Sexta Sei: Branko pensa e constrói a partir da língua portuguesa para a cultura global da música de dança, fundado em groove, beat e percussão

Depois de recentes parcerias com a banda Tuyo da gente e Tainá, ele está planejando colaborações com Luedji Luna, Agnes Nunes e Nina Maia

por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com

Fotos: Pedro MKK

O português Branko, 45 anos, ficou conhecido, na década de 2000 a 2010, com a grande projeção mundial da banda portuguesa Buraka Som Sistema, com integrantes portugueses e angolanos que apresentavam a sonoridade do Kuduro Progressivo, misturando o kuduro às tendências da dance music, como o funk brasileiro, ou “Global bass music meets live afro punk“, nas palavras de um dos integrantes. O Buraka gravou com Deize Tigrona e Ivete Sangalo em “A Galinha D´Angola”,  na nova versão de a “Arca de Noé” (2013). Em seu trabalho solo, Branko segue o caminho de promover pontes entre a comunidade lusófona e já colaborou com os brasileiros Tuyo, MC Binn, BIAB e BaianaSystem. “Nunca me senti representante de um país específico, mas sim de uma identidade cultural mais ampla, de uma comunidade de artistas e criativos que pensa e constrói a partir da língua portuguesa para a cultura global da música de dança. Esse sempre foi o meu ponto de partida”, me contou, em um dos melhores papos aqui da #SextaSei, no Baixo Centro, o quarto internacional, mas sempre em português, depois de Sofi Tukker, Fado Bicha e Evaya, que a #SextaSei é lusófona. “São encontros que ampliam repertórios, criam novos imaginários e reforçam a relevância cultural dessa comunidade no mundo”, conclui.Grande parte da minha música nasce dessa relação direta com o groove, o beat e a percussão, algo que aprendi muito cedo com a música brasileira. Sempre vi o ritmo como uma linguagem universal, e o Brasil teve um papel fundamental nisso. No início, por meio dos clássicos e, mais tarde, já com um olhar mais atento, por meio de selos como a Trama ou a Ziriguiboom, pelos quais descobri artistas como Otto, Marcos Valle e Céu, entre muitos outros. Nessa mesma fase, muito por meio do digging em vinil, acabei também por descobrir artistas mais antigos como a referida Banda Black Rio ou Gerson King Combo, que ajudaram ainda mais a moldar e a entender essa relação com o groove, o balanço e a pista”, conta. Agora, para nossa alegria, ele quer colaborar com Luedji Luna, Agnes Nunes e Nina Maia. E também toca o projeto de música eletrônica para as pistas de dança Bloqo, que desenvolve com Pedro da Linha e acaba de lançar o EP “Floorwrk”. “É um espaço onde a pista vem mesmo em primeiro lugar”, ferve.

Branko com a banda Tuyo da gente em rolê por São Paulo. Fotos: @saantana.vi

Moreira – Você vem colaborando com vários artistas brasileiros, começando com a nossa Deize Tigrona em 2008, com o single “Aqui para vocês”, ainda na sua banda Buraka Som Sistema, que era contrária à filosofia “anti-imigrante”, unindo artistas portugueses e angolanos e focando em sonoridades dos países de língua portuguesa. Você também colaborou com os brasileiros MC Binn, BIAB e BaianaSystem e, mais recentemente, com Tuyo e Tainá. Como foram essas duas últimas colaborações, mais recentes? Você veio a São Paulo para isso?

Branko – Eu, pessoalmente, sempre vi qualquer filosofia anti-imigrante como algo profundamente retrógrado. A ideia de tratar um determinado momento histórico como uma realidade estática e intocável é extremamente limitadora para a humanidade. Nós somos movimento, progresso, curiosidade, troca, comunidade e aprendizagem. É assim que faz sentido, para mim, estar no mundo e participar dele. Nunca me senti representante de um país específico, mas sim de uma identidade cultural mais ampla, de uma comunidade de artistas e criativos que pensa e constrói a partir da língua portuguesa para a cultura global da música de dança. Esse sempre foi o meu ponto de partida. Foi nesse espírito que me formei como artista, com a vontade clara de criar pontes entre as diferentes culturas de língua portuguesa. Por isso, fez tanto sentido, já em 2008, trazer o baile funk para o universo do Buraka Som Sistema, e mais tarde colaborar com projetos como BaianaSystem ou Tuyo. Sempre que possível, gosto de criar no estúdio junto com as pessoas. E, se isso implicar viajar, melhor ainda. Nada me deixa mais feliz do que aterrar em São Paulo, foi lá que nasceu a colaboração com o Tuyo em “Pro Mundo ouvir”, ou em Salvador, mais especificamente em Itaparica, onde, junto com BaianaSystem, Dino d’Santiago, Kalaf e outros, desenvolvemos várias ideias. Uma delas acabou por se transformar em “Aroeira”, que saiu na versão deluxe do meu disco “Soma”.

Branko e Tainá captados @nunodias.films

Moreira –  Essas contribuições com artistas do Brasil e dos países que falam a língua portuguesa fortalecem a comunidade lusófona. Qual a importância dessa troca entre as pessoas que falam português? Falei aqui, recentemente, do álbum de Dino D´Santiago com Criolo e Amaro de Freitas. Como podemos fortalecer esses laços ainda mais?

Branko – Defendo isso desde o início da minha carreira. Acredito que tanto os artistas quanto as gravadoras precisam fomentar cada vez mais essas trocas e a construção de pontes — não a partir de um objetivo puramente comercial, mas com o propósito de fortalecer uma presença global da música feita em língua portuguesa. Cruzar artistas como o Dino, que tive a sorte de acompanhar de perto e de ver crescer, com nomes do tamanho de Criolo e Amaro Freitas é algo que deveria ser tratado e apoiado quase como um serviço público. São encontros que ampliam repertórios, criam novos imaginários e reforçam a relevância cultural dessa comunidade no mundo. Felizmente, sinto que estamos num momento quando isso está acontecendo com mais frequência, e sei que ainda há muita música por sair que vai aprofundar e fortalecer ainda mais essas conexões.

Moreira –  Gravar essa canção infantil da tradição brasileira com uma produção eletrônica é uma forma de atualizar as tradições e reforçar os laços entre os países? Como surgiu essa inspiração de atualizar esse clássico? E como conheceu a cantora Tainá?

Branko – Na verdade, eu nem sabia que se tratava de uma canção infantil da tradição brasileira. Cresci a achar que era uma canção infantil portuguesa. Foi exatamente essa coincidência, essa ligação quase inconsciente entre os dois lados do Atlântico, que me deu vontade de revisitar o clássico “Se essa rua fosse minha” e trazê-lo para o presente, transformando-o em “N’Essa Rua”. Uma forma de embalar as pistas de dança entre Lisboa e São Paulo, respeitando a memória da canção, mas colocando-a em diálogo com o agora. Eu já vinha trocando ideias e mensagens com a Tainá há algum tempo, mas ainda não tinha surgido a música certa para nos juntarmos. Quando pensei em retrabalhar esse tema, ela foi a primeira pessoa que me veio à cabeça. A voz dela tinha exatamente a sensibilidade que eu imaginava para a canção. O processo foi muito fluido e rápido, daqueles em que tudo encaixa naturalmente. Essa simplicidade, muitas vezes, é o que leva aos melhores resultados.

Foto: Victor Takayama
Foto: NashDoesWork
Foto: NashDoesWork

Moreira – O que você aprecia na música brasileira, sei que gosta dos standards, como Sérgio Mendes e Gilberto Gil, mas também está curioso com o movimento Black Rio, que está nas bases do movimento do funk e foi tema de recente documentário do Emílio Domingos, cronista da cultura negra carioca. O que você tem ouvido do Brasil? Quais são as influências brasileiras na sua música?

Branko – Grande parte da minha música nasce dessa relação direta com o groove, o beat e a percussão, algo que aprendi muito cedo com a música brasileira. Sempre vi o ritmo como uma linguagem universal, e o Brasil teve um papel fundamental nisso. No início, por meio dos clássicos e, mais tarde, já com um olhar mais atento, por meio de selos como a Trama ou a Ziriguiboom, pelos quais descobri artistas como Otto, Marcos Valle e Céu, entre muitos outros. Nessa mesma fase, muito por meio do digging em vinil, acabei também por descobrir artistas mais antigos como a referida Banda Black Rio ou Gerson King Combo, que ajudaram ainda mais a moldar e a entender essa relação com o groove, o balanço e a pista. Hoje, felizmente, tenho a sorte de poder colaborar com alguns dos meus artistas brasileiros favoritos, como Tuyo e BaianaSystem, e também de estar em contato (com muita vontade de colaborar) com outros nomes como Luedji Luna, Agnes Nunes e Nina Maia.

Com o português Pedro de Linha, o projeto de música eletrônica Bloqo

Moreira – Esse ano, você lançou o lançou o segundo EP do projeto Bloqo, que desenvolve com Pedro da Linha, o EP “Floorwrk”, inspirado nas raves e nas pistas de dança. Aqui o foco é por a pista de dança abaixo? É uma pedrada! O nome é muito bom, qual a inspiração para Bloqo?

Branko – Obrigado. Sim, o BLOQO é um projeto paralelo que criei com o Pedro da Linha exatamente para podermos traduzir todos esses universos em música de clube, de forma mais aberta e direta. É um espaço onde a pista vem mesmo em primeiro lugar. O nome BLOQO nasce dessa ideia de coletividade. O EP “Floorwrk” reflete isso, música feita para o corpo, para o sistema de som, para a experiência física da pista. Ainda há muita coisa para acontecer. É um projeto pensado para crescer com calma e consistência, sem pressa. E, quando chegar a hora certa, vai ser um prazer enorme poder apresentar o BLOQO no Brasil.

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Os integrantes do coletivo Makoomba, que completa dez anos com bloco: Ocrioulo, Crraudio e Amanda Fie. Fotos: JV Tebaldi
Dona Chapa comanda a massa!
Credo, que delícia 💦
O convidado do ano passado, DJ Swag do Complexo representando o Brasil Grime Show
Sente a multidão

O coletivo Makoomba, com a qual tenho uma imensa conexão imediata e que já entrevistei aqui, está completando dez anos de militância cultural e negra e vai fazer isso na rua, sábado (7), às 16h, na Praça Clodesmidt Riani, convocando o público a se vestir com as cores do dancehall jamaicano: vermelho, amarelo e verde. O projeto foi criado pelos DJs Crraudio, Ocrioulo e Amanda Fie como forma de afirmar espaços para DJs negros nas festas mainstream da cidade. Tanto conseguiram que um dos integrantes, o Crraudio, é um dos sócios do Clube Contra, uma espécie de cooperativa de DJs que mudou para sempre a vida noturna da cidade, colocando o DJ como protagonista. Além dos DJs fundadores, o bloco recebe a DJ paulistana Paula Fayá, referência nacional no dancehall, conhecida por sets que dialogam com a cultura de sound system, a pista quente e a pesquisa profunda das matrizes jamaicanas e suas conexões contemporâneas. “Desde o início, a Makoomba se propôs a trabalhar discotecagens afrodiaspóricas, trazendo para o centro da festa ritmos que, à época, apareciam de forma pontual ou marginalizada nas pistas comerciais. Dancehall, funk, reggaeton, afrobeat, ritmos caribenhos e eletrônica periférica sempre estiveram no DNA do projeto, não como tendência, mas como prática contínua”, explica a braba Amanda Fie. O Makoombloco também contará com um pocket show de Dona Chapa, integrante da Makoomba, que aproveita o carnaval para lançar seu novo single. Após o bloco, a celebração continua no after oficial no Clube Contra, fortalecendo a ponte entre rua e pista, entre o espaço público e o clube, marcas centrais da trajetória da Makoomba ao longo da última década.

O mineiro Nobat lança “Telaviva”. Fotos: Rafael Sandim

Eu já tinha falado do mineiro radicado capixaba Nobat aqui, quando ele lançou o bom álbum “Mestiço”, o terceiro de sua discografia. Ele agora está na trilha do novo projeto, “Movimento”, obra multidisciplinar que se desdobra em música, literatura e cinema, com lançamentos previstos ao longo de 2026 e 2027. Depois de inaugurar a nova fase com “Antes de Kyvi”, Nobat apresenta agora “Telaviva”. Composta pelo artista, “Telaviva” parte de uma observação aguda sobre um dos grandes dilemas do mundo contemporâneo: o vício nas telas e na chamada “luz azul” dos dispositivos eletrônicos — celulares, computadores, televisores — que passam a mediar quase todas as experiências humanas. Na canção, essa luz artificial se impõe como um filtro constante entre o sujeito e o mundo, anestesiando o olhar e empobrecendo a experiência sensorial. Nobat transforma essa crítica em uma celebração pulsante da vida real.  Musicalmente, “Telaviva” traduz essa tensão em movimento, groove e celebração através de um afrobeat latino. A faixa é conduzida por uma guitarra suingada, um baixo profundamente groovado e um beat que mistura referências da música eletrônica com o baião nordestino. Camadas de guitarras atmosféricas criam climas que dialogam com a estética pop contemporânea, enquanto o trompete injeta o tempero latino. Acompanha um videoclipe dirigido pelo fotógrafo e pesquisador Rafael Sandim, filmado integralmente no Espírito Santo.

O príncipe do brega: Naré, que também é diretor de audiovisual. Foto: Akha Rubi.

Lembra que eu falei aqui do Naré, 33 anos, paraense que dirige audiovisual por meio de aparelhos celulares e acaba de ganhar nove indicações no Music Video Festival Awards 2025 com o curta “Rock Doido (O Filme)”, de Gaby Amarantos, que dirigiu com Guilherme Takshy e Gaby, nas categorias Melhor Videoclipe Spcine, Melhor Videoclipe em parceria com YouTube, Potência Criativa, Revelação em Direção, Direção de Arte, Coreografia, Figurino, Narrativa e Projeto Especial.

Depois do lançamento do EP com sua banda, a Samaúma, que faz pesquisa musical de ritmos como tecnobrega, eletromelody e carimbó, ele lança agora o projeto solo, Naré, com o EP “Orgulhosamente Brega Vol. 1”, com direito a clipe para “Lilian”, uma releitura emocionante do clássico de Beto Maia, um dos grandes mestres do brega, dialogando com um trecho de “Wicked Game”, de Chris Isaak, criando uma ponte inesperada entre o brega amazônico e a canção pop internacional. O clipe foi gravado no belíssimo Theatro da Paz, no Museu do Estado do Pará e nas ruas dos bairros Campina e Guamá. No roteiro, Naré, um homem gay, contracena com uma mulher trans, a bailarina Letícia Pinheiro, falando da relação entre o homem gay e as mulheres trans, inspirado em amigos. “Sempre abordo essa temática nos meus vídeos ou tento incluir outros grupos tidos como minorias. O público LGBTQIA+, hoje, é o público que mais engaja trabalhos independentes tipo o meu e são os responsáveis também por movimentar a cena cultura não só de Belém, como do Brasil como um todo. Ainda nos bastidores das minhas produções, a maioria é formado por artistas LGBTQIA+”, me conta, em papo pelo chat do Insta. O EP marca a consolidação do artista como um dos novos expoentes da música nortista contemporânea, dialogando com movimentos como o amazofuturismo, mas com os pés firmes no chão da cultura popular. Tanto “Foguinho”, da Gaby Amarantos, quanto “Lílian”, em versão remix da sextante Mist Kupp, da qual falei antes aqui, em post sobre a coletânea “Maré”, estão na atualização anual da playlist de carnaval da Sexta Sei. Na seleção, ainda tem Dornelles batendo o leque e piscando o c* ao mesmo tempo, por favor, remix rock doido de Liniker, a vampirinha da Ivete Sangalo, lançamento póstumo de Marília Mendonça e um remix esperto dela e Gal do querido Strausz, o Jet Ski do Pe-dro-Sam-pa-io com Melody, Teresa Cristina cantando Zeca Pagodinho, Spok, a Espetacular Charanga do França, o “mais forty” da Clementaum e mais refrescos carnavalizantes.

O agendão das maravilhas segue nos destaques do meu Instagram, separado por cidades, e em thread infinita no X.

A #SextaSei entra hoje em recesso de Carnaval, voltando no dia 27, com entrevista com a banda Punho de Mahin, que lançará o álbum “Entre a penitência e a ruptura”

Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta. Todas as playlists de 2025, 2024, 2023 2022, 2021 e 2020 nos links

Para melhores resultados, assista na smart TV à playlist de clipes com Naré, Hilreli, Jáder + Jaloo, Seu Jorge, Cannons, Mika, Paris Paloma, grandson, Dorian Electra, John Summit, Don Toliver, sace6, Jubed + Oxlade + Yemi Alade, MC Luanna, Tokischa, no na, Santos Bravos, Jasper Okan, Fcuckers, Coucou Chloe, Ella A, Henri Vasques, Christine and the queens + Thee Diane, Vitão, Dax, GA31 e Anamaryb, MonchMonch, Arlo Parks, Babymorocco, Christine Valença, Luiza Carmo + Augusta Barna, Kesha, 

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