Sexta Sei: Forçado a não pertencer, Cavallari ocupa espaços com arte, música e estrela

Vocalista do grupo Djavanear, rapper formando o novo grupo Boca da Esquina com Muxima e Tairec e compositor de trilha de teatro para a Trupe Qualquer concorrendo a prêmio é nome para se prestar atenção

por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com

Cavallari em cena em "Café com Leite" em foto de Marcella Calixto

Desde quando assisti ao jovem cantor, rapper e compositor Cavallari, 24 anos, no especial de TV Agora na Ágora, gravado na Praça Central da UFJF, que eu sabia que precisava fazer uma página com ele, quando aproveitou aquele espaço no sistema para fazer crítica social da vizinhança da UFJF com o Dom Bosco, aonde nasceu. Escorregadio, como costumam ser os artistas juiz-foranos, o moço me deu umas voltas e, quatro meses depois, já com o lançamento de “Cambaleou” na rua, sua faixa com os parceiros Muxima e Tairec, ponta de lança de um novo grupo, o Boca da Esquina, consegui laçar o touro. A espera valeu a pena para este papo franco, anticapitalista, cultural, político e militante com uma das grandes promessas da cena local. O cara tem estrela, sabe? Além de rapper, é vocalista da banda Djavanear e compositor de trilha musical para teatro, como a de “Café com leite”, para a Trupe Qualquer, que lembra Barbatuques e está concorrendo a prêmio de melhores canções originais no Prêmio Centro Brasileiro de Teatro para a Infância e a Juventude (CBTIJ). E também tem muito a dizer. “Nascido no Dom Bosco, meu entendimento era que nada nunca foi nosso mesmo, então, quem escolhe o que vai ter e o que não vai é o outro, era simples. O bairro é cercado pelas três instituições mais poderosas da cidade: a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o Independência Shopping e o Hospital Monte Sinai, e a gente vem cada vez mais sendo empurrado e escondido da paisagem da cidade, quase que forçados a não pertencer”, retruca, que não vai apanhar quieto. Conversamos sobre a sua família cheia de integrantes de orquestras, a infância erudita na escola Pró-Música na época gloriosa da Dona Isabel, o canto aprendido em coral de igreja e outros elementos formativos do artista. “Teatro é o lugar que eu posso ser quem eu quiser até mesmo na música. E, como um jovem que abandonou o erudito, ou o que chamamos de música convencional, cedo por conta de ser só mais um muleke do Chapadão ouvindo funk e rap e sonhando em ser jogador de futebol, hoje isso me permite visitar a magia da minha infância com um pouco da realidade cruel de hoje”, filosofa. 

Moreira – Fui tocado pelo ao vivo que você gravou no programa Agora na Ágora, da UFJF, tanto pela poesia da sua música quanto pela sua fala sobre ser estudante de música da UFJF e de, antes disso, ter se sentido à margem da instituição, mesmo morando ao lado, no Dom Bosco. Foi um ato de coragem. O bairro é de população majoritariamente negra, aonde, talvez, tenhamos o maior caso de racismo ambiental na ocupação da cidade, graças ao processo de segregação socioespacial, que levou a comunidade negra aos locais de maior risco, segundo tese de mestrado em Geografia de Gabriel Lima Monteiro apresentada na UFJF. Espremido entre tantos bairros nobres, a vida parece mais dura na “Serrinha”, como minha avó chamava o bairro.

Cavallari – Um dos maiores baques como morador da Serrinha, vulgo Chapadão, vulgo Dom Bosco foi a chegada do Independência Shopping, que trouxe junto com ele o fim da Curva do Lacet. O futebol sempre foi o motivo pelo qual valia viver o dia a dia para, no fim de semana, tomar cerveja e jogar bola em um lugar de fácil acesso pro bairro. E, como eu era muito novo, não entendia muito bem o porquê de acabar o campo, nascido no Dom Bosco, meu entendimento era que nada nunca foi nosso mesmo, então quem escolhe o que vai ter e o que não vai é o outro, era simples. O bairro é cercado pelas 3 instituições mais poderosas da cidade: A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o Independência Shopping e o Hospital Monte Sinai, e a gente vem cada vez mais sendo empurrado e escondido da paisagem da cidade, quase que forçados a não pertencer. Mas é inevitável, porque o conflito faz o pertencimento, a gente sabe quem é da nossa gente, isso sempre nos fortaleceu enquanto comunidade, e é isso que faz do Dom Bosco ser o que é. Resistência. Imprimi num verso que “O peso deságua na minha pele, meus traços, meus olhos, mas também é isso que me faz ser grande”, esse é o Dom Bosco pra mim.

Moreira – Na sequência, veio logo “Cambaleou”, o que tornou essa entrevista ainda mais urgente. A faixa é uma parceria com os rappers Muxima e Tairec e ponta de lança de um álbum prometido para este ano. É um álbum coletivo? O que podemos esperar? Achei interessante como é bem costurado o encontro do rap com o samba, algo que já vem sendo feito na pesquisa musical do Marcelo D2 e me parece um bom futuro já presente. Para você, o que estes universos têm em comum? Como foi a escolha das locações, a Feira de domingo da Avenida Brasil e o Bar do Zezinho?

Cavallari – Sinceramente, “Cambaleou” foi um acaso, a proposta surgiu do Tairec, construímos, juntos, 80% da faixa, e Muxima veio pra completar essa obra de forma magistral. E, já emendando falando sobre o álbum, essa é uma faixa de um projeto que vem pra ficar sim chamado Boca da Esquina. Há dois anos, Tairec me provocou e me chamou para participar de seu álbum ainda não lançado, “Brasis”. Desde então, a parceria fluiu e, por meio da sensibilidade e do caráter dele como pessoa e artista, que compartilha tudo por direto, “Brasis” é um trabalho que fez surgir “Cambaleou”, mas a faixa não faz parte da obra. Porém, uma coisa bebe da outra. A previsão de lançamento de “Brasis” é em novembro, e por ser um álbum no qual tanto eu quanto Muxima participamos, é um dos trabalhos do Tairec junto ao Boca da Esquina

Fotos: Bernardo Traad

Moreira – Você começou a estudar violino aos cinco anos de idade, no Pró-Musica roots, da Dona Maria Isabel S. Santos, e participou de orquestras mirins. Eu cheguei a trabalhar alguns anos na comunicação do Festival de Música Colonial e Música Antiga, que transformava a cidade com os instrumentos barrocos, a gente via estudantes carregando suas cases pelas ruas, algo que parece que, hoje, se perdeu. Na sua casa, são seis instrumentistas, com sua tia no violino e na flauta, sua mãe no violoncelo e no violão e outros quatro tios, todos com experiências de orquestra. Essas influências mais eruditas aparecem no seu último álbum quase 100% instrumental, “Café com leite”, que lembra até Barbatuques? E quando você decidiu abandonar a música erudita pelo rap e como você acha que uma coisa influencia a outra?

Cavallari – O festival foi, realmente, um divisor de águas na minha vida. Lembro de sair cedo de casa nas férias pra encarar algo que me remetia quase a uma escola de magia mesmo. Respirar música o dia todo era completamente fora da minha realidade. “Café com leite” é, na verdade, um resgate criativo de infância mesmo, então é exatamente esse o lugar! Porém, “Café com leite” é uma trilha sonora de um espetáculo do mesmo nome que foi o que me renasceu pro teatro após a pandemia e alguns tropeços. Essa sonoridade tem total influência do diretor da Trupe Qualquer, trupe qual eu sou ator e compositor, Rafael Coutinho. Dramaturgo, professor e grande amigo. A sonoridade precisava ser didática (algo que ouvi Rafa repetir algumas vezes durante o processo criativo), e acho que concordamos que Barbatuques é exatamente o didático mais criativo em termos de música, e hoje como professor de educação musical infantil é uma grande referência sim. Interessante dizer que essa canção “Café com leite” rendeu a trupe uma indicação através do meu nome ao maior prêmio de teatro para infâncias do Brasil prêmio CBTIJ. Teatro é o lugar que eu posso ser quem eu quiser até mesmo na música. E, como um jovem que abandonou o erudito, ou o que chamamos de música convencional, cedo por conta de ser só mais um muleke do Chapadão ouvindo funk e rap e sonhando em ser jogador de futebol, hoje isso me permite visitar a magia da minha infância com um pouco da realidade cruel de hoje.

Autorretrato

Moreira – Você começou a cantar “por força da família do meu pai” te obrigar a frequentar a igreja, aonde descobriu a vocação para o canto. Como foi essa descoberta? Achei interessante quando me contou da sua fascinação quanto às Folia de Reis, algo tão nosso aqui na Zona da Mata. O que te fascina nessa tradição? Aos 15 anos, você começou a participar de festivais de composição, entrou para uma banda que interpreta Djavan, a Djavanear, como tem sido essa trajetória na música, com dois álbuns lançados?

Cavallari – Igreja é padrão na vida de brasileiro, e como a família do meu pai sempre foi tão rígida quanto a isso, acho que cantar, que já era algo do meu cotidiano, foi uma forma de lidar com algo empurrado goela abaixo e achar ali um refúgio. Por isso digo que a igreja me ajudou bastante. Quanto à Folia de Reis, o meu fascínio vem com o medo da infância também. Ao mesmo tempo que admirei o mistério por trás da bandeira, e a confecção das máscaras e fardas do palhaço, mas tem alguma coisa no tambor, vulgo caixa do divino, que me toca num lugar espiritual também. A folia sempre foi tradição no bairro, então, pra mim, Natal e Folia de Reis andam juntas, espero o ano todo pra saber como estarão as folias dessa temporada, e trago isso nos versos de rap e nas batidas de samba sempre que possível. Eu, sinceramente, acho que hoje sou outro artista. “Café com leite”, por mais que, como um álbum nas plataformas, não é bem a sonoridade que quero explorar como músico e rapper. O Djavanear foi um impulsionador que me deu visibilidade para a cidade, mas me vejo num momento de trazer todas essas experiências à tona. Ainda tenho muito o que dizer, muito o que cantar, e muito canto de Juiz de Fora pra tocar também. Então, me vejo ainda no matagal com o facão na mão tentando vencer e convencer Juiz de Fora.

Fotos: Ygor Ventura

Moreira – Você também atua na área de teatro, arte que conheceu por meio do Programa Gente em Primeiro Lugar, que parece ser uma janela para a juventude. Hoje, você integra a Trupe Qualquer, que está concorrendo em duas categorias no Prêmio Centro Brasileiro de Teatro para a Infância e a Juventude (CBTIJ). Uma das categorias é a de melhores canções originais do espetáculo “Café com leite”. Compor para teatro é diferente?

Cavallari – Compor para teatro, como disse, é sim, diferente. O teatro é uma arte grande, espalhafatosa, exagerada. E a música, na minha opinião, acompanha e rege a cena. É confuso, mas é exatamente isso. Diferente dos musicais, que são ensaiados até o fiapo de cabelo, no teatro, a trilha sonora precisa ser simples, para que a sua complexidade se integre à cena. Ritmo é o caminho do teatro e, quando se entende isso, o caminho fica aberto. Pelo menos, para mim, funciona, é saber bem que história você vai contar, acompanhar e traduzir a dramaturgia em sons.

🌊🪼🫧🐚𓆝𓆟 Como uma onda no mar 𓆞𓆝𓆟𓇼🪼🫧🐚🫧🌊

O boa-praça sextante Renato da Lapa, cantautor, acaba de lançar o álbum “Além do sotaque ao vivo”, desdobramento do EP “Sotaque” (2024), que rendeu papo aqui na página. Na companhia elegante de Pedro Brum (guitarra e voz) e Eduardo Yroxe (percussão), ambos integrantes da banda sextante Tatá Chama e as Inflamáveis, eles produzem boa música mineira contemporânea, inspirados pela força do tambor mineiro, com boa letras e violão esperto. Com produção de Brum e arranjos construídos coletivamente, o material é de imensa qualidade, e mostra a profundidade do trabalho do Renato, que ama as coisas e as sonoridades dessa terra de Minas Gerais. A direção de fotografia e a captação de imagens foi feita pelo também sextante Brunno Esteves, e a direção de arte, cenografia e bela capa são assinadas por Livilds.

Capa de Livilds

O artista brasileiro MONCHMONCH, que sextou aqui falando sobre seu quinto álbum, “MARTEMORTE”, lança novo volume exclusivamente em vinil e no Bandcamp, “dos entulhos loucos cavam sol”, acompanhado de um videoclipe para o single “Batatinha”. Este álbum traz sonoridades nunca antes abordadas em sua obra, mais melancólicas, com violões e camas de sintetizadores, remetendo à bossa nova ou ao folk alternativo, num blend experimental entre Alex G e João Gilberto. MONCHMONCH é um projeto brasileiro de rock experimental movido por um apetite sonoro antropofágico e insaciável. O artista se divide entre Brasil e Portugal desde 2024. As composições inovadoras, performances explosivas e sonoridades disruptivas fabricam um ritual de diversão endiabrada, um manifesto de punk solar, perceptível em seus shows, comumente carregados de moshs e crowdsurfing calorosos, doses voluptuosas de anticapitalismo e cultivo de um ambiente inclusivo e amoroso. 

Fotos por Luli Louzada

Por mais que a gen Z queira acabar com a noite, enquanto houver uma luz stroble ou negra, como a que o novo álbum da dupla berlinense Brutalismus 3000, “Harmony”, acende dentro da gente, haverá o remédio da vida noturna. O duo está reinventando o techno ao fundir o ritmo ao punk. O grupo, formado pela cantora Victoria Vassiliki Daldas e pelo produtor Theo Zeitner, teve o álbum produzido por Zeitner, com coprodução de Boys Noize e Dylan Brady, do 100 gecs, e conta com participações de Anya Taylor-Joy e Underworld. O lançamento tem uma trilogia de clipes, Gore Louvre”, I bring my gun to the function (with Boys Noize)e agora “Testo Skin 1”, todos eles criados em parceria com Mau Morgo (Balenciaga, Rosalía, FKA twigs e Madonna). “Harmony” é um triunfo de mistura de gêneros, reunindo elementos de dubstep, trap, punk, nu metal e techno, em uma jornada eclética repleta de faixas explosivas do início ao fim. Meu techno tá vivo!

B3K por Mau Morgó

O agendão das maravilhas segue nos destaques do meu Instagram, separado por cidades, e em thread infinita no X.

Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta. Todas as playlists de 2025, 2024, 2023 2022, 2021 e 2020 nos links

Para melhores resultados, assista na smart TV à playlist de clipes com Mikky Bianco, The Strokes, Fat Dog, Tove Lo + stromae, Bella Poarch, Muse + Ellie Goulding, Tricky + Mitch Sanders, Jain, Brutalismus 3000, PNAU + Master Peace, Fat Dog, Cobrah + Grimes, Chlöe + Timbaland, Charli xcx, Ibeyi, Alewya, The Rolling Stones, La Roux, Empress Of, FKA Twigs + Lil Yachty, Carly Rae Jepsen, Johnny Hooker, Gabriel Sebastian, Dj Goja + Jason Derulo + Melody, Keiynan Lonsdale, Becky G, Allie X, The Offspring, 1DV + Dj Caique, Kream, V8, Beck + Sierra Ferell, Yavin, Liim, DJ Snake, Cochise, Yemi Alade + Bien, Pedro Miranda + Forró da Gávea, Peggy Gou + Ayra Starr, Snoop Dogg, Mombojó, LP, will.i.am + Lil Mr. E + Toxica, Afrekassia, Cochise, Jorja Smith + Wiz Kid, Zudizilla, Anna Ratto, Ichiko Aoba, Mumford & Sons + Chris 

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