Sexta Sei: Questionada se iria de carroça fazer um show em São Paulo, a Catïça lança segundo álbum, “Cereja de xuxu”, gritando, pela Deck, e toca no Lollapalooza Brasil 2027

Primeiro single, “Pé vermei”, já questiona essa estereótipo do caipira do interior, e faixa-título tem 22 segundos, que não foram propositais, mas já considerando o Tariflávio Bolsomaster uma grande cereja de xuxu

por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com

Catïça em fotos de Ber Sardi

Desde quando eu ouvi “Pé Vermei”, o primeiro single da banda de punk metal paranaense Catïça lançado pela Deck da gente, ponta de lança do segundo álbum “Cereja de xuxu”, que chega nesta sexta (23), fiquei obcecado com o som do grupo e a gritaria maravilhosa. Vindos de Londrina, Nobu (Lucas Waricoda, vocais), 36 anos, Dedé (André Melo, baixo), 32, Wiu (William Lopes, guitarra), 34, e Jordão (Diego Jordão, bateria), 33, brincam com o conceito de mau‑olhado, azar ou feitiço atribuído a influências sobrenaturais para batizar a banda, que está com sangue nos olhos neste lançamento, uma pedrada que mistura estilos como thrash, hardcore e metal.  “Pé vermei” aborda o contraste entre o caipira do interior do Paraná e o estereótipo caricato construído pela mídia. “Eu cresci em um mundo onde ser caipira era uma piada. Um cara sujo de terra, de chapéu de palha, mato na boca, enxada nas costas. Um ignorante. Essa música vem pra dizer o contrário: o interior é foda e ser caipira é legal demais“, conta o vocalista Nobu. Recém-anunciados no Lollapalooza Brasil 2027, os caipiras provam a força do interior. “Eu mesmo já fui perguntado se iria de carroça pra fazer um show em São Paulo. Esse é o nível. E é algo que a gente precisou enfrentar a vida toda. Hoje menos, talvez pela horizontalidade que você disse, talvez pela nossa bolha – mas pra provar nosso valor, tivemos que vencer essa caricatura do caipira que existe no imaginário, como se fosse um motivo de vergonha. Muito pelo contrário, temos o maior orgulho disso. Acho que a gente também vive uma descentralização da produção cultural no país, e isso com certeza dá ainda mais força pra mensagem que vem do interior”, me conta o vocalista Nobu, em papo por e-mail aqui para a Sexta Sei. Coincidentemente, a faixa-título, “Cereja de Xuxu”, tem 22 segundos. “Os 22 segundos não foram propositais, mas, pensando assim, dá pra considerar o Tariflávio Bolsomaster uma grande cereja de xuxu, tranquilamente. Todos somos de esquerda na banda”, panfleta, mantendo o espírito marxista das bandas de som pesado do País.

Moreira – Desde quando eu ouvi “Pé Vermei”, sabia que tinha a obrigação de fazer esta entrevista com vocês. Me pegou de demais, de primeira, punk na medida certa, com a revolta que nos cabe em um país de tantas desigualdades. O single aborda o contraste entre o caipira do interior do Paraná e o estereótipo caricato construído pela sociedade. O vocalista Nobu falou, na época do lançamento, que a canção reflete sobre o preconceito com quem vem do interior, o caipira, e de como vocês já sentiram isso na estrada. Como foi? Abordei o tema aqui entrevistando o Matuto S.A., que está concorrendo ao Grammy Latino com o seu regional beat na categoria melhor álbum de música urbana. Em um mundo horizontalizado pela internet, ainda faz sentido esse tipo de preconceito?

Nobu (Lucas Waricoda, vocais) – Nunca fez sentido menosprezar alguém porque ela vem do interior, né. Fica até difícil falar de todas as situações porque foram muitas rs. Eu mesmo já fui perguntado se iria de carroça pra fazer um show em São Paulo. Esse é o nível. E é algo que a gente precisou enfrentar a vida toda. Hoje menos, talvez pela horizontalidade que você disse, talvez pela nossa bolha – mas pra provar nosso valor, tivemos que vencer essa caricatura do caipira que existe no imaginário, como se fosse um motivo de vergonha. Muito pelo contrário, temos o maior orgulho disso. Acho que a gente também vive uma descentralização da produção cultural no país, e isso com certeza dá ainda mais força pra mensagem que vem do interior.  

Moreira – Este álbum marca a estreia em estúdio de Diego Jordão, que trouxe uma bateria mais pesada, puxando o som do grupo para referências do thrash, do hardcore mais cru e do metal, uma linguagem que a banda sempre quis explorar. Esse peso é importante para acompanhar as mensagens desse álbum? Eu me amarro na gritaria e em bandas do estilo, como as sextantes Black Pantera, MC Taya, Punho de Mahin, Valla, Traste, Flor ET, Eskröta. Alguém tem que gritar! Amo demais quando pesa!

Nobu – É fundamental, mas não foi motivado pelas mensagens em si. Já era uma vontade nossa experimentar com outros estilos do roque pauleira, e as composições foram saindo naturalmente mais pesadas. Foi nesse sentido que a bateria do Jordão veio. Casou perfeitamente e trouxe ainda mais peso pro molho.

A capa de "Cereja de xuxu", com foto por Ber Sardi e arte de Pedro Dutra

Moreira – Eu não tinha a menor ideia de que as cerejas que comemos podem ser feitas de chuchu! Como chegaram a esse nome para o álbum? A faixa de mesmo nome tem apenas 22 segundos, é algo proposital quanto ao número de um dos candidatos à eleição presidencial, neste domingo? Em “Surpresinha”, vocês têm algo dentro do bolso pro “fdp” que não quer pagar imposto. É importante que o rock tenha consciência de classe. “Surpresinha” nasceu do debate sobre a taxação dos super-ricos, pauta defendida pela banda, mas que esbarra na resistência de uma elite acostumada a proteger os próprios privilégios. Vocês são marxistas? A maioria das bandas do setor hoje é.

Nobu – Eu costumo anotar nomes e frases que acho interessantes. Deixo eles guardadinhos num bloco de notas para usar, seja para nome de música, de disco, de banda que não existe rs. “Cereja de Xuxu” (com xis mesmo) era uma dessas frases anotadas. Gosto dessa ideia de parecer algo, mas ser outro. Os 22 segundos não foram propositais, mas pensando assim dá pra considerar o Tariflávio Bolsomaster uma grande cereja de chuchu tranquilamente. Todos somos de esquerda na banda.

Fotos: Twist

Moreira – O álbum explora diversas sonoridades, como o thrash metal em “Crente Canibal”, o post-punk de “Petit Comité”, e o grunge em “Vixvei”. Isso tem relação com o que a banda tem ouvido no processo de composição? Quais são as principais influências e referências de vocês na composição deste álbum?

Nobu – Na real, são estilos que a gente sempre escutou. Só que dessa vez, a composição e a escolha das músicas foram de caso pensado. A gente queria um som thrash, tipo Power Trip, Mastodon, e veio “Crente Canibal”. A gente queria um grunge, tipo Alice In Chains, Soundgarden, veio “Vixvéi”. Queria um crossover, tipo Ratos de Porão, saiu “Plástico no Cérebro” – e por aí vai.

Foto por Renata Kalkmann

Moreira – “Crente canibal” é uma imagem bem forte que aponta para uma grande ferida hoje, no Brasil, que é o crescimento das igrejas neopentecostais. Só no meu quarteirão, tem duas, que abocanham parte do salário da classe trabalhadora e c*gam regras que estimulam o preconceito contra pessoas LGBTQIA+. O Brasil só será um país livre quando abraçar o estado laico que é na Constituição. Até Nossa Senhora vira pauta eleitoral no país que acaba de sair do mapa da fome. A revolução será livre das religiões? Tenho pavor quando vou ao médico e encerram a consulta com “fique dom Deus”. Eu quero é atendimento de saúde!

Nobu – Seria um sonho, mas acho difícil. Nossa cultura também é resultado dessas religiões. O “fique com Deus” é um exemplo disso. O foda é que, na maioria, as grandes igrejas são esquemas de troca de influência, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, etc.. Vide família Valadão e Igreja Lagoinha, Edir Macedo e tantos outros. Mas eu e o Dedé (André Melo – baixo), por exemplo, somos cria da igreja. Conheço muita gente que nasceu bitolada, mas se tocou e meteu o pé. Tem pastor e líder que acha que os fiéis são burros, mas boto muita fé nos cristãos de verdade, que seguem como Jesus. A revolução é desses caras também. 

Moreira – Também sigo a ética cristã… E tenho respondido com axé, shaná tová umetucá, abrindo novas perspectivas e mostrando que cada um tem a sua crença.

🌊🪼🫧🐚𓆝𓆟 Como uma onda no mar 𓆞𓆝𓆟𓇼🪼🫧🐚🫧🌊

Ana Lucia Rezende é minha amiga desde os anos 90, quando integrava a banda Funny Feeling, ao lado da irmã, Ana Cláudia, da Lizbeth, figura clássica da cena punk e hardcore de Jufas, e Paulo Beto. Entrevistei as meninas, na época, na quinta edição do meu fanzine Bat Macumba. Ana Lucia, que agora vive na Zona Rural, em Sapucaia (RJ), não deixou de ser punk. Pelo contrário, ela se apresenta como uma “camponesa” punk e bruxona em EP autointitulado de seu  novo projeto solo, Lúcida, que faz pós-punk eletrônico e “feminista do mato”. “O trabalho nasce para dar voz e corpo ao isolamento, à sobrecarga emocional e ao esgotamento que atravessam a vida das mulheres contemporâneas”, conta, em texto explicativo do projeto, que foi lançado após 15 anos de hiato na produção musical. Ana Lucia assumiu todas as etapas do EP: composição, arranjos, instrumentação, performance e produção geral. O volume foi gravado em Santa Bárbara, zona rural de Sapucaia (RJ), e viabilizado pelo edital da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). ​O EP reúne cinco faixas inéditas; “Exceção”, “Sintomática”, “Migalhas”, “Medo” e “Carne”, cada uma acompanhada por um videoclipe de performance. 

A sonoridade aposta em ritmos dançantes e ironia ácida como ferramentas poéticas de resistência. ​”O projeto nasce do acúmulo e da sobrecarga de ser mulher. Como artista e cientista social, quis tensionar a lógica do machismo e o peso invisível do cuidado. É um reencontro profundo comigo mesma por meio do som e da imagem”, destaca Ana Lucia.

Capa com foto de Karla Brights e design de Manoela Lissoni

O single “Boitatá”, que antecipa o segundo álbum da cantora, compositora e instrumentista paulistana Sophia Ardessore, “O ventre que me inventou”, inaugura a nova fase de sua trajetória. A faixa nasce de uma parceria com Francisca Barreto e mergulha em um universo simbólico que atravessa o tarô e o folclore brasileiro. “Estávamos na minha casa e queríamos compor, então tiramos uma carta do tarô para nos inspirarmos e saiu o diabo, o arcano XV. Pensei que tinha de haver uma linha de baixo bem ‘sombria’ e comecei por ela”, conta Sophia. “É preciso visitar o próprio inferno para ‘transcender’, reconhecer nossos impulsos, sombras, desejos e como tudo isso também é parte significativa da vida”, explica a artista. Essa ideia encontrou um paralelo na figura do Boitatá, serpente de fogo presente no imaginário popular brasileiro e associada à proteção das matas. A canção sintetiza o conceito do álbum a ser lançado no ano que vem. A obra, que vai continuar a discografia iniciada com o álbum “Porto de paz” (2022), vai se debruçar sobre contrastes e dualidades. Sophia começou seu contato com a música aos 7 anos de idade e, aos 15 anos, participou de um curso na Berklee College of Music.

Sophia Ardessore por João Von Brewer
Fotos: Anderson Kutz

O duo Zebrô, composto pelo casalzão da p*rra formado por Vitor Novaes e André Bertunes, acaba de estrear na cena do R&B brasileiro com o seu primeiro single, “Get it low”. A faixa é um convite à fusão musical, unindo os famosos bailes charme, a música eletrônica e referências mais contemporâneas. “Nesse single, falamos sobre viver o ritmo acelerado de São Paulo, sobre a euforia das festas, das drogas e das conexões, em contraste com a necessidade da solitude, da reflexão e do respiro em meio ao caos”, aponta Vitor, que vem do Grajaú, na periferia de SP, enquanto André é de Carapicuíba. Hoje, eles moram em Perdizes. “Como brasileiros, negros e queers, vivemos com essa sensação constante de estar à beira do precipício e, com esse lançamento, a Zebrô se mostra decidida a pular e viver um belo sonho esquisito”, conta André. O duo já tem planos de um EP, para breve, e para lançar o single, fazem festa na quarta (14), no Bar Ref.sp, em Santa Cecília, com DJs e show do sextante Umzé.

"Zonzo", César Brandão. Foto: Sérgio Neumman
"Vesgo"
"Mal-feito"

César Brandão celebra 70 anos de vida com amostra de sua genialidade em “César Brandão: Container”, exposição que reúne desenhos que são pensamentos e têm a precariedade como método e a materialidade como linguagem no Museu de Arte Murilo Mendes (MAMM). A tensão constante como projeto, ruína e dúvida. Essas são questões recorrentes na trajetória do artista e que estão evidenciadas nos desenhos da série “O desenho é pensamento em processo. Não resolve; mantém em suspensão”. A curadoria é de Fabrício Carvalho, Ione Ribeiro e André Colombo.  A série de trabalhos explicita o caráter experimental e ético do trabalho de Brandão, no qual a gambiarra, o improviso e a instabilidade não são efeitos formais, mas princípios estruturantes. O próprio artista considera a instabilidade como um método: “gosto da rasura, do rascunho, do anárquico. Sei que o ideal é organização, equilíbrio e precisão, mas trabalho – contraditoriamente – a meio caminho”. Na Zona Norte, no Moinho, a exposição “Anônimo II” leva arte urbana do artista visual Monk para a escada externa, transformando espaço de circulação em uma experiência de arte. 

Em vez de estar restrita a um espaço tradicional de exposição, a arte passa a fazer parte do percurso cotidiano de quem circula pelo local. As obras ocupam um espaço de passagem, convidando o público a observar, interpretar e se relacionar com elas de maneira espontânea. Monk é artista visual autodidata que tem, na rua, um dos principais espaços de expressão, por onde espalha suas ratazanas, que já integram a paisagem. Ele começou a pintar durante a pandemia, em 2020. A produção de Monk é construída a partir de sentimentos, vivências pessoais e percepções subjetivas do cotidiano. Também faz parte de sua produção o “Moon Man”, personagem criado por Monk e recorrente em seus trabalhos. A exposição pode ser visitada das 10h às 22h. As mostras têm entrada gratuita.

O agendão das maravilhas segue nos destaques do meu Instagram, separado por cidades, e em thread infinita no X.

Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta com álbuns de Catïça, Pedro Capó, Daniel Lopes, Lou Garcia, Hot Chip, Tuyo, Tony Lommi, Nathalia Mastrobiso, Hot Freaks, John Legend, Jazzy, Amy Winehouse, Caroline Rose, Anderson .Paak + Cordae, Gus Dapperton, MC Dellacroix, EPs de The Hives, Malharo. Todas as playlists de 2025, 2024, 2023,  2022, 2021 e 2020 nos links

Para melhores resultados, assista na smart TV à playlist de clipes com Hot Chip, Orbital, Arca, Rachel Chinouriri, Masego + Buju Banton, Olivia Rodrigo + Chapel Roan, Doechii, Tairec, Ricky Martin + Pedro Sampaio, A$ap Rocky, Ana Lúcia Rezende, D’Leesa, Tehuá + Zimbra, Easy Freak, Mia Badgyal, Lucas Pretti, Mariah Carey + Ludacris + Da Brat + Shawna + Twenty II, Fireboy DML, Fontaines D.C., Galantis, Carnifex, My chemical romance, LP, Kings of leon, Lara Aufranc + Thiago Pethit, Tyla, Prince Mk Baagi (Sunyi Failing Remix), Yemi Alade, Miley, Chaai, Ryan Betty, Megan Thee Stallion, MC Xúxu, Zélia Duncan, Soulidified, Ozuna + Jory Boy + Ñengo Flow, A$ap Rocky, Momo Boyd, Ibeyi, Gugs + PJL + Junior Dread + Ell Kanin + Ig Easy, TZ da Coronel, Paulo Londra + Marília Mendonça

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