Sexta Sei: “Quando superamos um luto, estamos prontos para ter outros”, caneta o leader band da Alles Club, o guitarrista Rodrigo Lopes, que lança o intrumental “O Disco Do Luto (The Grief Album)”

Álbum começou a ser gravado em Jufas, com participação de alunos do Conservatório de Música, teve voz vinda dos EUA, banda fúnebre captada em Berna, na Suíça, e foi masterizado na Islândia, no Sundlaugin Studio, fundado pela Sigur Rós 

por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com

A banda original com Rodrigo Lopes (guitarras, synths), Fred Mendes (bateria), Stéphanie Fernandes (synths, vocais), Pedro Baapz (guitarra, baixo, em pé) e Ruan Lustosa (guitarra, sentado). Foto de Caio Dezidério.

Nesta sexta (30), aproveitando que o Dia de Finados, na segunda (2), levanta a pauta da morte, esse “caminho inevitável”, a banda originalmente juiz-forana e, hoje, com integrantes espalhados por várias cidades do mundo, a Alles Club, liderada pelo guitarrista Rodrigo Lopes, 49 anos, que mora em Berna, na Suíça, lança o seu terceiro álbum de estúdio, o instrumental “O Disco Do Luto (The Grief Album)”, falando sobre as diferentes formas de luto, pela morte ou por perdas cotidianas, em álbum que ganhou belíssima masterização de Birgir Jón Birgisson, na Islândia, no Sundlaugin Studio, fundado pela banda de post-rock Sigur Rós, a quem a banda admira demais. “Eu tive duas perdas importantes na minha vida, de dois irmãos que morreram por acidentes, ambos muito jovens, num espaço de 20 anos. Mas o que despertou mesmo a ideia desse disco conceitual foi uma experiência minha de ter, em 2018, um câncer diagnosticado e que me pôs a pensar sobre a minha própria morte e também a morte de um projeto de vida. Como você bem falou, o luto não é só sobre a morte de pessoas que amamos, mas uma série de sentimentos relacionados a diversas perdas. No final das contas, deu tudo certo, e o câncer não me matou nem matou a ideia de uma vida longa. Mas a ideia do luto ficou consolidada na banda como um tema válido a ser explorado artisticamente. Foi depois disso, em 2022, que veio a morte do meu segundo irmão e também algumas perdas importantes de outros familiares de membros da banda. Nós perdemos uma colaboradora muito querida também nesse processo, a Bel (Izabel Oliveira), e essas perdas consolidaram a ideia de que esse poderia ser um projeto relevante”, me conta o líder da banda, o guitarrista (que também toca baixo, glockenspiel e synths) e ainda psicólogo clínico Rodrigo Lopes, 47 anos. O álbum também fala muito sobre novas formas de se fazer arte em um mundo horizontalizado pela tecnologia, com captação da banda original com os mineiros Fred Mendes (bateria), Stéphanie Fernandes (synths, vocais), Pedro Baapz (guitarra, baixo, synths, glockenspiel, omnichord, saxofone) e Ruan Lustosa (guitarra, synths) e de um quarteto de cordas no Conservatório Estadual de Música Haidée França, isso tudo aqui em Jufas, em Minas Gerais; a captação da voz da cantora estadunidense Jenna Fournier, no Texas, nos EUA; de acréscimos suíços de Zeno D’Aulerio (bateria) e MRKS M (baixo e synths), captados em Zurique, de uma banda fúebre em Berna, na Suíça, até a masterização na Islândia, que deu o crack a mais deste volume sensível, que toca a alma do ouvinte. É um disco que dança entre essas distâncias e aponta novas formas de se produzir cultura.

O leader band Rodrigo Lopes (guitarra, baixo, glockenspiel, synths) e a banda original em Juiz de Fora. Fotos: Caio Dezidério
Pedro Baapz (baixo)
Ruan Lustosa (baixo)
Stéphanie Fernandes (synths, vocais)
Fred Mendes (bateria)

Moreira – O encontro do rock com a morte já aconteceu antes, em álbuns densos como “Songs of a lost world” (2024), do The Cure, composto após a morte do irmão de Robert Smith, Richard, a quem ele dedica a canção “I can never say goodbye”, e lançado no Halloween; “Skeleton tree” (2016), de Nick Cave and the Bad Seeds, que foi refeito após a morte do filho de Cave, Arthur, 15 anos, que morreu em uma queda acidental. O álbum estava quase pronto, mas foi refeito a partir dessa perspectiva do luto, pois, segundo o próprio Cave, o trabalho é a única coisa no passado que o ajudou a superar as coisas. “Tears in Heaven” (1992) está no top 5 de músicas mais tocadas de Eric Clapton e foi composta após seu filho Conor, 4 anos, cair da janela do 53º andar de um apartamento em Nova Iorque. No Brasil, Raul Seixas abordou a morte em várias de suas canções, geralmente de forma filosófica, como “Gita”, “Medo da chuva” e “Canto para a minha morte”, e os cariocas Dimitri BR e Lucas Matos fizeram uma marchinha triste, “O samba dos mortos”. Quais foram as perdas pessoais que levaram a Alles Club a falar de luto? Percebi também que vocês procuraram ampliar esse luto a experiências de perda, mudança e recomeço, os pequenos lutos nossos de cada dia, como a mudança do líder da banda, Rodrigo Lopes, para a Suíça. Como foi acessar essas emoções?

Rodrigo Lopes (guitarra, baixo, glockenspiel, synths) – Nossa, que bela lista que você fez sobre outros trabalhos de artistas sobre o luto. Eu tive duas perdas importantes na minha vida, de dois irmãos que morreram por acidentes, ambos muito jovens, num espaço de 20 anos. Mas o que despertou mesmo a ideia desse disco conceitual foi uma experiência minha de ter, em 2018, um câncer diagnosticado e que me pôs a pensar sobre a minha própria morte e também a morte de um projeto de vida. Como você bem falou, o luto não é só sobre a morte de pessoas que amamos, mas uma série de sentimentos relacionados a diversas perdas. No final das contas, deu tudo certo, e o câncer não me matou nem matou a ideia de uma vida longa. Mas a ideia do luto ficou consolidada na banda como um tema válido a ser explorado artisticamente. Foi depois disso, em 2022, que veio a morte do meu segundo irmão e também algumas perdas importantes de outros familiares de membros da banda. Nós perdemos uma colaboradora muito querida também nesse processo, a Bel (Izabel Oliveira), e essas perdas consolidaram a ideia de que esse poderia ser um projeto relevante. Eu não diria que sofremos um luto muito claro com a minha mudança e a mudança da Nina para a Suíça, porque nunca fizemos uma ruptura e foi uma despedida clara e planejada. Continuamos trabalhando à distância e fazendo alguns shows à medida que eu fui ao Brasil. Foi nosso jeito de mascarar essa perda.  

O núcleo suíço da banda: Zeno D´Aulerio (bateria). Foto: Rodrigo Lopes
MRKS (baixo e synths). Foto: Rodrigo Lopes

Moreira – Rodrigo, além de músico, tem prática profissional como psicólogo clínico, atuação na qual também enfrenta estas situações de perda e luto. Como a prática do consultório impacta este trabalho de arte? Vi que o álbum tece influência do trabalho da psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross, que conceitualiza o luto em uma sequência de fases não lineares.

Rodrigo Lopes –  Esse trabalho me fez sentido pessoal quando eu me dei conta de que seria a minha primeira oportunidade de juntar essas duas pontas da minha vida em uma obra só. No consultório, eu lido, diariamente, com lutos diversos. Esse próprio conceito de luto que eu utilizo, da Elisabeth Kübler-Ross, foi algo que eu aprendi na faculdade. É uma pergunta fundamental a gente entender que tipo de perda real ou percebida está provocando todo esse sofrimento que é posto. É só quando nomeamos exatamente qual perda é essa que podemos trabalhar rumo a um novo rearranjo das nossas vida e identidade. Eu só fui me dar conta de que a Elisabeth Kübler-Ross é suíça ao longo do caminho, mas acabou sendo uma outra forma de amarrar pontas da minha vida.  

Moreira – Acho interessante como o fazer deste álbum atravessa o mundo, e acaba falando também sobre deslocamento e a horizontalidade do mundo contemporâneo, aproximado pela Internet, começando com a gravação com a banda original, aqui em Jufas, com a captação de quarteto no Conservatório Estadual de Música, ali na Batista de Oliveira; e também da voz da cantora estadunidense Jenna Fournier (Kid Tigrrr), no Texas, nos Estados Unidos; de uma banda fúnebre durante um funeral em Berna, na Suíça; até a masterização, na Islândia, no Sundlaugin Studio, fundado pela banda de post-rock Sigur Rós, por Birgir Jón Birgisson. Vocês chegaram a ir à Islândia ou foi feito de forma remota? Isso mostra como o luto é um sentimento universal e pode ser compartilhado por pessoas em diferentes partes do globo?

Rodrigo Lopes – É um ponto que reflete a nossa atual situação como um coletivo artístico. Eu estou no outro lado do mundo, tendo contato com pessoas de muitos lugares e algumas pessoas do coletivo ficaram em Juiz de Fora, outras se mudaram. Mas tanto a Jenna Fournier quanto o Birgir Jón Birgisson não foram pessoas que eu encontrei pessoalmente. A Jenna Fournier eu conheci em um festival on-line, durante a pandemia, de um coletivo conhecido no mundo do shoegaze, a DKFM. Ela elogiou a apresentação que eu fiz com a Nina e o Nuno, meu filho, que na época eu tinha seis anos, na bateria. Eu assisti à apresentação dela sozinha com guitarra cheia de reverbs e me encantei com a voz dela. Eu adoro vozes femininas misturadas com guitarras distorcidas e fico sempre atento a essas parcerias. Fiquei muito feliz quando ela topou. Essa história dela depois de colaborar com o Smashing Pumpkins veio bem depois que ela gravou conosco. Já o Birgir Jón Birgisson, que é o engenheiro de som do Sigur Rós, foi um contato direto e estritamente profissional, baseado na minha admiração pela música islandesa e pelo Sigur Rós. Infelizmente, eu não fui ao estúdio deles na Islândia, que eu gostaria de conhecer. Todos ficamos bastante felizes com o toque final dele no nosso trabalho.  

“O Disco Do Luto (The Grief Album)”, capa por Manu Julian

Moreira – Sobre a arte do álbum tanto para o streaming quanto para o vinil, qual foi a perspectiva do artista Manu Julian? Como se deu a escolha deste artista para traduzir, e imagens, os sentimentos desse volume?

Rodrigo Lopes – Nós escolhemos a Manu por ter um traço muito simples e direto e achar que ela podia captar algumas ideias e expressá-las de maneira muito certeira. Ela fez várias propostas que gostamos tanto que acabamos aproveitando para mais coisas, como os dois singles (“Vida antes” e “Gospel (Acceptance)” e a contracapa do disco. Pedimos que ela tentasse expressar que o luto acontece em ciclos. Nem todo mundo vai reparar que o final da última música (“Gospel (Acceptance”) é com o mesmo feedback de guitarra que inicia o álbum em “Vida antes”. Isso foi intencional. Quando superamos um luto, estamos prontos para ter outros. Na contracapa do nosso disco de vinil, que vai sair pela Midsummer Madness, esses nomes das músicas estão dispostos em um ciclo. Eu perguntei para a Manu sobre a capa e aqui estão as respostas literais dela: “Sobre meu trabalho e o da Lilla, é interessante dizer que o traço a mão guia todo o projeto. O desenho é o guia, como alternativa à maneira que a imagem é trabalhada e consumida (…) É sobre manualidade, mistura de desenho a mão e digital. Pra mim, desenhar a mão é exercitar a memória. Traçar é lembrar!” 

Moreira – Este é o primeiro álbum instrumental da Alles Club, como chegaram a essa decisão? É uma forma de tornar a experiência da audição mais contemplativa? O que vocês ouviram que influenciou a composição dessas canções?

Rodrigo Lopes – Eu adoro música instrumental de diversos estilos, do jazz ao dub, e meus artistas que mais me inspiram, como o Mogwai ou Explosions In The Sky, não utilizam palavras. Ao mesmo tempo que eu não gosto muito de escrever letras, nem de cantar. Desde o início, eu quis fazer músicas instrumentais. Só não foi o caso, porque tenho amigos bons em escrever e cantar, que não deixaram algumas canções serem instrumentais (como, por exemplo, a própria Bel em “Voando” ou o Pedro Bustamante em “Canção da volta”). Quando não tem essas parcerias, eu escrevo música instrumental. A Alles Club foi se tornando cada vez mais uma banda de poucas palavras (não de poucos amigos, rs). Do nosso primeiro disco, “Décollage”, a maioria das músicas já é instrumental. Para esse disco específico, a ideia seria expressar com música esse tipo de sentimentos que são ambivalentes, misturados, às vezes repetitivos, às vezes vão e voltam. A única indicação para o ouvinte é o nome da música e da obra. O resto ele tem o poder de preencher com a sua própria experiência. Eu entendo que a música tem o poder de atravessar o nosso lado racional e de linguagem e atingir diretamente  o coração.  

🌊🪼🫧🐚𓆝𓆟 Como uma onda no mar 𓆞𓆝𓆟𓇼🪼🫧🐚🫧🌊

Julia Benford por Anne Godoneo

Eu já tinha falado da cantora e compositora paulistana Julia Benford aqui, quando ela lançou o single “Imã”, com clipe, ponta de lança do álbum “Retalho carrossel”, que chega nesta sexta, com nove faixas escritas em diferentes momentos dos últimos anos, atravessando referências do rock, folk, indie e MPB. Entre as influências citadas pela artista, estão Rita Lee, Secos e Molhados, David Bowie, Nick Drake, Neil Young, Cássia Eller, Nando Reis e Florence + The Machine. O show de lançamento acontece no Drosophyla Bar, em São Paulo, nesta sexta (30). A noite será uma festa de Halloween, à fantasia, e celebra os 40 anos do bar , com discotecagem do amigo Spavieri, que já tocou na minha festa Electroboogie, aqui em Jufas, e Madame Lili. “O disco se chama ‘Retalho Carrossel’ justamente por colecionar momentos da minha vida. Os retalhos são os últimos anos de composição que costurei em uma grande colcha. 

Para mim, o álbum se apresenta de uma forma muito visual, em que cada música é um símbolo rodopiando neste carrossel”, explica Julia. A identidade visual amplia a ideia da colcha de retalhos para além da música. Na capa do álbum, Julia aparece inserida em um universo onírico habitado por personagens e objetos que representam as faixas do álbum. O carrossel substitui os cavalinhos tradicionais por símbolos das músicas: a frase “não sou bibelô feito de cristal”, de “Fera perigosa”, aparece representada por uma xícara de louça; a tesoura pontiaguda representa a língua afiada em “Falsa esperança”; já “Espaço em minha mente” é representada por um dente e uma janela, fazendo referência ao banquete macabro do clipe a ser lançado e à ausência de janelas na letra da música.

Depois da “neto baby” Julia Guedes ter sextado aqui, é a vez de Rodrigo Borges, sobrinho de Lô e Márcio Borges, voltar a chamar a atenção para o legado do Clube da Esquina. O primeiro single de  “Transverso”, seu próximo e terceiro álbum, é “Sonho real”, que ele canta, ao lado de Roberta Campos. A canção, de Lô Borges e Ronaldo Bastos, o faz lembrar de quando era pré-adolescente e viajava com o tio, Lô Borges, e seu pai, Marilton Borges. “Nessa turnê, eles tocavam essa canção, só os dois no palco, era um momento muito bonito. Quando estava preparando o álbum, quis fazer essa releitura”, conta o artista. Rodrigo Borges lança o álbum “Transverso” no dia 13 de novembro e, nos dias 16 e 17, apresenta-se no Teatro Feluma, em Belo Horizonte, em show que será gravado para ser lançado posteriormente. Rodrigo é um dos fundadores da banda Trilho Elétrico, ao lado de Lelo Zanetti (Skank), Manno Góes (Jammil) e Lutte (Mosiah). Ainda criou, ao lado da esposa Marina Cambraia, o Bloco de Carnaval “Divina Banda”, que desfila, desde 2018, no tradicional bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte.

A cantora e compositora paraense  radicada em Beloryhills Ste A Viva (Stephanny Lima) lança o single “Me convida”, preparando o terreno para seu primeiro EP, previsto para o início do ano que vem. “Meu bem, me diga se o que eu fiz deixou cicatrizes em ti”, canta, nos primeiros segundos da nova canção. Com vocais emaranhados à teia de sintetizadores elaborada pelo produtor mineiro Dereco, eles criam uma imagem bela, mas difusa e passageira, de todos os assuntos abordados. O  clipe é um reforço a essa estética, com uma montagem de vídeos que atravessam as perspectivas individuais  por meio da fragmentação e da sobreposição de cores e imagens, no olhar da artista tocantinense Anna Chaves.

O agendão das maravilhas segue nos destaques do meu Instagram, separado por cidades, e em thread infinita no X.

Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta, com álbuns de Alles Club, Julia Benford, Scatolove, Mon Laferte, Mariana Mug, DJ Ramon Sucessos, Yseult, Nouvelle Vague, Queens of the Stone Age, Editors, Joyce Moreno, ionalee, Leigh-Anne, Teeks, Rodrigo Campos + Romulo Fróes + Thiago França. Todas as playlists de 2025, 2024, 2023,  2022, 2021 e 2020 nos links

Para melhores resultados, assista na smart TV à playlist de clipes com Artwo + Haiik, Haute & Freddy, Kesha, Hate Moss, scarlxrd, Boys Noise, D’Leesa, Erasure, Fujiya & Miyagi, Everything But The Girl, Enrique Iglesias + Santos Bravos, Icona Pink + Isma + Aurora Abloh + Fuso, La Favi + Rosaliedu38, Oden & Fatzo x Theos, Hoze, Bakka + Nezello + Jéssica Gaspar, Marina Peralta, Clean Bandit + Tära, La Cruz, Tangolo Mangos, Larissa Luz, Lisa, Jazzy, girl in red, Harry Styles, John Mayer, Troye Sivan, John Legend + Clipse, Tony Iommi, Amy Winehouse, ABBA, David Kushner, Mahalia, Omah Lay, Pryanka, Ciara + Young Dro, Ste A Viva, Imminence, RT Mallone + Cavallari + Dubbeatz, Mastrobiso, Arquelano

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