Neta de Beto Guedes e “neto baby” do Clube da Esquina estreia grandona com álbum produzido pelo adorável Antônio das Neves e co-produzido por Paulo Emmery, cariocas convocados para romper essa mineridade irrompível
por Fabiano Moreira
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Aos 24 anos, a talentosa compositora, pianista e cantora mineira Júlia Guedes lança seu álbum de estreia, “Álbum vermelho”, com a participação do pai, Gabriel Guedes, ao sintetizador, na faixa final, “A página do relâmpago elétrico”, composição de Godofredo Guedes, seu bisavô, com a qual seu avô Beto Guedes encerrava o álbum de estreia, homônimo, tradição que mantém até hoje, de sempre encerrar os álbuns com uma música do pai. Gabriel também toca bandolim em “Notas de avião”. É que, como ela mesmo brinca, Júlia não é nepo baby, ela é neto baby e vem dessa tradição familiar que é uma herança cultural de Minas Gerais, do Brasil e do mundo com a reverberação infinita do “Clube da Esquina” (1972). Integrante do clube, o “tio” Wagner Tiso fez bonito arranjo de corda em “Zóim” e representa a tradição. Os produtores Antônio Neves e Paulo Emmery, a musicista Dora Morelebaum e a parceira de estrada Tori são parceiros que trazem o novo. “Eu sinto que, no álbum, eu parto da mineiridade, e parto com respaldo, porque eu não sinto que é algo tentando ser mineiro, é algo mineiro, é uma sonoridade mineira, feita por pessoas que de fato entendem dessa qualidade musical. Mas diferente, não é um Clube da Esquina, e nem é pra ser, é outra coisa”, me conta, em uma das melhores conversas aqui pra Sexta Sei. E, mesmo vindo de um berço de ouro da música, ela enfrentou as dificuldades que as mulheres enfrentam em um mercado, essencialmente, masculino. “Eu só fui entender que eu poderia de fato ser pianista quando eu comecei a ter aula com uma pianista mulher, apesar de parecer óbvio que é uma escolha que seria possível pra mim por conta de todo o contexto de onde eu vim, mas não é. E desde a forma estrutural até a operação mesmo, os mecanismos de manutenção do patriarcado e o lugar de apagamento de mulheres autoras e protagonistas. Então, desde a forma de como eu ocupo esse espaço, o instrumentismo, que ainda é lugar muito um masculino, a composição, a produção, todo o álbum vem de um desespero, de certa forma, de reafirmar que também é um lugar possível para mim, e isso vem depois de muitos anos de elaboração e de persistência em ocupar esse espaço, mesmo quando é desconfortável. E é uma insistência que eu tenho desde sempre. Eu, novinha, tocando piano, não tocava tão bem quanto toco hoje em dia, e não tocava tão objetivamente bem quanto todos os homens que ocupavam os lugares, e eu fazia questão de tocar todas as vezes para reafirmar para mim mesma, e consequentemente, para as mulheres que estavam lá, que é um lugar possível de se ocupar também”, conta.
Moreira – “Vermelho e sem nome” abre “Álbum vermelho” falando sobre a forma como os homens mais velhos se referiam a você e a seu trabalho, e a forma como as coisas acontecem em Belo Horizonte, segundo sua lente, de forma bairrista e conservadora. “Tango dos homens” vem também dessa assimetria das relações efêmeras entre homens e mulheres, da forma como as transgressões do lado da mulher assustam. A personagem da canção se coloca no lugar de um homem, e tenta tratar aqueles com que se relaciona da mesma forma que os homens tratam as mulheres nesse tipo de relação. Acabou de sair levantamento divulgado pela Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), no qual temos apenas seis vozes femininas para mais de cem masculinas entre as mais ouvidas até agora em 2026. Lutar, compor, tocar e cantar como uma garota ainda é mais difícil? Chegar “no vermelho” também é uma forma de dizer as coisas e cantar sua história?
Julia Guedes – Definitivamente, lutar, compor tocar e cantar com uma garota continua ainda sendo muito mais difícil. Eu ainda tive um privilégio de chegar com uma com uma história antes de mim, que ancorou e ancora minha própria história, né? De várias formas, é importante frisar isso sempre. Mas, no meu quesito gênero, eu sinto que crescer em Minas Gerais, em Belo Horizonte, foi desafiador, porque o Clube da Esquina, que é a minha maior referência da vida, é um movimento masculino, com poucas vozes femininas cantando e interpretando, e apenas uma voz feminina da Joyce como compositora na maior parte de todos os álbuns. Eu sinto que tudo parte da referência, do lugar que a gente observa, que é possível de se ocupar. Eu só fui entender que eu poderia de fato ser pianista quando eu comecei a ter aula com uma pianista mulher, apesar de parecer óbvio que é uma escolha que seria possível pra mim por conta de todo o contexto de onde eu vim, mas não é. E desde a forma estrutural até a operação mesmo, os mecanismos de manutenção do patriarcado e o lugar de apagamento de mulheres autoras e protagonistas. Então, desde a forma de como eu ocupo esse espaço, o instrumentismo, que ainda é lugar muito um masculino, a composição, a produção, todo o álbum vem de um desespero, de certa forma, de reafirmar que também é um lugar possível para mim, e isso vem depois de muitos anos de elaboração e de persistência em ocupar esse espaço, mesmo quando é desconfortável. E é uma insistência que eu tenho desde sempre. Eu, novinha, tocando piano, não tocava tão bem quanto toco hoje em dia, e não tocava tão objetivamente bem quanto todos os homens que ocupavam os lugares, e eu fazia questão de tocar todas as vezes para reafirmar para mim mesma, e consequentemente, para as mulheres que estavam lá, que é um lugar possível de se ocupar também. O vermelho é uma cor que denota essa urgência, que denota essa necessidade de revolucionar, de movimentar, de mudar. Toda mulher que trabalha com música, eu imagino que experiencia a forma com que o patriarcado ocupa lugares centrais. É uma injustiça vivida na pele, uma desigualdade vivida diariamente. E eu sinto que a música sempre é um lugar para extravasar e elaborar essa relação e questionar e cutucar também as estruturas nas quais a gente está inserido.
Moreira – Em “Notas de avião”, há uma interpolação ou citação de “Cais”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, do álbum que formou nossos caracteres “Clube da Esquina” (1972). A canção é uma homenagem ao seu avô, Beto Guedes, um apaixonado por aviões. Tem mais easter eggs de nossa mineiridade no álbum? Ser neta de uma estrela da nossa música, como Beto Guedes, traz pressão e expectativa extra sobre o seu trabalho? Acredito que a autocobrança também deve ser elevada, aumenta demais a responsabilidade. A dor e a delícia de ser uma nepo baby. Seu pai, Gabriel Guedes, aliás, participa com sintetizadores em “A página do relâmpago elétrico”, que repete um hábito de seu avô Beto de encerrar seus discos com uma composição de Godofredo Guedes, seu bisavô. Toda a família é metida com música?
Julia Guedes – “Notas de avião” é uma colcha de retalhos, na qual eu pego emprestado o raciocínio do meu avô. Não é nem objetivamente uma passagem ou alguma harmonia ou algo literal. Existe esse interlúdio, e eu fiquei muito feliz que você relacionou com “Cais”. Não foi minha intenção, mas pode ter sido, porque realmente é um imaginário riquíssimo que forma meu DNA musical. “Idolatrada”, do Milton Nascimento, e “Pablo” do Milton Nascimento, também usam um recurso que eu uso nesse interlúdio, que é a melodia sendo conduzida pelo baixo, na mão esquerda, e a mão direita conduzindo a harmonia. E é uma coisa que eu também sinto em algumas composições dos Beatles, então realmente é uma música onde eu descarrego mesmo essa herança que eu tenho, e não só bebendo da herança, mas bebendo da fonte da herança. Definitivamente, tem vários easter eggs no álbum, várias harmonias que podem se parecer, referências a trechos de músicas, ser neta do meu vô e ter crescido com esse contexto do Clube da Esquina pulsante e latente moldou a musicista que eu sou, naturalmente. Muitas vezes, eu só vou entender essas citações, essas bebidas diretas da fonte, depois de já ter composto, porque, realmente, é o meu natural ir para esse lado, e eu acho que o meu trabalho de criadora mesmo é justamente buscar as outras fontes pra mim que seriam o meu antinatural. Eu acho que tudo que vem depois do Clube e do meu vô são bagagens adquiridas, sedentarizadas e solidificadas pela persistência. Existe uma expectativa sobre o meu trabalho, existe uma pressão, e essa pressão, ela se manifesta de várias formas. Já há algum tempo, eu cheguei à conclusão de que eu não sou obrigada a ter que compor de forma ou altura ou, enfim, qualquer um desses parâmetros que se elegeram para alocar a música do meu avô não são válidos para mim, porque eu sou uma pessoa diferente e, naturalmente hei de fazer coisas diferentes, a partir dessa herança que me foi dada, e que bom que é assim. A pressão, por mais que racionalmente eu elabore e esteja tranquila, muitas vezes, ela aparece de forma sorrateira, e eu acho que a autocobrança é o principal lugar, porque, apesar de saber que eu não preciso corresponder a essa expectativa, que eu não devo isso, no sentido mais literal da palavra, eu sinto uma responsabilidade, a partir do momento que eu escolho este caminho, e faço questão de abraçar essa responsabilidade, tanto num sentido de buscar entender bem essas raízes, o que foi o Clube da Esquina, ouvir a obra do meu vô, me capacitar musicalmente, como também passar pra frente e apresentar releituras dessas obras para novas gerações e perpetuar este legado. Então, atualmente, eu sinto, e, principalmente, por causa do “Álbum Vermelho, que foi um antro de elaboração de todas as minhas relações com a música, atualmente, eu sinto que eu estou muito bem resolvida com este legado. Exatamente, a dor e a delícia de ser uma nepo baby. Inclusive, até brinco que eu sou uma neto-baby. (Risos*) Meu pai gravou sintetizador em “A página do relâmpago elétrico” e bandolim em “Notas de avião”. E “A página do relâmpago elétrico” é uma música do meu bisavô, e eu estou, de fato, dando continuidade a essa tradição que meu avô criou, de encerrar os meus álbuns fazendo uma homenagem, uma referência aos meus antepassados. Toda a família é envolvida com a música, não tem pra onde correr.
Moreira – Como foi trabalhar com o “adorável Antônio das Neves”, craque absoluto e um gentleman, né? Eu morei dias dentro de “Dentro da gente” (2024), quando o conheci, foi um “pega pra capar” que me fez apaixonar pelo musicista completo e cheio de repertório e balanço que ele é. Cada álbum dele mergulha em um universo musical diferente, um instrumento diferente. E ainda é um grande boa praça, sempre nos falamos no chat do insta, um queridão. E como foi a troca com o Paulo Emmery? Ele fez um belíssimo trabalho com o álbum de estreia da banda juiz-forana e sextante Varanda, e estou acompanhando o trampo dele com interesse também.
Julia Guedes – (caindo na gargalhada) Foi adorabilississímassima a experiência de trabalhar com a adorável Antônios das Neves. Eu realmente me conectei muito com ele neste lugar da multiplicidade e da forma de conseguir transitar entre várias roupagens e ofícios diferentes, porque ele fica mesclando entre o personagem instrumentista, arranjador, produtor. Ele, realmente, tem um bom gosto em cada ofício que ele se propõe a fazer e eu super me identifiquei com essa versatilidade dele, tanto musicalmente quanto na minha própria fluidez entre os meus vários ofícios. Eu também sou designer, sou artista visual, fiz a direção de arte, compositor, instrumentista.
E eu sinto que a minha escolha de chamá-lo para produzir o álbum comigo, veio desse lugar de, justamente, querer trazer uma faceta mais nova e mais versátil também. Como eu expliquei na última pergunta, de um lugar de romper com essa mineridade que é irrompível, na verdade, e poder começar algo diferente. E o Paulo veio justamente para fazer a defesa mineira da parada, porque ele é o carioca mais mineiro que tem, musicalmente falando, um fã assíduo do “Clube da Esquina”. Eu me conectei com ele assim que cheguei no Rio no final de 2023. E, antes mesmo de saber que eu produziria algo com ele, ele gravou o baixo de “Contra o medo”, que foi a primeira faixa gravada, e eu já entendi que ele tinha um molho diferente. Então, a junção dele com o Antônio, na minha cabeça, completava um ciclo de, estou saindo de Minas, Minas nunca sairá de mim, o Antônio Neves vem com uma bagagem muito diferente, com referências fresquissimas, e o Paulo também, com essas referências do Antônio e com as minhas próprias referências. E, não à toa, foi uma escolha muito acertada, porque eu sinto que, no álbum, eu parto da mineiridade, e parto com respaldo, porque eu não sinto que é algo tentando ser mineiro, é algo mineiro, é uma sonoridade mineira, feita por pessoas que de fato entendem dessa qualidade musical. Mas diferente, não é um Clube da Esquina, e nem é pra ser, é outra coisa.
Moreira – Me conta como aconteceram as parcerias desse álbum e como se deu o encontro com Wagner Tiso (arranjo de corda em “Zóim”), a duplamente sextante Luiza Brina (arranjo e co-produção de em “Sus mareas”), Tori, com quem você esteve aqui em Jufas, no Maquinaria, na primeira vez que nos falamos, e a craquíssima Dora Morelembaum? Acho que ainda tem as participações invisíveis, afetivas e de impacto da obra sobre você das sextantes Sophia Chablau e Ana Frango Elétrico, que parecem te inspirar bastante. Teve algumas canções nas quais eu fui olhar a ficha técnica pensando, agora é a Ana, essa queride. Mas era a influência do trabalho gigante dela.
Julia Guedes – Esse é um álbum na qual eu sou muito feliz, pelas pessoas que chegaram deixando sua impressão digital. O Wagner Tiso, ele ocupa um lugar familiar pra mim, né? Eu cresci nesse universo clube-esquinístico, e o Wagner sempre foi uma figura de um tio. Até eu entender de fato a qualidade infinita dele, enquanto arranjadora e músico, eu já era grande e já estava vivendo de música e tecendo meu caminho por esses caminhos também. Então, o Wagner ter chegado realmente completa um ciclo na minha cabeça.
Consegui trabalhar com as minhas referências e pessoas que trabalharam com meu vô, inclusive participar de coisas do meu vô, me dá essa dimensão de, pra além de eu ser eu, eu também sou uma extensão de uma história muito bonita que é construída há muito tempo. E foi especialmente interessante o contraponto dele e da Luisa Brina, que é outra gigante da música mineira, que eu admiro, sou amiga, tenho essa sorte, e que também me impacta muito. Também é uma arranjadora, uma artista, uma compositora de qualidade infinita e talvez impressionante seja a palavra que eu delegaria pra falar. Então ter dois mineiros super influentes e marcantes de suas épocas, fazendo arranjos, abraçando e aninhando as canções, é muito emocionante pra mim. A Tori é um dos encontros mais especiais que eu já tive e que a música me proporcionou. Ela virou uma amiga, uma irmã, trabalhar com ela, compor juntos, ela viu as minhas músicas tomando forma, antes de quase ninguém ver, e a gente já tocava juntos, e a mesma coisa, eu tenho a mesma relação com as músicas dela, que agora acompanho a “Areia e voz” segundo álbum. Então, pra mim seria indispensável a participação da Tori, porque ela é muito presente no momento musical que eu estou vivendo agora.
A Dora Morelenbaum foi talvez os maiores luxos do álbum. A Dora, a Sofia Chablau, a Ana Franco Elétrico, elas são referências imensas pra mim de música contemporânea, sendo produzida, feita, composta de uma forma muito bem feita, muito íntegra, com propostas estéticas diversas e claras, e falando de lugares também que eu me conecto, porque são todas mulheres, todas passam também por coisas que eu passo. E e também tem uma coisa de um lado selvagem, né, que toma conta, um rock and roll que invade uma irreverência que eu sinto nelas e que é muito inspiradora para mim, e aí eu acho que super cabe sentir essas referências, eu acho incrível que isso transpareça, e eu também acho que para além de isso, assim como os mineiros, eu compartilho de referências que elas provavelmente também têm. Enfim, muito feliz de ser contemporânea dessas artistas.
Moreira – Acho que faz parte da sua geração esse lance de habilidades em várias áreas, e é legal como você se apresenta como uma multiartista que compõe, toca piano e órgãos Hammond e Rhodes, canta, produz, e pôs um dedo na direção criativa, outro na direção de arte, e ainda tinha falanges extras para o cenário, capas de singles e do álbum, design e figurino.
Fique à vontade para acrescentar alguma habilidade não-listada, risos. Você está se formando em Design pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pretende seguir carreira nessa área também? Pondo esse dedo doce em tudo? 😉 As cascatas de maravilhas de Júlia Guedes, que delícia, que caiam sobre nós.
Julia Guedes – Ah, meu filho, eu vou pôr o dedo, este dedo doce, (ahahaha) em tudo que eu puder colocar. Realmente, este lugar, dessa transição, dessa inconstância entre várias áreas é o que me justifica de forma integrada. Eu não me imagino compositora sem ser artista visual também e vice-versa. Eu sinto que o emaranhado, ele é rizomático e ele é conectado nas profundezas do barro, do chão, e sem uma coisa não existe outra. Para mim, faz muito sentido colocar o dedo, a mão, o braço, o corpo inteiro em tudo o que eu me meto, inclusive coisas que nem era para eu me meter, que eu, teoricamente, nem teria competência, como direção de clipe, que eu fiz, a direção do “Contra o medo” e do “Vermelho e sem nome”,
assinando ao lado da Caril e da Manoela Lissoni. E não é minha área, mas eu sinto que eu preciso disso para conseguir atingir essa integridade, então também existe um lado de aproveitar o respaldo de ser o meu próprio trabalho para conseguir mordiscar os ofícios que eu não mordiscaria sem ter essa chancela. Eu tô formando em Design pela UFMG e eu sigo carreira nessa área paralelamente, inclusive, o meu trabalho de conclusão de curso está sendo sobre identidade e projeto gráfico do LP do “Álbum vermelho”, projeto no qual eu destrincho ainda mais a relação com esse álbum e vou entender um pouco mais objetivamente o porquê dessas escolhas, né, então existe uma amarração conceitual muito interessante também e isso parte também do lugar de que eu estou me especializando, de certa forma, em capas de álbum, é o que eu mais tenho feito nos últimos anos. Trabalhando para artistas independentes, para selos, para gravadoras, no Brasil, fora do Brasil também. E é o lugar onde eu me encontro, porque é o lugar onde eu coloco, a tapas, a multiplicidade. São pesquisas que partem de uma escuta de musicista, de um olhar de artista visual, de uma elaboração conceitual de uma designer. E todo esse lugar me contempla muito, me deixa muito feliz e muito realizada. É um privilégio poder trabalhar com todos esses ofícios.
*notas desse velho lobo da imprensa
🌊🪼🫧🐚𓆝𓆟 Como uma onda no mar 𓆞𓆝𓆟𓇼🪼🫧🐚🫧🌊
Quem acompanha aqui a minha Moreiridade sabe que eu sou fã de versões inventivas para grandes canções que já amamos, como escancaro na playlist “As versões que você pra mim”, que acaba de passar a marca de 400 versões com a inclusão de duas releituras muito especiais. A primeira é o álbum “Eu mandei meu amor pro espaço”, que o cearense Lucas Bezerra lança nesta sexta (7) com recriações inovadoras para a obra do paraibano Carlos Antônio Bezerra da Silva, do icônico grupo Totonho e os Cabra, que mistura coco de embolada, funk e hip hop; e a segunda é a cantora e compositora goiana Nay Porttela no álbum “Caetano Veloso por Nay”, que transformou o afoxé “Não enche” em um bossa-axé. “O tamborim foi gravado marcando a célula do axé… Mas, como o bpm é mais lento, arrisco-me a dizer que é uma bossa-axé”, me conta, pelo chat do insta.
O que une os dois projetos é que, além de inventivos, são homenagens em vida. Lucas me conta, pelo chat do insta, que está há cinco anos nessa aventura maluca, “tentando ser responsável diante de uma obra tão criativa e cheia de curvas tão interessante com a de Totonho”. O álbum tem produção musical de Arthus Fochi e chega pelo selo Cantores del Mundo, criado por Tita Parra, neta da artista chilena Violeta Parra, e reúne participações de Geraldo Azevedo, Rita Benneditto e Zé Ibarra, que foram parceiros de Totonho em gravações, além de artistas da cena autoral paraibana e vocais de apoio de Juliana Linhares e Ítallo França. A participação de Zé Ibarra tem um significado especial, a zabumba de “Poeira estelar” do álbum “Sabotador de satélite” (2005), foi gravada pelo artista aos nove anos de idade, em sua primeira vez em um estúdio. “Totonho namorava a mãe dele à época (*produtora de eventos chilena). Por isso, convidamos Zé pro disco”. Ele participa, cantando, de “Eu mandei meu amor pro espaço”, do mesmo álbum do qual participou.
O artista cearense Nóis’Y Vendel aproxima rock e baião em uma narrativa de assombração nordestina, estilo que ele batizou de Rock Baiônico das almas errantes, e olha que nem é Halloween, que aqui é Lampião arrancando cabeça, risos, e make de vampiro brasileiro, a la Bento Carneiro, personagem eternizado pelo também cearense Chico Anysio (entreguei a idade). Com influências de Geraldo Azevedo e Raul Seixas, o trabalho é uma nova e interessante abordagem da música do sertão. Nesta sexta (7), ele apresenta o single duplo “O Carroceiro Fantasma”, com a faixa-título e “A Carolina vai voar”, inspirado no curta-metragem “Revoada”, que ainda será lançado, do cineasta pernambucano e também músico Alex Guterres. “As duas canções compartilham o universo narrativo inspirado pelas histórias de assombração do sertão, pela religiosidade popular, pela literatura de cordel e pelo imaginário fantástico presente na cultura nordestina. Em vez de tratar o sobrenatural como espetáculo, as composições o apresentam como parte da memória coletiva e da paisagem cultural do interior brasileiro”, explica o simpático artista, que se mostrou um queridão em chats no Instagram.
Musicalmente, o lançamento combina elementos do baião com uma sonoridade marcada por ambiências densas, baixos profundos, percussões tradicionais e camadas vocais que reforçam o caráter dramático das narrativas. “O Carroceiro Fantasma” apresenta o personagem central do projeto: uma figura lendária que percorre estradas esquecidas, conduzindo almas errantes. Mais do que propor uma fusão de estilos, o trabalho de Nóis’Y Vendel busca ampliar as possibilidades de diálogo entre o rock e a tradição cultural brasileira, afirmando uma identidade artística construída sobre território, narrativa e imaginação.
A Sexta Sei é declaradamente rock e, essa semana, não poderia deixar de falar de três lançamentos que vão torar na minha JBL. O primeiro deles é da banda internacional Papangu, grupo originalmente de João Pessoa, na Paraíba, em ascensão com seu rock progressivo e experimental que acaba de ser destaque no The Guardian e que lança, nesta sexta, “Celestial”, seu primeiro álbum por uma gravadora, a Deck da gente, sendo o terceiro da carreira. Eles definem o estilo da banda, no perfil do Instagram, como rock troncho, forró pesado, crooked prog e Zeuhl metal. Inspirado em rituais de proteção do corpo e do espírito, o novo trabalho é uma reflexão sobre a humanidade diante do avanço da dita “inteligência artificial”, expandindo a imagética nordestina com um campo léxico próprio, presença de ritmos tradicionais, influências da literatura de cordel, artes audiovisuais múltiplas, literatura modernista e do realismo mágico.
O trio carioca Muzgo, que faz rock sujão e cru, como a gente mais gosta, só a cozinha com baixo, guitarra e bateria, lança seu aguardado álbum de estreia, “Um lugar alguém”, que combina punk, prog, grunge e psicodelia com o sarcasmo tipicamente carioca. A banda é formada por Dony Von (baixo e voz), que conheci no processo de apuração da entrevista sobre o belo álbum de Marya Bravo, produzido por ele e por Nobru Pederneiras (guitarra), além de Pedro Leki (bateria). O lançamento de “Um lugar alguém” será celebrado na próxima terça-feira (11), às 20h, na Audio Rebel, no Rio de Janeiro. A noite contará ainda com shows das bandas Büero e Disstantes. Quem também lança EP por lá, o “Pro inferno com as Beattas”, no dia 4 de setembro, é a dupla que amo As Beattas, formado por Miss Sirius na voz e pandeirola e Greco Blue na guitarra e voz. Conheci Greco quando era repórter da coluna Gente Boa, no Globo, e ele foi o primeiro homem que vi com uma cropped T-shirt, no palco do CEP 20000, do poeta Chacal. Desde então, passei a acompanhar o rapaz, que tem o rock correndo em suas veias. O EP, de garage folk psicodélico, foi gravado e produzido por Marcos Thanus, no estúdio Caverna Mamó, com participações especiais de Marcelo Callado, que toca violão de aço em “Trocando Línguas (Shy & High)” e diversos instrumentos de percussão em todas as faixas do álbum; Ricardo Dias Gomes toca baixo em “Hey Neguinha”; e o maestro Gabriel Ares toca piano e órgão na faixa de abertura “Coringou”. O trabalho valoriza as imperfeições humanas, sem abrir mão de rigor técnico, evitando correções e edições desnecessárias, entregando ao público um retrato daquela execução dos músicos envolvidos. Um confronto direito ao processo de robotização do ser humano, em curso nos tempos atuais.
O agendão das maravilhas segue nos destaques do meu Instagram, separado por cidades, e em thread infinita no X.
Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta, com álbuns de Papangu, Banda Eddie, Muzgo, Lucas Bezerra, Thami, Joyce e Tutty Moreno, Domi & JD Beck, Ludovic, Mari Froes, Five Fingers Death Punch, Role Model, Twenty One Pilots, Karol G, EPs de As Beattas, Chameleo, Dody. Todas as playlists de 2025, 2024, 2023, 2022, 2021 e 2020 nos links
Para melhores resultados, assista na smart TV à playlist de clipes com PNAU + Kurtis Wells, d:enigma + yunis, Slayyyter, Jão, Ariana Grande, Robyn + Zara Larsson, Miley Cyrus, The Offspring, Roddy Lima, Ca7riel & Paco Amoroso, Bezzi, Leffs + Trava da Fronteira, Arca, J Balvin, Greta Von Fleet, Tyga + Starface, Dupê + Matheus Carrilho, Juliana Linhares, Black Pantera, James Blake + Travis Scott + Ludwig Görranasson, 6lack, Shaboozey, Remi Wolf, Cavallari + Tairec + Muxima MC, Liniker, Mari Froes, Kendall Schmidt, Arca, Jona Poeta, Ayham, Babymorocco, Angine de Poitrine, Confeitaria, Indy Náise, Galantis, Imperial Teen, Jonatas Belgrano, Arlo Parks, Zélia Duncan, Mon Laferte, FKJ, Kayode + GVS, Mykki Blanco, Tangolo Mangos, Future, Laura Pausini, half•alive, Brutalismus 3000, Maria Maud
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