Músicos de outros artistas e bandas, integrantes do grupo dividem o protagonismo sem ter ninguém maior do que ninguém, uma espécie de socialismo soul, celebrado com especial de vídeo gravado no Espaço Hip Hop
por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com
A banda Silva Soul, organizadora do famoso Baile do Silva, comemora 20 anos de ativismo cultural com o lançamento de especial audiovisual “Na missão”, assinado pelo diretor Rodrigo Ferreira com a decoração natural da arte urbana implementada pelo Espaço Hip Hop, criado pelo king Stain, nosso Basquiat. Conversei com o fundador, baixista e produtor executivo do grupo, Marcelo Castro, como a criação coletiva está no DNA do grupo. “Acredito que, muito mais do que uma formação, o Silva Soul é uma idéia, um coletivo, uma proposta. Somos músicos de outros artistas/bandas e, no Silva, dividimos o protagonismo sem ter ninguém maior do que ninguém. O nosso compromisso é sempre com a música, com a pista de dança e com a resistência dentro de um estilo musical que se fundiu com tantos outros mas nunca deixou de ter a sua linguagem própria”, resume. No sábado (16), a Silva Soul faz show no esquema só-chegar no Festival de Cultura e Gastronomia de Juiz de Fora, às 17h, no Independência Shopping, em dia com DJs sets do DJ MCastro, persona do baixista, às 14h e antes e depois do show da banda. Timetable aqui.
Moreira – Como foi a escolha do Espaço Hip Hop para gravar este audiovisual? Tenho acompanhado o espaço desde a criação, pelo gênio da raça Stain, e fico feliz que, finalmente, tenha obtido apoio do poder público. É um espaço de lazer e produção de cultura de rua, com aulas de dança break para crianças, uma galeria de arte ao ar livre para artistas do circuito off academia e mercado de arte. Esta nova pintura, com artistas de vários estados, está de tirar o fôlego. Ele foi criado tendo como espelho o Viaduto Santa Tereza, em Belo Horizonte. Qual a importância desse espaço e de celebrá-lo neste especial para a cidade?
Marcelo Castro (baixo) – A escolha do viaduto foi bem natural, na minha cabeça, principalmente pelo fato de o Hip Hop ocupar esse espaço durante todo ano. Apesar de não ser um rapper de ofício, eu vejo que os quatro elementos da cultura hip hop são muito introjetados no nosso cotidiano. Eu tenho a vivência também do baile do Viaduto de Madureira, do Duelo de MCs no Viaduto Santa Teresa e do Quarteirão do Soul, em BH, que são exemplos históricos de ocupação da cultura black. Eu acredito que as pessoas fazem a cidade, mais do que qualquer diretriz dada pelo poder público. Aquela região do viaduto já era muito ocupada pela galera do grafite muito antes do viaduto. Agora, as pessoas se sentem acolhidas por ali, a localização é bem na divisão da cidade, perto do Paraibuna. Acho democrático e acessível pra quem tá na Zona Leste, pra quem vem da Zona Norte ou da Sul.
Moreira – Curioso que eu criei a Sexta Sei pensando em ter, como dois primeiros entrevistados, o Stain e o RT Mallone (foge demais, risos), que são os dois novos talentos da nova geração que representam uma emersão da arte negra jovem feita na cidade. RT e P.MC foram convocados para estabelecer essa relação com o hip hop e a cultura de rua? Importante esse resgate do P.MC, que fez barulho nos anos 90. Eu não conhecia o PC Brasil, apresenta pra gente o artista, ele vem mais da influência soul, né?
Marcelo Castro (baixo) – Sim, essa relação com o hip hop, ela sempre foi presente pra gente, desde a primeira geração do Encontro de MCs. Chegamos a fazer uma temporada no antigo Bar da Fábrica, na qual a gente tocava as bases ao vivo pra galera batalhar. A escolha do RT e do P.MC foi muito pra simbolizar o encontro entre gerações da nossa cidade. Acredito que isso é muito Silva Soul, porque vivemos o ápice do P.MC e vimos o RT desde moleque. Os dois já tinha contribuído com a gente também, o P.MC faz um verso na nossa track que faz parte do LP “Vinil é Arte Remixes”, e o RT era um dos MCs que batalhavam com a gente no baile. Fora que o Fofão era DJ do Sindicato Criminal, lá dos anos 90 e sempre foi próximo do P.MC e DJ Deco e eu me aproximei do RT por conta do meu trabalho com a Soul Rueiro. O PC Brasil é um diamante bruto da nossa cidade. Ele tá com a gente desde 2007, quando fizemos a primeira vez o projeto Tim Racional. O Beto acompanhava ele em uns bares da cidade e, logo, ficamos amigos. PC é de uma geração marcante de JF, da qual se destacaram Lúdica Música, Ana Carolina, Emmerson Nogueira, Big Charles, dentre outros. O PC era uma das vozes dessa geração, mas a vida dele foi tomando outros rumos e em algum momento a música deixou de ser prioridade pra ele. Porém, é de um talento e energia singular . Como a ideia da gravação era registrar a nossa trajetória, com certeza o PC é um dos pilares.
Moreira – Como foi trabalhar com o Rodrigo Ferreira? Ele é um dos craques da nova geração do audiovisual na cidade, assim como o Caio Deziderio tem se mostrado na fotografia. Como foi a troca com eles, e quais contribuições que eles trouxeram ao trabalho? Não conheço o Rodrigo pessoalmente, mas trabalhamos juntos, no i-Bit Mapping, e ele fez um trabalho glorioso com gifs para captar as projeções.
Marcelo Castro (baixo) – O Digo é uma espécie de irmão mais novo que eu não tenho, tamanho a nossa afinidade. Nos aproximamos quando ele foi captar a gravação do “Juventude é Resistência” da Soul Rueiro, da qual eu também faço parte. Desde então, eu não largo ele por nada. Já fizemos dezenas de coisas juntos. Esse projeto só aconteceu por influência dele, que colocou pilha pra inscrever o projeto na lei de incentivo e fazer alguma coisa com o Silva que nunca havíamos feito. Com o próprio Silva Soul, nós gravamos todo o processo do EP “Na Missão” no estúdio Forest Lab e fizemos shows e viagens. Estamos desde 2023 trabalhando juntos na pesquisa e no roteiro de um documentário também, espero que não demore a sair. A minha troca com o Digo é quase diária e muito fluida. Quando o projeto foi aprovado eu coloquei as questões artísticas em pauta e deixei a técnica na mão dele. Aí ele montou um timaço pro dia da gravação e pra pós produção, o Caio é um desses craques escalados por ele.
Moreira – No vídeo, a gente pode observar a galera do passinho embrazando nos passos típicos do baile charme carioca, que tem o Viaduto de Madureira como maior referência. Qual a relação de vocês com esses grupos que dançam nos bailes? Pois a música de vocês é, essencialmente, de baile, para dançar.
Marcelo Castro (baixo) – Durante todos esses anos, nós construímos uma ligação muito sólida com a velha guarda do Soul. Muito por conta do DJ Sir Dema, que está com a gente há muito tempo e representa o Club do Soul, um coletivo de resistência black natural de Bangu, zona oeste do Rio. Por meio dele, conhecemos diversos dançarinos e DJs que viveram da época de ouro da Soul music no Brasil. Desde os cariocas PC Capoeira, Bala Machine, Lurdinha, Francisco Black até a galera de BH, do Baile da Saudade, Quarteirão do Soul e a Comunidade do Soul, que esteve presente com a gente na gravação. Por meio dele, conseguimos trazer o mestre maior da dança, Nelson Triunfo, pra dançar aqui no nosso Baile do Silva. Aí a questão é que não dava pra viver só de importação, né? Isso nos aproximou dos caras do Remiwl Street Crew, Walmor Calado e Umiranda, que já promoviam a dança urbana na cidade e toparam encarar com a gente esse resgate da cultura Soul, do baile Funky original, antes mesmo do baile charme se popularizar entre a geração mais nova.
Moreira – Groove, soul, jazz, funk americano, música preta, o som de vocês engloba várias referências. O que entra nesse balaio de influências? O que vocês ouvem e que inspira a música de vocês? A formação é a mesma desde o começo? Como são divididos os papéis? Que o artista hoje faz bem mais do que a própria arte, né?
Marcelo Castro (baixo) – Tudo isso que você citou somado com música brasileira. Cada um tem uma vivência muito particular na música. Os trajetos de cada um de nós até aqui são os mais variados possíveis: banda de baile, rock, samba, reggae, música erudita, Miami Bass, enfim…. No final das contas, tudo que a gente passa fora do Silva também interfere no resultado final. Uma característica que sempre marcou a banda foi ser formada por músicos profissionais. Aqui, nos encontramos e celebramos uma proposta na qual todos se sentem representados…. Mas a fronteiras musicais vão muito além das influências tradicionais. A formação não é a mesma do começo. Estamos em atividade desde 2002 e, da primeiríssima formação, só tem eu, mas o Beto entrou logo na sequência, a Amanda estava desde os primeiros shows, mas só foi fazer parte mesmo um bom tempo depois. Ramiro e Fofão já fazem parte da formação clássica que fez o primeiro álbum lá em 2012. O Brum sempre foi um colaborador, mas só se tornou membro tempos depois. O Luizinho e o Max, que são os caçulas, mas entraram nessa missão com a gente de cabeça, e a música deles oxigenou as forças da banda. Acredito que, muito mais do que uma formação, o Silva Soul é uma idéia, um coletivo, uma proposta. Acho que ninguém nunca saiu da banda, já teve gente que ficou um tempo afastado, mas as portas nunca se fecharam.
Talvez essa seja a graça da música, sempre cabe mais um…. Rs… De uma forma geral, nós trabalhamos por missão (por isso o nome do EP anterior) , que é bem uma coisa da profissão de músico. Aí, de acordo com o nosso objetivo, nos dividimos de um jeito. De forma geral, eu tenho a função de organização/produção geral , tenho mais paciência com a comunicação e coisas que não são música. Os caras somam na posição e nos momentos que se sentem mais confortáveis. Por exemplo, o Beto e o Luiz são mais ligados nos arranjos, o Fofão é o cara da pesquisa de sons e sonoridades brasileiras. Tanto o Pedro quanto o Ramiro são os caras dos timbres , a Amanda, das vozes, e o Max, que entrou por último, chegou somando nas composições novas. De forma geral, o nosso trabalho é bem coletivo e democrático. É raro alguém fazer uma coisa totalmente contrariado. Somos músicos de outros artistas/bandas e no Silva dividimos o protagonismo sem ter ninguém maior do que ninguém. O nosso compromisso é sempre com a música, com a pista de dança e com a resistência dentro de um estilo musical que se fundiu com tantos outros mas nunca deixou de ter a sua linguagem própria.
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Eu adoro acompanhar os trabalhos solo dos queridos mineiro LUIZGA e do capixaba André Prando, que lançaram, sob o nome LUIZGA & PRANDO, o EP “Patuá”, gravado ao vivo no emblemático Teatro Virgínia Tamanini, no Sesc Glória, em Vitória (ES). O disco conta com mixagem e masterização do argentino Seba Duran e produção visual assinada pela talentosa artista paranaense Eloíza Montanha. São sete faixas que misturam composições originais da dupla e a releitura marcante de “Em nome de Deus”, do mestre Sérgio Sampaio. “Patuá” celebra a conexão entre os artistas, explorando temas comuns ao cancioneiro de ambos, como a introspecção mística, a vida estradeira e a devoção à música popular brasileira. “Fizemos uma temporada de três datas esgotadas em Vitória, e foi uma honra poder registrar esse momento ao vivo, com a energia do público”, comenta LUIZGA.
É do Norte? Sempre me interessa, como o trabalho da cantora, atriz e produtora amazonense Cella, que chega com bom álbum de estreia, “Efeito Borboleta”. O encantamento começa pela capa, com foto de Elisa Maciel com arte de Felipe Foster que já nos transporta para a temática de transformação, despedidas e renascimento do volume. Inspirado na teoria do efeito borboleta, o projeto propõe uma narrativa na qual pequenas ações provocam grandes mudanças, tanto no campo íntimo, quanto no coletivo. Musicalmente, “Efeito Borboleta” transita pelo dark pop tropical, combinando batidas eletrônicas, melodias emotivas e influências amazônicas. O projeto também se destaca por reunir colaborações com artistas do Norte, como Ana Mady, Doral, Miss Tacacá e Lofihouseboy. A faixa “Encantaria”, lançada em março, inaugurou essa nova fase ao apresentar o “CarimPop”, fusão entre carimbó e pop. A música funciona como porta de entrada para o universo do álbum, trazendo referências ao folclore amazônico, à liberdade do corpo e à força simbólica da floresta.
Bailarina, a paulista Eva recebeu um diagnóstico de fibromialgia que a fez rever a relação que tinha com a dança e estudar composição online e “Canto Popular” no Conservatório EMESP Tom Jobim. Foi daí que nasceu “Ritual”, música que dá nome ao seu primeiro disco solo, que sai em parceria com o selo Boia Fria Produções e tem as estreladas produções de Amanda Magalhães, Dudu Rezende e Marcos Maurício, além das participações especiais do sextante Samuel Samuca e Zé Nigro.
“’Ritual’ foi a primeira composição – das nove que fazem parte do álbum – e surgiu no período do meu diagnóstico, logo após uma separação muito dolorosa de um relacionamento amoroso. Nessa época perdi cerca de 11 kg (chegando a pesar 41kg) e me afundei. Para aliviar o peso, precisei recorrer a formas instintivas e simbólicas, entre elas, escrever cartas que nunca foram enviadas ao destinatário, botando pra fora tudo o que eu queria dizer e não pude. Foi praticamente como fazer um enterro sem defunto. Escrevia também num papel todas as coisas que eu não queria mais e queimava na chama de uma vela; criei um altar com uma foto minha criança e a da minha mãe pra me lembrar que eu nunca estive só”, pondera a artista, que se apresentou no metrô de São Paulo para pagar as contas. Samuel Samuca participa da faixa “Amor Selvagem”, um carimbó ousado que fala sobre ir atrás de quem se quer com desejo, libido e sem rodeios. O disco passa por samba, soul music, ijexá, carimbó e outros ritmos latinos, como o candombe (dança com atabaques típica da América do Sul que tem papel significativo na cultura do Uruguai dos últimos duzentos anos) e reggaeton.
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