Sexta Sei: Bemti está mais solar e flertando com a música eletrônica em “Adeus Atlântico”, seu terceiro álbum, um manifesto pela arte feita por seres humanos

Ele volta a fazer experimentações com pedais de drive e distorção com a viola caipira, e passa a usar, nos shows, uma Viola-Guitarra, que é um híbrido de Viola Caipira e Guitarra Les Paul feito sob encomenda

por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com

Todas as fotos por João Terezani

Depois de um papo bacana no ano dois aqui da página sobre seu segundo álbum, “Logo ali” (2021), Bemti, mineiro de Serra da Saudade que vive em São Paulo e completa 36 anos no próximo dia 28, volta à Sexta Sei mais solar, vibrante e pop, flertando com pedais e distorções na sua viola caipira e samples nas canções do belo álbum “Adeus Atlântico”, composto por um artista que flanou por Portugal, Inglaterra, Rio e Bahia. “As mudanças mais significativas do “Adeus Atlântico” estão no fato de ser um disco objetivamente mais “pra cima” do que os outros dois, e eu me aventurando por gêneros inéditos pra mim, como house, rap, disco, ou o uso de samples… Mas tudo isso dentro do meu registro geral de música Indie Pop/Alternativa e sempre com a Viola Caipira como instrumento base”, conta, em papo por e-mail. O álbum, com participações de Haroldo Bontempo, FBC, Marissol Mwaba (Brasil/Congo), Alex D’Alva, Fyfe Dangerfield e THU, é um manifesto pela arte feita por seres humanos. “Acho que foi natural pra mim pensar a junção de tanta gente e referências no disco como um “manifesto” pela arte feita por seres humanos. Nenhuma IA conseguiria (pelo menos hoje em dia) fazer algo próximo a “Melhor de Três”, “Lua em Libra” e “Euforia” em questão de complexidade de subtextos e significados”, completa o artista.

A capa de "Adeus, Atlântico"

Moreira – Muito interessante como você transformou a sua música sem perder a sua essência, extremamente ligada ao violão caipira, que aqui aparece com pedais de drive e distorção, going indie. Como veio esse clique de tunar a viola? Como foi soar pop sem largar seu instrumento? É também a sua primeira incursão pelos samples? Muito legal, porque é o mesmo Bemti, mas sendo um novo Bemti.

Bemti – Acho legal a sensação de soar “o mesmo Bemti, mas diferente” porque os outros dois discos já tinham passagens bem pop e músicas onde eu usei drive de guitarra na Viola Caipira (como “A gente combina” do “era dois” e “Se entrega!” do “Logo Ali”). As mudanças mais significativas do “Adeus Atlântico” estão no fato de ser um disco objetivamente mais “pra cima” do que os outros dois, e eu me aventurando por gêneros inéditos pra mim, como house, rap, disco, ou o uso de samples… Mas tudo isso dentro do meu registro geral de música Indie Pop/Alternativa e sempre com a Viola Caipira como instrumento base. Uma grande mudança também vai aparecer no show novo porque nele eu vou tocar uma Viola-Guitarra, que é um híbrido de Viola Caipira e Guitarra Les Paul feito sob encomenda que talvez seja o único instrumento com essa combinação no mundo! Vou conseguir transmitir ao vivo com mais fidelidade o que eu já faço nos discos.

Moreira – Esse álbum foi feito com você viajando por Portugal, Inglaterra, Rio e Bahia. Como cada território entra como influência? Tem traços da música de raíz mineira, elementos do indie pop e experimentação com estilos musicais como amapiano (África do Sul) e ziglibithy (Costa do Marfim). O que você estava ouvindo enquanto fazia esse álbum que o influenciou?

Bemti – Não tem como separar os territórios, porque o disco vem, justamente, desse caldeirão. Cada música tem peças de vários lugares e pessoas diferentes. Eu tenho o costume de escutar muita música nova (não à toa fiquei mais de cinco anos escrevendo em sites de música lá nos anos 2010…) e, pra você ter uma ideia, a playlist de influências do “Logo Ali” tem mais de cinco horas! Em breve vou divulgar a playlist do “Adeus Atlântico”, mas, no geral, o disco foi muito influenciado por todas essas novidades de música alternativa que eu ouvi nos últimos anos, os clássicos Indie dos anos 2000 que nunca me abandonam, e com tudo que eu descobri nessas viagens (obrigado, Shazam!).

Moreira – Achei muito legal o seu encontro com o boa-praça e talentoso Haroldo Bontempo em “Quase Sertão”. Recebi uma sugestão de uma faixa dele com João Donato, já in memoriam, e passamos a conversar, nos tornamos amigos virtuais, o “que me dá igual”, rs. Soube que seríamos amigos desde quando o vi com uma T-shirt do Glue Trip, que eu também adoro. Fale dos outros encontros e trocas desse álbum, com o padrin FBC, Marissol Mwaba (Brasil/Congo), fortalecendo e explorando a lusofonia, um dos temas da última Sexta Sei, Alex D’Alva, Fyfe Dangerfield e THU?

Bemti – Pra esse disco, eu tinha uma preocupação de que as participações especiais adicionassem camadas ao conceito do disco de “Minas e o mundo” ,”Origens da Viola Caipira e o Atlântico”, etc. Então, mais do que serem artistas incríveis, eu chamei pessoas que contam uma história simplesmente estando no disco. Como é o caso da “Lua em Libra”: a Marissol Mwaba foi a primeira pessoa que eu chamei pra essa música. Ela é Brasileira, filha de Congoleses e mora em Paris onde estuda Astrofísica. Na “Só pra ter você” por exemplo, o beat é uma mistura de Congado e Amapiano (da África do Sul) que eu comecei a ouvir bastante depois de conhecer a Chelsea Dinorath (uma artista angolana incrível), em Lisboa, numa sessão de composição com a Ana Vilela! Eu comecei a escrever a música no Rio de Janeiro e o arranjo de Viola Caipira me levou pra um lugar de Indie Folk e Shoegaze… Chamei a Thuany Parente (Thu) que é carioca pra fazer os vocais de apoio e desde o começo eu tinha na cabeça o verso em inglês que se repete na música. Convidei pra cantar esse verso o britânico Fyfe Dangerfield, vocalista do Guillemots que é uma das minhas bandas favoritas da vida (de quem até o Paul McCartney é fã). Ele se empolgou, gravou 41 faixas de harmonia vocal, guitarra e piano! Cada música do disco tem uma “cartografia” muito própria e complexa, e as participações são parte essencial disso.

Moreira – Achei muito interessante você avisar, na comunicação, que o disco é também um manifesto contra o uso da IA na criação de música. A ideia é soar mais humano possível? Como você trabalhou com essa ideia no álbum? Chamando muito músico bom para participar?

Bemti – Sinto que rola um desânimo geral na classe artística quando vemos notícias como um cantor que não existe “assinando” contrato milionário, IAs copiando em segundos trabalhos que demoram anos pra serem feitos… Acho que foi natural pra mim pensar a junção de tanta gente e referências no disco como um “manifesto” pela arte feita por seres humanos. Nenhuma IA conseguiria (pelo menos hoje em dia) fazer algo próximo a “Melhor de Três”, “Lua em Libra”, “Euforia” em questão de complexidade de subtextos e significados. Acho que a IA “veio pra ficar”, ao contrário, por exemplo, das NFTs (Token não fungível), que foram o assunto principal de todas as conferências de música que eu participei por uns três anos até o assunto sumir e todo mundo fingir que nunca falou sobre. O desafio vai ser entender como ela veio pra ficar e potencializar as conexões e reações que são humanas no meio disso tudo.

Moreira – Amei “Metal”, o momento mais experimental do disco. Tem algumas brincadeiras que referenciam bandas de metal gótico que você escuta? E conta como ela forma uma tradição ou trilogia com “Tango”, do álbum de estreia, “Era dois”, e “Samba!”, de “Logo ali”.

Bemti – Pois é, acabou virando uma tradição isso de ter uma música por disco com o nome de um gênero musical. Em nenhuma das três músicas (“Tango”, “Samba!” e “Metal”), esse sentido é 100% atrelado ao gênero, tem muito de subtexto nessas músicas que vem do que o substantivo ou verbo traz além do gênero, e a “Metal” é um belo exemplo disso. Fiz uma enquete uns meses atrás perguntando qual seria a música “com nome de gênero” desse disco e ninguém acertou que era “Metal” e tenho certeza que ninguém acertaria também qual já é a do próximo disco. Eu escutava muito metal gótico na adolescência e inclusive já tive uma “banda” muito amadora desse gênero na época. Eu ainda escuto e amo bandas como The Gathering, mas, no final das contas, acho que a maior influência de “Metal” é Radiohead e Milton Nascimento (que eu cito indiretamente na letra). Além das referências ao gênero Metal e de ser uma música sobre o que tem de mineiro nas suas veias quando você vira estrangeiro, também tem uma camada a mais por eu ter me formado como técnico em Mineração pelo Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET) no ensino médio, e ter trabalhado seis meses na mina de nióbio do Walter Salles antes de começar Audiovisual na Universidade de São Paulo (USP).

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RoB Love em fotos de Jorge Bispo

Desde a criação da página que curto acompanhar o reggae da cantora e compositora recifense RoB Love, que lança o belo álbum “Magik”, com produção dos craques Kassin e Mario Caldato Jr, o segundo de sua discografia. Com canções em inglês e português, ela cria uma linguagem própria que convida os ouvintes para dentro de um universo magicamente amoroso. Inspirada em um sonho ruim de sua filha Filipa, 11 anos, com homens com cabeça de águia, em uma espécie de “momento Morfeu”, a artista subverteu a sensação na libertária letra de “High and free” (“High is not enough for me/I wanna be high and free”), sua voz flutuando num elegante tapete de efeitos dub. “Gosto de muita coisa, mas é no reggae que me sinto  mais confortável, é onde encontrei minha voz, é onde me sinto coerente”, explica, sobre o ritmo que conheceu mais de perto quando foi estudar Design em Pasadena, na Califórnia, onde ficou por quatro anos

“Vi Burning Spear, Gregory Isaacs e The Abyssinians, entre outros. E aquilo tudo de alguma forma tomou conta de mim”. O álbum  traz a atmosfera do lovers rock (o reggae romântico, surgido na Inglaterra) combinada com momentos mais incisivos, como “Soldier” (“I want bright music for dark times/Cause love is the only way I can fight”) e a própria “High and free” (“The cage you raise today will lock you up tomorrow”). O álbum tem participações luxuosas de Jonathan Ferr, King Saints, Dora Sanches, Mariana Volker e Gabriel Moura, entre outros.

O frevo, patrimônio da humanidade, une-se ao indie rock pelas mãos da banda pernambucana Sonika, que acaba de lançar “Recife”, single que reflete sobre memória, cidade e movimento e chega, acompanhada de videoclipe dirigido por Edu Nogueira que passeia por paisagens de “O agente secreto”,  antecipando o novo álbum da banda, “Colateral”A canção nasce da relação afetiva construída ao longo da adolescência na capital pernambucana, em meio à efervescência cultural da manguetown, transformando experiências pessoais em paisagem sonora. Musicalmente, “Recife” se inicia como um frevo-canção, escorre para o indie rock e retorna a um frevo de rua mais rasgado, onde a metaleira assume o protagonismo e dita o ritmo. A faixa explora novos timbres e dialoga com referências como Arctic Monkeys e Tagore. Os metais contam com músicos da Banda Sinfônica do Recife, reforçando o elo da banda com a cidade e sua tradição musical. A banda é formada por  Rafael Giordani (vocal e guitarra), Diogo Velho-Barreto (guitarra), Peu Lima (bateria) e o recém-chegado Edu Nogueira (baixo).

Abrindo a temporada do cinema brasileiro, lá vem ela, a Mostra Tiradentes, com o filme "Tiradentes", de Otavio di Toledo
"O Agente Secreto", direção Kleber Mendonça Filho com Wagner Moura
"Querido Mundo", direção de Miguel Falabella, com Eduardo Moscovis e Malu Galli
"Pequenas Criaturas", direção Anne Pinheiro Guimarães e atriz Carolina Dieckmann. Foto: Pablo Baião e Fabrício Tolentino.
"Amante Dificil", de Joao Pedro Faro. Foto: Bruno Pires
A edição homenageia a atriz, roteirista e diretora Karine Teles

A 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes abre o calendário audiovisual brasileiro de 23 a 31 de janeiro com programação inteiramente gratuita.  O evento vai reunir 137 filmes em pré-estreia, de 23 estados, distribuídos em mostras temáticas e competitivas. Com o tema “Soberania Imaginativa”, a Mostra propõe um olhar sobre a invenção como gesto central do cinema nacional hoje, valorizando a autonomia criativa e a diversidade de vozes e territórios. A edição homenageia a atriz, roteirista e diretora Karine Teles, traz sessões especiais, como a abertura com um filme inédito de Julio Bressane, e fortalece o diálogo entre cinema, pensamento crítico, formação e mercado, com seminários, fóruns e atividades do Brasil CineMundi. O festival também é conhecido pela fervida agenda festiva e cultural, com Nath Rodrigues (23), a sextante Luiza Lian (24), Beth Leivas e Danuza Menezes (25), Hiran (27), Baile da Bôta (28), Regina Souza (29), Jéssica Gaspar (30) e Aninha Felipe (31).

O agendão das maravilhas segue nos destaques do meu Instagram, separado por cidades, e em thread infinita no X.

Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta. Todas as playlists de 2025, 2024, 2023 2022, 2021 e 2020 nos links

Para melhores resultados, assista na smart TV à playlist de clipes com Os Gilsons + Caetano Veloso + Tom Veloso + Moreno Veloso, Gorillaz + Orange County + Tony Allen + Bizarrap, Kara Jackson + Anoushka Shankar, Sleaford Mods, Cavetown, Static Dress, Mitski, Madison Beer, Protoje + Damian Marley, Burna Boy, Márcia Castro, Mariana Nolasco, Marília Mendonça, Álvaro Lancelotti, Takako Takasamba, Jagwar Twin, Kako, Pryanka, A$ap Rocky, Omah Lay, Johnny Hooker, Luis Fonsi + Feid, Miles Kane, Sobs & Shawlin + Peunubeat, Chet Faker e Gilsons + Narcizinho

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