Dona de afinada voz e muito balanço, artista mineira lança o quinto álbum de estúdio, mostrando excelência e maturidade
por Fabiano Moreira
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A aquariana Carolina Serdeira completou 37 anos no mesmo dia quando lançou “Doce”, seu quinto álbum de estúdio, no qual brilha com seu genuíno samba jazz, ritmo que escolheu para usar o seu afinadíssimo instrumento, a voz, que é cheia de balanço, mostrando excelência e maturidade artística. Questionada se a ida para a Alemanha é uma fuga das condições de trabalho para os artistas no Brasil, ela conta que “ser artista é difícil em qualquer lugar. Porque, diferente de quase todas as outras profissões, o artista é a arte. A gente não tem uma chavinha de liga e desliga, não existe arte desconectada do artista, a gente cria o que a gente vive, sente, observa, escuta. E essa conexão, essa força, às vezes, é muito cara, e eu não to falando de dinheiro”, conta. É como diz o clássico de Antônio Carlos imortalizado pelos Secos & Molhados, “O Vira”. “Se correr, o bicho pega, se ficar, o bicho come”. “Eu considero que jazz é mais uma atitude, uma ideologia, do que um estilo musical. É sobre a forma como a gente faz a música, sobre tocar e trocar juntos o tempo inteiro, é sobre estar de fato conectada com quem tá fazendo música comigo, sentir e balançar juntos”, filosofa, sobre o samba jazz que dá o tom ao volume. Sobre os compositores da região no álbum, Clara Castro e Ciro Belluci, colegas da Bituca, Cacáudio, Kadu Mauad, Gladston Vieira e Marcos Ruffato, ela conta que, “em todos os discos, eu sempre mantive meu olhar voltado para os artistas e compositores da minha geração, especialmente os de Juiz de Fora. Não dá pra eu falar de mim sem falar do lugar de onde eu venho, e Juiz de Fora é, de fato, uma excelentíssima produtora de artistas e compositores”, finaliza, nesse papo para a Sexta Sei. Nesta sexta (30), às 20h, ela faz show de lançamento no Madame Gevah.
Moreira – Você lança o álbum em momento de despedida do Brasil, indo para temporada na Alemanha. É difícil sobreviver como artista no Brasil? O que você vai fazer lá fora? Minas Gerais perde uma de suas mais afinadas vozes… Não esqueço o show que vi, no Paço Municipal, com uma super banda… Com Gladston Vieira na bateria, que está contigo no álbum, e o querido Renato da Lapa. Ali, vi estar diante de uma grande artista, o que se confirma nesse lindo álbum “Doce”.
Carolina Serdeira – Eu acho que ser artista é difícil em qualquer lugar. Porque existe diferente de quase todas as outras profissões, o artista é a arte. A gente não tem uma chavinha de liga e desliga, não existe arte desconectada do artista, a gente cria o que a gente vive, sente, observa, escuta. E essa conexão, essa força, às vezes, me é muito cara, e eu não to falando de dinheiro. Mas se a gente for pensar em condições de trabalho, mercado, capital, eu acredito que o Brasil ainda tem muito pra caminhar, temos bons caminhos pela frente, temos muitas pessoas engajadas trabalhando e lutando por condições mais dignas de trabalho. Mas ainda temos muito pra vencer, começando pela forma como as pessoas enxergam o fazer artístico, e consequentemente o valor que elas dão pra isso. É inegável que o que produzimos no Brasil é de uma riqueza imensa, vide o cinema nacional. É um momento bonito pra cultura brasileira lá fora, sorte a minha. Eu tô indo pra experimentar a vida, sabe? Para entender como a minha voz e a minha música se portam em outros lugares, em outras culturas, quais encontros ela vai me proporcionar. Ao mesmo tempo que não tenho grandes ambições, me sinto extremamente audaciosa em ir atrás de ser ouvida para além do nosso continente. Eu me sinto feliz e muito privilegiada de poder fazer música com artistas como o baterista Gladston Vieira, que é meu parceiro mais antigo. Poder construir uma carreira ao lado de artistas tão incríveis é a parte mais especial da minha trajetória. Eu comecei ao lado dos meus padrinhos: Zé Francisco e Marcelo Corrêa, e com eles eu aprendi muito sobre música, sobre vida, sobre parceria. E em seguida fui encontrando (reconhecendo) amigos ao longo do caminho, como o Renatinho, o Samy Erick, e outros tantos que me ensinaram e me ensinam até hoje. Isso sem falar nos compositores incríveis que eu tive e tenho a sorte de cantar, como Kadu Mauad, Cacáudio, Ju Stanzani, Roger Resende... e etc.
Moreira – Você descobriu o ritmo da sua música, o samba-jazz, ouvindo Leny Andrade, aos 14 anos. Fala mais sobre esse fascínio por ela e de sua influência na sua obra. O samba jazz é o seu modo de narrar o mundo? É como diz o hino de Carlos Lyra, “pobre samba meu”, “vai ter que se virar pra se livrar da influência do jazz”… É o encontro do Brasil popular do samba com a sofisticação do jazz…
Carolina Serdeira – Eu considero que jazz é mais uma atitude, uma ideologia, do que um estilo musical. É sobre a forma como a gente faz a música, sobre tocar e trocar juntos o tempo inteiro, é sobre estar de fato conectada com quem tá fazendo música comigo, sentir e balançar juntos. A música brasileira, pra mim, se basta! rs Não tem nada mais incrível que um samba bem tocado, com suingue, que uma bossa executada com cuidado e doçura. O jazz é só a forma como a gente interage entre si e com a música. Quando eu ouvi Leny pela primeira vez, eu não fazia ideia que aquilo ali chamava samba jazz (ou jazz brasileiro), mas me emocionou de uma jeito que até hoje eu consigo me lembrar. E todas as vezes que eu escuto ou vou a um show de samba jazz a mesma coisa acontece. Eu nem sei se eu escolhi o samba jazz, acho que foi ele que me escolheu mesmo. E aí não tem outra forma de eu cantar e narrar o mundo se não for através dele.
Moreira – “Quem embalou a Bahia e adoçou, foi Caymmi”, você canta, na faixa que dá nome ao álbum, “Doce”, de Roque Ferreira, autor de “Samba pras moças”, sucesso na voz de Zeca Pagodinho. Me fez lembrar a canção da Sil Andrade, “Pão de queijo com vatapá”, que fala do encontro de Caymmi com Pequeri. Qual a influência da obra dele no seu trabalho? O mar é ponto central da obra de Caymmi, e também o sonho de todo mineiro, né. Eu costumo brincar nas minhas fotos do Instagram que “o mineiro, ele só quer ver o mar”, com a mania de ter Cristo Redentor nos jardins das casas. Ah, tenho adorado a releitura da obra dele feita pelo Adriano Grinenberg.
Carolina Serdeira – Caymmi é um daqueles artistas raros, atemporais, e que conseguem influenciar artistas de todos os gêneros. Ele vai atravessando gerações e segue atual. Tem coisa mais bonita do que esse encontro? De um artista de agora, como o Adriano, que visita a obra do Caymmi e junta a ela sua identidade e forma de viver a música?! Eu, particularmente, cresci com Caymmi, Jobim e Chico. Meu avô escutava esses artistas diariamente, e eu, com 3 anos de idade, ficava lá ouvindo com ele, comecei aí a construir minha identidade artística, ainda sem nem saber o quão importante aquilo seria. Eu sempre tive uma relação muito forte e especial com água, o que também tem a ver com a minha fé e espiritualidade, coisa que só fui dar nome muitos anos depois. E acho que essa conexão e encantamento com as águas (doce ou salgada) vem desse lugar. Cantar Roque Ferreira, uma canção que fala de Caymmi e de Oxum, que fala da Bahia, é falar de todas essas coisas, dessas histórias, do meu avô. Carrega muitos significados, não por acaso essa é a música que abre e dá nome ao disco.
Moreira – Sobre a escolha de repertório, conta mais sobre os compositores da cidade que você gravou no álbum, como Clara Castro e Ciro Belluci, creio que colegas da Bituca, Cacáudio e Kadu Mauad e Gladston Vieira. E, mineiros, ainda temos Marcos Ruffato. É uma mostra de uma geração?
Carolina Serdeira – A Clara e o Ciro são de Barbacena, na verdade, eu os conheci na Bituca mesmo, não fomos alunos na mesma época, mas nos conhecemos lá. Em todos os meus discos, eu sempre mantive meu olhar voltado para os artistas e compositores da minha geração, especialmente os de Juiz de Fora. Não dá pra eu falar de mim sem falar do lugar de onde eu venho, e Juiz de Fora é, de fato, uma excelentíssima produtora de artistas e compositores. Poder cantar a obra deles, poder ganhar uma música de presente, feita exclusivamente para o disco, como foi o caso de “Tudo ou nada” (Clara Castro e Ciro Bellucci), é das coisas mais felizes da minha vida. A escolha do repertório desse álbum foi pensada em visitar minhas raízes, contar minha história, falar o que tem me atravessado agora, e apontar uma flecha pro futuro, pra carreira internacional, em como eu quero ser apresentada ao mercado Europeu. E eu acho que consegui contar essa história através das músicas, da ordem em que o repertório é apresentado no disco.
Moreira – Como foi trabalhar com o talentoso contrabaixista Rafael de Sousa, que é um prodígio no instrumento que começou a tocar aos 9 anos, e assina direção musical e arranjos do álbum? Vi que ele já tocou com nomes como Orlando Morais, Margareth Menezes, Seu Jorge, Ellen Oléria, Felipe Continentino, Maíra Freitas e muito mais.
Carolina Serdeira – O Rafa, além de ser um profissional maravilhoso, um prodígio, como você mesmo disse, é também o amor da minha vida. Poder fazer esse disco com ele me trouxe uma confiança e uma serenidade que ainda não tinha vivenciado enquanto artista. Nós sonhamos e criamos esse álbum juntos, esse disco também é dele. E ele teve o cuidado e atenção com cada detalhe, cada arranjo, pra que absolutamente tudo contasse a minha história, pra que tudo fosse do meu jeito, feito pra mim. Eu sou muito grata por estar construindo coisas tão bonitas com ele, esse álbum é só o primeiro da nossa caminhada juntos.
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Jasper Okan, vocalista das bandas Funmilayo Afrobeat Orquestra e Jasper e a Gana, lança um single duplo com as faixas “Calêndula” e “Febril”, inaugurando uma nova fase em sua carreira que mescla música e dança, o que poderá ser visto, no domingo (1), às 18h, com o lançamento do clipe de “Calêndula” no canal do artista. “Esse projeto é um recomeço. Um movimento de fazer as pazes com o sentimentalismo e criar um espaço para o corpo-poesia, onde a palavra cantada e o gesto se encontram”, diz o artista. “Calêndula” foi escrita em 2024 e recriada no ano seguinte com o produtor Niki Roki, com camadas de bateria, guitarras e coros gravados por Jasper, resultando em um R&B denso, imersivo e sensual. “Febril” segue o estilo intenso e confessional da faixa-irmã, mas aborda outros aspectos do desejo.
Após o lançamento dos singles “Sabiá Sabiá”, num feat. com Tiê e “Quebra-Mundo”, composta em parceria com a sextante Luiza Brina, o mineiro Siso se aproxima de seu novo disco de estúdio, “Ferro e Fogo”, que chega dia 4 de março, com a faixa “O Tombo”, de pegada indie-pop e marcada por órgão, bateria, corais e um videoclipe dirigido por Tatyana Schardong. A resiliência é o tema principal “d’O Tombo”, dialogando não apenas como um sentimento intrínseco à vida de quem se dispõe a fazer arte de modo independente, mas, neste caso específico, ao legado deixado por Evaristo, avô de Siso. “A principal inspiração da letra é uma história real, porém de tom quase mitológico dentro da minha família, que é do meu avô Evaristo. Quando jovem, no interior da Paraíba, ele levou um tombo no meio da mata e perdeu a memória por sete anos”, comenta Siso, que pôde conviver com o avô por poucos anos – ele faleceu na década de 90. O mais curioso dessa história é que Evaristo levou outro tombo acidental após os sete anos em que ficou desmemoriado e, depois disso, recobrou a memória. No videoclipe, ele faz uma caminhada peregrina pelo Centro do Rio, carregando um cesto de maçãs, simbolizando tanto o peso do conhecimento quanto o dos pecados. No clipe, aparece uma obra do artista Marcio de Carvalho, uma inscrição de “tentação” ao lado do antigo hotel Glória, dentro do projeto “Tinha uma palavra no meu caminho”, do qual eu falei aqui.
Mutantemaníaco que sou, há muito que tenho idolatria pela versão da banda para “Chão de estrelas”, que parece imitar os efeitos sonoros de desenhos animados, como se fosse um episódio de “Tom & Jerry”, na versão para o grande sucesso de Sílvio Caldas, da era da rádio nacional. Pois a canção acaba de ganhar uma nova versão pela artista portuguesa Rita Braga, em dueto com JP Simões, segundo single de “Fado Tropical”, novo álbum de fados previsto para março, reverenciando a música brasileira. Rita Braga parte da teoria, cada vez mais debatida, de que o fado nasceu no Brasil, chegando posteriormente à Lisboa, transformado. A autêntica versão é sucessora de “Fado Tango”, com letra de Fernando Teles e música de Joaquim Campos da Silva, outro sucesso de Sílvio Caldas, composto em 1937. Ainda que não seja tratada como um fado, “Chão de Estrelas”, marcada pelo dramatismo e a melancolia, carrega uma forte conexão com a música portuguesa. A faixa conta com belo acompanhamento de Ryoko Imai na marimba e de Bruna Moura no violoncelo, que se juntam ao ukulele de Rita. A faixa chega ainda acompanhada por videoclipe, concebido por Rita Braga, que recorre a animações produzidas para brinquedos ópticos do século XIX, os primórdios da animação, em diálogo com o poema de Orestes Barbosa, autor da letra.
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