Sexta Sei: Cria da Submundo 808, ERICK.JPG gosta de brincar com opostos e inesperados para causar desconforto e estranheza com sua “imagética_sonora”

É a JPG, a DJ que tá barulhando”, avisa a produtora, conhecida por sua presença crescente nos line-ups de festas underground, como a Submundo 808, a Trevvo e Trophy, que estreia em mixtape com trajetória que começou no Soundcloud

por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com

Autorretratos de ERICK.JPG

Projeto que começou, inicialmente, no Soundcloud, plataforma na qual já tem mais de 20 mil plays, a mixtape “imagética_sonora”, da produtora não-binária paulistana ERIK.JPG, de Carapicuíba, na Zona Oeste de São Paulo, é uma portrait da cena underground paulistana em festas com a Submundo 808, Trevvo e Trophy, na quais despontou. A mixtape, construída de forma colaborativa com outros produtores e MCs, traz um panorama das sonoridades funk bruxaria, hyperpop,  Electronic Dance Music (EDM), bubblegum bass e guaracha. “Tudo começa no Soundcloud, para que todos possam acessar, escutar e conhecer com facilidade e se expande pra além pra que mais pessoas ainda possam conhecer também. Eu dei a nomenclatura de mixtape mesmo porque é tipo dar boas vindas ao mundo de produção, mas já dizer tipo “olha que trabalho lindo recheado de gente talentosa”, me contou, em papo por e-mail. “De fitas cassetes à chegada do DVD, fui me identificando com a música pop e, com a chegada do digital, pude expandir mais ainda meus gostos até chegar no hyperpop, após todos esses anos e me inserir na noite paulistana, descobri inúmeras possibilidades e passei anos estudando pra pensar como eu poderia ir além de mixar, mas criar minhas atmosferas próprias também”, finaliza.

A capa da mixtape “imagética_sonora”

Moreira – De onde veio o seu nome artístico, ERICK.JPG? E porque as novas gerações querem escrever tudo em caixa alta? Risos  É um questionamento que tenho levado a vários artistas, como BUHR e MONCHMONCH, pois é algo crescente. Só consigo lembrar daquele trecho dos Novos Baianos em “Ao poeta”. “A filha de Baby criou um problema para a grafia”.

ERICK.JPG – Meu nome artístico veio por um apelido por conta do usuário do meu Instagram, sempre fui apaixonada por fotografia e era por isso que tinha um .jpg lá, já que a rede social inicialmente era pra isso, porém quando eu trabalhava de filmmaker na noite de São Paulo todos começaram me chamar assim, como “o JPG”, “a JPG” e aí eu encontrei um significado dentro disso a partir do meu estudo pessoal de imagem, da forma como você pode até não saber meu nome, mas sempre vai se lembrar da minha “imagem” por ser marcante de alguma forma. Olha, eu sou uma pessoa muito aversiva, eu gosto de brincar com opostos e inesperados, de causar desconforto e estranheza. Então solidificar e estilizar o nome todo em caixa maiúscula é pra ir além do destaque, é pra causar estranheza com o fato de ser “.JPG” e você poder ouvir aquilo, gosto muito de brincar com o sentido alheio das coisas.

Moreira – Acompanho as festas Submundo 808, Trevvo e Trophy (do querido Tintel) pela internet, com bastante curiosidade, especialmente pela Submundo 808, que tem uns paredões imensos, pelas fotos, e está fazendo edições em todo o país. Conta mais sobre essa sua cena. Tem tudo a ver também com a sonoridade da sua mixtape, que é da geração de vocês e que eu adoro acompanhar, som pesado, focado em graves, maximalista, barulhento, quase-histérico, como o de Clementaum, Cyberkills, RaMemes, Chediak e Adame

ERICK.JPG – Submundo 808 se tornou a festa de funk mais conhecida do momento e não é à toa, lá, os DJs são as grandes estrelas, as pessoas vão lá pra vê-los se apresentando, pra curtir cada momento com seu artista favorito. A Submundo expandiu o leque de possibilidades pra muito além do funk e isso permitiu que o público se diversificasse muito tambem. Depois que você toca na Submundo, você vira uma estrela também, o resto todo passa a te ver e respeitar de outra forma. Antes de tudo isso, vem a Trevvo, que é um coletivo lindo que eu conheci desde a primeira festa e se tornou a que eu mais sonhei tocar… Agora, já estou indo para terceira edição que componho o line! Já a Trophy é simplesmente uma das festas que mais sonhei em tocar também e, quando tudo aconteceu, foi lindo, eu ia nessa festa até antes da pandemia, eu gosto muito de frequentar a festa, pois o que eu mais escuto no dia a dia é hyperpop! Todas essas festas compõem muito do que eu estudei pra compor o corpo da mixtape.

Moreira – Porque trazer essa linguagem da mixtape, porque tudo começou no Soundcloud e é uma nomenclatura mais dessa plataforma? No Spotify, entra como álbum mesmo, mas tem clima de mixtape, algo mais underground, colaborativo, construído coletivamente, “costurado”. 

ERICK.JPG – Eu sou meio suspeita pra falar, mas eu amo me dar um tratamento de diva pop e, desde que começaram a me chamar assim no começo da carreira, eu comecei a observar como eu poderia me comunicar a partir dessa visão, com as nomenclaturas que saem de um lugar, mas miram em outros também, sempre tudo em uma constante expansão. Tudo começa no Soundcloud, para que todos possam acessar, escutar e conhecer com facilidade e se expande pra além pra que mais pessoas ainda possam conhecer também. Eu dei a nomenclatura de mixtape mesmo porque é tipo dar boas vindas ao mundo de produção, mas já dizer tipo “olha que trabalho lindo recheado de gente talentosa”.

Em Presidente Prudente, a convite da @prod.caixapreta na ReQuebra Tour, com📸 fotos por @mariane_____

Moreira – Me fala mais sobre as sonoridades de álbum, que mistura hyperpop, EDM e funk experimental, com muito beat bolha, que é super legal e, segundo o Adame, é capixaba, com referências também a bubblegum bass, guaracha e pop. Quem são os produtores do álbum, como Votú e DJ Tormenta, e o que você ouviu e acabou influenciando na criação desse volume? Importante também falar da colaboração com muitos MCs, como a MC Mary Maii, Puccatsunami e tantos outros. A colaboração, hoje, é muito importante na criação musical. 

ERICK.JPG – Eu escuto pop no meu dia a dia desde pequeno, minha mãe e meu pai me criaram escutando música, tudo porque eles sempre amaram trabalhar e fazer toda qualquer coisa com música rolando. De fitas cassetes à chegada do DVD, fui me identificando com a música pop e, com a chegada do digital, pude expandir mais ainda meus gostos até chegar no hyperpop, após todos esses anos e me inserir na noite paulistana, descobri inúmeras possibilidades e passei anos estudando pra pensar como eu poderia ir além de mixar, mas criar minhas atmosferas próprias também. DJ Tormenta é minha irmã de sangue, nasceu quando eu tinha seis anos, mas foi letrada, musicalmente, do mesmo jeito que eu, e até por mim, quando descubro o que eu gosto de verdade, é quase como se fosse o mesmo neurônio e, nas diferenças, a gente se encontra pra ir além musicalmente. Votú simplesmente estudou música no exterior com um dos engenheiros de som da SOPHIE, minha maior inspiração pra mixtape e as experimentações de “texturas” que eu amo usar. Juntar tudo isso às colaborações foi um tanto inesperado, pois muitos dos MC’s que estão no álbum não tinham feito colaboração em sons tão ousados até então e ficaram bem surpresos com o resultado final, em um bom sentido.

ERICK.JPG por @edson.jss & @gsgiraldi no Baile da Marzini

Moreira – Foi você mesmo quem fez esse look absurdo de upcycling de jeans ca capa a das fotos de divulga? Achei muito legal, além de trazer mensagem importante sobre reciclagem em um planeta em escassez. Aqui em Jufas (como chamamos Juiz de Fora-MG), tem uma marca bem legal, a Up.Co. Ainda sobre o vestuário, você usa, em várias faixas, a tag “De Durag no comando”. Qual a importância política do durag? O acessório era usado por pessoas escravizadas no trabalho no campo, nos Estados Unidos da América (EUA); depois, nos anos 30, com o renascimento do Harlem, para proteger penteados elaborados, e nos anos 80 e 90, na cultura hip-hop, mas também por gangues e pelo crime organizado. E qual o lance com a panela, tema de “panelaço1_Vaso”, é tipo um menine maluquinhe ou um panelace?

ERICK.JPG – Eu fiz a composição do look, toda e qualquer roupa que eu visto geralmente é minha mãe que faz e confecciona, tipo as luvas, a durag que estou usando ela quem fez, eu amo jeans, amo toda possibilidade que existe por meio de peças que, às vezes, são muito antigas, e as pessoas não querem. O cropped da capa foi estilizado pela Medonha, marca da tiktoker Festi, que também está presente na mixtape. Já a saia é feita pela minha eterna amiga VASO, que nos deixou no último ano e é quem eu homenageio na segunda música da mixtape, ela amava o panelaço, que é esse som da galera da era PC music, do Hyperpop, eu fiz essa música pensando nela, no que ela ia gostar de ouvir, foi minha forma de enfrentar o luto por ela. Vaso foi e sempre será minha NB maluquinha! Ainda é um tanto difícil falar sobre o tema da Durag pra mim em pessoal, mas ela me salvou de muitas maneiras ao longo dos anos, para além de proteção energética na noite, ela se tornou uma marca minha, pois eu nunca mais parei de usar, muitas pessoas nem tem ideia de como eu sou sem Durag hahaha esse acessório é como se fosse uma lace que vai além, que sempre combina com os meus looks, por onde eu passo e que, graças à minha mãe, estamos fazendo durags cada vez maiores e mais ousadas pra eu usar.

🌊🪼🫧🐚𓆝𓆟 Como uma onda no mar 𓆞𓆝𓆟𓇼🪼🫧🐚🫧🌊

Fausto Fawcett no SIM São Paulo por Bia Ferrer
Show de abertura com Pink Opake, com voz de contralto e sintetizadores de Tatiana Meyer, programações e guitarras angulares de Paulo Beto e baixo e intervenções de sax de Mari Crestani. Foto Rogério Alonso

No dia quando as chuvas destruíram Juiz de Fora, 23 de fevereiro, o sextante filósofo contemporâneo Fausto Fawcett lançava seu mais recente álbum, “Pesadelo ambicioso” (2026), gravado com o coletivo Chelpa Ferro, com direito a citação à cidade em “Grito motor”, aonde, “em Juiz de Fora, as pessoas gritam junto com as máquinas”, numa espécie de prenúncio apocalíptico. Depois de mais de 20 anos sem vir a Juiz de Fora, quando se apresentou com suas louras satanás Kátia Flávia e Regininha Poltergeist no primeiro Front São Matheus, atrás da igreja, no segundo, ao lado do Instituto Maria, e na Privilège o escritor, filósofo contemporâneo e músico Fausto Fawcett retorna com a tour Animakina, show que é uma experiência audiovisual com os juizforanos Jodele Larcher, na direção geral e nos visuais, Paulo Beto, nas guitarras, na direção musical e nas programações, e Lucília Coelho, da Inova.TV, na produção, além do baixista paulistano Mari Crestani (baixo , sax e vocal), no dia 30 de maio, sábado, às 20h, no Teatro Paschoal Carlos Magno. Além dos grandes sucessos do artista, como “Kátia Flavia, a Godiva do Irajá”, “Rio 40 graus” e “Básico Instinto”, ele apresenta também faixas de seus mais recentes álbuns, com “Favelost” (2024), com o produtor Furio e direção geral de Jodele Larcher, tema de belíssima edição da Sexta Sei. Os ingressos já estão à venda no Sympla, e o show está em tour nacional por espaços especiais, como o SIM São Paulo, o Teatro de Arena do Sesc Copacabana, o Blue Note São Paulo e pé na estrada. 

Em frente à Casa de Francisca, em São Paulo: Mari Crestani, Fausto Fawcett e os juiz-foranos Paulo Beto e Jodele Larcher. Foto: Fotos Vinícius Giffoni

Ah, tem show de abertura com a Pink Opake, a outra banda de Paulo Beto (programações e guitarras angulares) e Mari Crestani (baixo e intervenções de sax), que se juntam a Tatiana Meyer, com sua voz de contralto e ainda no comando de sintetizadores. O trio paulistano mistura post-punk, eletrônica e ruído em uma performance intensa e minimalista. 

Um dos acontecimentos do ano foi o lançamento do álbum Todos os cães merecem o céu” (2026) 🐾, em março, pela banda de estrada Chococorn and The Sugarcanes, ícones do emo caipira, originalmente de Santa Bárbara d’Oeste (SP), mas lançada em tour nacional constante desde o lançamento do primeiro álbum “Siamês” (2024). Eles são uma banda de estrada que entende a “Língua dos cachorros”, e os sentimentos da vida em turnê estão no clipe de “Entre algumas vias e outras vias ainda maiores”. “É ansiedade, abandono de outras ambições e relações pessoais. O clipe ilustra isso, mostrando um dia de viagem, que começa com problemas individuais e termina com a satisfação e felicidade de estarmos juntos”, conta Pipe Bacchin, integrante da banda, que assina a direção do vídeo ao lado de Bianca Souza. O clipe foi filmado em Santa Bárbara d’Oeste e em Santa Maria da Serra, no interior de São Paulo.A tour não pode parar, claro, e eles passam pelo Maquinaria no dia 5 de junho, às 20h. Eles são insuportavelmente fofos e criaram até um joguinho cooperativo, Chococorn: Operação embaixo d’água” para enfrentar o caos e restaurar a gentileza no mundo. Os personagens são inspirados em instrumentos musicais, e a banda usa suas habilidades especiais, de riffs poderosos a batidas devastadoras, para resgatar cães 🐾, enfrentar inimigos e completar missões.

Fotos: Pietro Rocha
Fotos por Mariana Maria

Nada será mais bonito e sublime, essa semana, que o novo álbum da produtora, compositora e cantora Bebé, que acaba de lançar, com produção dela e do irmão, Felipe Salvego, “Dissolução”, inteiro bom de ouvir, do começo ao fim, com participações das sextantes Tuyo e Brisa Flow e também Tássia Reis, minha quase-conterrânea de Jacareí, Marissol Mwabá e Ana Karina Sebastião, em um cuidadoso percurso entre o jazz, o indie e a música brasileira. A artista paulistana inicia um novo ciclo. “Fiz esse disco pra instigar as pessoas a terem coragem. A decidir coisas, falar o que não falariam, fazer o que só fariam no off.” A construção sonora do disco se apoia também na presença de instrumentistas como a sextante Badi Assad nos violões, Vanessa Ferreira no baixo acústico, Alana Ananias na bateria e a norte-americana Dee Simone – conhecida por suas colaborações com artistas como Doechii – ampliando o alcance sonoro do trabalho sem perder sua intimidade.

O agendão das maravilhas segue nos destaques do meu Instagram, separado por cidades, e em thread infinita no X.

Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta. Todas as playlists de 2025, 2024, 2023 2022, 2021 e 2020 nos links

Para melhores resultados, assista na smart TV à playlist de clipes com Ibeyi, Givēon, Muse, Foo Fighters, Evanescence, mgk + Wiz Khalifa,  Melly, Boys Noize + Taichu + Taube, Tatanka + Bateu Matou, Kesha, Leandro Serizo + Cauãzin 019, Varanda + Dinho Almeida, Chococorn and the Sugarcanes, Daniela Mercury + Chico César, Julie Neff, Silva, Psirico, MC Guimê + DJ Pãozinho + Eagle, Buju Banton, Protoje + Jesse Royal, Holding Abscence, D$ Luqi, Rosana Puccia, Dilsinho, Taylan + Mozão Beats, Dizzee Rascal, MC Alanzinho ZM, MC FR da Norte, MC Brenninho VJ , Drake + Future + Molly Santana, Jembaa Groove + Azekel, Becky G, Lady Gaga, Tesla, Angélique Kidjo, Awolnation, Giovani Cidreira, Dent May, Fresno, Giu Lenda, Ca7riel & Paco Amoroso, Kelsey Lu, casi e Gaby Amarantos

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