Sexta Sei: Stain: de uma linhagem de reis e rainhas para as ruas de Jufas

Grafiteiro e bboying, artista de rua é emblema da nova geração descolex e cheia de conteúdo da cidade e co-autor do icónico mural black da Praça Antônio Carlos, ao lado de Dorin

por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com

Fotos: Hugo Medeiros

Logo que voltei à cidade, fui apresentado ao Stain, 27 anos, em uma festa na Casa Absurda, que é o melhor lugar, não? Cabelo black pow, pente afro pendurado no colar, camisa estampada africana, a pinta já anunciava o grande artista que eu passei a seguir nas mídias sociais, sempre com admiração e interesse, tanto pelo trabalho de arte quanto pelo rolê como b-boy.

Nossa entrevista não foi fácil e deve ter durado quase um mês, entre um celular quebrado e problemas familiares, mas tudo acontece ao seu tempo, o tempo do Stain. É ele quem manda. Valeu cada dia de espera. Parceiro de Dorin no mural afro emblemático da Praça Antônio Carlos, ele é uma promessa da arte urbana na cidade. Autodidata, virão por excelência, de uma linhagem de reis e rainhas, é para prestar atenção. Uma honra bater esse papo com ele.

Procurei o mestre Dorin para falar sobre o menino. “A entrada dele no grafitti foi marcante, gosto muito dele, além de ser excelente artista e trabalhar o desenho, ele é a cara do hip-hop e do povo negro. Ele é muito determinado, busca a perfeição. Ele é uma das maiores referências do grafitti hoje em Juiz de Fora. Essa arte mudou a vida dele, ele conseguiu gerar fonte de renda dando aula, isso é importante para cena hip-hop”. 

Moreira – Aquela pintura na Praça Antônio Carlos é antológica, muito importante para a afirmação da negritude na cidade. Como veio o convite para fazer e porquê você e Dorin resolveram explorar esse tema? Ficou lindo demais. 

Stain – Então, o convite veio da Funalfa, após eu e o Dorin apresentarmos um projeto  para o espaço, pensado para a semana da consciência negra, mas acabou entrando na programação do festival Pólen. Já tínhamos em mente fazer um painel que retratasse esse conceito de valor da negritude, já que, na cidade, até então, não havia um painel em específico sobre o assunto. Tudo foi muito bem pesquisado, e o painel tem muitas referências históricas marcantes, mas também é um painel leve, com toda sua beleza, pois estávamos fazendo em um local muito visado. A intenção nunca foi agradar a todos, a arte nunca agrada a todos, mas queríamos ser bem recebidos no espaço, já que fomos os primeiros artistas da cidade a fazer um trabalho em um patrimônio tombado.

Muro no Instituto Federal de Educação (IFET), no Fábrica

Moreira – Me fala mais alguns grafittis icónicos seus, com fotos, fáceis de achar pela cidade, pro leitor sentir o poder.

Stain – Então, graffitis meus são sempre acompanhados de trabalhos com a minha crew, minha família, então tem o painel dos Thundercats, no Alto dos Passos, tem um painel meu na Francisco Bernardino que foi pra uma campanha de adoção de animais, os meus outros graffiti eles geralmente são ou em áreas internas ou mais afastados um pouco. Nos bairros, eu me sinto mais à vontade pra pintar, mais liberdade pra poder criar. 

Mural Thundercats na Rua Belmiro Braga, Alto dos Passos, foto Hussain Fadel

Moreira – Você também é b-boy, sempre vejo os vídeos no Instagram. Aonde rola esse rolê na cidade, da dança de rua? Aonde vocês dançam? Quero acompanhar esse Decoflex.

Stain – Sim, sou b-boy há 12 anos, já sou da quarta geração da b-boying da cidade, os rolê na cidade são poucos, existem dois eventos que uma galera do coletivo da rua faz e outro que a Flow Killa faz, é uma crew da cidade, até por isso, rola pouco, porque somos poucos. O breaking já teve dias melhores aqui na cidade, agora os rolê que rola são cyphers, que são rodas de breaking. Mas são poucas ou, às vezes, quando tem algum evento de rap de Juiz de Fora, mas eu não me sinto à vontade em colar nesses eventos pra dançar.

Foto: Hugo Medeiros

Moreira –  Qual a sua formação? Como aprendeu a pintar? Você vive da sua arte? Sou muito seu fã.

Stain – Então, eu tenho ensino médio completo, não tenho nenhuma formação acadêmica fodona não, kkkkk, eu aprendi a pintar sozinho mesmo, nunca fiz curso nem nada, apenas sempre desenhei e busquei evolução, mas quando eu entrei pra Underground Graffiti Crew, minha evolução foi enorme, graças a todos os artistas fodas da crew, mas em especial ao Dorin, que me ensina muito sempre.

Moreira –  Esse trabalho mais recente, com pregos e linhas, lembra o metódo de fazer pulseiras, um tear… Como foi o processo para criar esse trabalho?

Stain – Então esse trabalho se chama string art, ele, pra mim, não teve muito mistério não. Um dia, olhando na internet, vi esse tipo de trabalho e pensei eu sei fazer isso e fiz. Aí que veio a ideia de fazer uma série e uma exposição voltada pra questão negra, a série vai se chamar “Linhagem”. Vou tentar passar que nós, negros, viemos e uma linhagem de reis e rainhas e merecemos tudo que é nosso por direito e devemos dar continuidade a essa linha de pensamento.

Veja mais fotos do artista

Abaixa que é tiro!💥🔫

A Luv entra nos esquema de festa #emcasa e cola #navizinha123 hoje, 20h, pelo Zoom, para o rap hour do jeitinho do bonde, com hip hop, soul, funky, R&B, MPB e samba. No line up, tem a loura Nicole Nandes, que foi minha vizinha na Rua Tietê, Flávia Xexeo, Saci e Negralha. Ingressos começam em R$ 10.

O Circo Voador no ar salva a gente nesse aperto todo com shows, às 22h, com Tributo a Jackson do Pandeiro, na sexta, e show dos pernambucanos da banda Eddie, no sábado.

A CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto completa 15 anos com sua primeira edição virtual, de 3 a 7 de setembro, com programação gratuita. Entre os filmes em destaque, “Dorivando Saravá, o preto que virou mar”, “Meu nome é Daniel” (foto), que tive a alegria de ver no nosso Primeiro Plano, e “Cadê Edson?”. Além de debates, teremos lives, como não, de Graveola, hoje, 19h, Lamparina e a Primavera, sábado, 21h, e Lô Borges, dia 7, às 21h, dentre outras. Ó Minas Gerais <3.

Também está rolando, até o dia 30, a primeira Mostra Internacional de Cinema Virtual, com 33 filmes de 21 países, por meio da plataforma gratuita #CulturaEmCasa. Todos os filmes são inéditos no Brasil. A programação será exibida diariamente, às 19h e às 22h. Entre os filmes, estão o longa canadense “Pequenos Gigantes” (foto) e o alemão “Férias“.

“Nada pode parar os Autoramas” é um doc de Bruno Vouzella e Manoel Magalhães sobre a banda que eu adoro que estreia dia 9 no festival virtual InEdit Brasil, só de documentários de música. A programação é uma riqueza e traz filmes sobre Alceu Valença, Arrigo Barnabé, Edy Star, Joan Jett, Clementina de Jesus, Arnaldo Antunes, Dorival Caymmi e muito mais. São mais de 50 filmes entre os dias 9 e 20, vamo louvar de pé, igreja.

A cantora Daniela Aragão continua a revisitar e comentar a obra de grandes músicos da cidade. Hoje, 18h, é a vez de comentar disco sem título de Estêvão Teixeira, que continua sendo o tema na próxima sexta. Ela já abordou as obras de João Medeiros Filho, Helio Quirino, Kim Ribeiro, Marcio Hallack e Marcio Itaboray, assista aqui

E o finde tem mais lives, claro. Hoje tem Marina de La Riva, 19h. Sábado Léo Santana, 17h, e Pedro Luís, 19h. Domingo, 17h, é a vez de Beto Guedes e Samuel Rosa. Na segunda, 17h, tem Moacyr Luz e Samba do Trabalhador.

 

Na festa virtual de 7 anos da V de Viadão, semana passada, a estudante de design gráfico e artista visual drag queen Iryna Leblon mandou essa performance com fotografia, 3D, estéticas surrealistas e ultra coloridas. “A arte e o design foram uma forma de eu conseguir criar meu próprio universo e, nele, é totalmente aceitável usufruir e exagerar de elementos queer“, explica.

Estou apaixonado por estas esculturas do Projeto Papelão, do artista visual Edgar de Camargo. Ele reaproveita o papelão que colhe pelas ruas de São Paulo. O efeito 3D é garantido com a construção em camadas. Edgar também comanda, há 15 anos, o estúdio de tatuagem True Love Tattoo. No mesmo espaço, ainda funciona o Estúdio Fissura, coletivo.

Playlist com novidades musicais dessa sexta

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Sexta Sei, por Fabiano Moreira

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