Sexta Sei: A house music é o refúgio da antropologia de Paulete Lindacelva, que une sonoridades de continentes

Ela acaba de lançar o terceiro de uma série de EPs que revela uma produtora de excelência, ponta de lança de uma geração de mulheres trans pernambucanas na música eletrônica, como Dandarona, Idlibra e Boneka

por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com

Fotos: Rafaelly Godoy

Se tem um nome cercado de respeito por seus iguais no mercado de produtores e DJs de música eletrônica brasileiro é o de Paulete Lindacelva, 31 anos, pernambucana que acaba de lançar o terceiro EP de sua boa azeitada e repleta de excelência house music, “Filha de Abya Yala Herdeira de Kemet”, atravessado de referências culturais africanas, indígenas e de outros povos que se relacionam historicamente no território latino-americano. Batemos um papo, por áudios de WhastApp, no qual ela me contou como se amalgamou com a house music. “Acho que eu encontrei ela como refúgio e ela me acolheu como boa mãe”, reflete. Falamos também como a música eletrônica se transformou em uma plataforma para pessoas trans em Recife, de onde despontam nomes como Dandarona, Idlibra e Boneka. “Sim, a música eletrônica tem sido uma plataforma para pessoas trans. Eu acho que o que há de único delas é a presença, é quase um processo de retomada, porque esses corpos sempre estiveram presentes na narrativa que conduz o filme histórico do que é a música eletrônica e a dance music. E eu não acho que há um novo olhar, mas eu acho que há um olhar a partir da perspectiva delas e de figuras que antes talvez fossem muito mais dançantes do que figuras protagonistas, né? E protagonizar isso, com certeza, traz uma camada mais, traz um outro relevo para a coisa”, reflete.

Capa do EP com arte de Renanzeth e foto de Rafaelly Godoy

Moreira – Vivemos nesse tempo de maximalismo musical, quando a nova geração faz uma espécie de culto saudável ao barulho máximo, com nomes como Clementaum, Cyberkills, RaMemes, Chediak, Adame e S4tan. Eu adoro ouvir, mas, pra dançar, me trava um pouco, acho que nada supera a emoção e a elegância de uma boa pista de house music. Como dizia a Fernanda Abreu, “eu vou torcer pela house music”, ou, atualizando, “Tem que ter house”, como diz a faixa no novo e instigante grupo potiguar Taj Ma House. Por que você escolheu o estilo como base do seu trabalho? Ou a house te escolheu?

Paulete Lindacelva – Digamos que é uma sonoridade que me acompanha há algum tempo, seja por eu ser uma pessoa que curte ouvir, mas porque minhas amigas também ouviam e tocavam nas festas. Então, foi uma via de mão dupla. Acho que eu encontrei ela como refúgio e ela me acolheu como boa mãe.

Moreira – Li que você se identifica como uma pessoa trans desde os 15 anos. Recife parece viver um momento de efervescência cultural trans na pista de dança, como a emersão de nomes como os de Dandarona, Idlibra (elogiadíssima pelos amigos da produtora Golarrolê) e Boneka. As cabines de música eletrônica têm sido uma plataforma para pessoas trans no estado? O que elas trazem de único para a produção musical? É um novo olhar?

Paulete Lindacelva – Sim, a música eletrônica tem sido uma plataforma para pessoas trans. Eu acho que o que há de único delas é a presença, é quase um processo de retomada, porque esses corpos sempre estiveram presentes na narrativa que conduz o filme histórico do que a música eletrônica e a dance music. E eu não acho que há um novo olhar, mas eu acho que há um olhar a partir da perspectiva delas e de figuras que antes talvez fossem muito mais dançantes do que figuras protagonistas, né? E protagonizar isso, com certeza, traz uma camada mais, traz um outro relevo para a coisa.

Moreira – O nome do EP, “Filha de Abya Yala Herdeira de Kemet”, já referencia a América dos povos originários, “Abya Yala”, e o antigo Egito, “Kemet”, reafirmando identidades que resistem e continuam a florescer nas Américas, com empréstimos feitos na cumbia, no reggae, que parece viver um momento de evidência agora, com Alice Caymmi regravando o avô pela perspectiva do ritmo, no soul, no samba, no shaabi (música egípcia da classe trabalhadora de perspectiva quase marxista) e no Oyun Havalari (nome de de um álbum lançado em 1975, quando nasci, que mistura música folclórica turca a pop ocidental). É house, mas também é antropologia e busca de raízes. Essa é a busca da sua música? 

Paulete Lindacelva – Eu acho que, talvez, tenha uma coisa de antropologia, mas é uma coisa feita de maneira genuína, sabe? E que é para enaltecer, outra vez trazer à tona, fatos, intrigas, nuances históricas que passam muito despercebidos por pessoas da minha geração, né? E eu sou de um trânsito entre os anos 90 e a galera já dos anos 2000 na pista. Então não sei, eu acho que é uma maneira de talvez compartilhar informações, sabe? Criar desejo de busca, talvez seja um pouco disso, sabe?

Moreira – Você nasceu em Guabiraba, maior bairro de Recife, que dá nome ao seu primeiro EP, “Guabiraba Chicago”, e li que você chegou a viver abaixo da linha da pobreza. Como produtora e DJ, já tocou em países como Japão, Alemanha, Portugal, Turquia, Inglaterra, França, Espanha, Polônia, Kosovo, Holanda, entre outros, passando por clubes renomados como Berghain, Club Manas, Malasaña e Bridge, além de festivais internacionais como Transmusicales, Whole e Garbicz. O que a sua história pode ensinar a outras meninas, meninos e menines das favelas brasileiras?

Paulete Lindacelva – Eu odeio a coisa de servir como referência, sabia? Porque eu acho que isso pode ser muito perigoso, né? Você centraliza muito as coisas num ser, numa pessoa, e eu não falo por mim, específico, eu acho que qualquer pessoa que é dada como isso, porque eu acho que todo mundo é sujeito à contradição, e eu acho que esse é o tempero da humanidade, né? Ser contraditório. Mas eu acho que talvez o que eu compartilharia é o desejo, a força do sonhar, acho que quando a pessoa perde o desejo, o ímpeto do sonho, aí é perigoso, porque eu acho que você não consegue se deslocar para nada, nem para coisas básicas, quanto mais para as coisas que você talvez julgue inalcançáveis, sabe? Então eu acho que sonhar quebra a barreira do inalcançável, tudo se torna alcançável, então eu acho que é importante sonhar.

Moreira – Me conta um pouco mais das participações especiais deste EP, como Renanzeth, em “Jah” e na arte da capa, Vermelho, em “Funk With Me?” e Ana Flávia em “De Balat ao Bósforo”. Como foram acontecendo estes encontros e como se dá essa composição em duplas? Em tempo digitais, é tudo virtual? E, agora, finda esta bela trilogia de EPs, o público pode esperar um álbum? Ou estes pequenos capítulos combinam melhor com seu jeito de contar histórias? Eu vou torcer pela house music.

Paulete Lindacelva – Então, as participações aconteceram de maneira muito genuína, porque são pessoas com quem eu já tenho uma troca intensa, né? O Renan, ele já fez outras capas do meu EP, mas o Renan, ele tem uma relação, por exemplo, com o reggae. Não só porque ele gosta, porque ele frequentava os reggae lá de Guarulhos, mas porque ele também produzia capas para bandas de reggae, da Mato Seco e tal. E aí eu queria fazer algo com ele, não só na capa, mas nos vocais, porque eu sabia que ele já tinha produzido, inclusive, um EP de reggae e tal, que nunca lançou, mas que é icônico. O Vermelho, por conta das nossas trocas nas pistas, né? E a Ana Flávia é uma amiga, uma grande amiga também de DJ. Que era daqui de São Paulo, é de São Paulo, mas vive em Istambul. E a gente já viveu coisas muito incríveis em Istambul, então acho que a gente tinha que eternizar isso de alguma forma. E eu espero que sim, que venha um álbum em breve, ou pelo menos é o meu desejo. Isso, obviamente, exige bastante da gente, mas é isso, por hora, né?  Vambora fazendo, porque Deus disse, faça por onde que eu te ajudarei, né? Então vamos exclamar ao poderoso Jah, ó, louco.

🌊🪼🫧🐚𓆝𓆟 Como uma onda no mar 𓆞𓆝𓆟𓇼🪼🫧🐚🫧🌊

O filho chora, e a mãe vê e avisa quando começa a novela no curta-metragem repleto de energia juvenil de Serena – Ao vivo na sala da casa da Dona Rachel”, gravado pela banda do underground paulista Serena com bom rock´n´roll sem frescuras, porrada e muito barulho, o que se pode chamar de crueza sonora, com influências de nu metal, pop punk e rock dos anos 2000. Costumo não curtir muito audiovisual de música com dramaturgia, mas aqui, bem enxutinho, foi a moldura perfeita para contar a história do som do grupo, formado por Yuri Muller (guitarra e vocais), o filho da Dona Rachel, Renan Tonello (guitarra), Jacques Chiba (bateria) e Alan Fontoura (baixo). Com explosões emocionais, humor ácido e ironia e guitarras densas, eles mostram a identidade do som de banda de rock com aquela cozinha das boas. O quarto é repleto de referências da juventude, como cartazes de animes, skates customizados com adesivos, ilustrações e lambe-lambes urbanos. Gravada com estética crua e intimista, a live session aposta em fotografia escura, iluminação contrastada e câmeras próximas à performance para aproximar o público da energia real da banda. Musicalmente, a session evidencia as principais características do Serena: guitarras densas, ambiências melancólicas e explosões emocionais. 

Yuri Muller na guitarra
Jacques Chiba na bateria
Renan Tonello na guitarra
Alan Fontoura no baixo

A banda segue na trilha do sucesso do álbum “Parque das ilusões” (2024) e do clipe “Perto do fim”, uma sátira ao universo corporativo. A live session tem direção de Vitor Zorzetti, que também assina o roteiro ao lado de Yuri Muller, além da edição e colorização do projeto. As gravações da sessão também darão origem a um EP ao vivo, que será disponibilizado nas plataformas digitais.

Diego Lopes (baixo), Alexandre Móica (guitarra), Lucas Silveira (Fresno), Daniel Mossmann (guitarra), Rafael Malenotti (vocais), Paulo James (bateria)

“Amigo punk”, escute esse meu desabafo: sou completamente apaixonado pelo rock gaúcho, como o da banda elementar Acústicos & Valvulados, que celebra 35 anos de trajetória com a regravação de um clássico de seu repertório, “Milésima canção de amor”, lançado como single de Dia dos Namorados com a participação de Lucas Silveira, da Fresno. Originalmente lançada em 2001, a nova versão ganhou frescor com a expressividade melódica de Lucas e o timbre rasgado do vocalista dos Acústicos & Valvulados, Rafael Malenotti. É o encontro entre o peso cru moldado nos anos 90 e o emo expansivo dos anos 2000 e a música alternativa contemporânea. Na época, a canção foi composta em contraponto às baladas que tocavam incansavelmente nas rádios.

Arte da capa por Janice Alves

A cantora, compositora, produtora, artista independente e roqueira juiz-forana Madhu está trabalhando, em São Paulo, para onde se mudou, em seu EP de estreia, “Monstro”, que teve o primeiro single, homônimo, lançado em março, e agora continua a campanha com “Névoa”, que tem inspiração no universo do terror e da noiva-cadáver. “Meu novo projeto carrega toda minha bagagem emocional e meu lado mais escondido e monstruoso. É um projeto íntimo, catártico e denso”, me conta, nas DMs do Instagram. Acho legal que dá essa quebrada na pieguice de sempre que rola nesse dia dos namorados, hahahaha, e botar os emo pra chorar é bom!”, completa. 

“Escrevi a letra após um término muito doloroso, principalmente porque ainda amava meu companheiro quando nos separamos. Sonhamos muito juntos, pensamos no futuro, até em casamento, e foi a primeira vez em muito tempo quando me abri tanto com alguém. Eu tomei a atitude de encerrar nosso relacionamento porque percebi minha infelicidade estando nele, devido a uma incompatibilidade de vidas entre nós dois. Mas é aquela coisa, é impossível deixar de amar alguém tão rápido. ‘A pior parte de nós é a despedida’, como diz a letra”, completa. O clipe tem roteiro da artista e de Fernanda Gamarano, com edição de Ian Veiga, que ainda participa como ator.

O agendão das maravilhas segue nos destaques do meu Instagram, separado por cidades, e em thread infinita no X.

Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta, com álbuns de Puterrier, Bebe Rehxa, Olivia Rodrigo, Momo Boyd, Kelsey Lu, Ayra Starr, Adame, EP Katy da Voz e as Abusadas. Todas as playlists de 2025, 2024, 2023 2022, 2021 e 2020 nos links

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