Assim como Irakytan, que passou aqui pela página, a cena queer de Maringá foge de uma estética plastificada e da lógica comercial e mostra uma travesti no interior produzindo música popular para um país inteiro
por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com
Acabou de sair levantamento divulgado pela Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), no qual temos apenas seis vozes femininas para mais de cem masculinas entre as mais ouvidas até agora em 2026. A falta de vozes trans, fora da cisnorma, é o que move artistas como a paranaense Leffs, 28 anos, que lança seu álbum de estreia, “Atravessada”, nesta sexta (17). Seguindo os imperativos da indústria de ser sempre alimentada por novidades, ela dividiu o álbum em dois atos, para ter sempre novas pessoas conhecendo o trabalho. “ Sim, eu sinto que essa estratégia de lançamento tem a ver com uma concessão com o contexto predatório da indústria da música atualmente. Na mesma medida em que bato o pé em não encaixar minhas músicas todas numa mesma prateleira musical fixa e rígida, essa forma de distribuir as músicas, botar no mundo é uma forma de manter a conversa acontecendo em relação ao álbum, nessa economia da atenção frenética. Acho que isso tem prós e contras em relação à fruição do álbum. Como artista independente, as pessoas vão chegando aos poucos no meu trabalho, então cada lançamento, como single, EP, e, só no fim, o álbum, é uma oportunidade para alguém entrar na conversa, conhecer o projeto, etc.. Ao mesmo tempo, pra quem tá acompanhando cada lançamento, é uma forma também das pessoas ouvirem novamente, terem novas interpretações e sensações com a música. O álbum tem uma ordem, uma narrativa, então, pra quem se propõe a ouvir o álbum como um todo, isso está, em certa medida, resguardado. O álbum, íntimo, sensível e político, investiga gênero, desejo, poder e afetividade, com diferentes paisagens sonoras que dialogam com a canção brasileira contemporânea, com arranjos orgânicos e camadas eletrônicas sutis. Sobre a falta de mulheres trans entre as mais ouvidas da indústria, ela reflete. “Por mais que a gente tenha visto uma crescente de artistas trans e travestis de uns anos pra cá, é ainda muito latente esta questão da disparidade em relação a presença de pessoas cis, especialmente homens, na música. Vejo que essa lógica da representatividade nos promove até certo acesso, mas não nos dá possibilidade de sustento, de autonomia perante este contexto. Nos encaixotam em espaços muito específicos neste mercado o tempo todo”, desabafa.
Moreira – Nos conhecemos por indicação do Irakytan, umas das melhores entrevistas da página e, desde então, você tem me enviado sugestões do seu trabalho, adoro essas conexões. Seu álbum foi produzido por Chá di Lirian, que também produziu o Irakytan, além de Nicholas Emmanuel Machado de Oliveira, Samuel Amaro e Mateus Rossato. Toda esta turma é de Maringá? Como foi esse processo e como chegaram a este resultado tão pop e fresco? Sou doido para ir nesse rolê de rua do Irakytan, o “Equinócio.Movimento”. O que mais precisamos saber da cena queer de Maringá?
Leffs – Num geral, tenho a percepção de que a cena nos interiores pulsa muito fortemente. Acho que a dor e a delícia de não acessarmos os recursos dos grandes centros produz muita coisa especial. Existe uma permissividade em deglutir as referências do que rola numa cena nacional e permear tudo isso de uma genuinidade que dá esse aspecto fresco e contemporâneo.
Toda essa turminha do álbum é de Maringá sim, a maioria da equipe de som e do audiovisual também são de Maringá. Acho que temos um tesouro aqui, uma cena que só não foi descoberta ainda pelo eixo do centro, mas que é potente demais. O Equinócio é um super exemplo disso, construído a partir da experimentação, um encontro de DJs iniciantes e DJs experientes na rua, de graça, popular. O que é preciso saber sobre a cena queer de Maringá é que fugimos de uma estética plastificada dessa lógica comercial, especialmente porque os financiamentos dos projetos são via edital ou independente mesmo, o valor não está exclusivamente no retorno financeiro, mas na originalidade, na subjetividade, naquilo que fundamentalmente constrói legado e relevância artística. Nesse sentido, recomendo os trabalhos musicais do Irakytan, da Majis (que lança, nesta sexta (17), o EP “Maj´is´rock”*), da Donna Gaê, da Ariadine Gomes e da Cau Russo.
Moreira – Você tem construído esse lançamento em duas partes, com o lançamento de singles e uma primeira parte, um EP. É uma forma de estar sempre presente nesta indústria meio esquizofrênica de tantos lançamentos? Será que não prejudica o álbum como obra inteira, a entrega toda de uma vez? É uma prática de grandes players do mercado, que costumam ir recheando a playlist do novo álbum até lançar tudo. Mas um modelo que é bem diferente da época quando consumíamos um álbum por mais tempo, absorvendo o encarte.
Leffs – Sim, eu sinto que essa estratégia de lançamento tem a ver com uma concessão com o contexto predatório da indústria da música atualmente. Na mesma medida em que bato o pé em não encaixar minhas músicas todas numa mesma prateleira musical fixa e rígida, essa forma de distribuir as músicas, botar no mundo é uma forma de manter a conversa acontecendo em relação ao álbum, nessa economia da atenção frenética. Acho que isso tem prós e contras em relação à fruição do álbum. Como artista independente, as pessoas vão chegando aos poucos no meu trabalho, então cada lançamento, como single, EP, e, só no fim, o álbum, é uma oportunidade para alguém entrar na conversa, conhecer o projeto, etc.. Ao mesmo tempo, pra quem tá acompanhando cada lançamento, é uma forma também das pessoas ouvirem novamente, terem novas interpretações e sensações com a música. O álbum tem uma ordem, uma narrativa, então, pra quem se propõe a ouvir o álbum como um todo, isso está, em certa medida, resguardado. Além disso, tenho pensado muito nessa experiência de ouvir o álbum completo. Em Maringá, onde moro, tenho realizado audições públicas do álbum, percebo como um evento assim suspende essa noção de tempo frenético mercadológico e constrói um espaço em que é possível se descolar da realidade e entrar no universo do álbum. Tenho gostado bastante disso e pensando em propor eventos assim em outras cidades, com o intuito de criar outros vínculos do público com a obra.
Moreira – Me conta mais sobre as duas artistas que participam do álbum em dois feats com Trava da Fronteira, em “Peligrosa”, artista ligada ao ballroom e aos slams de poesia falada em Maringá, e “Pé de Guerra” com participação da carioca Rúbia Divino, pesquisadora sonora da música preta contemporânea brasileira, evocando a Tropicália.
Leffs – Para um álbum, eu sentia a necessidade de convidar algumas artistas pra compor certas faixas, num sentido de criar pontes com novos públicos, estilos musicais, linguagens, etc.. Isso ficou bem evidente no processo de produção de “Peligrosa” e de “Pé de Guerra”. Tanto eu quanto os produtores sentimos que uma colaboração nessas músicas agregaria para a construção do universo do álbum. Peligrosa PRECISAVA ser com a Trava da Fronteira. Não via outro nome possível, justamente pela conexão com a cultura ballroom no Paraná, que também participei mais ativamente em 2025 na House of Ocean, e por essa ponte com a música urbana. Nos conhecemos em um SLAM em Maringá e, desde então, acompanho o trabalho da Trava com uma admiração muito grande, foi um prazer imenso trazer ela para esse projeto e estou ansiosa para que todo mundo veja o resultado do clipe que gravamos juntas para a faixa. Já em “Pé de Guerra”, senti que o trabalho desenvolvido pela Rúbia Divino fazia muito sentido com a música, que tem esse aspecto de Nova Tropicália. A Rúbia desenvolveu o trabalho dela em Maringá por alguns anos, nos conhecemos nessa trajetória, por isso a presença dela no álbum é também uma forma de saudar grandes artistas que constroem sua carreira no Paraná e contribuem para uma cena mais diversa e plural. Foram essas histórias e afetividades com essas artistas que consolidaram a participação delas nesse álbum de estreia.
Moreira – Este trabalho é para valorizar a sua voz e a sua escrita, algo que é muito importante, o artista que compõe as próprias canções, mas sem perder a musicalidade de vista. O álbum tem dois movimentos, um lado mais quente e fervido, com swing, com faixas iluminadas e sensoriais com elementos latinos, como bolero, salsa e lambada, composições provocativas, energéticas e afirmativas, e também momentos de introspecção e delicadeza, como em “Pequena”, com seus timbres de guitarras e synths típicos do indie rock nacional, e “Antúrio” (música dedicada à sua avó). Como transformar experiências pessoais em narrativas universais? Tem que fazer ferver e chorar?
Leffs – Existe sempre um risco, quando se mexe em pessoalidades para a produção de trabalhos artísticos de botar sua experiência no centro do universo, e que chato quando isso acontece, né? Nas minhas composições, o exercício é pensar em como uma experiência pessoal pode contribuir para a fabulação de um mundo em que outros afetos e efeitos sejam possíveis. Passa por abrir mão de uma exatidão com a realidade, os fatos e assumir um compromisso com a linguagem, com os elementos que constroem uma narrativa pra além dos tijolos factuais. Brincar com as sensações, com as metáforas, com uma imagética fantasiosa, fabulosa. Penso que, dessa forma, o pessoal tem maior potencial de ser expandido e reinterpretado pela público. As pessoalidades têm chance de se encontrar dessa forma, essa é minha aposta. Então, pra além de ferver, ou de chorar, o objetivo é propor que exista espaço pro público criar as suas histórias junto com a música (na pista ou chorando no chuveiro).
Moreira – Quais contribuições que “Atravessada” traz para essa construção de uma narrativa travesti, transexual, na canção brasileira? Vivemos um tempo de muitas vozes com grande qualidade artística, e é algo que parece necessário para preencher uma lacuna que havia em uma indústria que ainda é, essencialmente, masculina. Entre as 50 músicas mais ouvidas desse ano, segundo levantamento divulgado pela Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), na semana passada, temos apenas seis vozes femininas para mais de cem masculinas entre as mais ouvidas.
Leffs – Por mais que a gente tenha visto uma crescente de artistas trans e travestis de uns anos pra cá, é ainda muito latente esta questão da disparidade em relação a presença de pessoas cis, especialmente homens, na música. Vejo que essa lógica da representatividade nos promove até certo acesso, mas não nos dá possibilidade de sustento, de autonomia perante este contexto. Nos encaixotam em espaços muito específicos neste mercado o tempo todo. A contribuição do “Atravessada” pra música feita por travestis no Brasil é a da pluralidade de discursos e linguagens musicais, especialmente de uma travesti deslocada do centro cultural do país. Acredito que quem ouvir o “Atravessada” tem a possibilidade de imaginar um mundo no qual é possível uma travesti no interior do Paraná produzir música popular pra um país inteiro, que extrapola a marginalização e a sexualização que a cisnorma nos impõe. O “Atravessada” não propõe um caminho único, certo, exato de fazer música, mas deixa à disposição do público imaginar quantas nuances e possibilidades cabem numa vida trans.
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Exatamente nesta sexta (17), a Sexta Sei completa seis anos de jornalismo cultural independente e livre. O que surgiu como uma forma criativa de superar os efeitos da pandemia sobre a saúde mental acabou se consolidando como uma plataforma para artistas da cidade, do país e do mundo. Sigo aqui, tal qual um Dom Quixote contra moinhos digitais, fazendo o que acho correto: jornalismo livre e independente com real interesse pela produção cultural. Aqui não tem roleta sem aviso de publi, como em outros sites. Como de costume, fiz uma pesquisa para saber quais foram as cinco entrevistas mais acessadas do ano, exercício que sempre ajuda a calcular a rota do ano sete, que está por vir. Em primeiro lugar, ficou a entrevista com a volta da banda Karnak, depois de cinco anos sem lançar álbum, em papo com meu ídolo Abu, o guitarrista, cantor e compositor Andre Abujamra, 60 anos, leader band do grupo, sobre “Karnak Mesozóico”. O segundo post mais acessado foi o papo com a experiente produtora musical Malka, 40 anos, sobre seu primeiro trabalho solo como cantora e compositora, o maravilhoso “Chão”. Em terceiro lugar, o feminismo de Vitoria Faria, que mostra a “coisa mais perigosa, a mulher que fala e goza” em “Vacas Exaustas”, álbum de estreia da acordeonista. Em quarto lugar, foi uma re-entrevista com o cearense Mateus Fazeno Rock, falando sobre “Lá na Zárea todos querem viver bem”, seu terceiro álbum de carreira, o primeiro por uma gravadora, a Deck. O Cinemais não convidou a imprensa para assistir à estreia do cineasta Marcos Pimentel na ficção, com o delicado e sensível “O silêncio das ostras”, inspirado na tragédia socio-ambiental de Brumadinho e Bento Rodrigues, que matou 289 pessoas e segue sem culpados punidos pela justiça. Mas o jornalista teve acesso a um link, foi lá e reportou, e o post ficou em #5. Questão de destino e vocação. Também vale destacar que, neste sexto ano, a página fez mais duas entrevistas internacionais, com os portugueses Branko e Evaya, depois de outras entrevistas com Sofi Tukker e Fado Bicha.
Celebrando o Dia Mundial do Rock, na última segunda-feira (13), três lançamentos nacionais provam que o rock brasileiro não morreu e segue sendo plataforma de protesto, rebeldia e musicalidade da juventude. A banda cearense Selvagens à Procura de Lei lançou videoclipe do novo single “Dia de Rua”, parte de “Pivete”, sétimo álbum de estúdio da banda, com lançamento confirmado para agosto. Toda a estética crua e documental do vídeo traduz perfeitamente a proposta lírica da canção: um grito de protesto que convoca o público a trocar a anestesia das telas digitais pela organização e ocupação do mundo real, com imagens reais e viscerais de manifestações de rua e direção de tom expressionista de Ana Waléria Dias. Ao contrário das produções milimetricamente polidas que ditam as regras do mercado digital, os Selvagens apostam em um retorno visceral às raízes do rock pé no chão. Ao unir o peso do rock alternativo à força de vozes de resistência, o grupo reafirma que a música de contestação não perdeu sua potência, convocando seu público a ir para a rua de galera. A faixa conta com a participação do deputado estadual Leo Suricate (PSOL), após a banda dividir o palco com o ativista em uma manifestação popular em Fortaleza.
Mobilização social contra o racismo é a tônica da banda de Uberaba Black Pantera, que sextou aqui e já é juiz-forana honorária após três anos consecutivos como headliner do festival O dia de rock. “Start the game” é primeiro single do quinto álbum de estúdio da banda, “Continental”. Com sonoridade que transita entre o neo metal e o rock dos anos 90, a música inaugura essa nova fase, que se materializa no álbum, muito aguardado pelos fãs. A música ganhou um clipe de animação, assinado por Pedro Hensen, que leva o trio mineiro a cenas inspiradas em jogos de videogame, como GTA, Tomb Raider, Homem-Aranha, Mortal Kombat, The Sims, Sim City, The Legend of Zelda, Alex Kidd, Metal Slug, War, Guitar Hero, Need for Speed, FIFA, Pac-Man, entre outros, e o anime Jujutsu Kaisen. Algumas cenas, inclusive, são inspiradas por um jogo inédito, nacional, que ainda será lançado, chamado Saci Filho do Vento. “A ideia de usar os jogos foi uma forma de falar sobre como viver tá sendo difícil, como a gente tá sempre pulando de fase e passando de fase, mas às vezes temos que voltar atrás, descobrir alguma outra camada e abrir uma outra porta, enfim”, comenta o baixista e vocalista Chaene da Gama.
E o rock também é das bonecas, protect the dolls 🗣️, e Ivana Wonder mergulha no ritmo ao lado de Catto em “Ao meu amor”, single que antecipa seu álbum de estreia, “Primeiro Ato”, com papo já agendado aqui para a Sexta Sei do dia 14 de agosto. Inspirada por um coração partido, “Ao meu amor” começou a ser composta em 2019 durante uma viagem-solo, e foi redescoberta por Ivana durante a preparação de seu primeiro disco. Na letra, escrita pela artista, ela canta sobre a importância do amor próprio e reencontrar a si mesma após um término turbulento. “Lembro de uma viagem para Ouro Preto que seria, originalmente, um encontro com essa pessoa. No fim, porém, fiz a viagem sozinha. Recordo de estar sentada em uma praça, contemplando a cidade, e pensar: ‘Foi o meu amor por mim mesma que me trouxe até aqui’”. Ivana trabalhou com Catto nos visuais de “Caminhos Selvagens”, último álbum da artista. “Tinha que ser ela. Ela é a minha garota do rock. A voz, a presença e a trajetória dela dialogam muito com a energia dessa faixa”, diz Ivana. O novo single acompanha os já lançados “Melancholic Blue” e “Saudades de Mim”, que sextou aqui.
O agendão das maravilhas segue nos destaques do meu Instagram, separado por cidades, e em thread infinita no X.
Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta. Todas as playlists de 2025, 2024, 2023, 2022, 2021 e 2020 nos links
Para melhores resultados, assista na smart TV à playlist de clipes com Asake, Future, $tarface + Tyga, Rebecca Black, Role Model, The Rolling Stones, Pole Position + JAW (Amour Propre Remix), Lumens, Chico Bernardes, midwxst, U2, Frost Children, Cage the Elephant, Mari Froes, Masego, Majis, Morcheeba (Rex The Dog Remix), YEONJUN (연준), Alaska Thunderfuck, Brutalismus 3000, Hiran + Cuper, aLex vs aLex, Black Pantera, Selvagens à Procura de Lei + Leo Suricate, Peaches (Middle Finger Edition), Queens of the Stone Age, My Chemical Romance, Continue, Depeche Mode, Gaby Amarantos, Siena Spirro, Tierra Whack, Chlöe + Timbaland, Madonna, Beck, Hamilton de Holanda, Matteo Bocelli, Tokischa, Naré
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