Sexta Sei: Ryan Fidelis coloca o amor afrocentrado em evidência para eliminar paradigmas em “Tons de marrom”

Segundo álbum do catarinense bateu um milhão de plays nas plataformas em menos de um mês

por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com

Ryan Fidelis em lindo ensaio com Igor Reis

Em menos de um mês, o segundo álbum do cantor catarinense Ryan Fidelis, Tons de Marrom”, chegou a um milhão de streamings nas plataformas digitais cantando o amor afrocentrado, negro, com sonoridade elegante entre o R&B, o pop e diferentes elementos da Música Brasileira. “Eu tenho a convicção que o amor não precisa ter regras, mas, em contraponto, o amor preto é algo que foi tirado de nós de diversas formas, por muito tempo, nos amar, nos admirarmos, acabou sendo roubado de nós mesmos, e colocar esse amor afrocentrado em evidência é de extrema importância para eliminar esses paradigmas criados”, dispara, em papo certeiro aqui para a Sexta Sei, no qual revela sua admiração por novos nomes como Os Garotin, Luedji Luna, Melly, Pedro Emílio, Meraki Nina, YOÙN e Liniker, “o refresco da música brasileira”. O artista, que se orgulha de viver de sua música, também deu uns pitacos na elegante produção de moda, com jogos de volume e dreadlocks rococó.

Moreira – Em menos de um mês de lançamento, “Tons de marrom” bateu um milhão de plays nas plataformas, foi bem rápido, né? Parabéns, é um álbum vibrante que mexe mesmo com o ouvinte. O que você acha que tem capturado a atenção de tanta gente em tão pouco tempo?

Ryan Fidelis – Acredito que a construção de fã base sólida nesses últimos tempos foi o que mais ajudou a esse disco dar tão certo logo de cara. Ter pessoas que te acompanham firmemente, e que sempre esperam um novo trabalho é essencial para o artista. Acho que por ser um disco que fala sobre temas muito cotidianos, facilita essa identificação com o ouvinte, de forma que cada um se sinta pertencente àquela história. 

Moreira – “Tons de Marrom” tem essa ideia do amor preto, algo que a Liniker já tinha vislumbrado com “Veludo Marrom” e que é algo muito importante para a nova geração. Por que você sentiu a necessidade de falar dessa pauta? Tenho amigos negros que só se relacionam com pessoas negras. É um movimento dentro da comunidade negra?  

Ryan Fidelis – Eu tenho a convicção que o amor não precisa ter regras, mas em contraponto, o amor preto é algo que foi tirado de nós de diversas formas, por muito tempo, nos amar, nos admirarmos, acabou sendo roubado de nós mesmos, e colocar esse amor afrocentrado em evidência é de extrema importância para eliminar esses paradigmas criados. 

Moreira – Gosto muito do trabalho de moda que foi feito no álbum, ajuda demais a contar a história. Essa cascata de marrons da capa fala mais do que muitas palavras, assim como esses dreadlocks rococó. Também gosto demais da sugestão de novas modelagens. Você quem fez o styling? Li que você cursou um semestre de Moda, na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), como pensou a imagem nesse projeto? Ficou bonitão.

Ryan Fidelis – O styling foi realizado por Léo Lucaz e Theodoro Carvalho em conjunto a mim. Eu trouxe algumas referências visuais quando estávamos elaborando o projeto visual do disco, com alguns moodboards e, a partir disso, eles conseguiram traduzir de uma forma única aquele sentimento que eu queria transmitir por meio do figurino.  

Moreira – Convidar o YOÙN pra participar é um negócio muito arriscado e perigoso, né, risos, os caras roubam a cena mesmo e já chegam garantindo a melhor faixa do álbum, eu realmente adoro “Marte”, os vocais deles são demais, texturizados. Eles me deram uma das melhores entrevistas aqui da página, pois, além de terem a excelência no que fazem, são gentis, amorosos, o que é revolucionário hoje em dia. Tenho a mesma impressão do Maui, que gravou um álbum massa com o Chediak, outro gentil, na época, ainda morador aqui de Juiz de Fora. Como foi trabalhar com eles e também com Nina e Jok3r?

Ryan Fidelis – Todas as participações do disco foram feitas de maneira super natural, todos foram artistas que eu tive uma troca muito real, os conheci pessoalmente, e tudo fluiu da maneira mais orgânica possível. Isso pra mim é algo muito simbólico, poder ter tantos feats de peso, com artistas que eu de fato sou fã, pra mim é uma honra sem igual.

Moreira – Você tem só 21 anos e já acumula mais de seis milhões de streams com suas músicas, em dois álbuns e um EP. Você se dedica exclusivamente à música? Como foi seu primeiro contato com a música e como se preparou para um álbum tão rico musicalmente? Você estudou música formalmente?

Ryan Fidelis – Acho muito legal ser o caçula em várias coisas no meio da música, aprendo muito com quem já está na cena a mais tempo. Eu hoje vivo 100% da música, o que pra mim é um sonho de criança, fazer o que eu amo e poder viver disso. Mas a música sempre esteve na minha vida, sempre fui rodeado por arte e cultura, e esse ambiente com certeza moldou minhas referências musicais para me tornar quem sou hoje, não só como artista, mas como pessoa.

🌊🪼🫧🐚𓆝𓆟 Como uma onda no mar 𓆞𓆝𓆟𓇼🪼🫧🐚🫧🌊

Eu passei metade da semana perguntando aos colegas quem estaria fazendo a divulgação do álbum de estreia de Amanda Sarmento, o bom “Eclipse”, e a outra metade eu passei me afundando nas castanhas de maravilhas e delícias do volume, uma bela estreia, que percorre sonoridades de rap, R&B e afrobeat ao lado de convidados como Tássia Reis (quase minha conterrânea de Jacareí) e Ruas Mc. O álbum foi produzido pelo craque Iuri Rio Branco, nome atrás dos melhores álbuns do momento, como o de Alice Caymmi (“Caymmi”) e o de Melly (“Mais forte que a dúvida”), e a cantora é empresariada pela atriz Clara Moneke, queen. O lançamento chega acompanhado de visualizers que contam com direção criativa de Gabe Lima e acompanham todas as faixas. Amanda Sarmento é cantora, compositora e rapper carioca, apontada como uma das vozes mais promissoras da nova música brasileira. Sua relação com a música começou ainda na infância, cantando na igreja. “A sensação de poder é terrível”, como canta em “Assalto”.

Moyses dos Santos por @rafaelberezinski
Foto: Richard Melkonian
Foto: Marlon Vadian
Foto: Brian Cross
Foto: Barbara Fu Safira

Depois de anos atuando ao lado de nomes como Nile Rodgers, Janelle Monáe, Gregory Porter, Omar e Emeli Sandé, o baixista e compositor brasileiro Moyses dos Santos inicia uma nova fase da carreira com o lançamento de “Maria”, seu primeiro álbum solo, um elegante mix de maracatu, baião, jazz, soul e funk, inspirado pelas raízes nordestinas. Radicado em Londres desde o início dos anos 2000, Moyses revisita referências que atravessaram sua formação musical desde a infância – das músicas ouvidas em casa à banda da igreja onde começou a tocar, passando pelos ritmos brasileiros que marcaram sua juventude. Nomeado em homenagem à mãe do músico, o álbum representa um reencontro artístico com as origens brasileiras. O processo de criação de Maria ganhou força em 2022, durante a turnê com o grupo Azymuth e o lendário baterista Ivan “Mamão” Conti, experiência que incentivou o músico a revisitar referências culturais e musicais que atravessam o disco.

Foto: Richard Melkonian

“Boa viagem” apresenta um jazz dançante de atmosfera carnavalesca; “Maria”, que escolhi para destacar na playlist, aprofunda o caráter afetivo do disco, enquanto “Encontrei amor” e “Beira mar” exploram texturas mais melódicas e solares. “Late Night” mergulha em uma atmosfera mais noturna e grooveada, aproximando o álbum da linguagem contemporânea do soul e do jazz fusion. Já “Brazilian spirit” conduz o ouvinte por uma experiência astral-jazz marcada pelo trompete de Theo Croker. Em “Saudade”, os arranjos de cordas de Arthur Verocai encontram os vocais de Lynda Dawn em uma das passagens mais emotivas do disco.

Turmallina n´A Porta Maldita por Binha Sakata
Fotos: Piruka
Foto: Gus Palma

A banda paulistana Turmallina lança, nesta sexta (19), o último single antes de seu álbum de estreia, a faixa Não tem espaço pra mais nada (Além do seu ego aqui). A faixa transforma relações marcadas pela objetificação e pela falta de afeto genuíno em uma experiência sonora intensa, que mistura shoegaze agressivo, pós-punk e krautrock com guitarras ensurdecedoras, atmosfera melancólica e tensão emocional.Mais uma vez, eu satisfaço quem me fere”, começa a letra, que é da sofrência, mas marcada por guitarras saturadas, repetições hipnóticas e vocais soterrados em reverberação. A faixa bebe diretamente do shoegaze abrasivo do DIIV e da atmosfera melancólica de “Disintegration” (1989), clássico do The Cure. Formada em 2018, a Turmallina surgiu da convivência entre músicos que frequentavam a cena independente paulistana em espaços como a Cecília Cultural, a extinta Casa do Mancha e a Breve.

Atualmente, o grupo é formado por Caio Silva (guitarra e backing vocal), Eduardo Campos (baixo), Marcos Marques (guitarra), Paula Janssen (bateria) e Gabe Jordano (voz). O querido Mari Crestani, do Estúdio 7Lira, que esteve aqui em Jufas acompanhando o lendário Fausto Fawcett, há uma semana, amassando no baixo, fez a engenharia de som e a captação. Repercuti com a banda Turmallina as declarações de  William Reid, guitarrista e principal compositor da banda escocesa Jesus and Mary Chain, de noise pop e shoegaze, à em entrevista ao Stereogum durante o festival Total Bummer, em Nova York. “Shoegaze. Eu tenho um problema com essa palavra porque não existe de fato. Foi algo inventado por um palhaço do NME [revista de música do Reino Unido].” Guitarrista da Turmalina, Caio Silva, deu uma resposta bem elaborada, que reproduzo, na íntegra, no link, mas sintetizo aqui na nota. “Consigo entender os músicos da época rejeitem o rótulo ‘shoegaze’ para si. Quando o gênero é revivido na década de 2010, vejo o shoegaze voltando menos como um gênero fechado e mais como uma linguagem que atravessa diferentes vertentes da música alternativa. Como já disse o Vitor Brauer, ‘qualquer um sabe fazer shoegaze’. E acho que tem um fundo de verdade nisso. A tecnologia democratizou o acesso aos equipamentos, aos timbres e às ferramentas para criar camadas e texturas. Fazer barulho ficou mais fácil. O desafio continua sendo transformar esse barulho em uma música que tenha personalidade”, disse, em resumo. Arrasou.

Na programação virtual, tem o juiz-forano Paulo Beto na no Sesc em Casa com o documentário "Eletrônica:Mentes" (2019), dirigido por ele, Dácio Pinheiro e Denis Giacobelis
"Eletronica:mentes" faz uma profunda investigação sobre o desenvolvimento da música eletrônica no Brasil e seus rumos. Na foto, Dino Vicente
"Eletronica:mentes" acompanha a trajetória da música eletrônica experimental no Brasil, dos pioneiros Jocy de Oliveira e Jorge Antunes (foto)
Também no Sesc em Casa, "Ary", de Ary André Weller (2025), misturando ficção e imagens de arquivos raras, para contar a história de Ary Barroso
"Ary" da infância em Minas aos dias de glória no Rio e parceria com os estúdios Disney
"Ary" tem Dira Paes e Stephan Nercessian
Gênio da raça no contrabaixo, Arthur Maia é retratado em "Arthur, o gigante", de Ivan de Angelis (2025), também no Sesc em Casa
O filme faz première nacional no festival, mostrando o artista acompanhando nomes como Gilberto Gil, Djavan, Lulu Santos e Ney Matogrosso
No SPCinePlay, première nacional de "Hip Hop Caboclo" (2025), de João Nascimento, road movie em que Gaspar Z’África e o diretor partem aao Norte e ao Nordeste, investigando a ligação poética que une a cultura popular brasileira e hip-hop
"Hip Hop Caboclo": a partir de encontros com mestres e mestras, o filme revela as raízes, os fluxos e as reinvenções das sonoridades que atravessam o país, misturando ritmos de matrizes africanas e indígenas, cordel, embolada, ladainhas e cantorias
"Hip Hop caboclo"
Ainda no SPCine Play, "Duque de Caxias, o Albergue Do Rock" (2025), de Guilherme Zani
"Duque de Caxias, o Albergue Do Rock", mostra como uma casa em Duque de Caxias tornou-se um refúgio para bandas de metal de todo o Brasil
No SPCine Play, "Gritos de agonia - Uma história do movimento punk hardcore em Belém oo Pará" (2025), de Márcio Crux
"Gritos de agonia - Uma história do movimento punk hardcore em Belém oo Pará" reúne depoimentos e valioso material de arquivo para contar mais de 40 anos da cena punk hardcore na capital do Pará
No presencial, "Universo Circular – Jocy de Oliveira", de Dácio Pinheiro, está na Competição Nacional. Na imagem, Stravinsky e Jocy
Jocy com John Cage em Guaratiba

Se tem um evento pra louvar de pé é o festival queridinho da página In-Edit Brasil – Festival Internacional do Documentário Musical, que celebra 18 anos e se firma como o mais importante evento de documentário musical do país. Este ano, o festival traz premières nacionais de filmes sobre Alaíde Costa, Jocy de Oliveira (com nosso Paulo Beto), Mateus Aleluia, Mestre Ambrósio, Arthur Maia, Ary Barroso, Fernanda Abreu e a icônica casa de shows Canecão. O festival acontece até 28 de junho, em São Paulo, ocupando salas do CineSesc, Cinemateca Brasileira, Spcine Olido, Spcine Paulo Emílio (CCSP), Cine Bijou, Cine Matilha (Matilha Cultural) e CINUSP. Quem é inteligente pega a rota traçada pelo jornalista e cinéfilo Renan Guerra em thread aqui. Paulo Beto, além de participar do filme sobre Jocy de Oliveira, faz pocket-show com sintetizadores com Paulo Casale recriando o álbum “Estórias para voz e instrumentos acústicos e eletrônicos”, logo após a exibição do doc, no dia 26, no Cine Bijou, às 21h, na Praça Roosevelt, na Consolação. 

Uma das versões do cartaz desse ano de maioridade
Nosso Paulo Beto com Jocy de Oliveira na casa aonde a visitaram John Cage e Karlheinz Stockhausen. Homenageada no doc "Universo Circular – Jocy de Oliveira", de Dácio Pinheiro, ela também é comemorada em pocket show de Paulo Beto e Paulo Casale com sintetizadores, no Cine Bijou

O In-Edit é tão legal que tem sessões on-line, para a gente que está longe, mas, não tem dúvidas que queria estar mais perto. Até o dia  1º de julho, são 17 títulos em cartaz no Itaú Cultural Play, no Sesc Digital e no Spcine Play. Paulo Beto está na fita de novo com “Eletronica:Mentes” (2019), documentário no qual investiga, com Dácio Pinheiro e Denis Giacobelis, o desenvolvimento da música eletrônica no Brasil, já falando de Jocy de Oliveira e Jorge Antunes no Sesc em Casa. Também na plataforma, está em cartaz “Ary” (2025),  de André Weller, que mistura ficção e imagens de arquivos raras para contar a história de Ary Barroso, passando pela parceria com os estúdios Disney, campos de futebol e encontros com personagens importantes na vida cultural brasileira, como Carmen Miranda. Ainda no Sesc em Casa, tem a première nacional de “Arthur, o gigante” (2025), que mostra a trajetória do contrabaixista que já acompanhou artistas como Gilberto Gil, Djavan, Lulu Santos e Ney Matogrosso. Já no SPCine Play, atenção para première nacional de “Hip Hop Caboclo” (2025), de João Nascimento, road movie em direção às regiões Norte e Nordeste do país, realizando uma investigação poética que une a cultura popular brasileira ao hip-hop, misturando ritmos de matrizes africanas e indígenas, cordel, embolada, ladainhas e cantorias. Também no SPCine Play, “Duque de Caxias, o Albergue Do Rock” (2025), de Guilherme Zani revela como uma casa na Baixada Fluminense se tornou um refúgio para bandas de metal de todo o Brasil, enquanto “Gritos de agonia – Uma história do movimento punk hardcore em Belém do Pará” (2025), de Márcio Crux, reúne depoimentos e valioso material de arquivo para contar mais de 40 anos da cena punk hardcore na capital do Pará.

O agendão das maravilhas segue nos destaques do meu Instagram, separado por cidades, e em thread infinita no X.

Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta. Todas as playlists de 2025, 2024, 2023 2022, 2021 e 2020 nos links

Para melhores resultados, assista na smart TV à playlist de clipes com Roger Waters & Mona Miari, Tierra Whack, Tove Lo + Stromae, Camille, Dope Lemon, Marilyn Manson, Poppy, Jagwar Twin, Cavallari + Tairec + Muxima Mc, Luedji Luna, Kelela + A. K. Paul, Rose Gray, L7nnon, Maui + Meio Feel, Luísa Sonza, Fresno, Black Pantera, Felipe Vaz, Gideon, Kristóf Hajós + Samuel Rozenbaum, Bebe Rehxa, midwxst, DJ Snake + Bipolar Sunshine, Des Rocs, Olivia Rodrigo, RuPaul, Choro da Quitanda, Ricky Martin + Luan Santana, La Cruz, Duran Duran, Tasha & Tracie + Kyan + Gregory, Marcelo Falcão + Carlinhos Brown + Bruno Martini, MC Kevin + MC IG + MC Hariel + DJ Gui de Novo + DJ Yuri Pedrada, Psirico, Kehlani, Ruback, Yann, Os Garotin, Luiza Brina + Sara não tem nome, Mon Laferte, Peaches (I. JORDAN Remix), Belle and Sebastian,Leo da Bodega, Atalhos,Tesla, CHAII, MV Bill, Tyla, The Neighborhood, Nego Max, Bullet Bane e Spark 

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