Banda com integrantes socialistas e uma leader band anarquista grita o que muitos gostariam de gritar em álbum de estreia, com show de lançamento domingo, na praça, quando o busão é de graça
por Fabiano Moreira
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Eu comecei 2026, na primeira Sexta Sei do ano, já falando do punk rock revolucionário da banda juiz-forana Valla, que lançava, então, o clipe para a faixa “Revolução”, gravado no acampamento Rosa Cabinda, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), em Monte Verde, na Zona da Mata mineira, inclusive com crianças participando do coro de vozes e do clipe. É por isso que nos shows, como o que assisti em 13 de abril de 2024, em edição feminina do Dominikaos, a Feminikaos, a vocalista e anarquista Laiane Araújo, 38 anos, comanda o show com uma enxada na mão que vira instrumento de percussão e luta ao lado dos parceiros de banda, Marte Oliveira (bateria), 34, Fernanda Halfeld (guitarra), 38, e Fabio Vianna (baixo), 42. Como punk que é punk lava a mãe no tanque, todos os integrantes da banda têm direcionamentos socialistas e vêem o punk rock como ferramenta de militância. “A música tem o poder de conectar pessoas, e a política (não a politicagem) é uma necessidade, então, fazer a junção de ambos é uma forma direta de possibilidades de avanços futuros. Sempre lembrando que tudo é político quando se fala de minorias , então nas músicas só “gritamos” o que muitos também gostariam de gritar”, me conta Laiane, em um dos melhores papos do ano, aqui na #SextaSei, sobre o álbum de estreia da banda, “Revolução Campo-Cidade”, que chega nesta sexta (10) às plataformas.
Produzido de forma independente pela própria Valla, em parceria com Guilherme Melich, o registro foi gravado ao longo de aproximadamente quatro meses no Estúdio Rise Together. O álbum levanta uma questão importante que é a participação das crianças na vida comunitária. “Durante os mutirões do plantio solidário, ainda lá na época da pandemia, foi muito impactante para mim a participação das crianças em diversas atividades, porque, normalmente, a sociedade as retiram dos espaços “adultos” como se fossem dois mundos totalmente separados; e, nas vivências lá no acampamento Denis Gonçalves, ficou muito claro para mim que é impossível não ter as crianças envolvidas em nossas ações político sociais. O que me fortalece como ser político é a esperança de um mundo melhor, e as crianças são esse futuro, elas são agentes fundamentais da transformação. Não tem como falar de revolução sem falar das nossas crianças”, decreta a vocalista. O lançamento será celebrado com um show especial no domingo (12), dia de busão grátis, durante o festival Dominikaos, realizado no Beco da Cultura, em Juiz de Fora.
Moreira – A Valla não faz música descolada da realidade, pelo contrário, é claro o envolvimento político pela perspectiva da classe trabalhadora, o Movimento dos Sem Terra (MST), especialmente o assentamento Denis Gonçalves, que aparece no clipe de “Revolução”, durante ações de Plantio Solidário e também nas vozes das crianças do coro, na participação de ações do Fórum de coletivos e mulheres feministas de Juiz de Fora (MG), 8M, e até nas mobilização para ajudar às vítimas das trágicas chuvas de 23 de fevereiro em Juiz de Fora. Vocês são marxistas? Qual a importância desse envolvimento político na construção do som da banda? A imagem da Laiane empunhando uma enxada, nos shows, é muito poderosa.
Laiane Araújo (vocal) – O projeto surgiu da ideia da banda também ser uma ferramenta de militância, uma extensão das construções políticas que já fazemos desde sempre. Sobre o direcionamento político na banda, todos da banda têm direcionamentos socialistas, e eu, mais especificamente, sou anarquista. Diante disso, a banda se torna uma necessidade como ferramenta de diálogo e de ocupar espaços não convencionais e possibilitando uma comunicação mais direta com públicos diversos. Talvez devido a isso nunca houve uma música que tenha sido “planejada”, todas as músicas foram construídas da forma mais orgânica e verdadeira possível, relatando todas as nossas vivências, angústias, raivas e anseios. A música tem o poder de conectar pessoas e a política (não a politicagem) é uma necessidade, então fazer a junção de ambos é uma forma direta de possibilidades de avanços futuros. Sempre lembrando que tudo é político quando se fala de minorias , então nas músicas só “gritamos” o que muitos também gostariam de gritar .
Moreira – A menina Maria Flor, filha de uma companheira que a banda conheceu durante as ações do Plantio Solidário, estampa a capa do álbum, com um colete customizado. É uma forma de reforçar uma das mensagens centrais do disco, a crença de que a transformação social passa necessariamente pelas novas gerações e pela construção coletiva de futuro? E como foi trabalhar com o Guilherme Melich, da Traste, que produziu o álbum?
Laiane Araújo – Durante os mutirões do plantio solidário, ainda lá na época da pandemia, foi muito impactante para mim a participação das crianças em diversas atividades, porque, normalmente, a sociedade as retiram dos espaços “adultos” como se fossem dois mundos totalmente separados; e, nas vivências lá no acampamento Denis Gonçalves, ficou muito claro para mim que é impossível não ter as crianças envolvidas em nossas ações político sociais.
O que me fortalece como ser político é a esperança de um mundo melhor, e as crianças são esse futuro, elas são agentes fundamentais da transformação. Não tem como falar de revolução sem falar das nossas crianças. Diante disso, não tinha, para mim, uma criança mais simbólica do que a Maria Flor para ser capa do nosso primeiro álbum. Ela é filha da eterna companheira Priscila Marques que, desde os primeiros mutirões de plantio e doação de alimentos, levou a Maria para o assentamento e falava que a filha dela era uma semente. A Priscila foi a primeira pessoa que apresentei à música “Revolução”, e ela foi a grande incentivadora para que eu mostrasse para outras pessoas. Maria flor e Priscila estavam com a gente quando a música foi tocada a primeira vez, no assentamento, e quando tocamos a primeira vez em um palco grande elas também estavam lá, Priscila com o seu tambor mineiro, e Maria Flor com um tambor da Frozen. Priscila morreu no dia que entrei no estúdio para gravar a música que ela me incentivou a cantar e, toda vez que eu cantar essa música, vou me lembrar dela. Devido a tudo isso, a nossa capa do álbum não é só uma criança, é a sementinha da Priscila, é imagem de futuro, de esperança, é nos ver no próximo e mesmo na dor ainda ter forças para continuar caminhando. Priscila presente! Sobre o Guilherme, eu já era fã antes de ser amiga, todas às vezes que o encontro, faço questão de reforçar o meu respeito e a minha admiração pelo artista e pela pessoa que ele é, diante disso, não tinha pessoa melhor para estar com a gente em um momento tão importante. Confio nele e sei que ele acredita na Valla, e foi nesse sentimento de companheirismo que ele esteve com a gente em todos os momentos, nos incentivando e dando ideias. Tenho muito orgulho quando olho e vejo tantas pessoas incríveis fazendo parte de forma direta ou não desse nosso primeiro trabalho.
Moreira – Em América Latina, há os gritos de desordem “fogo nos bancos, fogo nas igrejas”. É impressionante o crescimento das igrejas neopentecostais na nossa região, na minha rua mesmo, no Bonfim, são mais de cinco delas. Quais os males que essas instituições trazem pra nossa sociedade?
Laiane Araújo – Quando falamos da Igreja, estamos falando da instituição, e não dá fé das pessoas . Acredito que o crescimento das igrejas evangélicas já era algo esperado devido à conjuntura política que vivemos, o capitalismo está acabando com o povo trabalhador, e a igreja chega se apresentando como a salvação, não é de se espantar ao ver que onde mais tem ocorrido o crescimento das igrejas evangélicas são em áreas periféricas. O povo está procurando a salvação religiosa exatamente onde o estado o abandonou, não é à toa que é também nesse meio que a direita tem se infiltrado, aproveitando-se da fé e do desespero do povo trabalhador e cultivando “politicagem de retrocesso”. Mas vejo isso também como um reflexo da falta de trabalho de base dos ditos de esquerda, que não estão indo onde o povo, de fato, está. O trabalho de base é feito cotidianamente e não de quatro em quatro anos.
Moreira – Achei muito interessante como vocês assimilaram instrumentos como tambor mineiro, xequerê, sanfona, viola caipira, trompete e até enxadas no disco, uma tentativa de aproximar a tradição do punk rock com as referências culturais que fazem parte da vida de seus integrantes. É uma forma de conectar o álbum ao território onde ele nasceu
Laiane Araújo – Estou no punk desde os meus 15 anos, mas, antes disso, as rodas de viola e sanfona na casa dos meus avós em Ervália eram a minha grande alegria. Quando adolescentes, normalmente, queremos nos afastar de tudo que é familiar e, nessa fase caótica, criamos novos vínculos, estilos e várias formas de nos reafirmar, no meu caso, nessa época, apareceu o punk kkkkkk. Acredito que, agora mais velha, esses dois pontos não se separam mais, para mim é fundamental que eu fale da minha origem para entender tudo o que sou e tudo o que me cerca. E falar de Minas Gerais é orgulho demais, eu amo a riqueza cultural do nosso estado e a simplicidade que envolve tudo isso. E nada mais punk rock que falar das nossas vivências, da nossa cultura, misturar instrumentos e juntar uma sanfona com uma guitarra elétrica.
Moreira – O lançamento do álbum será celebrado com um show especial no dia 12 de julho, durante o festival Dominikaos, realizado no Beco da Cultura, em Juiz de Fora. Eu conheci a banda em uma edição Femikaos, com vocês, a Traste e a DJ Rosa Martins. Este evento é construído coletivamente, com Vakinha on-line, e já trouxe bandas importantes para a cidade, como a sextante Punho de Mahin.
Laiane Araújo – O Dominikaos existe desde 2018 e foi criado por mim e pelo baixista Fábio Vianna e, hoje, tornou-se um evento conhecido até internacionalmente, porém ainda é feito por meio de financiamento coletivo (Vakinha). Acreditamos que a cultura tem que ser universal e acessível a todos e, por isso mesmo, com todas as dificuldades, mantemos a entrada do evento gratuita e, normalmente, com edições aos domingos, quando o transporte público também é gratuito. Até cogitamos fazer o lançamento do álbum em uma casa de show, mas não seria justo com a história da banda não fazer em um espaço público, nos moldes daquilo que acreditamos. Nesse show de lançamento, a banda não terá uma formação fixa, porque convidamos vários amigos que nos apoiam para fazer essa festa com a gente, e vamos fazer também distribuição de mudas de plantas para o povo como uma forma de conectar o público com o espaço que o álbum foi criado, uma vez que as mudas foram feitas pelas mãos de crianças do plantio solidário.
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Filha do mitológico Belchior, a cantora cearense Vannick Belchior inicia uma nova fase na carreira com o lançamento de uma roupagem contemporânea de “Carisma”, composição considerada “lado B” de seu pai. A faixa ganha vida por meio de um vídeo-manifesto gravado no Centro Cultural Dragão do Mar, com o tradicional Reisado de Santa Luzia, unindo forró, pífano e cultura popular para combater o preconceito geográfico e celebrar a ancestralidade nordestina. Guardiã do legado do pai, a artista faz imersão nos reisados e prepara novo álbum previsto para o segundo semestre. Originalmente pensada como um baião, “Carisma” ganhou uma roupagem contemporânea que transita pelo forró e incorpora elementos tradicionais da música nordestina, como o som do pífano. A escolha reflete o desejo da cantora de homenagear suas maiores referências musicais, que incluem ícones como Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Tom Zé. “Eu escolhi ‘Carisma’ para essa virada porque ela me mantém muito aterrada, mantém viva a minha ancestralidade regional do Ceará. Quero bater na tecla de que a cultura regional faz parte da cultura brasileira; ela é uma cultura pertencente ao Brasil tanto quanto a cultura do Sudeste. O conceito desse vídeo traz essa firmeza ancestral territorial. A palavra-chave para essa virada é cultura, que engloba tudo: a música, a arte, a pintura, a dança e o teatro. Minhas criações agora dialogam diretamente com o público para trazer reflexões de cunho social e artístico”, explica a cantora
. O clipe mergulha na tradição folclórica e ritualística dos reisados do Ceará. O registro audiovisual foi gravado em parceria com o tradicional Reisado de Santa Luzia, de Fortaleza, sob o comando do Mestre João. A artista atua como uma verdadeira guardiã do acervo e legado do pai, com a gravação do EP “Das coisas que aprendi nos discos”. Enquanto prepara o novo álbum, ela faz o show “Meu nome é Cem” , dia 15, no Teatro Rival Petrobras, no Rio, e no dia 23, na Casa Natura Musical, em São Paulo.
A pianista Erika Ribeiro realizou um grande feito com o videoclipe de “Carnaval das crianças (O ginete do pierrozinho)”, uma delicada produção em stop motion dirigida por Jhê e Luca, edt. que transporta as crianças para o mundo erudito pela ludicidade. Inspirado no universo de Heitor Villa-Lobos, o vídeo transforma imagens estáticas em uma narrativa artesanal e poética, convidando o público a mergulhar na imaginação e na sensibilidade da infância. O clipe é desdobramento de “Villa-Lobos”, álbum lançado em abril pela Gravadora Rocinante em vinil e nas principais plataformas digitais. Desde sua estreia, o trabalho vem conquistando a crítica especializada e alcançando novos públicos ao lançar um olhar sensível e contemporâneo sobre a obra de Villa-Lobos, ressaltando sua riqueza rítmica, sua força popular e a impressionante atualidade de sua música.
Umas das artistas que mais me impressionou ao vivo, recentemente, foi a maranhense Rita Benneditto, que se transfigura e rejuvenesce uns 20 anos, na frente da plateia, em seu show Tecnomacumba, que passou aqui por Jufas, no Sensorial. Esta semana, ela participa da faixa do cantor e compositor cearense Lucas Bezerra, “O arqueiro zen“, que antecipa o primeiro álbum dele, “Eu mandei meu amor pro espaço”, previsto para agosto pelo selo Cantores del Mundo, inteiramente dedicado à obra de Totonho (Carlos Antonio Bezerra da Silva), compositor paraibano cultuado por sua escrita inventiva e por álbuns fundamentais da música brasileira independente, como “Sabotador do satélite“. Rita é parceira artística de longa data de Totonho. “‘O Arqueiro Zen’ talvez seja a canção mais espiritual do disco. Ela preserva essa unidade de universo enquanto pega estrada por outras rodovias”, reflete o artista. “Acho bonito pensar que o ‘Tecnomacumba’ é contemporâneo de ‘Sabotador do satélite’, um álbum de Totonho que foi decisivo na escolha em fazer esse álbum com releituras. De certa forma, essa gravação acaba reunindo trajetórias que já conversavam há muito tempo”, reflete. Com produção musical de Arthus Fochi e direção artística de Laurita Dias, o single aposta em um arranjo que privilegia o espaço e o silêncio, contando com o violão de Fochi, o clarinete de Morten Lind e o violoncelo de Rennan Lindemute. Natural do Crato, no Cariri cearense, como nosso Daniel Peixoto, Lucas Bezerra traz em sua formação a proximidade geográfica e afetiva com o universo de Totonho, natural de Monteiro, no Cariri paraibano. Ele estreou com o EP “Transito” (2021).
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Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta. Todas as playlists de 2025, 2024, 2023, 2022, 2021 e 2020 nos links
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