso fez com que o projeto virasse interdisciplinar. Eu e minha parceira, a Duda, Eduarda Masiero, criamos o Coletivo Duas, pra trabalhar poesia com a juventude. Vamos nas escolas, o projeto está mais vivo do que nunca, conseguimos o apoio da Lei Murilo Mendes. A partir do fim da pandemia, poderemos voltar a ir às escolas e ter um retorno, estrutura melhor para trabalhar com a garotada, é a coisa que eu mais gosto de fazer. Aquela garotada pode transformar, a minha vida, o meu dia, e a poesia pode transformar todo mundo. Tem crianças do projeto que hoje trabalham profissionalmente com poesia. Isso me deixa cheia de orgulho. O coletivo de poesia Duas é muito relacionado com o trabalho nas escolas e nas comunidades, damos aulas no Vale Verde pra garotadinha. É um lance de passar para a frente o que a gente aprendeu.

Slam da Ágora, Slam do Encontro de MCs e Slam de Perifa são alguns dos slams que você participa? Como é esse rolê em Jufas? Aonde rola? Faz um mapa pra gente?

Juiz de Fora tem vários slams agora, hoje em dia, inclusive, eu também criei um slam, com o poeta Icaro Renault, criamos mais um slam. Eu preciso dar oportunidade a outras pessoas. Eu sou a slam master, apresentadora, e também do Mais um Slam. Temos três ou quatro slams ativos. Gosto de colar com a galera que eu acredito, gosto de ver acontecer, galera do slam de perifa é foda, e o encontro de MCs. Slam é mais sobre ouvir do que sobre falar, mais sobre aprender mesmo.

É mais difícil fazer rap sendo mulher? Ainda é um ambiente majoritariamente masculino? Vi que está fazendo pós-graduação em gênero e sexualidade.

Estou fazendo uma pós graduação em gênero e sexualidade na Faced, Faculdade de Educação da UFJF, estou gostando muito. Decidi estudar isso porque abordo muito nas minhas letras, quanto mais eu estudar, melhor eu fico. Quero aprender como passar isso pra frente pra garotada que eu influencio. Conhecimento é sempre bem-vindo, eu sei pouco ainda, quero aprender mais.

E o que pode adiantar do disco novo? Quando sai, quais as temáticas, qual música você vai adiantar com exclusividade para a Sexta Sei?

O disco novo vai se chamar “Grão de areia” e é um trabalho completamente diferente do meu primeiro disco, “Tempos efêmeros”. Vai ser um pouco mais curto, um EP, mas está bem conceitual, com batidas diferentes, jazz, blues, trap, está bem diversificado. Quero mostrar com este EP que não tem limites e barreiras pra gente passar ideia. Eu passo ideias de formas diversificadas, diferentes, falo muito sobre relações, resistência. Estou muito contente com esse EP, o processo criativo dele foi diferente, também, tive contato primeiro com os instrumentais para jogar a letra em cima. Gostei muito de trabalhar desse jeito. Estou doida pra ir pro estúdio e botar isso na rua. Tem um som que eu sou muito apaixonada, “Sossego”, homenagem a Tim Maia, que é uma referência pra mim, claro que eu posso dar uma palhinha pra vocês, lógico. Tem muito do meu coração nesse EP, que está vindo aí para falar coisas que ainda não falei. Estou ansiosa e muito contente, expectativa alta.

Abaixa que é tiro!💥🔫

Who wore this Alessa better? Alcione, claro, que estreia o show “Tijolo por Tijolo”, amanhã, dia 15, às 18h, abrindo o projeto “Vivo Rio em Casa“. Os ingressos custam R$ 10.Vai surfando na onda aberta, semana passada, pelas lives mega profissionais e gratuitas de Caetano Veloso, Novos Baianos e Zeca Pagodinho. Se Bethânia, Gal, Gilberto Gil e Djavan fizerem lives, o covid vai embora, não?

O pernambucano Otto, cada dia melhor, faz live sábado, 20h, no instagram e no Bolando Música. Ele costuma quebrar tudo nos shows. 

Hoje, sexta, 14, 19h, teremos Péricles Cavalcanti. Amanhã, sábado, Seu Jorge canta David Bowie, 16h, com ingressos a R$ 50, e ainda tem Dudu Nobre, 19h. Domingo tem live da La Cucaracha, que agora está apenas digital, com Matias Maxx (o Capitão Presença himself), Mouchoque e Juca, a partir de 16h20, claro. Domingo  também tem live de Ceumar, 19h

O Circo Voador no ar segue no YouTube, sexta e sábado, 22h, com Academia da Berlinda e Ponto de Equilíbrio, respectivamente. 

O Oi Futuro e o Estúdio Toca do Bandido apresentam  festival online com bandas e músicos de dez estados, entre hoje e domingo. O Festival Aceleração Labsonica Toca do Bandido rola no YouTube. Entre as atrações, Daíra, a guitarra mágica paraense do meu amigo Lucas Estrela e Caio Prado. Programação completa aqui.

E, pra quem gosta de pouca roupa, a FLSH, aquela festa safadinha carioca, faz live sábado, 23h, com Onírica, Gustavo Tata, Berback e Johnny Bigu, line up bafão. Não pode gravar, e eles não se responsabilizam pelas imagens. Nenhum tipo de fobia é tolerada.

A Semana Rainbow da UFJF segue espalhando a palavra hoje, com bate-papo com a diva Lorna Washington, 21h10, e apresentação do espetáculo “Stonewall 50, uma celebração teatral”, com o ator Thiago Mendonça (foto), às 21h30, no YouTube. O evento vai até domingo, 16, programação completa aqui.

Curte aquele reggae do Lula Livre? É do soundsystem Digitaldubs, que acaba de lançar o podcast “Estudando o Dub”. Educativo, o podcast tem estreia classe A com participações de BNegão, Bruno Natal, Calbuque, Marcelinho da Lua e Otávio Rodrigues. Fino.

Playlist com novidades musicais dessa sexta

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