Personagem criado pela camarada Deborah Lisboa, 38 anos, no espetáculo “V de Magrela”, expõe o abandono parental e outras formas de machismo e misoginia
por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com
“O palhaço, o que é? É ladrão de mulher”, já avisava a letra da canção de Carlos Galhardo, nos anos 30. Pois a palhaça, atriz e educadora Deborah Lisboa, 38 anos, leva o palhaço ao julgamento da Justiça, uma deusa Artemis representada em balões infláveis de moldar no espetáculo “V de Magrela”, que tem, como força motriz, a filosofia man down, questionando o patriarcado. Tive a honra de assistir ao espetáculo, no Palco Central, no último dia 24 de março, quando pude vivenciar a excelência técnica da camarada Magrela, atendente da “Central de machos ofendidos”, representada por uma estrutura circular cheia de telefones vermelhos, na qual atende machos de masculinidade frágil e pouca responsabilidade parental. Aluna de outro ator e palhaço de grande excelência, Marcos Marinho, Deborah inicia o espetáculo despida da Magrela e demonstra grandes habilidades cênicas, vocais e de malabarismo, professora de artes circenses que é na escola Lá na lona, em São Matheus, com mais de 300 alunos por ano, juntando outras frentes em seis comunidades. No espetáculo, o palhaço progenitor é julgado por suas condutas. “Porque o cuidado e a presença são sobre o dia a dia, são sobre a demanda de assumir o protagonismo da própria paternidade. O que vemos são homens delegando a outras mulheres a sua responsabilidade ou culpabilizando as mães de seus filhos por sua própria inércia irresponsável”, me contou, em papo por e-mail aqui para a Sexta Sei. Com o sucesso da personagem, em espetáculo com temas adultos e censura 16 anos, ela agora se dedica a criar uma versão infanto-juvenil da Magrela. “Ele está, até então, intitulado como “Vai, Magrela”. Estamos em processo de criação. É um espetáculo que fala sobre a estrada da vida, sobre a estrada que a gente vive — a estrada real —, com a Magrela pegando o carro e seguindo viagem, mostrando que o caminho vale mais do que a chegada, mas também trazendo visões críticas sobre a nossa existência no mundo e sobre as nossas relações hoje”, finaliza, com essa visão chapliniana da personagem. E, se Murilo Mendes estivesse vivo, ele certamente comentaria: “eu tenho uma pena do Ursinho Pimpão”, personagem que é fio condutor do espetáculo e termina dilacerado pela Magrela.
Moreira – Você tem uma caminhada de 20 anos dentro da palhaçaria, com a escola circense Lá na Lona, em São Matheus. Quais as aulas que você tem lá e quantos alunos já passaram por lá nestes anos todos? Teve aluno que seguiu a carreira? Eu sigo o Instagram e sinto que é um mundo de magia.
Magrela – Estou na palhaçaria há 20 anos e há 14 anos tenho escola de circo, sendo 11 anos em Juiz de Fora. Hoje, atualmente, no Lá na Lona, a gente tem mais de 300 alunos anualmente, juntando o espaço do São Matheus e as quatro escolas nas quais atuamos com aulas extracurriculares e mais seis comunidades de Juiz de Fora com projetos sociais. Então, temos muitos alunos e muiiiita gente já passou por aqui. Quero já agradecer à oportunidade de estar aqui trocando essa experiência revolucionária que a Magrela nos convida a viver, que foi o “V de Magrela”.
Moreira – Você começou com aluna do grande ator Marcos Marinho, ele também uma excelência de palhaço, o espetáculo do Senhor M, sem uma palavra, é muito tocante. Muito jovem, assisti a uma peça dele que me marcou muito, “A Velha Loucura”, que misturava commedia dell´Arte e Jovem Guarda, e cheguei a fazer curso com ele, mas não é a minha mesmo, risos, fugi de um texto difícil do Guimarães Rosa, “Cara de Bronze”. Eu queria fazer dancinhas da Jovem Guarda. Adoro acompanhar o trabalho dele e tomar as caipirinhas que ele faz, o melhor. Um ator completo e muito sensível.
Magrela – Você citou o Marcos Marinho — ele é, de fato, meu mestre. Sou muito grata por ter cruzado o caminho dele tão nova, por ter podido vivê-lo, assistir a muitos de seus trabalhos, conviver, criar junto, aprender em oficinas e no dia a dia. Sou apaixonada pelo Marcos Marinho e por tudo que ele representa para a gente em Juiz de Fora, dentro da arte e, principalmente para mim, na palhaçaria, porque foi ele quem despertou essa vontade em mim, numa oficina de Commedia dell’Arte, de máscaras, enfim. Ele me apresentou um mundo — e me apresentou quem eu posso ser hoje. Foi muito importante na minha trajetória. Muito obrigada por trazer o nome dele. Faz todo sentido que ele siga presente.
Moreira – Fiquei impressionado com o grito feminista, antimisógino de “V de Magrela”, seu espetáculo que mostra uma artista vocalmente e fisicamente muito bem preparada preparada, dona de cena e que, movida pela força do ódio, entrega muito entretenimento. Gosto que você começa despida da palhaça, em peças nudes, e vai construindo o personagem na frente da plateia. O argumento veio da maternidade, dos conflitos com a divisão de responsabilidades desigual com o “palhaço progenitor”, a luta pela pensão e os problemas que, segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, atinge 11,3 milhões de domicílios, segundo levatamento feito entre 2012 e 2022, que mostrou que o número de lares chefiados por mães solteiras aumentou em 1,7 milhão. A maioria, cerca de 72%, não conta com uma rede de apoio próxima. E essa geração de filhos sem pais? Será muito afetada por esse abandono afetivo?
Magrela – Quando você me pergunta se essa geração de filhos sem pais será muito afetada por esse abandono afetivo, eu acredito que já somos uma geração de filhos sem pais, que já é afetada por esse abandono afetivo. Isso porque existe o abandono afetivo do pai que some, e a pessoa não sabe quem é o pai. Mas o que mais existe também é o abandono afetivo presente, entre aspas, né? É aquele pai que não comunga, de fato, com a atenção e com o cuidado, e ainda age com violência contra a mãe de seus filhos, não percebendo que isso atinge a saúde e o bem-estar da criança. Atacar quem cuida da criança é uma forma de violência perversa e covarde com os filhos. E, de certa forma, isso também é abandono afetivo, porque a criança precisa de cuidado, precisa de atenção e precisa de responsabilidade — desde o pagamento da pensão em dia até o acompanhamento do seu desenvolvimento, da presença mesmo, de ter informações, conhecendo seu filho, de aproveitar esse contato, de conversa. Então, você pode ser um pai que não mora na mesma cidade e ser até bastante presente na vida de um filho, e, às vezes, ter um pai que mora na mesma cidade, que até pega a criança de vez em quando, mas não tem presença. Porque o cuidado e a presença são sobre o dia a dia, são sobre a demanda de assumir o protagonismo da própria paternidade. O que vemos são homens delegando a outras mulheres a sua responsabilidade ou culpabilizando as mães de seus filhos por sua própria inércia irresponsável. São muitas nuances, mas o que a gente mais vê é o abandono afetivo de muitos pais que estão próximos — às vezes até casados com as mães — ou aquele pai que pega de vez em quando, o “pai de Instagram”, enfim, que faz tudo bonitinho na frente dos outros, mas no dia a dia é outra coisa. Isso também é abandono afetivo. O palhaço genitor, bem como os outros dois palhaços do espetáculo, são referenciados em muitos homens, genitores que todos nós conhecemos. Ele não é feito de um único genitor, mas de milhares. Então, acho que quem assiste ao espetáculo consegue visualizar o que passou com o seu próprio pai, com o genitor do seu filho ou até uma história de uma amiga ou de um amigo próximo. Ele foi construído, infelizmente, a partir de todo esse quantitativo de genitores que a gente conhece na vida. Bem como o palhaço patrão e o palhaço predador — estamos vivendo, inclusive, um tempo deplorável de predadores.
Moreira – Esses conflitos com o “palhaço progenitor” te levaram a novas experiências? Você me contou que tem uma namorada, você já tinha tido experiências homossexuais antes desse trauma? É cada vez maior o número de mulheres que busca essa experiência, pois os homens fracassaram demais, né? Eu tenho pensado em experimentar homens trans. Tenho me sentido atraído por alguns, fato que se confirmou com a participação do estilista James Ford na competição “Next in Fashion”, da Netflix, no qual ele revela ser uma pessoa trans no terceiro episódio, quando eu já estava gamadinho, o que confirmou meu interesse.
Magrela – Eu tenho uma esposa, né? A gente vive, na verdade, há sete anos juntas. Eu sempre fui uma mulher bissexual. Desde que me entendo por gente, já me relacionei com outras mulheres, mas, quando era para assumir de forma mais duradoura e para a família, eu sempre optei por estar com homens, e acabava não continuando minhas relações com mulheres. Quando comecei a cuidar da minha própria vida, ser dona do meu próprio dinheiro e das minhas escolhas, ficou muito mais confortável assumir uma relação com uma mulher, como a que eu tenho hoje. Mas eu sempre fui uma mulher bissexual. E, na verdade, eu não busquei essa experiência por fracassar com homens, porque tive, sim, alguns homens legais — claro que em número bem pequeno — que me respeitaram e não me violentaram. Então, o fato de eu estar com uma mulher hoje não é porque eu me desiludi, porque eu acredito que isso não existe. Senão, eu também estaria acreditando que dá para ser ex-gay por escolha, por “cura gay”, e não é sobre isso. A nossa orientação sexual não vem de uma escolha nesse sentido, nem de um trauma. Ela vem do que a gente é. E que bom que eu pude ter a oportunidade de viver o que eu vivo hoje com a Ana Flora, que é uma mulher maravilhosa, diretora desse espetáculo e também coautora, junto comigo e com Ti Fonseca. Então, vai muito além disso. Mas, obviamente, se der para escolher (hahaha, e dá, porque sou bi), eu estou bem melhor com uma mulher! Bem melhor e muito mais segura! Acho que a gente não pode colocar a nossa orientação sexual na mão dessas pessoas. E que bom que hoje a gente pode ampliar — se você tem o desejo de experimentar outras possibilidades de se relacionar, esse pode ser um caminho. Porque tem muita gente escrota, sim, mas também tem muita gente maravilhosa nesse mundo.
Moreira – Seu espetáculo tem censura 16 anos, pois têm temas de sexo, nas passagens que você questiona como as mulheres devem se comportar em uma troca de casais, totalmente livres, fazendo o que quiserem. Já pensou em uma versão infantil? Ou a Palhaça Magrela ainda tem muito a expurgar contra os machos? Achei revolucionário, camarada Magrela.
Magrela – O espetáculo tem essa classificação indicativa pelos temas que a gente aborda, numa perspectiva crítica, e entendemos que realmente não é para menores de 16 anos. O “V” não tem nenhuma possibilidade de virar uma versão infantil. Mas a Palhaça Magrela já está criando um espetáculo para todas as idades. Ele está, até então, intitulado como “Vai, Magrela”. Estamos em processo de criação. É um espetáculo que fala sobre a estrada da vida, sobre a estrada que a gente vive — a estrada real —, com a Magrela pegando o carro e seguindo viagem, mostrando que o caminho vale mais do que a chegada, mas também trazendo visões críticas sobre a nossa existência no mundo e sobre as nossas relações hoje. E, obviamente, o tema feminista estará presente, porque o meu trabalho é pautado politicamente — não tem como. A Palhaça Magrela é uma palhaça política. Então, eu posso estar em um aniversário infantil, dentro de uma empresa, na rua fazendo uma intervenção ou dentro do “V de Magrela”. Ela sempre vai ter um jeitinho próprio de levar essa reflexão, que está diretamente ligada à minha condição de mulher e a tudo em que acredito, na nossa luta e em outras lutas também.
🌊🪼🫧🐚𓆝𓆟 Como uma onda no mar 𓆞𓆝𓆟𓇼🪼🫧🐚🫧🌊
O produtor e craque Nathan Itaborahy extraiu a mais perfeita tradução da spoken word, do rap e do canto da poeta, MC, cantora, educadora e compositora Laura Conceição (que já sextou aqui e aqui), atualmente morando no Rio de Janeiro, que desenvolve a parceria artística com a cantora e compositora mineira radicada em São Paulo Clara Castro no EP “Novelo”, pelo selo Fervo, em parceria com a YB, no qual se emaranham. A primeira parceria registrada foi em “Fome de Gritar”, no sextante “Perambule”, álbum de Clara de 2024. O primeiro single do novo projeto, “Neblina”, mostram como as artistas são alinhadas, como define Laura. “Era literatura, música, rock e hip-hop, era Minas Gerais, casa de vó, muitas referências e experiências reunidas. Por isso começamos o EP sem saber onde iria parar. Só sabíamos que o processo partiria da palavra, da poesia, como tinha sido com a primeira música, que deu certo logo de cara. E que nossa musicalidade precisaria estar a serviço dos recados ditos ali”, resume Clara.
Na última #SextaSei, a playlist abriu e fechou com dois álbuns fundamentais do ano, “Vitta´s House” , de Vitta, ex-Irmãs de Pau, que chega amparada pelos melhores produtores jovens da atualidade, como o quarteto maravilhoso Taj Ma House, Brunoso, Delcu, Caio Prince, os sextantes Larinhx, Badsista e Cyberkills, participações de Linn da Quebrada e Urias, e “Pornografia auditiva”, de Bia Soull, que faz putaria-arte. Segundo a análise do GG, de O Volume Morto, “A abundância de letras de putaria nos deixaram anestesiados ao tema (até pior do que “se acostumar”). Álbum da @girlPlanB recoloca a putaria num lugar tesudo. Fio desencapado soltando corrente pra todo lado: cativante, atrativo, arriscado, às vezes até vil”. Conhecida no underground com os hits “Pompoarismo”, com o DJ Mu540 e “ABC da Putaria”, com Nanda Tsunami.
No álbum, beats de diferentes produtores, como MU540, Paulo DK, DJ Silvestre, a sextante DJ Thays, Mello Santana, RD Da DZ7, IAMLOPE$$ e Caio Santos. “Há alguns anos venho observando uma onda de conservadorismo dentro do funk onde o neoliberalismo impera e falsos moralistas têm voz. Onde o movimento redpill cresce cada dia mais e vi a real necessidade de falar sobre sexo nesta ótica perversa, com sonoridades que explorassem a minha criatividade e com narrativas que trouxessem questionamentos. Este álbum nasceu de uma vontade minha, mas de uma necessidade coletiva: a de entender que mulheres são seres sexuais que merecem usufruir de sua liberdade e do respeito alheio”, afirma Bia. O nome foi inspirado em uma conversa da mãe com um amigo com deficiência visual, que teceu comentários sobre o humor da artista e a forma que ela trazia as narrativas sexuais. A capa foi pensada com a diretora criativa Bruna Sotti, que trouxe uma estética dos anos 2000 após escutar o disco, com uma calcinha metálica representando um cinto de castidade. “Ainda assim, eu transformo isso em som, e essa calcinha é um MP3, amplificando o erotismo sonoro. É como se eu estivesse dando ouvidos, escutando a minha boceta”, explica Bia. O craque gentil Guilherme Guedes também falou dessa dupla aqui.
Madame Ralph é o projeto de Ralph Rocha Holzmann Nader, baseado no Rio de Janeiro, que anunciou o lançamento do EP “Inventário”, produzido por Luis Calil (Cambriana), ainda este ano, com o single “Roda”. O tema é inusitado, pois a canção de indie rock traz um sample documental sobre o atropelamento de fauna nas rodovias brasileiras, que tem números altos, de 475 milhões de animais silvestres por ano. O artista aproveita o mote para interrogar o dilema das travessias: por que um animal vai de um lugar ao outro? “A pergunta ecoa tanto nas imagens dos bichos atropelados quanto nas imagens domésticas e cotidianas da letra, e a canção é claustrofóbica em não resolver nenhuma destas questões”, resume o artista. O projeto Madame Ralph estreou em 2022 com o EP “A extraordinária destruição do lugar seguro”, produzido por Michel Kuaker.
O agendão das maravilhas segue nos destaques do meu Instagram, separado por cidades, e em thread infinita no X.
Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta e começa e termina com single duplo da banda Isotopxs, álbuns de Dorian Electra, Metric, Foo Fighters, Ringo Starr, Angelique Kidjo, Kehlani, Oliver Tree, Marujinhos Pataxó, Tiga, EPs de Clara Castro + Laura Conceição e Sepultura e +
Todas as playlists de 2025, 2024, 2023, 2022, 2021 e 2020 nos links
Para melhores resultados, assista na smart TV à playlist de clipes com Madonna, Rosalìa, Tricky + Marta Złakowsk, Dorian Electra, Kim Petras, Anitta, Pierre de Maerre, Daisy Grenade, RDD + Rincon Sapiência + Karol Conka + Afro B, Tshegue, mgk + Fred Durst, Kim Petras, Bleachers, James Blake, Tyla + Zara Larsson, no na, Mavi Veloso, Majis, M.I.A., Katy Perry, Snoop Dogg, Brandão85, Gottmik, O Teatro Mágico + Fernando Anitelli + Humberto Gessinger, Beck, Honorius Causa, 6lack + 2Chainz, Guilherme Arantes, Momo Boyd + Infinity Song, Lykke Li, Rita Braga, Hiran+ All4n, Kassel, Jessie Ware, marguerite, Jenevieve + Freddie Gibbs + Salimata, Olivia Rodrigo, RuPaul, Alewya, David Lindmer + ROZYO + Q.U.A.K.E, Bob do Contra + Medeirin & Ianzin, Isotopox e Haru e a Corja
A campanha de crowdfunding da coluna continua, já atingimos 45,7%. Prefere fazer um PIX? O pix da coluna é sextaseibaixocentro@gmail.com
