Sexta Sei: “Illuminati”, distópico e cerimonial, o “Sol Quimérico” de Leandro Serizo reflete sobre nossa proximidade de um ponto sem retorno

O álbum conta uma história se passa em 2222, quando a humanidade vive anestesiada por uma música robótica que apagou a capacidade terráquea de sonhar

por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com

Leandro Serizo por Fernanda Ferreira

O cantor, compositor, arte-educador e acadêmico campineiro Leandro Serizo, 29 anos, acaba de lançar o seu segundo álbum, “Sol Quimérico”, inspirado pela inquietação diante das queimadas na Amazônia, em 2023, e um mundo cada dia mais perto de um ponto sem retorno.  “É o calor extremo sobre a pele, são as tempestades descontroladas, e não é só a ciência que mostra isso, são as guerras por recursos, é a humanidade fragmentada. O desejo desse álbum foi falar sobre tudo isso. Sobre esse sentimento assustador que é perceber o planeta morrendo para o benefício de tão poucos”, reflete, nesse papo para a Sexta Sei.Eu quis colocar pra fora essa frustração de se sentir muito pequeno diante das atrocidades que acontecem no mundo”, prossegue, explicando a distopia que criou e que se passa em 2222, quando a humanidade vive anestesiada por uma música robótica que apagou a capacidade terráquea de sonhar. Para contar a história, ele embalou a música em rock progressivo,  metal, MPB, R&B, tradições musicais afro-latinas e do mediterrâneo oriental, além de ter criado visuais que embalam a narrativa. Inspirado pela música jazz-meets-rock do armênio Tigran Hamasyan, Dead Can Dance, Enya, Lebanon Hanover, a orquestra Sopor Aeternus and the Ensemble of Shadows e a nossa sextante BUHR, o pesquisador musical está de viagem marcada para o Cairo, no Egito, para um intercâmbio técnico-artístico para investigar as raízes árabes do forró.

Moreira – Desde o primeiro single que ouvi e comentei aqui na Sexta Sei, “Mosteiro do abismo”, pensei, eita, esse cara é muito illuminati, risos, usando a palavra mais no sentido que vemos hoje como meme na Internet e que o gênio Jeza da Pedra já tinha se apropriado em “Pagofunk Iluminati”. O álbum é distópico e reflete sobre os rumos da nossa sociedade, que está em clima de fim de mundo, apocalipse, encerramento, destruição ambiental, robotização, guerras e Tr*mp. Não tem como criar sem pensar nessa perspectiva que estamos perto do fim, né?

Leandro Serizo – Eu morria de medo dos illuminati quando era crente na infância, hahaha. Mas sim, a gente está cada dia mais perto de um ponto sem retorno.  É o calor extremo sobre a pele, são as tempestades descontroladas, e não é só a ciência que mostra isso, são as guerras por recursos, é a humanidade fragmentada. O desejo desse álbum foi falar sobre tudo isso. Sobre esse sentimento assustador que é perceber o planeta morrendo pro benefício de tão poucos. “Paradoxo do Futuro” está falando sobre isso, e eu escrevi essa canção citando “Ideias para adiar o fim do nundo”, do Ailton Krenak. “G-HD” fala do processo de fragmentação e robotização do ser humano. “Ciborgue Tyrannus” nasce dessa sensação de viver sob governos que normalizam violência, autoritarismo e desumanização. Tr*mp e Bols*naro aparecem como expressões contemporâneas dessa lógica, enquanto a poesia genial de Mirian Silvestre amplia essa crítica para algo ainda maior. Eu quis colocar pra fora essa frustração de se sentir muito pequeno diante das atrocidades que acontecem no mundo. A minha arma tem sido a música, a poesia. Mas o disco também quer falar de amor, como em “Androide 2222”, quer manter a chama da espiritualidade viva, como em “Mosteiro do Abismo” e “Sol Quimérico II”, e trazer a esperança que se encontra no colo de uma mãe, como em “Santuário”

G-HD

Moreira – Os visuais que você criou para cada faixa são uma obra dentro da obra, né? Está muito bonito e bem cuidado e deixa tudo ainda mais illuminati, risos, com esses dois Sóis e muitos símbolos. O Segundo Sol cantado pela Cássia Eller já está entre nós? Como foi a concepção dessa parte visual e qual a importância desse recurso para contar a história?

Leandro Serizo – Eu torço pra esse segundo Sol não ser esse que está cada dia mais forte. Pra mim, o Sol Quimérico é um sol de dentro. É o que mantém viva a poética da vida. Sua força vem do coletivo, de um montão de sóis quando estão em harmonia. Ele não precisa ser um astro. É uma força simbólica. É aquele impulso interno que faz a gente continuar criando, sonhando e se conectando com o outro mesmo quando tudo ao redor parece ruína. Porque eu acredito que o despertar da coletividade é a chave. E sobre os visuais, não quis ser tão literal, acho que a parte visual permite criar um outro universo em cima das músicas e em cima da história, como se cada elemento fosse criando algo sobre o outro. Isso, pra mim, é diversão pra quem cria. A concepção de tudo isso foi inspirada num moodboard que eu comecei a criar com Stephanie Rios antes mesmo do clipe que fizemos pra “Mosteiro do Abismo”. Ali, eu tive que imergir numa pesquisa muito profunda sobre artistas e filmes que me moldaram e me influenciaram. Essa coisa ritualística que você sente como “illuminati” talvez venha de “A Cor da Romã”, do Sergei Parajanov, vem de “A Montanha Sagrada”, do Jodorowsky, vem dos discos do Dead Can Dance, vem de “O Sétimo Selo”, do Bergman, (coisas muito psicodélicas que humanidade produziu). Tive a alegria de frequentar muitas vezes o MIS Campinas, onde assisti à maioria dos filmes que moldaram essa paixão pelo cinema ritualístico

Moreira – O álbum está muito bacana e, acho que faz parte da sua estética (confesso que da minha, também) esse excesso de informações e influências, que vão de rock progressivo,  metal, MPB, R&B, tradições musicais afro-latinas e do mediterrâneo oriental. Quais foram as principais influências na criação desse álbum? O que você ouviu no período de composição que influenciou a sua composição?

Leandro Serizo – Minha maior influência, que me moldou, sempre foi o Tigran Hamasyan, um pianista armênio. A obra dele atravessa o jazz, o math rock, o rock progressivo, o metal… são muitas camadas, mas o cara é o mais brabo!!! Eu me tornei muito fã, porque além de músicas como “Egyptian Poet” e “Rays of Light”, que me emocionam, os álbuns “Mockroot” e o “The Call Within” têm umas pancadarias que me deixam muito excitado criativamente. A genialidade dele é ímpar, ele é escola musical. Já falei do Dead Can Dance, mas na adolescência eu estava descobrindo coisas extremas: Enya (a rainha do new age), Lebanon Hanover e a assombrosa Sopor Aeternus and the Ensemble of Shadows. BUHR, que é musicista, poeta e performer, me influenciou muito e me fez apaixonar pela música brasileira. Lembro de um dia, assistindo ao Altas Horas, ver BUHR quebrando tudo ali. A partir de BUHR, fui encontrando outros artistas brasileiros que eu amo, como Chico Buarque, Criolo, Rodrigo Amarante e Ave Sangria. Não posso deixar de citar o quanto bandas como Muse e System of a Down estiveram presentes na produção desse disco, no elo entre eu e meus produtores. Outro trabalho importante na minha construção musical é o Mawaca. Quem conhece o trabalho dessa banda brasileira incrível, que pesquisa e recria músicas do mundo, e ouve “No coração do dragão” pega bem um pouco das minhas referências. Além dela, eu costumo escutar bastante Fairuz (Líbano), Muammer Ketencoğlu (Balcãs) e Yemen Blues (Iêmen). 

"Abutre"
"Santuário"
"Paradoxo"
"Andróide"

Moreira – “Sol quimérico” é uma distopia que se passa em 2222, conta mais sobre esse enredo que você criou, com o  império alienígena de Ciborgue Tyrannus, que está no comando, e toca uma mesma música robótica, repetida em loop interminável, na colossal metrópole de MΣgΛpΘlis, que dopa os habitantes.

Leandro Serizo – A história se passa no ano de 2222 quando o “Paradoxo do Futuro” se cumpriu. A humanidade vive anestesiada sob o império alienígena de Ciborgue Tyrannus, que governa o centro de MΣgΛpΘlis com uma arma bem estranha, uma música robótica num loop que não acaba nunca e que apagou a capacidade terráquea de sonhar. As pessoas viraram autômatos, os G-HD: corpos sem alma, sem imaginação, sem futuro, todo mundo hackeado e mecanizado. Mas nas margens dessa metrópole, no meio do lixo e dos destroços, tem outro mundo. No lixão, à margem da cidade, vivem os seres quimeras humano-abutres que nasceram de experimentos genéticos fracassados e que foram tratadas como aberração e jogadas no lixo da história. E foi desse exílio que eles construíram a própria identidade, os próprios ritos e uma espiritualidade centrada no culto ao Sol Quimérico, que é uma espécie de deus maluco que pode destruir, colapsar, salvar, reconstruir. Na frente dessa comunidade está Maria Madama, a grande mãe geradora, e quando ela é capturada e transformada à força em “MariaKlöse † (industrial machine)”, tudo desanda. Daí, a história caminha pro confronto entre a insurgência quimérica e o governo ciborgue, até que o próprio Sol Quimérico se manifesta, dai o resto é história.

"Mariaklose"
"Megalópolis"
"Coração do Dragão"

Moreira – Esse álbum também está relacionado à sua pesquisa de mestrado em Música na Unicamp, “Laboratório Sol Quimérico: vivência artística integrada”. Como é esse desdobramento acadêmico? Você está se preparando para um intercâmbio técnico-artístico no Cairo, capital do Egito, previsto para ocorrer ainda em 2026. O que vai investigar lá? 

Leandro Serizo – No fim da graduação, muitas vezes, parece que a vida do artista se divide entre tentar viver da própria arte ou seguir exclusivamente pela academia. Eu quis estar entre esses dois caminhos. Por isso, o meu mestrado está diretamente ligado à construção performática e poética do meu disco. De forma bem sucinta, criei uma disciplina que ofereço pros alunos das artes da Unicamp, com práticas de música em círculo, performance e experimentações corporais, com foco na musicalidade e na vivência de estados performáticos. A disciplina serviu como uma ferramenta pro meu próprio processo artístico. Quis ligar uma coisa na outra. Quem ouve a minha obra, seja no progressivo ou no forró (tipo “Medusa (citação de pedra de responsa”, da minha banda de forró FORRÓBAILE), diz que sente essa coisa que remete à música árabe. E isso é um fato, porque eu sou apaixonado tanto pela cultura do antigo Egito quanto pela música árabe clássica ou contemporânea. A minha linguagem na sanfona passa muito por isso, comecei a estudar e a tirar temas das músicas árabes. E agora vou ter a chance de ir estudar música árabe diretamente na fonte, estudando instrumentos, voz e teoria musical lá no Egito. Isso é uma oportunidade de ouro e um grande sonho pra mim. Quero investigar, nessa viagem, as raízes árabes do forró a partir do ponto de vista dos músicos árabes de lá.  

🌊🪼🫧🐚𓆝𓆟 Como uma onda no mar 𓆞𓆝𓆟𓇼🪼🫧🐚🫧🌊

Rafa Castro em fotos de Camilla Molica

Rafa Castro é cantor, compositor e pianista, nascido na vizinha São João Nepomuceno (MG) e radicado em São Paulo há quase uma década que lança, nesta quinta (30), seu quinto álbum de estúdio, “Em silêncio, o afeto cresce”, antecipado ao público juiz-forano com concerto solo ao piano na última Quinta Musical do Mercado Municipal. No volume, o artista troca a pressa pela escuta e propõe a delicadeza da observação do tempo como gesto de resistência. O disco nasce de uma pergunta simples: o que acontece quando a gente para de falar e começa a escutar de verdade? A premissa veio do trabalho como psicólogo em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), no qual conduzia grupos musicais com pacientes em tratamento de saúde mental. Seu TCC investigou o poder da música como processo de transformação e recuperação dos pacientes. A migração para a carreira artística veio menos como uma virada e mais como continuidade: enquanto atendia no CAPS, ele já compunha e se apresentava.

O disco parte da premissa de que a atenção virou recurso escasso. Segundo levantamento da National Geographic (2026), o tempo médio de foco numa única tarefa caiu de 2,5 minutos para 40 segundos nas últimas duas décadas. O álbum chega propondo o contrário do que o mundo pede: parar, escutar e ficar. As faixas misturam piano a jazz, forró e reggae, sempre a partir de parcerias com outros compositores de sua geração, como o encantado Jota.pê, Paulo Novaes, Lucas Caran, o talentoso Tó Brandileone e Rodrigo Alarcon. “Esse trabalho nasce da percepção de que o silêncio também fala e que nele pode nascer um espaço fértil para o cuidado, o encontro e a esperança”, explica Rafa Castro, que faz shows de lançamento por Vila Itororó, em São Paulo, (01/08), Belo Horizonte (13/08),  no Sesc Pompeia, em São Paulo (10/09) e, depois, cruza o Atlântico, com apresentações em Lisboa, Barcelona e Madrid.

Fumaça, Rodrigo Campos, Thiago França e Rodrigo Vellozo em fotos de Luan Kardoso

Já tinha falado aqui da minha admiração pelo trabalho de Rodrigo Vellozo e também de seu pai, Benito Di Paula. A poesia e a música de Benito são o material para  Benito Di Paula – Rodrigo Vellozo convida Rodrigo Campos, Thiago França e Fumaça”, álbum homônimo idealizado por seu filho, o cantor, compositor e pianista Rodrigo Vellozo que será lançado no dia 31 de julho pela ADA/Companhia de Discos do Brasil, em um show na Casa Natura Musical no mesmo dia, às 21h. No álbum, como diz Benito, “tudo está no seu lugar”, como Rodrigo atuando, como sempre, como guardião maior da obra do pai, a quem já tinha homenageado com a bela coletânea “Benito 80: Novo Samba Sempre Novo”, com interpretações de canções do mestre nas vozes de Juçara Marçal, Teresa Cristina, Ná Ozzetti e Romulo Fróes, entre outros bambas. 

Capa: Leandro Arraes

Dessa vez, Rodrigo Vellozo usa sua bela voz para revisitar canções marcantes do repertório de Benito sem recorrer à nostalgia, com um diálogo entre tradição e invenção. “Esse disco nasce da convivência. Eu cresci ouvindo essas músicas dentro de casa, acompanhando meu pai nos palcos e aprendendo com a forma muito particular que ele enxergava a música. Revisitá-las agora é descobrir novas possibilidades dentro de canções que continuam absolutamente vivas“, afirma Rodrigo. As gravações preservam a essência melódica e emocional da obra de Benito, enquanto abrem espaço para a improvisação, para a linguagem da música instrumental contemporânea e para novas abordagens rítmicas. As cinco primeiras faixas reproduzem a sequência de abertura do disco lançado por Benito em 1976 pela Copacabana, obra que completa 50 anos em 2026 e que marcou tremendamente a minha infância com “meu amigo Charlie Brown”. O lado B foi concebido por Rodrigo como uma resposta afetiva e simbólica àquele repertório. Inspirado pelo caráter mais mítico das faixas que ocupavam a segunda metade do álbum original, Rodrigo optou por construir um percurso que refletisse não apenas a obra de Benito Di Paula, mas também sua dimensão humana e familiar. As faixas do lado B funcionam, assim, como uma reflexão sobre Benito enquanto pai, referência artística e personagem fundamental da formação de Rodrigo. A produção é de Rodrigo Vellozo e Rodrigo Campos.

Soul de Brasileiro em fotos de Marcos Hermés

Formado por Negra Silva, José Junior e Ge Vieira, o trio Soul de Brasileiro lança o primeiro álbum, “SOU”, pelo Selo Toca Discos, com participações especiais de Paula Lima em  “Eu segui”, do sextante Josiel Konrad com seu groove carioca em “Aí tem coisa” e do rapper baiano Hiran em “Glória”. Junto ao álbum, será lançado o videoclipe da música “Oxum Rabane”. Com mais de uma década de trajetória, o Soul de Brasileiro conecta soul music, samba, MPB, jazz, funk e matrizes afro-brasileiras. Nascidos na Vila Kennedy, zona oeste do Rio de Janeiro, e unidos pela música, inicialmente em igrejas, Ge Vieira, José Junior e Negra Silva descobriram ainda jovens a potência de suas vozes e transformaram esse encontro em um projeto que celebra identidade, pertencimento, ancestralidade, afeto, espiritualidade, resistência e uma constante busca por excelência musical. Com produção musical de Felipe Rodarte, o álbum foi gravado no icônico estúdio Toca do Bandido. Entre as referências, estão Cassiano, Tim Maia, Sandra Sá, Jorge Ben, Marvin Gaye, Lauryn Hill, Jill Scott, Fela Kuti e Erykah Badu. O EP de estreia, “Ciclo4”, foi produzido por Sandra Sá.

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