A partir do single “Todo dia acordo num país”, ele chamou a atenção, no Instagram, com uma série de paródias políticas, mordazes e bem-humoradas sobre o atual momento político
por Fabiano Moreira
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Já tem um tempo, desde 2022, que estou namorando o trabalho do cantor, guitarrista e compositor mineiro Guto Brant, 32 anos, indicação da minha amiga mineira Sabrina Martins Bueno, produtora da sextante Biltre que trabalhou com Elza Soares, que me mandou ouvir “Mal & Bem”, que resenhei na página aqui, quando Guto estava curtindo um clima Prince com pop, ares oitentistas e elementos de funk e disco music. Nos últimos meses, Guto tem chamado bastante atenção, no Instagram, com o esquete “Todo o dia o Flávio do Jair”, com paródias políticas, críticas e bem humoradas de sua canção “Todo dia acordo num país”, o primeiro single divulgado de seu primeiro álbum de estúdio, “Como estou dirigindo?”, que chega duas semanas antes da votação do segundo turno que vai decidir o futuro do Brasil, nesta sexta (16), e depois do álbum ao vivo “Falanti” (2025) e dos EPs “Som & Fúria ao vivo” (2024), “Pombália” (2021), “Duplo” (2018). Nas paródias, ele diz que Flávio procura banqueiro para financiar o filme do pai, caro demais, com diretor estrangeiro; que tem uma loja de bombons que vende menos na Páscoa; que quer privatizar as praias brasileiras e que será um jumento para o presidente americano montar. O álbum foi composto a três mãos com o baixista Lucas Luis, 36, e o baterista Ciro Trevisan, 32. O álbum não só faz uma crítica à “opção de parte da sociedade de defender sistemas que contribuem para sua própria destruição” como tem o masculinismo, que se ampara no antifeminismo e na superioridade masculina, como tema central. “(…) E também a razão pela qual seu título é “Como estou dirigindo?”, uma pergunta retórica que vemos nos caminhões: no fundo, nem o motorista, nem a empresa se importam com a resposta, e a frase está ali só pra fazer vista. Da mesma forma, o patriarcado não se importa com a maneira como dirige o mundo, mas, por vezes, tenta adaptar o discurso para parecer que se importa. Sem injetar nas canções um intuito salvador, as utilizamos para apontar as inconsistências profundamente nocivas que constituem nossa formação como homens, e reconhecer nossa responsabilidade pelo estado em que as coisas se encontram”, caneta, nesse papo aqui para a Sexta Sei, sobre o álbum que mergulha no rock com canções rápidas, cruas e ácidas, marcadas por distorções, humor e referências da música brasileira.
Moreira – Tem “dorgas” em “Todo dia acordo num país”? Porque a métrica gruda na cabeça da gente, e você ainda criou várias versões, no Instagram, que alimentam o grude. Eu fiquei dias com essa melodia na cabeça, chiclete demais. A ideia é cada um criar a sua versão? O noticiário alimenta muito essa canção e suas variações, né? É um momento quando os artistas não podem se calar. O Flávio fez até um apelo para artistas se manifestarem a seu favor, dada a alta adesão da classe artística à campanha de Lula.
Guto Brant – Haha, fico feliz que tenha grudado sem chatear. A ideia de criar versões alternativas não foi planejada. Eu havia lançado a música, e a temática dialogava, tristemente, com o momento. A tentativa de fazer a primeira sátira fluiu com muita facilidade e acabei fazendo três versões (aqui, aqui e aqui).
Moreira – Esse é o seu primeiro álbum de estúdio, que chega mais roqueiro do que seus trabalhos anteriores, com canções rápidas e cruas, com guitarras distorcidas e vocais diretos. Esta formação clássica de guitarra, bateria e baixo, a clássica cozinha do rock, ajuda nesse caminho? Como formou essa banda?
Guto Brant – Com certeza! Esse é um álbum que foi construído justamente ao redor da banda, do trio; e isso vem desde o momento da composição. Lucas já tocava comigo desde as primeiras formações do projeto. Chamei o Ciro pra fazer um show conosco nesse formato de trio, e acabamos criando quase a totalidade das canções durante os dois meses de ensaio que antecederam o show.
Moreira – A capa faz referência ao patriota do caminhão? O Lucas Sfair fez um clipe muito bom com essa temática. Ou ao fato de que vocês vão meter o pé na estrada? Vi que vão passar aqui por Juiz de Fora, que sorte a nossa, (já sabe a data e o local?) além de Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Como se sente com as comparações que alguns jornalistas (Nelson Motta) têm feito entre você e Caetano Veloso? Grande poderes, grandes responsabilidades, né?
Guto Brant – Não, na verdade, o caminhão dialoga com o nome do disco, que é uma frase comum na traseira de caminhões. Em breve, vamos divulgar direitinho as datas dos shows, que ainda não estão totalmente definidas, mas estamos super animados para voltar a Juiz de Fora! Sobre as comparações com Caetano, é algo que tento não levar muito a sério. Claro que Caetano é uma referência musical importante pra mim — e pra boa parte da música popular do Brasil produzida desde o final do último século —, mas sinto que essas comparações são, sobretudo, uma tentativa jornalística de comunicar com as pessoas, e situar uma obra nessa grande nuvem que é a música brasileira. Eu ouço todos os comentários sobre meu trabalho com muito carinho, mas evito me apoiar neles enquanto desenvolvo as canções.
Moreira – “Pro dinossauro, o meteoro é a mudança”, diz a letra de “Jabuticabra”, algo que faz referência ao pensamento bolsonarista de defender um governo que tentou nos matar durante a pandemia. A inspiração veio dessa dicotomia de um povo que quer mudar pra pior? Ou melhor, de um povo que não recebeu educação suficiente pra pensar politicamente? Vi algumas entrevistas de eleitores que não sabem explicar o voto na direita, além da rejeição a um presidente que veio da classe trabalhadora.
Guto Brant – Essa frase veio daquela tirinha do dinossaurinho que diz que vai votar no meteoro. No contexto da canção, é uma constatação da recorrente opção de parte da sociedade de defender sistemas que contribuem para sua própria destruição. Bem atual, né?
Moreira – Entre as faixas está também “O meu grão tem 5000 maneiras de existir”, um rock pesado, cheio de distorções e com uma letra delirante e bem-humorada que satiriza os privilégios masculinos. É importante que nós, homens, participemos desse debate contra a misoginia, né? Levantamento divulgado pela Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD) aponta apenas seis vozes femininas para mais de cem masculinas entre as mais ouvidas até agora em 2026.
Guto Brant – O masculinismo é provavelmente o tema central desse álbum, e também a razão pela qual seu título é “Como estou dirigindo?”, uma pergunta retórica que vemos nos caminhões: no fundo, nem o motorista, nem a empresa se importam com a resposta, e a frase está ali só pra fazer vista. Da mesma forma, o patriarcado não se importa com a maneira como dirige o mundo, mas, por vezes, tenta adaptar o discurso para parecer que se importa. Sem injetar nas canções um intuito salvador, as utilizamos para apontar as inconsistências profundamente nocivas que constituem nossa formação como homens, e reconhecer nossa responsabilidade pelo estado em que as coisas se encontram.
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Tenho percebido um culto ao cantor Belo entre as novas gerações desde 2020, quando a baiana Illy lançou o single “Desafio” e começou a apresentar o show “Illy canta Belo” em 2025. Esta semana, foi uma surpresa que o talentoso MC e cantor fluminense Maui, artista de Duque de Caxias que chamou atenção, na cena nacional, com a bela estreia “Melodia&Barulho”, pela Deck, com produção de CL Fez o Beat e coprodução do sextante Chediak, fez a conexão do pagode como o R&B brasileiro em “R&Belo”, no qual relê os clássicos do artista ao lado de Melly, Afreekassia, Darlan e Kbrum, que sextou aqui semana passada, novidade da Mousik, com direção musical compartilhada entre o artista e Machadez. Belo ganhou fama como vocalista do grupo Soweto e tem construído carreira como cantor romântico. O trabalho parte de canções que marcaram a trajetória de Belo para explorar novas texturas, ritmos e interpretações.
“Eu cresci cantando essas músicas. Em “Agenda”, por exemplo, eu cantava com a minha tia, fazendo as duas vozes. É uma música que já tinha muito de R&B na versão do Belo”, comenta. Peguei aqui pra playlist sextante a participação do querido Chediak no remix de “Contramão”, com NMS, que incorpora a relação de Maui com a música eletrônica e a cultura de pista.
Eu sou completamente obcecado pelo remix que o querido e talentoso Strausz fez de “Cuidando de longe”, dueto da canção composta por Marília Mendonça e Juliano Tchula gravado pela sertaneja e Gal Costa. Acho que abre nova perspectiva de percepção da poesia de Marília, profícua compositora que nos deixou tão cedo. O que ninguém tinha feito ainda é o que a mineira Lucia Vulcano, que tinha sextado aqui, com o single “Animal”, faz em seu novo e segundo álbum, “chucra & sensível”, ao dar interpretação emocore ao clássico “Eu sei de cor”, canção de Danillo Dávila, Elcio di Carvalho, Lari Ferreira e Junior Pepato que foi consagrada no vozeirão de Marília. Composto entre 2025 e 2026, o disco aprofunda características já presentes no trabalho da artista: guitarras pesadas, riffs marcados, mudanças de compasso e letras sarcásticas, ao mesmo tempo quando coloca no centro a contradição da convivência entre brutalidade e sentimentalismo, agressividade e vulnerabilidade.
“Há beleza em ser sentimentalmente chucra e brutalmente sensível”, explica a artista, que entrega um volume cheio de energia, para se ouvir alto, como todo bom rock´n´roll. O álbum foi gravado entre junho e julho deste ano no Acústico Motor, em Belo Horizonte, com produção de Rafael Dutra, parceiro de trabalho de Lucia desde 2018, quando colaboraram na gravação do primeiro disco do power trio pata, em que ela atuava como guitarrista e vocalista. A capa nasceu do hábito da artista de fotografar ratos mortos encontrados pelas ruas de Belo Horizonte, sobretudo no período de chuvas. A capa é assinada pela própria Lucia, com lettering de Marcelo Miranda. A banda é formada por Rafael Dutra e Pedro Esteves (guitarras), Fernando Bones (baixo) e Ciro Trevisan (bateria).
Um dos melhores papos aqui da Sexta Sei, o gaúcho radicado no Rio Rod Krieger acaba de lançar videoclipe para a sua versão de “The Cowboy”, de Arnaldo Baptista, canção lançada no projeto “Arnaldo Baptista 7.8 – Canções Inesquecíveis Revisitadas”, do qual falei aqui, que reuniu mais de 60 artistas em novas leituras da obra solo de um dos fundadores dos Mutantes. Agora, “The Cowboy” ganha um desdobramento audiovisual dirigido pelo juiz-forano Yan Gabriel, que filmou em preto e branco no Bairro Peixoto, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Uma estética que Rod, aliás, adora explorar em seus trabalhos, alguns deles em parceria com o super fotógrafo Daryan Dornelles. A relação de Rod com “The Cowboy” também passa por uma história de longa data com a obra de Arnaldo Baptista. O músico conheceu seu trabalho ainda na adolescência e, com o tempo, passou a considerá-lo seu artista favorito. Anos depois, a admiração deu lugar a uma aproximação pessoal, sustentada também por interesses musicais em comum.
“Quando fiz o primeiro contato, fui muito bem recebido por ele e sua companheira e acabamos criando um laço muito forte devido às nossas afinidades culturais, como as guitarras Gibson, os equipamentos analógicos e a paixão pelo Cream e pelo Jack Bruce”, conta. Em 2016, Rod foi convidado, por Arnaldo, para encerrar uma sequência de apresentações do músico em São Paulo. “Abrimos o show com ‘The Cowboy’ e lembro dele na primeira fila cantando junto o show inteiro. Aquilo foi mágico. Sempre soube que, se um dia gravasse alguma faixa dele, essa seria uma forte candidata”, relembra. Na gravação atual, Rod assume baixo, voz e produção musical, acompanhado por Caio Barreiro, nas guitarras, violão e viola caipira; João Nogueira, no piano, Hammond e synths; e Kelder Paiva, na bateria.
O agendão das maravilhas segue nos destaques do meu Instagram, separado por cidades, e em thread infinita no X.
Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta, com álbuns de Pitty, Niño Josele + Fernando Trueba, Arnado Prete + Charel, Muka Alba, Aretuza Lovi, Natália Sarraff, Guto Brant, Rachel Chinouriri, Angèle, Sophia Stel, Fontaines D.C., Sain, deluxe de Arlo Parks, Jimbo. Todas as playlists de 2025, 2024, 2023, 2022, 2021 e 2020 nos links
Para melhores resultados, assista na smart TV à playlist de clipes com Grimes, Zara Larsson, Angèle + Caroline Polachek + SebastiAn, Sleaford Mods + Sue Tompkins, Tobe Nwigwe + Busta Rhymes, Omah Lay, Doechii, El Efecto + Lenine, Aluna + Jengi, Uneducated, Judeline, girl in red, Goldie Boutilier, Troye Sivan, Royal Blood, Jungle, Rod Krieger, Imperial Teen, Lil Nas X, Falamansa, Pequeno Cidadão, Maria Bethânia, Gunna, Benziê, Tokischa, dawn richard, Palaye Royale, Raye, Kings of Leon, Jacob Collier, Greta van fleet, The Offspring, Asake, Muka Alba + Eddu Chaves, Hamilton de Holanda Trio + Paulo Flores, Guilherme Arantes, Shygirl, Maui, Tomora, Keiynan Lonsdale, Katseye, U2, Chico e o Mar, Héloa + Grupo Sabuká + Souto MC, The All-American Rejects, John Glacier, Ando San, Olivia Rodrigo + Chapell Roan
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