O minimal teco de Donizette

No escuro das almas, na boca do lixo, eis que ressurge, Donizette: o brilho da pandemia ressuscitada no bairro do Bonfim, Juiz de Fora, Minas Gerais, Brazyl.

Boneca assassina, assassinada, mc perigótica. Donizette depois de morta (com seus olhos arrancados para uma macumba num teatro em São Paulo) não quer falar de sua vida, tem sede de vingança e mania de sucesso. Traz em seu álbum de estréia Bala de Fuzil, o melhor do minimal teco.

Quem é Donizette?
Donizette foi achada nas ruas do centro de São Paulo e adotada por uma companhia de teatro, onde residiu por alguns anos. Por sua aparência hostil ganhou fama de boneca assassina, antes de ter seus olhos arrancados para um ritual de candomblé, e jogada novamente às ruas. Assassinada, ressuscita agora em Juiz de Fora, como dj e mc, no bairro do Bonfim, uma mistura de Chucky com mc Xuxu. 

Que  aparência hostil é essa? Aliás, de onde vem tanta hostilidade?
A cara dela rabiscada, todos detestavam e achavam que era um vudu, que trazia energia ruim pro teatro. 

Fale sobre o estilo “minimal teco”
A versão brasileira udigrudi psicotropicamente alterada do minimal techno. Outras influências musicais são The Residents, Nicolas Jaar, Boris Brejcha, Fjaak, Marilyn Manson.

Quais as temáticas do disco?
Morte, morte e morte. Mas o tema morte não quer dizer apenas coisas ruins. Donizette discute a eternidade em Mancha, encara a morte de peito aberto em Bala de Fuzil, questiona os pecados em Erros.

Nos conte sobre as técnicas usadas na produção das músicas.
Tudo feito em casa, de madrugada, durante dois meses invernais, com um computador travado. A última música, Bonecas Assassinadas, que tem seis minutos e doze pistas de teclado parava de seis em seis segundos porque o computador não aguentava. Foi usado aplicativo de celular pros beats (drum pad machine) e um teclado.

Seu disco saiu pela NCSSR, nos fale sobre essa parceria.
Donizette está terrivelmente agradecida por ser acolhida, pela segunda vez, pelos anti-empresários do underground.

Donizette tem esse passado ligado ao teatro, podemos esperar performances arrebatadoras depois da pandemia?
Não. Donizette ficava na cabine técnica e era repudiada pelos atores. com isso adquiriu uma ojeriza aos performers. Ela só quer gravar sua música na obscuridade.

Que obsessão é essa pela morte? Já viu ela de frente? Viu o doutro lado? 
Ela já morreu, está morta.

E sobre o homicídio?
A última faixa do disco Começa com a voz de um dono de bar (que vou preservar o anonimato por questões de segurança) em uma discussão política com Donizette, em que acaba expulsando ela do bar, não antes de a ter acusado de fazer parte do grupo “Manuela dedo no cu”. Um tempo depois o dono do bar foi encontrado morto, alguns dizem que foi covid, outros um olhar de espanto.

Qual formação musical da donizette? Ja teve outros projetos?
Autodidata, Stevie Wonder blind feelings e nenhum projeto anterior.

O que Donizzete viu antes de ter os olhos arrancados? 
Uma mão cheia de  fitinhas do senhor do Bonfim da Bahia, pouco antes de  chegar em Juiz de Fora junto com a primavera 🌹

Faixa a faixa

Donizette 
Ponto de chegada. Donizette ainda está desorientada. Só quer sua vingança. Acabou de chegar do além e não quer voltar pra lá. Está cega de raiva e louca de tesão. Quer aproveitar o pós vida de boneca.

Erros
Não julgue os outros. Sua hora de errar vai chegar. Donizette aprendeu morrendo que aqueles o chamavam de assassina foram aqueles que a mataram. Geralmente as pessoas apontam os erros que reconhecem em si.

Ruim
Donizette agora quer ser ruim e ela mesma decidiu. As bonecas são o que elas quiserem. Assim como a sociedade. E ninguém mais vai decidir por ela.

Mancha
As coisas profundas ficam gravadas na eternidade. Como o assassinato de Donizette, gerou uma “Mancha transversal rasgando a eternidade”. Essa música foi baseada no demônio valak da franquia A freira.

Bala de Fuzil
Um passeio na rua de madrugada, um policial bandido, um tiroteio scarface. Mas não acaba aí. A festa aqui nunca acaba! O flipper nos joga por ar! Tem pandemia pra todo mundo! E a bala de fuzil aqui embaixo custa baratinho.

Bonecas Assassinas
O início do Lado b do disco: o mundo morre o mundo quer morrer. Nós bonecas viemos te matar. E o som da Cascavel. Minimal teco experimental

Anarquia
Nosso país teve a anarquia inaugurada pela extrema direita. Um país sem direção levado ao caos no meio da pandemia. O povo por si só com máscara na cara e álcool em gel na mão.

Estala
No estúdio que Donizette gravou começaram a acontecer manifestações estranhas sonoras. Estalos. Essa música fala sobre isso.

Problema 
A balada do disco, uma análise do desejo, do mal, dos problemas da vida.

Bonecas Assassinadas
Quem são esses que matam? Quem são os que devem morrer? “Vocês nos mataram. Nós nos assassinaram. Nós vamos te matar. Criar uma fórmula suave” O darkside of donizette, progteco, a faixa que levou um mês e meio, trabalhada de seis em seis segundos e levou a  morte do sujeito que fala no início dela. Questiona a vida e a morte. O ciclo se fecha. DONIZETTE está em paz.

Acompanhe

DONIZETTE NO SPOTIFY NCSSR RECS

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