Depois de ter sido apontada por Ebony como revelação em prêmio de música, rapper participou do álbum de Froid e chega com seu primeiro EP, rimando sobre boom bap como uma veterana
por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com
A canetada mais braba do rap nacional hoje é de Ciça, 18 anos, mineira de Belo Horizonte que é filha de dois medalhões do rap, Slim Rimografia e Bárbara Sweet, do coletivo MinaNoMic. Depois de participar da faixa-título de “Humor negro”, último álbum do também mineiro Froid, que passou aqui pela playlist sextante, ela chega nesta sexta com o EP de estreia, “Nepobaby”, brincando com o fato de ter nascido no berço do rap. Por muito menos, outro artista já estaria chamando o volume de álbum. Consistência não falta. Mas o álbum de Ciça está por vir, pois “Ser Ciça é bom demais”, como canta nesta faixa do volume, no qual cozinha o beat. “Às vezes sinto que eu sou mais de 30 mil Ciças / Depois, eu lembro, de verdade, eu sou apenas Cecília”, caneta em “Apenas Cecília”. Sobre a faixa mais reflexiva do EP, com a baiana Agnes Nunes, “Não fale de amor comigo”, o que era pra ser uma lovesong vira um manifesto feminista. “Era pra ser um lovesong, mas eu percebi que eu não sou boa nisso / Talvez tenha sido porque que você não me deu motivo”, diz a letra. “A Agnes foi realmente um encontro. Eu queria alguém para cantar o refrão da música e pensei na voz dela. A gente já se seguia, mas nunca tínhamos conversado. Mandei uma mensagem e ela topou. Nos encontramos para gravar e foi uma conexão muito espontânea, nos divertimos, demos risada e saiu essa faixa linda”, me conta, nesse papo para a Sexta Sei. O show de lançamento será no dia 23 de outubro, às 21h, na Casa Natura Musical, em São Paulo.
Moreira – Desde dezembro último que estamos ensaiando este papo, quando a Ebony falou de você ao receber o prêmio de “Revelação do Ano” no Women Music Event (WME) Awards e questionou o quanto uma mulher negra no rap precisa conquistar para deixar de ser revelação. As mulheres ainda são minoria na indústria da música, quais são os desafios que vocês enfrentam? Um levantamento divulgado pela Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD) mostra apenas seis vozes femininas para mais de cem masculinas entre as mais ouvidas até agora em 2026. No rap, vocês são as melhores ao vivo, sinceramente, com nomes como Ebony, Karol Conká, Flora Matos, Kmila CDD e as mineiras da Fenda, que amo demais. Eu sou louco pela Paige. Como canta.
Ciça – É complexo, precisamos ter cabeça, porque é uma pressão que a gente tem que lidar. O importante é lembrar que a gente é ser humano no meio desse processo, porque a indústria não está aqui para nos abraçar. Mesmo assim, cada vez mais encontro pessoas que se identificam com as minhas letras, que me acompanham e que estão comigo também nos momentos bons, e isso é muito gratificante. Ainda temos muito o que conquistar, mas temos feito o nosso trabalho de maneira excelente.
Moreira – Tenho percebido uma evidência do boom bap no rap atual, especialmente entre os cariocas, com a volta do Daniel Shadow. Por que este estilo, que surgiu no final dos anos 80, na Costa Leste dos Estados Unidos, anda impactando tanto os rappers brasileiros da atualidade? O que te levou ao estilo?
Ciça – O boom bap sempre esteve comigo, seja por influência do meu pai ou de outros artistas que escuto. Tenho vontade de experimentar outros estilos, mas me sinto bem nele. O boom bap e o hip hop também estão juntos desde sempre, então foi algo que chegou para mim naturalmente, justamente por viver o rap.
Moreira – Achei divertido o nome do seu EP de estreia, “nepobaby”, em referência à sua história familiar, já que seu pai e sua mãe são nomes importantes do rap na cena de Belo Horizonte, que é muito potente, com toda a movimentação do Viaduto Santa Tereza. Sua mãe, Bárbara Sweet, é do coletivo MinaNoMic e é conhecida pelo engajamento no movimento feminista, e seu pai, Slim Rimografia, lançou um dos dez melhores discos de hip hop no Brasil entre 2003 e 2005, o “Financeiramente pobre” (2003). “Segura a Bronca pt 2”, do seu EP, é uma continuação de uma música deste álbum fundamental dele. O que sua mãe pensa do termo “vadia” aparecer tantas vezes em suas rimas, algumas vezes, em referência a você mesma? Isso fortalece a misoginia ou é uma forma de se apropriar de um xingamento, como a festa V de Viadão e o Isoporzinho das Sapatão fazem, no Rio?
Ciça – Acredito que é uma forma de expressão. Minhas letras e composições surgem de forma natural mesmo, então enxergo que as frases e termos que uso servem para expressar o que penso naquele momento.
Moreira – Me conte como rolaram as parcerias desse EP. Eu tenho acompanhado a trilha do Coyote Beatz com muito interesse e admiração, em trampos com Djonga, Sidoka, FBC, Hot e Oreia (que eu amava, o “Rap de massagem”, até o cancelamento), seu pai, Slim Rimografia, Clara Lima, Fenda. O Iknowfelipe é paulistano, e acredito que você esteja morando em São Paulo, pelo local de lançamento do EP, e já assinou trampos com a Nanda Tsunami (amo), “Donas do Plaque”, que conta ainda com Lai$Rosa e Barona. As outras faixas são produzidas por Bruce Slim Beats, como se deu este encontro? Ficou bonito pra caramba a faixa com Agnes Nunes, que canta muito, eu nunca me esqueço dela no Inhotim da pandemia, como foi bonito aquilo. A faixa com ela, que era pra ser uma lovesong, acaba sendo a faixa que mostra a sua vulnerabilidade, em um EP no qual você é tão braba e destemida. Como aconteceram estes encontros e qual a importância dos feats na indústria da música hoje?
Ciça – O Felipe é um produtor que me identifico muito e fico à vontade para gravar e dividir a minha arte. Como falei, as composições surgem de maneira natural, então é importante ter pessoas que eu me identifico no projeto. O Slim é meu pai e empresário, também cuidou das mix e masters do projeto, então ele me acompanhou durante todo o processo do EP. A Agnes foi realmente um encontro. Eu queria alguém para cantar o refrão da música e pensei na voz dela. A gente já se seguia, mas nunca tínhamos conversado. Mandei uma mensagem e ela topou. Nos encontramos para gravar e foi uma conexão muito espontânea, nos divertimos, demos risada e saiu essa faixa linda.
Moreira – A sua caneta é muito potente, em alguns momentos, nervosa e raivosa, como “tanta punchline que você ficou banguela” em “Segura a Bronca pt. 2”; “Só sei cozinhar no beat”, em “Ser a Ciça é bom demais”; “Às vezes, sinto que eu sou mais de 30 mil Ciças / Depois, eu lembro, de verdade, eu sou apenas Cecília”, em “Apenas Cecília”; “Dez anos de diferença, você não me alcançou “, em “Não fale de amor comigo”. O que te inspira em seus versos? É algo mais espotâneo, como uma rajada, ou algo pensado e calculado, qual a sua forma de compor? Este EP está bom demais, podia até ser chamado de álbum, não, ou vem uma porrada mais forte aí?
Ciça – Os versos surgem das minhas vivências. Claro que tem uma certa licença poética em alguns momentos, mas escrevo o que vivo ou que está na minha mente. O EP e as composições surgem de maneira natural, é até difícil de explicar, mas que faz parte da minha identidade artística. É o meu primeiro projeto. Ainda quero lançar um disco, mas no momento estou focando em “Nepobaby” e levar ele pro mundo, montando um show legal, me apresentando em mais cidades, conhecendo mais pessoas e melhorando cada vez mais minha performance. O disco ainda virá, mas, no momento, não tenho pensado nele.
🌊🪼🫧🐚𓆝𓆟 Como uma onda no mar 𓆞𓆝𓆟𓇼🪼🫧🐚🫧🌊
“O sonho do pescador é ter isca infinita”, diz, em “Chove nem molha”, faixa de seu recém-lançado álbum “Pessoa física”, o cantor, compositor e multi-instrumentista (violão, programação, percussão, baixo, piano elétrico, órgão e assovio) Gabriel Bebici, de Vitória (ES). Eu entrei em um looping com a faixa de abertura, “Coisas estranhas”, cheia de groove, que abre a playlist desta semana aqui na Sexta Sei em clima chiclete, que gruda na boca. Ele me mandou seu trabalho via Groover, mais uma grata surpresa que chega aqui à página pela plataforma, que faz esta ponte entre artistas independentes sem assessoria de imprensa e jornalistas. Agradeço à Nara Pinheiro e ao Polvo Manco, que me incentivaram a entrar no barco. Este é o segundo álbum do artista que, como sugerem as divertidas fotos de divulgação, é multi-instrumentista e dono de muita musicalidade, o que fica expresso na bela instrumentação do álbum, sofisticada. Nas onze faixas, ele mistura MPB, groove e jazz, com produção, mixagem e masterização feitas por ele, que é multi talentos, com distribuição da Orangeira Music.
“Coisas Estranhas”, que grudou na minha cabeça e abre o disco, foi composta e gravada em 45 minutos, no quarto do artista, com um microfone dinâmico e os instrumentos em linha, “tentando registrar aquele estado meio febril de confundir sonho com realidade”. O diálogo entre os baixos e violões levam a faixa a este status de MPB alternativa com pegada indie pop, “sem preocupação com perfeccionismo digital, priorizando atitude e groove”. Sobre o título do álbum, “Pessoa física”, ele explica que “é uma categoria de cadastro. Não descreve ninguém, e serve pra todo mundo. É esse jeito genérico de nomear gente”. É, Bebici, a coisa tá feia, essa semana, eu comprei jornais para embalar uma encomenda que não traziam matérias, mas eram apenas pra animais domésticos fazerem os número 1 e o número 2. Mas Bebici se mostra especial nesse volume de uma sonoridade nitidamente brasileira, equilibrando sofisticação e energia crua. “O disco nasce de um movimento simples: ser uma pessoa jogada pela realidade, aprendendo os limites das coisas ao esbarrar em suas quinas”, filosofa. A capa do álbum e dos três singles que o antecederam são uma monotipia (técnica de impressão que consiste na reprodução de um desenho ou mancha de cor através da impressão de uma prova única sobre um meio. A prova obtida não é um duplicado fiel do desenho ou mancha original, pois, na etapa de impressão, as tintas misturam-se, fazendo surgir efeitos imprevisíveis) diferente, feita cobrindo o rosto do próprio Bebici de tinta e o carimbando em um papel. “É o retrato de alguém aparecendo onde só devia caber um dado cadastral”, explica, sobre as capas de “Saudade”, “Coisas estranhas” e “Sofá cama”, que ele mesmo fez, que é artista que mete o dedo em todas as fases do processo. “Pessoa Física” investiga essa dualidade entre cidadão, indivíduo social e corpo físico, de um lado, e sonho, desejo, tédio, perda, cotidiano visto de um jeito meio torto, de outro. “Saudade” carrega o luto recente da perda do pai (sinto muito!) do artista, deslocado da dor para a memória boa: “não se apoia na melancolia; trata-se de uma perspectiva sobre a beleza de sentir falta e a aceitação do que não retorna.” Adoro o título de “Pagodinho pesadelo”, com a “corda bamba na roda de samba”. Ninguém vê o choro do palhaço, Bebici! O artista é natural do Paraná, mas mora em Vitorinha desde 2018, onde atua como Designer de Som para a rádio pública ES FM, além de produtor musical na DIVco. Desde a infância se apresenta em casamentos, eventos e teatros, sozinho ou com a banda da família, e hoje assina produções de projetos como Chorou Bebel, que já passou por aqui, e Zé Maholics. Chique demais.
Eu sou completamente obcecado pelo rapper, performer e artista visual paulista Edgar, que já sextou aqui, em um dos melhores papos da Sexta Sei. Nesta sexta, ele e duo carioca de produtores musicais Os Fita (formado por Abel Duarte e Cainã Bomilcar), conhecido do público pelos álbuns de Tantão e os Fita, como o clássico de nossa era, “Piorou”. Pois esse casamento deu bom e chega às plataformas neste sábado (26) com “Faz frio, mas é verão”, um título que já reflete sobre as mudanças climáticas e esse clima de apocalipse gostoso que vivemos, álbum que chega às plataformas pelo selo Outra Música, e em vinil, no dia 19 de dezembro. O disco promove uma colisão frontal entre o rap e releituras de estilos da música eletrônica, como jungle, garage, dub, jersey club, gabba e funk carioca, criando uma narrativa urbana marcada por tensão.
A lista de convidados é de babar, as sextantes Ana Frango Elétrico e Jup do Bairro (“Bonde Maconha Dinheiro”), Kiko Dinucci (que participa, com Frango Elétrico,na faixa-título), Crizin da Z.O. (que é certo o B.O. em “Casacão e bermudinha”) e Tantão (“Popó matom Bambam”). “A maioria dos rappers confunde o microfone com a garrafa”, dispara Edgar em “Engenheiros”. A parceria de Edgar com a dupla começou em faixa “Incapturável”, do disco “Universidade Favela” (2024). O álbum descreve um cenário simbólico de uma distopia tropical, na qual o calor, associado ao imaginário carioca, é constantemente tensionado por imagens de frieza, estranhamento e colapso emocional. Piripaque-paque-paque. Musicalmente, a obra distorce, fragmenta e reorganiza as composições de Edgar por meio de texturas eletrônicas, interferências e paisagens sonoras que deslocam a lógica tradicional da música pop. Um disco pra ouvir várias vezes e descobrir camadas. O selo é um projeto do meu amigo e parceiro Chico Dub, que conheci na época do Multiplicidade, quando ele assessorava Batman Zavarese e já apostava no meu trabalho, na época, na Agemda da Gema TV, e da Dancing Cheetah, sua festa com Pedro Seiler e João Brasil. Hoje, ele é diretor do Festival Novas Frequências e da plataforma Outra Música, dedicada ao desenvolvimento da música experimental brasileira (selo fonográfico, produtora de eventos e agência de bookings). No braço fonográfico, estreou com “Pesadelo ambicioso”, de Fausto Fawcett e Chelpa Ferro, no qual as máquinas gritam até aqui em Juiz de Fora, em “Grito Motor” e “Isto dando Samba”, de Ajítẹnà Marco Scarassatti.
Catarinense radicado em Alagoas, o cantor, compositor e produtor Wado, fundador do grupo Fino Coletivo, lança um belo álbum, “São Francisco, São João” (LAB 344), que mergulha nas sonoridades do xote, do baião e do xaxado a partir da vivência do artista em Alagoas, subvertendo fronteiras rígidas de gênero para construir um repertório enriquecido por melodias pop, arranjos originais e desvios harmônicos. O disco equilibra o balanço das sanfonas e zabumbas com arranjos de violão, guitarra baiana, viola caipira, rabeca e sintetizadores. Com título que homenageia o rio e a celebração popular que são duas forças geopolíticas e afetivas do Nordeste, Wado convida um time diverso de colaboradores e parceiros de composição de peso de diferentes cenas e territórios da música brasileira, como Roberto Barreto (guitarrista da sextante BaianaSystem na psicodélica “Forró do Faraó”), Ed Gama (em “Esse Trem”), Bárbara Castelões, Ítallo França, Dinho Zampier, além de composições em parceria com Zeca Baleiro, Marcelo Frota e Thiago Silva (Sorriso Maroto). Um discaço de um mestre da canção brasileira, pra se ouvir várias vezes e esquecer o mundo cão.
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