Sexta Sei: “V*ado otaku”, S4tan faz muita barulheira, mas com nuances, pro porradão bater com mais intensidade

Produtor paulistano fez fama, na web, com os looks de carnaval com pouca roupa, corpão e imaginário anime e faz set neste sábado, no Clube Contra da gente

por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com

Foto: @fecastelani

O produtor musical e DJ paulistano Caique Nathan, mais conhecido nas pistas de dança e na internet como S4tan, 32 anos, passa pelo Clube Contra neste sábado (19), às 23h, na festa Infierno Club , com uma amostra de sua música eletrônica maximalista e barulhenta, como gosta a nova geração. Responsável pela produção do último álbum da drag queen Lia Clark, “Fenomenal”, e produtor de faixas de toda uma nova geração LGBTQIA+, como Kaya Conky, o princeso sextante do funk Dornelles, Katy da Voz e as Abusadas, Irmãs de Pau e Christopher Luz, S4tan é um nome pra se acompanhar. “Amo as barulheiras, mas gosto de trabalhar elas do meu jeitinho, criando nuances, introduzindo momentos fortes e rápidos, baixos e lentos, em pontos específicos da música. Acredito que, pro porradão bater com mais intensidade, é necessário criar uma história antes de chegar nele”, me contou, nesse papo para a #SextaSei, no qual também fala como os mashups da Bootie Rio influenciaram o seu trabalho. “Bootie Rio, Positronic e Yanescudo foram minha escola! Até 2020, eu criava mashups, assim como “Tcheca Say So”, o qual eu produzi. Mas o meu canal principal acabou caindo por copyright e, desde então, eu parei completamente de produzir. 

Moreira – Você faz parte dessa geração da velocidade maximalista de Clementaum, Cyberkills, RaMemes, Chediak e Adame, coincidentemente, produtores que vieram à Jufas no Clube Contra e que entrevistei aqui na Sexta Sei. Quanto mais forty, melhor? Tem que ser rápido, barulhento e quebrando tudo? Amo.

S4tan – Acho que, de todos, eu sou o produtor mais “pop” do clubinho. Amo as barulheiras, mas gosto de trabalhar elas do meu jeitinho, criando nuances, introduzindo momentos fortes e rápidos, baixos e lentos, em pontos específicos da música. Acredito que, pro porradão bater com mais intensidade, é necessário criar uma história antes de chegar nele.

Foto: Kaique Telles

Moreira – Adoro acompanhar essa tour dos seus looks de carnaval, quando você cria um visual pra cada dia de folia, tipo uma Sabrina Sato queer, com direito a muito biscoito (de nada reclamo). De onde veio a ideia e de onde vêm as inspirações para os looks, parece que você gosta muito de animes, né? Vi uma foto linda com você usando look da Mady, que também adora essa onda anime e arrasa nessas “armaduras” de couro.

S4tan – Eu sou um viado otaku! Desde a infância, sou vidrado em animes, assistindo dos mais tradicionais até a cena atual. Quando percebi que a minha agenda de DJ ganhou volume no Carnaval, pensei “porquê não investir nisso aqui?”. Acho que o sonho de toda criança é ser qualquer um dos personagens que sempre viu na TV, e eu decidi realizar esse meu sonho, agora grande, unindo o meu trabalho à minha criança interior.

Dia 1 - Scorpion #Carnaval2026 #MortalKombat
Dia 2 - SubZero #MortalKombat #Carnaval2026
Dia 3 - Liu Kang #MortalKombat #Carnaval2026
Dia 4 - Erron Black #MortalKombat #Carnaval2026
Dia 5 - Kitana #MortalKombat #Carnaval2026
Foto: Kaique Telles

Moreira – Suas parcerias com mais plays são as com Kaya Conky, Lia Clark, o princeso sextante do funk Dornelles, Katy da Voz e as Abusadas, Irmãs de Pau, Christopher Luz, é uma geração do barulho, né? E também de muita representatividade LGBTQIA+. Como funcionam essas colaborações, de que forma você costuma trabalhar? Hoje, a tecnologia facilitou muito os feats e a produção caseira, né?

S4tan – Eu amo criar vínculos com os artistas que aprecio e com todas essas parcerias não foi diferente. Algumas delas são amizades de anos, como a Katy, Lia e Kaya, mas outras acabaram surgindo num interesse mútuo em colaborar. Felizmente, atualmente, eu possuo meu próprio estúdio em casa, então muitos processos partem de um encontro pessoal aqui, mas sou tranquilo em produzir à distância, que é uma realidade muito viva entre os artistas que não moram em SP.

Foto: @vivacquafv

Moreira – Seu álbum de estreia, “Submundo”, explora novas sonoridades do funk, como Bruxaria, Tuim e o próprio gênero chamado Submundo, além de agregar outras vertentes como Pop, Vogue, Guaracha e Techno. Como foi a pesquisa musical para chegar a este resultado, o que você tem ouvido? Tem influências também da festa Submundo, que parece ser jamantaça?

S4tan – Acredito que a festa tenha influenciado de forma geral o crescimento do gênero e dos produtores dentro da cena, porém, eu conheci por meio de playlists do spotify. Uma das minhas principais fontes de pesquisa são as playlists, tanto no spotify quanto no soundcloud, e é por meio delas que acabo explorando sonoridades, conhecendo novos artistas e juntando referências para projetos. Quando dirigi o álbum da Lia Clark, “Fenomenal”, estudei muito os novos subgêneros do funk, o que acabou se tornando fonte para o meu álbum também.

Foto: @vivacquafv

Moreira – Lembro que você falou com carinho da Bootie Rio, a minha festa de mashups, quando começamos a conversar no chat do Insta. Você começou fazendo mashups? Porque o estilo ainda enfrenta tanto preconceito? Acho que as novas leis de copyright vieram para afundar essa produção de vez, pois derrubam tudo. A Bootie Rio caiu a casa toda, com exceção de três canais de playlists (aqui, aqui e aqui).

S4tan – O meu primeiro canal do Youtube era voltado completamente para mashups, lembro que um dos primeiros packs que produzi, foi misturando o EP de “Open Bar”, da Pabllo Vittar, com as versões originais das músicas. Bootie Rio, Positronic e Yanescudo foram minha escola! Até 2020, eu criava mashups, assim como Tcheca Say So”, o qual eu produzi. Mas o meu canal principal acabou caindo por copyright e, desde então, eu parei completamente de produzir. Infelizmente, pelas novas diretrizes das plataformas, se tornou um tiro no escuro e muitas vezes no pé, seguir produzindo mashups.

🌊🪼🫧🐚𓆝𓆟 Como uma onda no mar 𓆞𓆝𓆟𓇼🪼🫧🐚🫧🌊

Bruna Luchesi. Fotos: Bruna Janeiro
Fotos: Camilla Loreta

Adoro acompanhar o trabalho de artistas que entrevisto, como a curitibana radicada em São Paulo Bruna Lucchesi, com quem papeei sobre Quem faz amor faz barulho” (2023), álbum no qual recria as canções de Paulo Leminski e que ficou entre os 50 melhores do ano segundo a Associação Paulistana dos Críticos de Arte (APCA). Adoro que nossos amigos em comum (no meu caso, virtuais) são muito especiais, como Gustavo Gallo e a banda benjaminiana que amo Música de Montagem, confirmando o dito “tatu cheira tatu”. Bruna estreia com seu primeiro álbum autoral, Bandoleira”, indo fundo em sua intimidade com a palavra, usando a canção como suporte para a poesia,  extraindo a musicalidade dos poemas, acomodando as palavras no som, muito influenciada pelo processo com o álbum de Leminski. Na nossa entrevista, a gente fala do poeta como uma espécie de vírus. Confirmou. 

O volume tem parcerias conquistadas em sua trajetória, como Mariko Reid (EUA), Sissy Dinkle (EUA), Helio Flanders (Vanguart), que faz dobro de violão e voz em “No lombo de um cavalo”, o poeta Fabricio Corsaletti e a produtora Alice Coutinho. Já tinha passado aqui pela playlist o belo single “Cavalinhos”, uma canção de ninar folk estadunidense que ela adaptou para o português, com lindas fotos feitas no campo e clipe dirigido por Camilla Loreta com lindas cores. A potência da voz de Bruna é impressionante, pura virtuose, e, nesse álbum, ela mostra seu espírito viajante e também faz crítica social. “Em toda a produção do álbum, enaltecer a música pensada por pessoas foi um dos nossos focos. Em tempos de inteligência artificial, isso contrasta ainda mais com o que vem acontecendo ao nosso redor”, comenta Bruna. Alice Coutinho (compositora de “Mulher do Fim do Mundo”, lançada por Elza Soares em 2015) fez a letra da terceira faixa do disco, “Fundo”, junto a Bruna. Esta é uma canção  introspectiva que revela profundezas internas acompanhada de guitarra marcante e depois cresce com a bateria e a voz mais cortante. As duas últimas faixas do álbum são composições estrangeiras e arranjadas por Bruna e sua equipe. “Desaparecer” é uma tradução do poema “Fade Away”, do japonês Nanao Sakaki, que ganha roupagem rock com vozes entrepostas; e “On the very day I’m gone”, composição da cantora Apalache, nascida no final do século XIX, Addie Graham. “Bandoleira” nasce de uma imagem que perpassa o momento vivido pela artista e reflete em todo o trabalho: a de uma viajante de estradas, no arquétipo da cowgirl solitária com ares de cigana, que percorre caminhos levando e recolhendo histórias e poesias em forma de canção. Musicalmente, o álbum nasce do folk como ponto de partida, incorporando guitarras, texturas elétricas e momentos de intensidade.

Jáder em fotos de Hannah Carvalho

Nos tempos de Revista Híbrida, decretei, em 2022, que o pernambucano Jáder era a nova suprema do forró com o seu álbum de estreia,Quem mandou chamar???, pois, além de mega talentoso, ele não é obrigado, mas ainda é educado e simpático. Ele está de volta ao fonograma com o segundo trabalho, “Deixa o mundo acabar”, no qual amplia temas, sonoridades e referências, com participações deluxe de Mariana Aydar, Jaloo, Joyce Alane, que participa de um pagode, gênero inédito no repertório do artista, e o também sextante Totô de Babalong, que serve gostosuras e travessuras em “No mar” (“Meu Deus do céu / que baianinho gostoso” 🎵). O disco começou a ganhar forma durante uma temporada de três meses em Recife, ao lado de Guilherme Assis e Barro, que assinam a produção musical. Jáder é sócio do sextante Barro em estúdio de música Zelo (PE).

A mudança para São Paulo foi determinante no processo de composição, que resultou em canções atravessadas por saudade, afetos, cotidiano e novas formas de se relacionar. “Deixa o mundo acabar” transita por gêneros como forró, funk, galope, xote, pagode, rock, pop, MPB, brega e bachata. Entre experimentações e resgates, Jáder também abre espaço para o galope, ritmo pouco explorado na música pop contemporânea. A faixa-título parte dessa referência para reafirmar o vínculo com suas origens e inserir elementos da cultura pernambucana no centro do projeto. É como dizia Chico Science, “um passo à frente, e você já não está mais no mesmo lugar”. “O galope é um gênero do Nordeste que tem uma batida rápida que simula o galopar de um cavalo: é quaternário, três batidas seguidas de uma pausa. Ele é bem presente na cultura popular nordestina e está na obra de grandes artistas como Luiz Gonzaga, Amelinha, Cátia de França, Quinteto Armoria”, explica o artista.

A banda juiz-forana Libertà, com Pedro Rocha (guitarra), Lucas Müller (baixo), João Reis (vocal), Jovander Glauco ( bateria) e Bruno Reis (guitarra), em fotos foram de Renato Campos

Eu custei a me descobrir com uma pessoa emocore, fato que se escancarou com o meu gosto por bandas como Fresno, Scalene, NX/Zero, Strike 🫶 e as sextantes Obey! e Supercombo. Quanto mais sofrido e com mais cascatas de guitarra que parecem abrir o peito da gente, mais bonito. Apesar de a banda juiz-forana Libertà, formada em 2021, definir sua sonoridade como influenciada por Grunge, Metal e Stoner Rock, é inegável a influência do emocore no som muito bem feito no segundo álbum, “Contraponto”, por Pedro Rocha (guitarra), Lucas Müller (baixo), João Reis (vocal), Jovander Glauco (bateria) e Bruno Reis (guitarra). A identidade do álbum é construída a partir de riffs marcantes e letras em português voltadas a conflito, reflexão e crítica. Entre as influências, o peso emocional de Alice in Chains, a densidade do Soundgarden e a contundência moderna do Stone Sour.

No EP, a construção sonora se apoia em guitarras densas, variações de dinâmica e arranjos que alternam contenção e ruptura. As composições percorrem temas como autoconhecimento, passagem do tempo e desgaste emocional, atingindo seu ponto mais direto em “Estrago”, que aborda a violência estrutural, o feminicídio e a banalização de questões de saúde mental. Uma paulada, pessoal.

UmZé lança EP “Não vou dançar na sua pista (Lado A)”, fruto da vivência sobre a cultura dos Bailes Charme a partir de uma perspectiva queer. Fotos: Laís Dantas

A confiança é algo a ser valorizado, como a de UmZé, paulistano de Santo André radicado em Ribeirão Pires, que sempre me envia sugestões dizendo que acompanho seu trabalho de curadoria sobre a nova cena brasileira e acredito que este lançamento dialoga diretamente com as pautas que você vem destacando”. Pois confirmou e é isso mesmo, como pode ser visto no EP Não vou dançar na sua pista (Lado A)”, que amplia o debate sobre representatividade no R&B brasileiro e é resultado de sua pesquisa sobre a cultura dos Bailes Charme a partir de uma perspectiva queer. O trabalho reúne colaborações com a queen Lio, da sextante banda Tuyo, com produção de felino, conhecido por Rock Doido de Caju”, de Liniker, Cayuma e Coral de Homens Gays de São Paulo. Em quatro faixas, o cantor transforma experiências de trauma religioso, violência afetiva e silenciamento em uma obra que celebra a diversidade na pista de dança. Sua pesquisa artística conecta raça, sexualidade e música negra brasileira. Sonoramente, o projeto mergulha nas referências dos Bailes Charme, do soul e do R&B dos anos 80, mas atualiza esse repertório com rap, house e groove.

A capa do EP por Jamerson e Laís Dantas

O agendão das maravilhas segue nos destaques do meu Instagram, separado por cidades, e em thread infinita no X.

Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta começa e termina com faixas do álbum de estreia solo de Vitta, e ainda traz volumes de Tokischa, Anitta, Bruna Lucchesi, Lauiz, RDD, Jessie Ware, FBC, Honey Dijon, Breezia, Hiran, Thami, Anne Hataway, Nine inch nails com Boys Noyze, Edssada, Zayn, Flávio Vasconcelos, Henrique Tibola, Animal Invisível, EPs de Estéreo Boutique, UmZé, Zopelar, Raidol e Ordinarius. Todas as playlists de 2025, 2024, 2023 2022, 2021 e 2020 nos links

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