Sexta Sei: “A vida é um club, o club é a vida”, e Vera Fischer era clubber

As Veras gostam de ser chamadas com pronomes femininos e decretam a morte do gênero em seu segundo álbum, com a “buceta gay” e “um pau extremamente feminino”

por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com

Malu Manc, Crystal Duarte, Pek0 e Vick Luz: As Veras por Filipe Braga

As Veras são as integrantes da banda carioca Vera Fischer Era Clubber, uma turma causadora de bafos formada por Crystal Duarte (voz), Pek0 (bateria), Malu (baixo) e Vick Luz (teclas) que quebrou a internet com a sua participação no Cultura Livre, da TV Cultura, quando chocaram a “sociedade”, ou o que restou dela, com sua spoken word desbocada e maluquete. Esta semana, elas lançam seu segundo álbum “Veras II”, pela Palatavel Records, com participações de Kiko Dinucci e de Katy da Voz e as Abusadas e uma mistura de post-punk, electro-punk, eletroclash, techno e pop. Bati um papo com elas, por e-mail, para a #SextaSei, no qual Crystal me contou que ela compôs as letras, no primeiro álbum, “cuspindo” as palavras e, neste segundo álbum, escrevendo em casa para, depois, as músicas ganharem “vida em cima dos beats”. Os integrantes simplesmente amam ser chamados de As Veras e colocar esse bug do gênero na cabeça do público. “A gente prefere ser chamada no feminino, por fazer mais sentido. Todas nos identificamos no feminino. No meio queer, todo mundo é mona, e o gênero, simplesmente, morreu”, decreta Pek0. “Estamos nos desvencilhando cada vez mais dessas caixinhas. Somos todas monas. Me soa estranho o Vera, os Veras, mas também acho divertido que role essa confusão com gênero não só com integrantes da banda, mas também com o próprio nome”, finaliza a baixista Malu.

Moreira – Quando pedi a entrevista, conversei com a turma da Palatável Records sobre terminar um ciclo de entrevistas sobre spoken word, como as que fiz com NoPorn, duas vezes, aqui e aqui, a “falação ritmada” de Fausto Fawcett e Jup do Bairro. Quase já fiz com Katy da Voz e as Abusadas, que eu amo demais, pela revolta e todo o ódio na voz, que vai entrar aqui, na participação do primeiro single do segundo álbum de vocês, em “Calcinha gozada”. A música que abre o álbum é um mantra de xingamentos,  com o conteúdo bem no clima de “VTNC”, mas música quase lounge. A spoken word nasce primeiro da poesia, do que se tem a dizer? Quem faz as letras, é uma criação coletiva? Ou vocês criam versos sobre bases também, na criação? Há preconceito com a spoken word entre os músicos? 

Crystal Duarte (voz): Toda fala tem ritmo, a poesia, assim como a música, estrutura e brinca com esse ritmo. É difícil dizer o que surge primeiro, as ideias, geralmente, já surgem conectadas a um jeito de serem ditas. As letras são escritas por mim, mesmo no formato do álbum anterior, no qual as músicas surgiam em um contexto de improviso, da mesma forma que as meninas ocupavam seus instrumentos, era eu ali, no microfone, cuspindo os versos e os assuntos. Nesse álbum principalmente, as letras vieram quase todas de casa e ganharam vida em cima dos beats. “Buceta gay” surgiu na sala de ensaio como uma surpresa deliciosa. Deixamos até a reação da pek0 aos primeiros versos da faixa na track, é possível ouvi-la gritando “bom pra c*ralho”. kkkkkkkkk

Moreira – A participação de vocês no Cultura Livre, da TV Cultura, foi um marco cultural neste ano, e também um causo de internet, pois vocês receberam muito hate, né? Como vocês encararam a repercussão? Quanto mais causar, melhor? “Já que é pra tombar”, já ensinava a Karol Conká… Teago Oliveira participou da edição seguinte e contou, nas redes, que recebeu hate retroativo.

Pek0 (bateria): No começo foi estranho, ficamos meio assustadas. Eram muitos comentários distribuindo ódio gratuito. Mas teve um lado ótimo, pudemos “estourar a bolha” e chegar a pessoas que se identificaram que nem imaginávamos chegar.

Moreira – E a Vera Fischer? Ela já assistiu a um show de vocês ou tomou conhecimento da existência da banda? Tinha uma fase que ela saía bastante na noite do Rio, eu já a vi algumas vezes na noite da Le Boy, na minha fase carioca. O nome é genial e dá uma curiosidade pra conhecer vocês, adoro nomes enormes e narrativos.

Pek0: Ela tá sabendo, e é uma honra para nós poder homenagear a diva. Estamos ansiosas para esse encontro!

Moreira – Como foi a participação do gênio Kiko Dinucci em “Amor de anjo”? É a lentinha do álbum, “um pedaço de carne, nascida cheia de esperança”. Como foi a troca com ele, que é da nova vanguarda paulistana? Sou muito fã dos desenhos que ele mesmo faz para os seus shows. E ele parece ser muito gente boa, pelas interações on-line.

Pek0: Kiko é realmente um fofo, já colou em alguns shows. É um prazer trocar com ele. A guitarrada que ele trouxe é incrível!! 

A capa de "Veras II" por Bambi Pessego

Moreira – A capa do álbum, de Bambi Pessego, é da mesma família de “Todos os olhos”, do Tom Zé? Ela também fez a capa do single, e é bem legal esse namoro com as artes plásticas da banda, são universos afins. Adorei “Buceta gay”, que fala sobre “buceta gay/e um pau extremamente feminino”, questionando as questões de gênero. Quais os pronomes de vocês? Porque vocês estão sendo chamados de  “As Veras”, o que é super divertido, né?

Pek0: Esse álbum é tudo! Ref máxima! A gente prefere ser chamada no feminino, por fazer mais sentido. Todas nos identificamos no feminino. No meio queer, todo mundo é mona, e o gênero, simplesmente, morreu.

Malu (baixo): A Bambi é uma amiga maravilhosa que aceitou colaborar com a gente nos 45 do segundo tempo pra lançar o álbum. Adorei que você relacionou a capa do Veras II com a arte linda da capa do Tom Zé. Não é segredo que as Veras gostam de percorrer por várias áreas da estética, como a sonora, a poesia, a moda, as artes visuais. Para nós, é muito importante ter uma estética visual que nos represente, e a Bambi fez isso lindamente. Sobre os questionamentos de gênero, é como a Pek0 trouxe acima: estamos nos desvencilhando cada vez mais dessas caixinhas. Somos todas monas. Me soa estranho o Vera, os Veras, mas também acho divertido que role essa confusão com gênero não só com integrantes da banda, mas também com o próprio nome. É algo que a própria Pabllo Vittar também vivenciou, e acho divertido os burburinhos e os questionamentos que isso causa. 

🌊🪼🫧🐚𓆝𓆟 Como uma onda no mar 𓆞𓆝𓆟𓇼🪼🫧🐚🫧🌊

Clara Bicho e Gabriel Campos: os Irmãos Bicho em fotos de Pedro Patti

Eu já estou de olho nos Irmãos Bicho, ambos com 25 anos, completos nesta semana, desde que entrevistei Clara Bicho sobre seu EP de estreia, “Cores da TV”, com participação da também sextante Sophia Chablau na faixa título e, logo depois, papeei com seu irmão gêmeo Gabriel Campos, que lançou, com a gêmeas Alice Eskinazi (bateria) e Camila Nolasco (baixo), o álbum de rock triste (ou emo caipira) do Memórias de Ontem, “Translúcido”. Nessas entrevistas, eles já avisaram dos planos de se lançarem como Irmãos Bicho, fato que se concretiza agora, logo após de participarem do projeto “Arnaldo Baptista 7.8 – Canções Inesquecíveis Revisitadas”, no volume Jeans, interpretando “Sunshine”, faixa do álbum “Elo Perdido”, lançado com a Patrulha do Espaço, em LP, em 1988, e, este ano, nas plataformas de streaming. Clara Bicho chamou a atenção de ninguém menos do que o mitológico Rogerio Sylab, que a convidou a participar de “Trilogia da putrefação – Volume 1” nas faixas “Acontecimento” e “Fui por aí”

Arte de capa e design por Pedro Patti

Então, as expectativas estão nas alturas com o trabalho dos dois como duo. A primeira mostra chega nesta sexta (18) com o single Conversa de elevador”, que consolida, em estúdio, uma parceria que eles já vivenciam no palco, combinando referências contemporâneas a elementos da tradição musical, fundindo o indie pop ao rock alternativo. A proposta antecipa um novo LP, previsto para 2027. Grandes poderes, grandes responsabilidades, e a gente espera um bocado dessas simpáticas figuras que são ícones do indie em Belo Horizonte. O single tem produção de dois nomes da cena independente de BH, ambos integrantes da banda de folk rock Moons: Bernardo Bauer, que também esteve à frente do grupo instrumental Pequeno Céu; e Felipe D’Angelo, integrante da última formação que acompanhou o cantor Lô Borges, ícone do Clube da Esquina. “A expressão ‘conversa de elevador’, normalmente usada para descrever conversas superficiais, ganha outro significado na nossa canção”, explica Clara. “O elevador sobe e desce, mas continua preso ao mesmo trajeto. O eu lírico que propomos rejeita essa ideia de permanecer parado e decide, por meio dessa metáfora, escalar os prédios por conta própria, mesmo sabendo que isso envolve esforço, risco e quedas”, continua a compositora da canção.

A cantora e compositora carioca Virgo Virgo lança o single “Virada”, um sambass (samba eletrônico) com videoclipe que é uma “instalação audiovisual imersiva”, segundo a artista, que utiliza de imagens projetadas, extraídas do imaginário visual brasileiro – de Clarice Lispector a Daiane dos Santos -, para criar “uma paisagem em constante transformação, onde identidade e mitologia cultural se sobrepõem”. Na ficha técnica, nomes como o do diretor Vine Ferreira, da produtora Carol Santos e da VJ Martina. O clipe fala de amadurecimento, transformações, superações e sobretudo, a descoberta do próprio valor. Virgo Virgo buscou inspiração em atrizes do nosso cinema, como Zezé Motta, Helena Ignez e Alice Braga. “Virada” é uma canção de autoria de Virgo Virgo e co-autoria de Jonathan Panta, com produção de Baroque Angel e Fernando Catatau. A captação aconteceu no Nosso Estúdio (Santo Cristo, RJ), por Nelsinho Freitas, em abril de 2026. A mixagem e a masterização são de Mbé

Capa do single “Virada”, com foto de Vine Ferreira e arte de João do Nascimento
Lucia Vulcano com fotos de Francielle Cota e styling de Camila Duarte

Também de Belo Horizonte, vem o trabalho visceral da  musicista e compositora Lucia Vulcano, que lança o single “Animal”, na esteira do sucesso de seu álbum de estreia, vim, vi e me fudi” (2024), que tem os clássicos  ninguém manda em mim”, C.A.N.S.A.D.A” e sagrado maldito”. O single abre caminho para o próximo disco, “chucra e sensível”. A energia é punk rock, com influências de grunge e metal, com humor ácido e letra que aborda o desejo de se distanciar da vida social e de suas obrigações. “A letra diz sobre a vontade de largar a civilidade e retornar ao primitivo, com as coisas sendo mais fáceis e divertidas – e não existe trabalho, exploração e etc.”, defende. Com influências de bandas como Soundgarden, Black Sabbath, Alice in Chains, Hole e L7, misturados à referências mais contemporâneas, de artistas como Trash No Star, Gritando HC, The Mönic, e as sextantes Roberta de Razão, MC Taya e Eskröta, Lucia guia seu trabalho de forma que o peso e a ironia se apresentem de maneira estruturada musicalmente, contendo ainda partes melódicas bem definidas.

A capa de "Animal" por Mara Guimarães

“Gosto muito de tempos quebrados, tem muitos compassos ímpares e mudanças de compasso durante as músicas. Gosto de pensar que é uma mistura de grunge e punk pois, às vezes, musicalmente, é muito grunge, mas com letras voltadas para o punk – e ainda tem músicas quem tem a simplicidade do punk,  com poucos acordes”, explica a artista, cuja carreira discográfica se iniciou com a banda pata, na qual atuava como guitarrista e vocalista, lançando, em 2019, o álbum “Shit & Blood”. Lucia é mestre em Música pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e começou a tocar baixo na adolescência. O single “Animal” foi gravado no Acústico Motor, em Belo Horizonte, com Rafael Dutra e Pedro Esteves (guitarras), Ciro Trevisan (bateria) e Fernando Bones (baixo).

O agendão das maravilhas segue nos destaques do meu Instagram, separado por cidades, e em thread infinita no X.

Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta, com álbuns de Vera Fischer era Clubber, Academia da Berlinda, Kim Petras, Vírus Carinhoso, Boy Harsher, Bella Poarch, Chaka Khan, beabaddoobee, Tove Lo, Carly Rae Jaepsen, Bloc Party, Empress of, Mnek, Orville Peck, Fran, Miley Cyrus, Lulina, Jhon Douglas, Ezra Collective, Beck, Pedro Francisco, deluxe de David Byrne, Sant, EPs de Naimaculada e Júnior. Todas as playlists de 2025, 2024, 2023 2022, 2021 e 2020 nos links

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