Banda, que tem origens no movimento punk do ABC Paulista, lança segundo álbum, depois de abrir pra Bikini Kill, em 2024, The Exploited e Black Pantera, em 2025, tudo em São Paulo
por Fabiano Moreira
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Fundada em 2018, por músicos negros e periféricos de diferentes partes de São Paulo, a Punho de Mahin é um dos principais nomes do afro punk no Brasil, e fala de temas como protagonismo negro, racismo estrutural, machismo, intolerância e violência policial por meio de uma sonoridade crua e contundente em “Entre a penitência e a ruptura”, segundo álbum de estúdio da banda, que chega nesta sexta (27), com produção musical de Clemente Nascimento, fundador dos Inocentes. A banda carrega no próprio nome a história de luta da população negra, homenageando Luísa Mahin, princesa africana escravizada que se envolveu nas revoltas dos Malês e da Sabinada e mãe do abolicionista Luís Gama. Bati um papo, por e-mail, com o baterista Paulo Tertuliano, 37 anos, que forma a banda ao lado de Natália Matos, 40 (voz), Camila Araújo, 35 (guitarra) e Du Costa, 53 (baixo), que me falou “que é impossível desassociar música, sobretudo o punk, do contexto político de luta. Seguimos, de alguma forma, sempre refletindo coletivamente e galgando o senso crítico para ações futuras”, conta. A primeira parte do álbum trabalha o conceito de penitância. “Essa reflexão é parte de inúmeras reflexões sociais que abrangem alguns eixos, por exemplo, a exclusão social e a marginalização de mulheres, em sua maioria negras e periféricas. Outra questão é o encarceramento, que está ligado ao suposto empenho do Estado na “guerra contra as drogas””, avalia o baterista. Já a segunda parte é sobre a ruptura. “Além disso, essa parte do álbum exalta a vivência ampla do coletivo e do aquilombamento, não existe êxito numa luta fragmentada, é necessário expandir território, por intermédio de vários processos seja educação, arte, escrita e ações políticas. Esse é o sentido de ruptura, romper às amarras que oprimem para projetar outras possibilidades”, finaliza nosso papo.
Moreira – Como foi trabalhar com Clemente Nascimento, fundador dos Inocentes, que assina a produção musical deste “Entre a penitência e a ruptura”? Trabalhar com nossos ídolos dá uma emoção a mais, além de aprendizado? Eu tive duas experiências assim, transformadoras, ao trabalhar com Tom Leão e Calbuque, do Rio Fanzine, e Erika Palomino, jornalistas que formaram meu caráter e me editaram depois… Dá um sabor a mais.
Paulo Tertuliano (bateria) – Foi uma honra tê-lo como produtor. Admiramos sua trajetória e vivência tanto como músico quanto na produção. O processo teve um diálogo excelente e muita fluidez. O Clemente é uma pessoa leve para trabalhar e construímos uma relação sólida durante as gravações; além disso, quase tudo termina em boas gargalhadas.
Moreira – As bandas de som mais pesado e influência punk, como Black Pantera e Eskröta, na cena nacional, e Traste e Valla, aqui em Jufas (MG), têm uma tendência à crítica social? É algo intrínseco à ideia do espírito punk? A Valla, inclusive, abriu para vocês aqui em Jufas, no evento punk colaborativo Dominikaos que amamos, mostra sua associação ao Movimento dos Sem Terra (MST), eu amo que a vocalista Laiane Araújo empunha uma enxada no palco, o que poderia ser mais punk? Como foi essa passagem pela cidade, no último abril? O que conheceram da cidade?
Paulo Tertuliano – A cidade é incrível, e o potencial de articulação da Valla e das pessoas que fazem o movimento em Juiz de Fora acontecer é incrível. Participamos dessa vivência junto ao pessoal da Traste, inclusive, sempre sentindo que é impossível desassociar música, sobretudo o punk, do contexto político de luta. Seguimos, de alguma forma, sempre refletindo coletivamente e galgando o senso crítico para ações futuras. Em outubro de 2024, trouxemos a banda Valla para São Paulo em uma tour intensa de três dias. Foram momentos de muitas risadas e parceria, mas hoje nosso foco é outro.
Diante da situação de calamidade que atinge Juiz de Fora esta semana, unimos forças para prestar solidariedade à população local. Queremos convocar todos vocês para uma rede de apoio aos afetados pelas chuvas. Confiram os perfis da Valla e da Laiane (vocalista) para saber como ajudar — seja via PIX, doação de itens de higiene, mão de obra braçal, kits de limpeza ou apenas compartilhando as informações para que a ajuda chegue mais longe.
Moreira – Na primeira parte do álbum, no qual vocês trabalham o contexto da “penitência”, logo na primeira faixa, homônima, é abordada a condição prisional das mulheres no Brasil, que tem a terceira maior população carcerária feminina do mundo. Essa é uma questão importante que o álbum de vocês traz e que impacta bastante. Como veio essa reflexão e a inspiração?
Paulo Tertuliano – Essa reflexão é parte de inúmeras reflexões sociais que abrangem alguns eixos, por exemplo, a exclusão social e a marginalização de mulheres, em sua maioria negras e periféricas. Outra questão é o encarceramento, que está ligado ao suposto empenho do Estado na “guerra contra as drogas”. Enfim, essa música, além de apresentar dados, expõe o que projeta essas condições e nunca é pautado ou debatido pela sociedade.
Moreira – E como foi trabalhado o conceito de “ruptura” na segunda parte do álbum? Resistência, articulação, ancestralidade e insurreição são os conceitos que vocês trabalham nessa parte mais propositiva? Vocês resgatam a potência de mulheres apagadas pela história, como a Preta Dandara, do Quilombo dos Palmares? Amei ao álbum, tá uma pedrada.
Paulo Tertuliano – A segunda parte demonstra que expor as mazelas sociais que afligem de maneira degradante a maior parte da sociedade é insuficiente para propor a ideia de insurreição, precisamos lembrar e fazer ser exposto a consciência sobre a resistência, conquistas e articulações que geraram a permanência da luta, isso pode ser sentido ao ouvir, por exemplo, “Raios, trovões e tempestades”, que reforça a ideia ancestral e a sagacidade atual para o presente ou em “Dandara”, que reforça a memória, evitando o apagamento histórico. Além disso, essa parte do álbum exalta a vivência ampla do coletivo e do aquilombamento, não existe êxito numa luta fragmentada, é necessário expandir território, por intermédio de vários processos seja educação, arte, escrita e ações políticas. Esse é o sentido de ruptura, romper às amarras que oprimem para projetar outras possibilidades.
🌊🪼🫧🐚𓆝𓆟 Como uma onda no mar 𓆞𓆝𓆟𓇼🪼🫧🐚🫧🌊
Eu incluí o single de estreia da banda paulistana Los Otros, “Rotina”, na playlist sextante aqui, em agosto, com seu rock melódico com influências que vão de garage rock a new wave e post-punk. Nesta sexta (27), eles fariam show no Maquinaria, cancelado diante da situação de calamidade pública. Conversei rapidamente com a vocalista e baixista Isabella Menin, que compõe o trio ao lado de Tom Motta (guitarra/voz) e Vinicius Czaplinski (bateria), que me adiantou que tá vindo aí o segundo single, “Rockzinho Básico”. De sonoridade crua e energética, a partir de 2024, a banda começou a se apresentar em casas de show da cena independente paulistana, como A Porta Maldita, Picles, fffront, Bar Alto, Redoma, Algo Hits, Cardeal Pub e Porta, além de participarem em três ocasiões da festa Inferninho Trabalho Sujo. A maior característica do grupo é ser banda de show, que experimenta ao vivo antes de gravar e também mora junto, o casal formado por Tom Motta e Isabella e o amigo Vinicius Czaplinski.
A letra de “Rotina” fala sobre o desgaste emocional da repetição – a sensação de estar preso em ciclos que se repetem, sem conseguir mudar. Quem disseca essa história melhor é o baterista Vinicius: “É a nossa primeira composição original e marcou o início da identidade sonora da banda, ainda nos ensaios e nos primeiros shows. A escolha por ela como estreia não é por acaso: costumamos encerrar os shows com “Rotina” e, por isso, ela acabou se tornando uma das faixas mais marcantes ao vivo, chamamos o público pra cantar com a gente. É um dos nossos momentos favoritos dos shows”, celebra.No domingo (1), Às 16h, eles fazem show em Beloryhills, no Estúdio Central, com os sextantes mineiros da Memórias de Ontem, baluartes do emo caipira, e a paulistana Jumorello. A banda ainda toca no Rio, no dia 14, na Vizinha 123, em Botafogo, com Sound Bullet, Véspera e Ouriço, em mais uma edição carioca do projeto Banda de casinha.
O poder imersivo da música instrumental é a grande força de “Divertimento”, álbum que o trio campineiro Retrato Brasileiro, formado por Gabriel Peregrino (vibrafone), Guilherme Saka (guitarra) e Théo Fraga (contrabaixo), lança em homenagem à obra do pianista Marcelo Onofri. O trio se formou em 2015, no curso de Música da Unicamp, e segue criando e lançando sons há mais de dez anos. Foi lá que eles tiveram aulas com Onofri, e as obras gravadas são de composições do período quando o professor viveu em Viena (Áustria), com referências barrocas e contrapontísticas, influências brasileiras, coros e poesia em 13 faixas arranjadas para este álbum, sendo três delas completamente inéditas. O uso do vibrafone, instrumento sobre o qual já falei aqui, cria uma atmosfera sempre mágica e especial.
O Retrato Brasileiro propõe, ao lado de Onofri (piano), uma sonoridade pouco convencional dentro da música instrumental brasileira, sem bateria e com forte diálogo entre timbres, contrapontos e narrativas. “Amoraefrans”, única composição totalmente inédita do disco, foi escrita por Onofri durante os próprios ensaios de gravação. A música, dedicada aos sobrinhos do compositor nascidos durante a pandemia do Covid-19, foi construída coletivamente, em um processo artesanal. “Kabrum” incorpora uma poesia do próprio Onofri, recitada, criando um raro momento de palavra dentro de um trabalho majoritariamente instrumental.
Essas faixas me foram apresentadas via Groover, ferramenta que remunera jornalistas por feedback crítico. A primeira delas por mt.wav, nome artístico do produtor Marcos Tarelov, 22 anos, que nasceu e mora no interior de São Paulo, na cidade de Leme, região de Campinas, e a segunda por Clayton Colavite, à frente do projeto “Filosofilhos”, com o qual criou, com IA, o EP “Primos”, para falar com crianças sobre filosofia. “Sobre o que eu posso sonhar” começou a partir de um beat de drill, acompanhado pelos versos de Samuel Carlos. “Senti a necessidade de criar uma introdução mais épica e adicionar um vocal mais leve ao refrão, além de alguns instrumentos orquestrais, e convidei o Vitor Muniz, meu amigo e sócio no meu outro selo, Bromélia Groove, que chegou somando de forma essencial no refrão da música”, conta mt.wav. Com farta produção que ultrapassa mais de 60 faixas lançadas dos mais diversos gêneros, sempre conversando com o hip-hop que o moldou como pessoa, se destacam as faixas “Surfista” um funk/drill com participação de JD & Aka.Afk, “Ludacris” com o ÉoDuzin, e “Buxixo”, com Blue Strawberry ORG. e omathfranco.
Já Clayton Colavite criou o projeto “Filosofilhos” para seu filho, Francisco, 4 anos, que batiza uma das faixas. “Mas nós não somos protagonistas do trabalho em si; brincamos com a letra, com o arranjo e canção, depois de muito experimento, cativou tanto as crianças ao nosso redor, os primos Antônio, Aurora e Lis, que batizam as outras músicas, que compartilhar pareceu certo”, conta o artista. Eu pedi fotos do artista, e ele me respondeu. “Usar a tecnologia não para substituir a arte, mas para permitir que uma ideia filosófica (o manifesto sobre a infância) ganhe o mundo com qualidade de estúdio. O fato de você ter gostado da canção sem perceber esse detalhe técnico — coisa que suponho a partir do pedido de foto do grupo — é, para mim, o maior elogio possível. Prova que a emoção, a letra e a melodia quebraram a barreira do “artificial” e se conectaram com o humano aí do outro lado. As ferramentas que auxiliaram foram apenas o pincel; a pintura é real”, me deu aulas, o professor. “Aqui, filosofia não entra como matéria explicada, mas como clima: em vez de definição, vira atmosfera; em vez de argumento, vira personagem; em vez de lição, vira refrão”, finaliza.
O agendão das maravilhas segue nos destaques do meu Instagram, separado por cidades, e em thread infinita no X.
Diante das tragédias, mortes e transtornos causados pela chuva, que já causaram mais de 59 mortes e contando, a Prefeitura de Juiz de Fora disponibilizou um canal oficial para doações em dinheiro via Pix. As contribuições podem ser realizadas pela chave contribua@pjf.mg.gov.br, vinculada ao Banco do Brasil, Agência 2592-5, Conta Corrente 77149-X.
Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta. Todas as playlists de 2025, 2024, 2023, 2022, 2021 e 2020 nos links
Para melhores resultados, assista na smart TV à playlist de clipes com Peaches, The Hives, Jessie Ware, Kalli, La Cruz, Laura Pausini, Jacob Collier, Pnau x Meduza, MC Vitória + MC Neguinho do Kaxeta + DJ Teta, Aaron Modesto + MC Davi + Nilo + DJ Matt D, Ruback + Kiko Franco + Monte, Fábio Brazza + Paiva, Thaysa Pizzolato + Heviny Moura, Ezra Collective, Ecca Vandal,Anitta + Papatinho + Rincon Sapiência, Mimi Webb, Jai’Len Josey, Carlão, NMIXX(엔믹스) + Pabllo Vittar, Tília + Puterrier, Hate Moss, U2 + Ed Sheeran + Taras Topolia, Brodinski + VV Pete + UTILITY, Kim Petras, Mart’nália, Matuto S/A, John Summit + Julia Wolf, Bebe Rexha, Jovem Dionísio, RDD + Anik Khan + Maui, Pedro Mafama, Walfredo em BUsca de Simbiose, Ella A, Kuczynski, Silva Soul e Peaches
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