Sexta Sei: Só mais um Silva que se bordou Selva

Artista Washington da Selva concorre a matéria na Revista DASartes com série de bordados que refletem sobre tecnologia

por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com

Washington da Selva, 28 anos, gosta de se identificar como artista, pesquisador e trabalhador da terra, muito para lembrar as suas origens, em Carmo do Paranaíba, no noroeste de Minas, aonde trabahou, com a família, no campo, dentro do modelo de agricultura familiar. E é justamente este cenário rural de sua terra natal que ele projeta, em pequenas cenas cotidianas emolduradas pela tela do celular, em bordados feitos à mão que levam entre três e cinco semanas para ficarem prontos. As imagens bordadas vieram de uma câmera de segurança em sua casa na terra natal e foram transmitidas pela mãe do artista pelo Whatsapp, criando uma conexão entre analógico e digital, rural e urbano. Um artista voltando para casa mudado.

A série foi batizada de “Social jungle”, e o trabalho repercutiu tanto que faturou dois editais de cultura recentes em Jufas, Janelas Abertas, da Pró-Reitoria de Cultura da UFJF, e Na Nuvem, da Funalfa, e ainda concorre ao voto popular para ser matéria na nacional Revista DASartes, da editora Selo. Washington é graduado em Artes e Design pela UFJF e mestrando em Artes, Cultura e Linguagens, na mesma instituição, aonde estuda os cruzamentos entre classe, raça e geopolíticas.

Batemos um papo, por e-mail, no qual ele me contou como de “mais um Silva” se tornou Selva, fugindo da ideia de anonimato proposta pelo popular sobrenome nacional, da vida observada por telas eletrônicas, das marcas deixadas pelo meio rural em sua existência, de como aplica esforço, tempo e manualidade nesse trabalho paciente e móvel do bordado. Veja o que me falou o artista, que borda em tempos de imagens que duram 24h nos stories.

Moreira – Sua mãe trocou a janela pela câmera de segurança? É curioso observar,  no seu trabalho, estes conflitos, a dicotomia entre rural e urbano, manual e digital… No release, diz que sua pesquisa aborda o trabalho, o deslocamento e a paisagem.

Selva – Foi um comportamento que só percebi quando retornei para casa nas férias de fim de ano. Havia uma câmera de segurança instalada no muro que dava para a rua, a vista era dessa pequena rua com casas e pouca movimentação. Cruzavam ali pessoas, carros, cachorros de rua, carroças, crianças brincando. Quando me dei conta, assim como minha mãe, eu mesmo já estava ocupando esse espaço de observação da rua por meio do televisor, que fica instalado na sala da casa dela. E, a partir desse interesse, ela passou a me enviar, frequentemente, fotos dos transeuntes.

E é engraçado, isso que você diz da dicotomia entre rural/urbano, manual/digital, eu mesmo só me dei conta disso bem depois de começar a produzir esses trabalhos. Tem coisas que sempre estão presentes, mas a gente só se dá conta delas tempos depois de olhar, refletir… Por isso, digo e reforço da importância de criar sem pré-julgamentos, é uma sutileza que só é possível com a entrega e a confiança no processo de produção.

Tenho interesse por esses 3 temas;

o trabalho, que me possibilita estudar as relações pelas quais fui criado, enquanto filho de trabalhadores rurais. Na infância, colaborei com o trabalho no campo, no modelo que hoje chamam de agricultura familiar, segundo o qual os próprios membros da família operam em diferentes funções da produção das terras.

o deslocamento, uma auto-etnografia, tanto penso nos deslocamentos de minha família pelas terras do Triângulo Mineiro, como também penso nos deslocamentos que produzo nas cidades enquanto, hoje, artista. A paisagem, por vezes, via paisagens sendo extrativizadas e penso nessa alteração do homem sobre ela. Mas também, enquanto me desloco, produzo paisagens, e elas se produzem em mim. Tem uma fala de um artista, Robert Smithson, “caminhar é como poder ver com os pés”. Enquanto me desloco, seja caminhando pelas ruas de Juiz de Fora, ou mesmo me deslocando de ônibus até qualquer outra cidade, são as paisagens que estão ali disponíveis e que sempre me fizeram pensar.

Moreira – Me fala mais sobre a mudança do sobrenome de Silva para Selva. É muito bom, inclusive.

Selva – Já vinha pensando nisso há tanto tempo. Meu sobrenome Silva sempre foi alvo de inquietações. E, enquanto pesquisava mais sobre ele, vi que tinha muito mais por trás do que eu conseguia imaginar, e era tudo

meio nebuloso, um sobrenome que é muito comum que leva consigo uma relação de anonimato para aqueles que o carregam.


Quando falo de Selva, prefiro dizer que foi uma tradução. Uma tradução, pois Silva vem do latim, que significa floresta ou selva. Em algumas poucas pesquisas que fiz na internet, li que esse sobrenome era dado para as pessoas que viviam à margem da sociedade, não estavam nas cidades, elas viviam nas florestas. Então, a tradução se encaixaria perfeitamente na minha fábula pessoal, e é como um reforço de minhas raízes.

Moreira – Como foi a reação dos retratados na série? Esse material chegou até eles?

Selva – Tanto eu não os conheço, quanto acredito que eles não conseguiriam se identificar. Há um certo anonimato nessas figuras. Inclusive, as pessoas de minha cidade estão cientes do trabalho, virou repercussão após a seleção para o Prêmio DASartes 2021, tive muito apoio por parte deles.

Moreira – Seu trabalho esteve sempre relacionado ao bordado? É uma atividade tida como feminina? Existe algum tipo de preconceito com homens que bordam? Aonde você aprendeu a bordar? Dá muito trabalho para produzir cada “tela” dessas?

Selva – O bordado tem sido um dos suportes que utilizo desde 2018. Ainda é uma relação muito diferente pra mim, que sempre preferi lidar com suportes mais rápidos, como fotografia, objetos (apropriação), instalação e performance. No bordado, tem sido como eu realmente me coloco, aplicando esforço, tempo, manualidade. Por isso essa série “Social Jungle”, que tem circulado bastante, só começou a dar vazão no final de 2020. Eu iniciei essa produção no início de 2019, mas tudo muito lento, no tempo do trabalho, foi durante muito tempo um exercício meditativo. Acredito que o que me interessou nessa técnica foi a mobilidade. Eu me permitia bordar enquanto esperava um ônibus, enquanto assistia alguma aula na faculdade, enquanto estava na espera de algo. Carregava eles para todos os lados durante estes dois anos, e sempre que tinha oportunidade, fiava alguns pontos. Inclusive, em um momento performativo do acaso, eu estava bordando na área de alimentação de um shopping e, na frente, sentou-se uma pessoa que estava vidrada no celular. Foi engraçado, era como um espelho, de um lado toques na tela, de outro lado perfurações; e foi nesse momento que vi nesse trabalho um potencial de discurso sobre questões que envolvem, sobretudo, nossos hábitos com esses aparelhos tecnológicos.

Acredito ser uma atividade que em algum lugar cultural aponta para a feminilidade. Conheci grandes grupos de mulheres bordadeiras durante este tempo que tenho produzido, fizemos grandes trocas, e com muito respeito de ambas as partes. Minha primeira experiência com o bordado foi em uma oficina que meu namorado, e também artista, Matheus de Simone, conduziu no Instituto de Artes e Design (IAD)  da UFJF. Após isso, comecei, intuitivamente, fui experimentando.

Em cada um destes trabalhos, demoro de três a cinco semanas para finalizar, o que me faz pensar muito sobre o tempo. Percebo como, muitas vezes, condicionei a minha produção ao tempo que tinha disponível em meio ao trabalho e aos estudos. Coisas a se pensar. A precarização do artista parece, por vezes, romantizar situações de trabalho a qual o artista não precisa de um espaço de trabalho adequado, um ateliê. Hoje tudo é muito rápido, e, como no celular que as imagens somem em 24 horas, muitas produções passam a operar também nessa lógica.

Moreira – Já saiu o resultado do concurso da revista DasArtes?

Selva – Ainda não. Acredito que será divulgado junto ao lançamento da edição de fevereiro da revista, no meio do mês. Fiquem na torcida 🙂

Abaixa que é tiro!💥🔫

O Circo Voador no ar exibe show que o “matador de passarinho” Rogério Skylab fez, na lona, para lançar o disco “Nas Portas do Cu”, nesta sexta, às 22h. Sabia que Skylab está ligado a Jufas? Já tive a honra de entrevistá-lo, pela Tribuna de Minas, quando fez show na Mascarenhas. Ele fala do seu link com a cidade, conta sobre um show histórico com o “folclórico” Big Charles (procura-se imagens), no qual foi batizado Skylab, e parabeniza a Margarida aqui. Ai, quantas saudades do Big, fazíamos aniversário juntos <3

Quer mais lives? Neste sábado, 6, a plataforma #CulturaEmCasa transmite a 5ª #ViradaSPOnline de 2021, com shows de Marcelo Jeneci (16h30), João Biano (20h50) e Marcos Valle com participação de Patricia Alvi (21h30), dentre outros. No domingo, dia 7, às 15h, rola a live no mesmo dia que seria do desfile do bloco de Jufas Parangolé Valvulado, com histórias de Dani Brito, Ana Munck e Erica Salazar e música dos queridos Daniel Goulart, Roger Resende,Lucas Soares, Edson Leão e Uiara Leigo, todos recebidos por Angelo Goulart. Na quinta-feira, dia 11, Luedji Luna e Conceição Evaristo participam de bate-papo de camarim íntimo, às 19h, no Afetos, da Natura Musical.

Se tem um artista no qual estou prestando bastante atenção no momento é o piauiense radicado em Fortaleza Getúlio Abelha, uma espécie de David Bowie clown e punk do forró. Ainda não conhece o Getúlio Abelha? Ele está em “111 Deluxe”, com Pabllo Vittar, em uma nova versão de “Amor de Que”.  Porra, gay, corre assistir os hits que são os clipes “Laricado”, ‘Tamanco de Fogo” e “Aquenda”, dirigidos por ele, e “Sinal fechado”

O artista lançou, no último sábado, “Getúlio Abelha – Ao vivo no Madruguinha (DVD VOLUME 1)”, como protagonista e diretor. O cenário é o Espetinho do Madruga, point tradicional na Avenida 13 de Maio, em Benfica, que reúne gays, universitários e diversas manifestações culturais. Simplesmente icônico e de tamancas, com recursos da Lei Aldir Blanc. “Sempre tive esse sonho de fazer um DVD gravado num boteco, o tipo de espaço onde fui criado pelo meu pai. Minhas experiências em botecos me inspiraram a me tornar músico”, me conta, por whatsapp. 

Perguntado sobre os desafios de se dirigir em cena, ele não tem dúvidas. “Enquanto artista, eu me formei para que todos os aspectos da minha obra tenham tudo de mim. Quis me preparar para isso, para dirigir a música, o álbum, o ensaio fotográfico, as coreografias, os shows, os figurinos. Para mim, foi estar em um lugar que eu gosto e faço questão, o que não significa que não possa ser dirigido. Realmente, quero me colocar por inteiro“, finaliza o artista, que é uma das atrações confirmadas do Rec-Beat, dia 14, às 15h.

Vem de Fortaleza, ao mesmo tempo, o “rock de favela” do artista Mateus Fazeno Rock, que também inovou, domingo, no YouTube, com a live performance “Missa Negra”. Seu bom disco de estreia, “Rolê nas ruínas”, saiu no ano passado. Tem uma potência vindo de Fortaleza, hein.

Já fiz uma coluna sobre a nova cena de Natal, estrelada por Luisa e os Alquimistas e Potyguara Bardo. Pois elas são as headliners do Festival Ribuliço, provavelmente inspirado pelo feat forrozinho de Poty e Omulu, que rola neste sábado dia 6, às 19h. No line up, ainda tem Orquestra Greiosa e o encontro de RaggaNorte e Dusouto.

O festival tem patrocínio da Lei Aldir Blanc do RN. Que bom esse nome aparecendo pela terceira vez aqui hoje.

O festival pernambucano Pré no Reggae, maior do estilo no Brasil, faz edição online, hoje e amanhã, emanando as vibrações positivas do ritmo. A transmissão rola por YouTube e Instagram, a partir das 19h, com Cubana Rasta, Donabagga, Ívano e Vibrações, hoje, e Leões Reggae Roots, Palavra Positiva, Eric Gabínio, Favela Reggae e N’zambi, no sábado, amanhã.

O Slam mais antigo de Jufas e a Confraria dos Poetas farão a sua primeira edição de 2021, abrindo temporada de eventos virtuais. O 1° Slam Poético da Ágora rola sábado e domingo, nos dias 6 e 7, às 18h, com transmissão pelo Facebook. O slam-master será o poeta King.

Minha torcida para “Adupé Obaluaê”, de Zé Manoel, finalista de três categorias

O m-v-f- awards 2020 transmite cerimônia de premiação na quinta, dia 11, às 20hA, no site do m-v-f- e na plataforma Cultura Em Casa, nos canais do Youtube do m-v-f-, do MIS SP, do #CulturaEmCasa. O evento irá premiar os melhores videoclipes nacionais e estrangeiros lançados entre setembro de  2019 e novembro de 2020. No total, são 23 categorias.

Playlist com as novidades musicais da semana. Nesse post, tem todas as playlists do ano.  Aqui tem as playlists de 2020.

Playlist com as novidades em videoclipes da semana, com Bomba Estéreo, BaianaSystem e BNegão, Lamparina, Valuá & BAKA, Letrux, MC Estudante, MC Xuxú, Ivete Sangalo e Xanddy, Anitta, Selena Gomez, HyunA, Rei da Cacimbinha, Adriana Calcanhoto, Kamau, Zeeba e Mallu Magalhães, Inês Brasil e Ranger Amarela, Larissa Luz e +

Sexta Sei, por Fabiano Moreira

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