Brotos de nós mesmos

Bruna Schelb
ilustrações: Lucas Borges

O cinema brasileiro precisa de mais matemática, fazer seus cálculos, botar na balança, ver se dois e dois é mesmo quatro ou se é four. O cinema brasileiro precisa olhar mais para o próprio umbigo, ver quais fungos moram lá, ver se está nascendo uma jabuticabeira, cortar o pé se for uma macieira, isso não é uma coisa muito nossa. Se for mirtilo pior ainda, no umbigo do cinema brasileiro deveriam estar crescendo mais árvores tropicais. Uma cultura mais latina, de planta que só cresce no quente. É claro, alguma coisa pode vir de fora e deve vir de fora, mas o jardineiro do cinema brasileiro deve se atentar a esses detalhes se quer ter uma cultura forte.

Apesar de já estar falando sério, para falar mais sério – construção de identidade é uma coisa séria. Olhando com atenção para o cinema brasileiro contemporâneo é possível ver que aqui tem broto bom. Veio um homem mau e pisou em um broto chamado ancine mas, mas, MAS ele continua vivo em alguns umbigos: uma espécie rica, nutritiva – embora por muitas vezes sem alto valor de mercado – um broto chamado produção local independente. Nome longo, científico. Assista do seu produtor local!

Talvez o problema seja, então, o olho e não o umbigo. Seria muito legal se o espectador do cinema brasileiro deixasse crescer em seu olho uma jabuticabeira. A muda já até existe! Adubo já tem! O que é que acontece então? Se todo mundo quer comer mirtilo pra quê oferecer jabuticaba? É preciso ter cuidado, é preciso fazer a matemática. 

Com jardineiros conscientes da invasão de espécies estrangeiras; plantando as mudas certas em olhos nacionais e incentivo ao pequeno produtor local podemos encontrar o resultado correto desta complexa equação: uma cultura forte! Está aí!

Quando essas variantes não se encontram o cinema brasileiro tem seu solo roubado e os olhos de seus espectadores podem se tornar ociosos, terras improdutivas. A solução é ocupar! Organizar e ocupar! Começando pelas fronteiras: os jardineiros brasileiros devem ter gosto em proteger sua terra. Terra ótima, terra fértil!

Tudo se resume a construção de identidade, cuidado com a cultura. E para não dizer que não ficou claro: quanto mais cineastas pelegos o cinema brasileiro tiver, menos público o cinema brasileiro vai ter. Quem planta mirtilos que coma mirtilos. Por jardineiros atentos e mais jabuticabeiras no cinema brasileiro! Isso é coisa séria. Reforma agrária das salas de cinema já! O povo quer comer da sua cultura!

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