BANG! Summer of Soul

Para começar a coluna da Bang! vamos falar sobre o recente documentário Summer Of Soul (…Or, When The Revolution Could Not Be Televised), dirigido pelo Questlove, que tem carreira extensa como produtor musical, dj, jornalista e baterista do grupo The Roots.

por Josimar Freire

O verão do Soul, 1969

Promovido por Tony Lawrence, o Harlem Cultural Festival ocorreu em seis dias durante os meses de junho e agosto de 1969, movimentando aproximadamente 300.00 pessoas no ano em que a cultura universal sofreu grandes mudanças. O bairro do Harlem já possuía um  longo histórico de descaso e especialmente neste ano, uma epidemia de heroína assombrava a região.

O festival não teve grande repercussão na mídia devido ao preconceito e a atenção voltada para o fenômeno Woodstock que estava prestes a ocorrer a 160km dali; a referência da música de Gil Scott Heron nos parênteses do título faz todo sentido.

Apesar de pouco divulgado, felizmente o festival foi documentado; detalhe para a iluminação natural alinhada com o posicionamento do palco e a qualidade da captação de áudio dos shows; por outro lado, as fitas ficaram engavetadas por não serem de interesse da mídia na época.

Espectadores do festival

O festival reuniu os maiores nomes da época e o documentário já começa com a apresentação de Stevie Wonder, amassando aos seus 19 anos, após ter emplacado vários hits nos anos anteriores.

O documentário deixa bem clara a transição musical dos grupos clássicos de soul bem comportados e alinhados, para uma nova fase com mais representatividade política e a total busca por liberdade, amplificada pela fusão de outros ritmos e da psicodelia.

Na apresentação de Stevie Wonder já é possível ver essa transição que ganhou forma em seus primeiros discos da década de 70, quando o master peitou seu chefe Berry Gordy, assumindo que era necessário fazer música com maior liberdade e desprendida da fabricação de hits.

Se na apresentação de Stevie Wonder esses detalhes ainda são embrionários, na de Sly and the Family Stone, isso é extrapolado no mais alto grau de lisergia com uma apresentação que mostra porque o grupo foi um dos únicos de soul a se apresentarem com os rockeiros no Woodstock. Detalhe para a fala de um dos entrevistados chocado com a inserção de membros brancos na banda, inclusive com o baterista amassando em um break de bateria daqueles!
Já saíram notícias que o Questlove também está produzindo um documentário sobre Sly Stone, tomara que saia em breve porque a história desse gênio é bem pesada e merece ser contada.

5th Dimension

A linha do soul psicodélico segue com a apresentação do grupo 5th Dimension, intercalada com depoimentos sobre a gravação dos clássicos Aquarius e Let the sunshine in, inseridos no musical Hair.

O festival também teve a presença dos grupos originários das igrejas que circularam no circuito popular de shows e da indústria musical. Edwin Hawkins Singers, Staple Singers, Mahalia Jackson mostram sua riqueza musical e a catarse do público.
Destaque para  a apresentação do grupo que acompanhava o Dr. Martin Luther King na viagem para Memphis onde foi assassinado, os membros contam detalhes sobre as últimas palavras que disse em conversa com o saxofonista e líder da banda Ben Branch.

Cartazes do festival

Uma parte dedicada às influências latinas com apresentações de Mongo Santamaria e Ray Barreto também é um ponto alto  que mostra a diversidade do festival, também intercalada com depoimentos de porto-riquenhos que estiveram presentes falando da importância desses músicos na sua representatividade.

Em 1969 o homem pisou na lua no mesmo período do festival. Um arquivo de entrevistas é essencial para mostrar o descontentamento da comunidade com a empreitada feita no Apolo XI, mostrando que o que acontecia ali naqueles finais de semana era bem mais relevante e necessário.

O monumento Nina Simone faz praticamente um show – manifesto, muito à vontade e precisa, finaliza sua apresentação com uma poesia vigorosa que fala sobre ter que assassinar por liberdade e etc.

O documentário  ganhou melhor filme pelo júri e pelo voto popular no festival de Sundance deste ano e está disponível na plataforma Hulu e piratão no Stremio com legendas em inglês e espanhol.
Tomara que mais obras e registros como esse apareçam e sigam contando a história que sempre tentam apagar, ou não televisionar, parafraseando a referência como diz a  música de Gil Scott Heron.

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