O lado compositora desabrochou durante a pandemia, período no qual aprendeu a tocar piano
por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com
Victor Ivanon, 33 anos, transforma-se há dez anos em Ivana Wonder, drag queen cantora, compositora e atriz que faz sua estreia solo nesta sexta (14) com o álbum “Primeiro ato”, com composições suas e uma interpretação de “Quem sabe?”, de Carlos Gomes, que conheceu durante o processo de filmagem d0 longa metragem “Três Tigres Tristes”, de Gustavo Vinagre, que ganhou o Teddy Award de Melhor Filme no Festival de Berlim em 2022. É que Ivana é multiartística, como mostra em seu trabalho de estreia, desdobramento do trabalho de composição que começou com o produtor e DJ Márcio Vermelho no projeto de música eletrônica Vermelho Wonder. ”Eu sempre escrevi muito. Gostava de escrever poesias, textos, pensamentos, mas quando decidi fazer um projeto acústico, que é o que ‘Primeiro Ato’ representa, aconteceu uma outra formulação. Não era necessariamente uma música de pista, e os temas eram mais pessoais. Esse outro lado da compositora foi desabrochando durante a pandemia, naquele momento de solitude plena. Foi um período horrível, mas eu me cerquei de arte o máximo que pude para conseguir atravessar aquele caos mental de estar presa em casa, sem saber o que ia acontecer, inclusive em relação ao trabalho. Foi também quando comecei a aprender piano, e isso passou a me ajudar diretamente na composição. Então a pandemia foi um momento muito crucial para essa virada que acabou nos levando ao ‘Primeiro Ato’, me conta, em delicioso papo para a Sexta Sei. “E esse também é o meu primeiro disco, então eu queria que ele fosse um disco de apresentação. (…) Como sou uma artista que também trabalha muito com a imagem, ela acaba sendo um suporte e um veículo para a música. Então é muito importante para mim pensar as músicas como cenas, criar ambientes, temperaturas, lugares e atmosferas”, arremata.
Moreira – Seu nome é uma homenagem à Cláudia Wonder, performer, escritora, cantora-compositora, colunista e militante travesti brasileira pelos Direitos LGBT que nos deixou em 2010? Desde quando você é drag queen? Acho interessante como você costuma deixar o tórax cabeludo à mostra e não usar perucas, questionando ainda mais as barreiras e definições de gênero.
Ivana Wonder – Curiosamente, meu nome não é uma referência à Cláudia Wonder. Quando eu comecei a me montar, eu ainda não a conhecia. Foi depois, talvez um ou dois anos depois, quando comecei a me embrenhar mais na cultura drag e travesti, por volta de 2015, que conheci o trabalho dela e fiquei completamente apaixonada. No primeiro momento, até fiquei um pouco receosa. Pensei: “Será que vão me odiar porque eu tenho o sobrenome de uma travesti lendária?”. A Cláudia era uma figura icônica, punk, transgressora, inteligentíssima, atriz, escritora, cantora. Eu até cogitei trocar o “Wonder”, mas, ao mesmo tempo, percebi que havia alguma coisa daquele nome que conversava comigo. Eu também já flertava com o punk, com o rock, com uma coisa mais transgressora. Então, achei que cabia. É uma pena eu não ter tido a oportunidade de conhecê-la. Mas o nome não nasceu como uma homenagem a ela. Foi uma coincidência que acabou ganhando um significado muito bonito para mim depois. Eu comecei a me montar em 2014 e comecei a me apresentar como drag no final de 2015, entrando em 2016. Então já são cerca de dez anos vivendo essa experiência.
Moreira – Os seus lados cantora e compositora foram despertados pelo projeto Vermelho Wonder, que você desenvolve com o DJ e produtor musical Márcio Vermelho? Como essa experiência foi importante para a sua partida para a carreira solo, com “Primeiro Ato”? Foi, durante a pandemia, que esse lado compositora floresceu mais?
Ivana Wonder – Sim. As minhas primeiras músicas foram compostas com o Vermelho Wonder, e foi um processo muito embrionário. Eu não sabia exatamente o que fazer, e fomos construindo juntos. O Márcio sempre foi muito generoso comigo, me deu muito espaço e muita liberdade para criar. A gente foi experimentando coisas, escrevendo, criando sons, às vezes em português, às vezes em inglês. E fazemos isso até hoje, dez anos depois. O Vermelho Wonder foi um grande laboratório de performance, escrita e música. A gente compunha uma música, ia tocar em uma festa e praticamente testava aquela música com as pessoas. Depois voltava para o estúdio e conversava: “No show foi assim, assim e assado, talvez a gente pudesse mudar isso ou aquilo”. As músicas eram testadas empiricamente. Foi uma experiência muito importante para mim. Eu sempre escrevi muito. Gostava de escrever poesias, textos, pensamentos, mas quando decidi fazer um projeto acústico, que é o que “Primeiro Ato” representa, aconteceu uma outra formulação. Não era necessariamente uma música de pista, e os temas eram mais pessoais. Esse outro lado da compositora foi desabrochando durante a pandemia, naquele momento de solitude plena. Foi um período horrível, mas eu me cerquei de arte o máximo que pude para conseguir atravessar aquele caos mental de estar presa em casa, sem saber o que ia acontecer, inclusive em relação ao trabalho. Foi também quando comecei a aprender piano, e isso passou a me ajudar diretamente na composição. Então a pandemia foi um momento muito crucial para essa virada que acabou nos levando ao “Primeiro Ato”.
Moreira – A escolha de “Primeiro Ato” para o título de seu álbum de estreia também fala do conceito teatral do projeto. Você é uma grande criadora de imagens, dramática. Para você, a música é sobre cenas, ela constrói um ambiente, uma personagem, uma temperatura?
Ivana Wonder – Para mim, é 100% sobre cenas. É muito difícil descolar a música da imagem. Acho que a minha cabeça funciona de uma maneira muito sinestésica. É som, imagem, cheiro, toque, textura, temperatura. São muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Era inevitável que as músicas de “Primeiro Ato” nascessem desse lugar. Eu pensava nelas como cenas, como grandes fragmentos de uma história. O próprio “Primeiro Ato” é quase uma ouverture de um musical ou de uma ópera, em que você recebe um pouco de tudo aquilo que vai acontecer. E esse também é o meu primeiro disco, então eu queria que ele fosse um disco de apresentação. É quase como dizer: “Olha, eu posso ser muitas coisas. Entendam isso. Não se apeguem a nada, mas aproveitem tudo”. Como sou uma artista que também trabalha muito com a imagem, ela acaba sendo um suporte e um veículo para a música. Então é muito importante para mim pensar as músicas como cenas, criar ambientes, temperaturas, lugares e atmosferas.
Moreira – Seu álbum também vem questionar o que se definiu por drag music, algo que a dupla carioca Sara e Nina também tem feito, saindo um pouco do pop adotado pela maioria das drags cantoras e dando espaço explícito ao drama. Você pretende ocupar mais espaços que o pop?
Ivana Wonder – Em alguma medida, eu jamais ambicionei o pop. Eu nasci no underground, como drag, como essa figura cantante nas festas de música eletrônica, nos cabarés. Então nunca fui muito seduzida pela ideia de ser uma artista pop. Mas acho que a visibilidade é importante justamente para sair desse lugar. Não para abandonar o underground, mas para não ficar relegada a ele para sempre. Para mim, é sobre ocupar espaços comuns. É sobre ser uma drag que faz música, e não necessariamente fazer “drag music”. Eu nunca escrevi sobre ser uma drag. As minhas músicas não falam especificamente sobre isso. Elas falam muito mais sobre ser um ser humano, sobre coisas comuns, que podem ser compartilhadas por todos nós. E minhas ambições também não estão necessariamente relacionadas a chegar a algum lugar ou atingir o mercado pop. Minha ambição é ter qualidade de vida e qualidade de trabalho para poder fazer o que faço. Poder fazer música, ser uma drag, fazer um show bonito. Obviamente, ainda preciso fazer muitas outras coisas no meio disso tudo, porque não dá simplesmente para só ser. É preciso fazer alguns arranjos na vida para que essas coisas aconteçam.
Moreira – Você assina todas as composições do álbum, com exceção de uma interpretação de Carlos Gomes, “Quem Sabe?”. Como foi a escolha dessa canção e o que caracteriza as suas composições próprias, qual foi o universo criado com o álbum?
Ivana Wonder – Eu conheci “Quem Sabe?” em um filme que gravei em 2021, “Três Tigres Tristes”, dirigido por Gustavo Vinagre. Fui atriz no filme e a música aparece em uma das cenas. Eu lembro de ter ficado hipnotizada pela performance da atriz que fazia aquela cena e cantava a música, e também pela própria canção. Tanto que eu acabei gravando exatamente aquele trecho no disco, e não a música inteira. Ela tinha esse tom de despedida e, quando ouvi, o “Primeiro Ato” já começou a existir na minha cabeça. Eu pensei imediatamente: “Essa é a última música do disco”. Ela é a última cena. Fui atrás, descobri que era uma composição de Carlos Gomes e que já estava em domínio público. Pensei: bom, todos os sinais estão aí. Para mim, aquela música era a cena final. Eu, ao piano, em um cabaré, cantando a última música, bêbada, indo embora. “Já acabou, gente. É isso. Muito obrigada. Tchau.” Então fez muito sentido que fosse “Quem Sabe?”. Quando comecei a pesquisar os arranjos, fui entrando cada vez mais nas diferentes versões da música. E, quando encontrei uma versão do Ney Matogrosso, com aquela voz angelical, tive certeza de que era uma música muito especial. As coisas foram se conectando. Sobre as minhas próprias composições, acho que elas têm muita emoção. Existe quase sempre um sentimento central, uma questão que se repete ao longo da música. Eu costumo dizer que escrevo músicas para tentar resolver alguns problemas da minha cabeça, para ver se eles saem um pouco de mim. A música gira em torno dessa tentativa, que nem sempre é bem-sucedida, de resolver alguma coisa. Acho que a maioria das minhas músicas parte desse lugar. Na escrita, também sou um pouco menos literal. Gosto de chegar às coisas através de outras figuras de linguagem, de tocar no assunto por outros caminhos. É um processo bastante fluido e, muitas vezes, mais instintivo do que planejado. E o universo que eu quis criar para o disco é, na verdade, o universo que eu já habito. Ele já existe. É o universo da Ivana Wonder, esse mundo fantástico e mágico que cheira a perfume, cigarro e veludo. É um mundo que me rodeia há muito tempo e que agora eu convido as pessoas a conhecerem e fazerem parte. É uma experiência e tanto.
🌊🪼🫧🐚𓆝𓆟 Como uma onda no mar 𓆞𓆝𓆟𓇼🪼🫧🐚🫧🌊
A sextante Maglore que eu gosto lança seu sexto álbum de estúdio, “Fluxo Natural”, mantendo o compromisso central da banda com a canção, influenciada, principalmente, pela sonoridade dos anos 80, com toques da década de 70. Ao mesmo tempo, a banda amplia as influências de seu som característico, que mistura indie, rock brasileiro, folk e MPB. O trabalho foi gravado entre maio e abril deste ano no Estúdio Kapa, na casa de Teago Oliveira, vocalista e guitarrista do grupo que é formado também por Lelo Brandão (guitarra e teclado), Lucas Gonçalves (baixo e voz) e Felipe Dieder (bateria). Contrastando a ideia fluida do título do álbum com a rigidez dos formatos geométricos, a capa de “Fluxo Natural” é assinada por Teago Oliveira. “O fundo preto, a sensação de espaço, o vazio, o cosmos, até as quatro cores, que são os raios de luz, emoções, temos a energia do mais quente ao mais frio”, conceitua o artista. “Mas também pode representar os quatro integrantes da banda como construção do tempo, quatro linhas contínuas e paralelas, cada uma com sua própria cor”, conclui.
E da Bahia, a gente espera é “Vanguardah”, como a que o rapper e poeta urbano Vandal, pioneiro do grime e do drill no Brasil, apresenta em seu quarto álbum, lançado em celebração ao Dia de Santa Dulce, reunindo rap, samba-reggae, pagodão baiano e música afrosinfônica em um manifesto sobre vida, urgência e pertencimento. Com produção de Tiago Simões, direção musical de Russo Passapusso, da sextante BaianaSystem, e uma aproximação do artista com o maestro Ubiratan Marques e da Orquestra Afrosinfônica, Vandal expande sua linguagem sonora. O álbum conta com as participações de Russo Passapusso, Josyara, o sextante Giovani Cidreira, Liz Reis, Lívia Nery, SUHHH, Hiran e DJ KL Jay, além de músicos como Paulo Pitta, Colibri e integrantes da Orquestra Afrosinfônica.
Tem abertura no próximo dia 20, às 19h, e fica em cartaz até o dia 23, no Tenetahara, a exposição “Febril – Cartografia da Noite”, com fotos de João Vitor Tebaldi, selecionadas por sua namorada, a estudante de moda Maria Clara Santos, que mergulhou em um acervo de mais de sete mil fotografias, capturadas entre 2022 e 2026, para transformar o arquivo em uma narrativa sobre resistência e subcultura. O projeto é a síntese de um ano de pesquisa etnográfica conduzida sob orientação do Prof. Dr. Henrique Grimaldi, com financiamento do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Artística (PIBIART). As fotos passeiam por eventos no Clube Contra, uma espécie de cooperativa de DJs, no laboratório urbano Marginal Lab, na mini rodoviária, na festa “Ninguém toca isso em JF”, focada na valorização da figura do DJ, e nas calouradas do Instituto de Artes e Design (IAD) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). “Mais do que um registro sobre a madrugada, trata-se de mapear a cena e reconhecer as vivências noturnas como patrimônio cultural imaterial”, analisa Maria Clara Santos. A moda firma-se como linguagem, suporte e forma de expressão primária. A cena utiliza constantemente o ritual da “montação”, como a deste velho lobo da imprensa, que já foi clicado pelo Tebaldi, no último Makoombloco, com tema Dancehall.
Pessoas usando tapa-olhos têm a minha total simpatia, como já havia manifestado na página com o sextante Antínoo. Quem utiliza do recurso em sua nova era é a cantora e compositora paulistana Julia Benford, que lança o single “Imã” nesta sexta (14), um folk-rock influenciado por artistas como Florence Welch, Rita Lee, The Last Dinner Party e Cássia Eller, antecipando o primeiro álbum solo da artista, chamado “Retalho carrossel”, sucessor do EP “Naked as my soul” (2024). Julia assina a direção de arte e o figurino do divertido clipe. Ela já passou por grupos como Venus Wave, Os Sabiás e Hurricanes, banda que participa desta gravação com a participação dos integrantes Henrique Cezarino (baixo) e Leo Mayer (violões, guitarras, arranjos, produção, mix e master). O single aborda a dualidade de emoções em um relacionamento. “Uma relação amorosa nunca é uma linearidade, tem momentos em que queremos estar grudados, outros que queremos nosso próprio espaço. O amor é uma droga como qualquer outra: ele nos dá euforia, mas também a abstinência“, comenta a artista sobre a faixa. Sobre o figurino de “raposa vira-lata”, ela conta que o álbum apresenta um universo fantástico de criaturas e símbolos, com seres feitos a partir de retalhos de tecido e botões perdidos. Todo o cenário e o figurino para o clipe foram feitos de maneira artesanal, utilizando papelão, cerâmica fria, papel machê e tinta. “O vídeo reforça o amor às manualidades e o poder da criação do seu próprio universo para traduzir a história de uma canção”, reforça Julia.
O agendão das maravilhas segue nos destaques do meu Instagram, separado por cidades, e em thread infinita no X.
Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta, com álbuns de Jungle, Maglore, Funmilayo Afrobeat Orquestra, Jon Batiste, Os Amantes, Dana and Alden, Icona Pop, Ayra Starr, The Script, Phoebe Bridgers, Channel Tres, Benny Blanco, The Script, Medulla, Priscilla, EP de Katseye. Todas as playlists de 2025, 2024, 2023, 2022, 2021 e 2020 nos links
Para melhores resultados, assista na smart TV à playlist de clipes com Madonna + Kylie Minogue, Jessie Ware, Carly Rae Jaepsen, Rebecca Black, Ellie Goulding, Fireboy DML + Masicka, Wry, Dead Poet Society, Kabaka Pyramyd, Vitão, Ayham, Leffs, Candy Mel, Vannick Belchior, Duda Beat, Julio Secchin,Tuide, Tyga + $tarface, Empress off + Cecile Believe, no na, Jão, Quelle Rox, magnólia, Owerá + Lozk, Taftir, Cyberkills + Maritza & Skyors, Afreekassia, Julia Benford, Cage the Elephant, The All-American Rejects, Royal Blood, Jenevieve, anaiis, Kayode + GVS, Sam Smith, Leopold Nunan, Supercombo, Larissa Luz, Allie X, Maria Luiza Jobim, Tinashe, Gilsons,Floyymenor, Paulo Londra,
A campanha de crowdfunding da coluna continua, já atingimos 78,1%. Prefere fazer um PIX? O pix da coluna é sextaseibaixocentro@gmail.com
