Álbum de estreia “Sinal vermelho vidro preto”, produzido pelo paulista Daniel Brita, mostra a contradição Amazônida entre a globalização da pauta e o isolamento geográfico de quem a habita
por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com
Toda vez que me bate um desânimo de continuar a fazer jornalismo em um mundo de stories que “desmancham no ar”, uma semana depois de o MonkeyBuzz chegar ao fim, marcando era do jornalismo de música de certa forma romântico, pois independente, em 13 anos de resistência cultural, eu me deparo com entrevistados que me comprovam que tem entrevistas que ainda devem ser feitas. E de que ainda precisamos de jornalistas para fazê-las. Nesta sexta, estes entrevistados que têm o que dizer Bruno Belchior, 29 anos, Clariana Arruda, 30, e Melka Franco, 37, formam o trio vocal quente, úmido e manaura D´Água Negra, que lança seu álbum de estreia, “Sinal vermelho vidro preto” , um sensual mistura de jazz, soul e texturas eletrônicas. “Sobre a sonoridade autêntica, o D’água Negra sempre se propôs a ser uma banda que traduz a contradição Amazônida entre a globalização da pauta e o isolamento geográfico de quem habita. Nos três carregamos influências do blues, da disco music, do hip hop, do jazz, e ao mesmo tempo ouvimos, durante a adolescência, bandas manauaras como Casa de Caba, Tulipa Negra, Cileno. Somos um pouco desse agrupamento de ritmos, entre o orgânico e o digital, as synths e as violas, e a nossa poética fala muito sobre a experiência desse corpo quente e nortista, das trocas com o outro, com o espelho, e com o mundo”, me conta Clariana Arruda. Sobre os temas passionais, quem explica é o também psicanalista Bruno Belchior. “A gente passa mais da metade do álbum num embate psíquico com o outro. O outro, digo, alteridade. É falta, é raiva, é escândalo, é escárnio, é estrago….. e nessa neurose toda que a gente tá expondo ali tem algo de muito erótico nela, a linha entre aquilo que é repetição e produz pulsão de morte tá muito próxima daquela que movimenta libido, desejo e abre caminhos para novos movimentos. O álbum tá nesse (não) lugar que fica bem no meio disso tudo, na liminaridade. E eu, pessoalmente, acredito que tocar nesses temas embalados por nossas vozes roucas junto aos arranjos melados dos nossos instrumentos, pode ser uma experiência bem transante”. O melhor da entrevista é o pequeno guia para entender a cena manaura, com que nos presenteia Melka Franco, que aponta o afrobeat romântico de Karen Francis; o rap de Victor Xamã, a mistura de mpb/reggae/pop de Elisa Maia, o rap de mulher negra periférica de Rafa Militão, o rap afroameríndio de Kurt Sutil; o novo projeto da Luli Braga, o quarteto Delírio Cabana; o pop delicioso da Anne Jezini; uma Póvoas; e a boa música popular amazonense do Marcelo Nakamura.
Moreira – Como vocês se conheceram e formaram a banda? Foi durante a pandemia, né, a Sexta Sei também é filha do isolamento social. Vocês são um grupo vocal, essencialmente, né, como montaram a banda para gravar o álbum? Eu adoro grupos vocais. Tá uma bela pedrada de estreia.
Bruno Belchior (voz) – Eu e Clariana somos amigos desde o ensino médio, quando ela começou a aprender a produzir beats no Ableton lá em 2019, eu estava começando a me experimentar com a escrita. Tudo começou como uma brincadeira de colocar palavras estranhas em beats de LoFi com barulho de água hehe. Nesse processo, a gente acabou passando em dois editais de cultura da nossa cidade, e começamos a estruturar o que seria esse duo. Só que no meio desse processo a gente conheceu a Melka, e num flerte da Clariana pra cima dela, chamamos a diva pra chegar num estúdio que a gente tava se experimentando. A gata chegou lá levemente etílica e, com a voz mais rouca do mundo, conquistou nossos corações. Aí, quando chegou o momento de fazer o EP “Erógena”, já éramos uma banda. Desde o EP “Erógena”, a gente mantém essa dinâmica de produzir bases eletrônicas em casa e, depois, ir para o estúdio abrir o campo harmônico dessas músicas por meio de instrumentos acústicos. No SVVP (“Sinal vermelho vidro preto”, a gente fez isso de maneira mais enxuta e valorizando bastante as texturas eletrônicas que criamos junto ao Daniel Brita. A banda da gravação são músicos que estão com a gente desde o começo: Matheus Simões que é nosso baterista oficial, o Anderson Farias, que é o tecladista que ajudou a fundar esse molhado Chic do d’água negra, o Chris Santos que é o saxofonista mais coração que existe…. E mais algumas participações, como o Fernando Sagawa no sax de corpo quente, os violinos e harpas com Fábio Amorim (meu ex rs).
Moreira – Como foi o trabalho com o produtor paulista Daniel Brita? Vocês fizeram um disco bem descolado da regionalidade e das sonoridades mais conhecidas como amazônicas. Há muita influência de jazz e soul, texturas eletrônicas. Daniel se mudou para Manaus para fazer esse trabalho? Como Manaus o impactou?
Clariana Arruda – Foi um grande axé do acaso, conhecemos o Daniel na Semana Internacional de Música (SIM SP), quando estávamos fazendo nossa primeira mini turnê pelo Sudeste. Lembro da sensação de estarmos fumando um tabaco do lado de fora do Lab Mundo Pensante, e o som dele nos convocar a entrar… e entramos! Depois, também o convocamos para o nosso mundo líquido e para a produção desse disco no Amazonas. Parte do processo foi presencial, Daniel ficou em Manaus durante uma semana, tempo que usamos para gravar as faixas. Essa viagem foi muito importante para que ele conhecesse o calor e a umidade manauara, e ser atravessado por essa experiência única que é estar no Norte. Depois disso, seguimos com a pós produção à distância, mas sempre de forma muito prática, acertamos em encontrar um produtor virginiano. Sobre a sonoridade autêntica, o D’água Negra sempre se propôs a ser uma banda que traduz a contradição Amazônida entre a globalização da pauta e o isolamento geográfico de quem habita. Nos três carregamos influências do blues, da disco music, do hip hop, do jazz, e ao mesmo tempo ouvimos durante a adolescência bandas manauaras como Casa de Caba, Tulipa Negra, Cileno. Somos um pouco desse agrupamento de ritmos, entre o orgânico e o digital, as synths e as violas, e a nossa poética fala muito sobre a experiência desse corpo quente e nortista, das trocas com o outro, com o espelho, e com o mundo.
Moreira – Curioso que eu já conhecia o Manacaos, que participa da faixa “Corpo quente”, por meio da coletânea que saiu no final de 2024 e incluí na playlist sextante. Também conheço a Luli Braga, de quem já falei aqui, ela é sensacional, uma guerrilheira cultural, e também a Jambu, eles fizeram show por aqui recentemente. Uma das melhores entrevistas da Sexta Sei foi com a talentosa e carismática Márcia Novo. Quais outros artistas de Manaus vocês recomendariam a gente prestar atenção?
Melka Franco – A real é que Manaus tem muitos velhos/novos talentos querendo alcançar ouvidos desejosos, mas quase sempre caímos na história da distância geográfica e do olhar deslocado para o Sudeste brasileiro. De qualquer forma, vamos para alguns nomes: Karen Francis e seu afrobeat romântico; Victor Xamã fazendo um novo rap nacional absurdo de bom; Elisa Maia misturando mpb/reggae/pop; Rafa Militão fazendo rimas na visão de uma mulher negra periférica; o rapper afroameríndio Kurt Sutil; o novo projeto da Luli Braga, o quarteto Delírio Cabana; o pop delicioso da Anne Jezini; a voz delicadíssima de uma Póvoas; e a boa música popular amazonense do Marcelo Nakamura.
Moreira – Adorei a releitura de “Underwater Love”, do Smoke City, de Nina Miranda. “Flying away” é um álbum formador do meu caráter e das pessoas da minha geração, muito importante em uma época na qual a música eletrônica realmente estava fazendo a cabeça das pessoas aqui no Brasil. E a Nina está de volta, em participação recente em álbum do Bruno Continentino. Também a vi com Otto em Inhotim na pandemia. Curioso que seja uma canção que acompanha vocês desde o primeiro show, qual a importância dessa faixa pra vocês?
Melka Franco – Para nossas primeiras apresentações, tivemos a necessidade de escolher alguns covers pra desenrolar um show completo, porque ainda tínhamos poucas músicas próprias. Nessa escolha, o Belch lançou “Underwater Love”, e a Melka já conhecia e também adorava a música. Foi como uma adoção mesmo, e o público até perguntava se não era uma autoral nossa. Ela foi seguindo com a gente show após show, a intimidade aumentando, e finalmente entendemos que ela precisava fazer parte da nossa história fonográfica oficial. Aí, pra coroar tudo isso, ter a benção e permissão da Nina foi sensacional, e cá estamos criando o filho dela com muito cuidado e carinho. E é uma loucura como uma música lá de 1997 fale tão forte e atual com a gente, e transborde tão perfeitamente o nosso imaginário. O tempo circular é muito real mesmo, ainda bem!
Moreira – Esse é um disco que fala bastante de desejo e de relações interpessoais, não que seja romântico, mas fala bastante de amor e relacionamento. Segundo o release, traz o protagonismo para as pulsões de vida e morte. Resumindo, é um álbum de gente transante?
Bruno Belchior – Tem uma coisa de ser psicanalista e estar na experiência com a psicanálise que vai te proporcionado uma relação muito específica com certos temas, mas, principalmente no fato de que você se vê enlaçado com a própria psicanálise, ela é um ethos e uma práxis né… Então, não tinha como o álbum não ter uma base disso hehe. A gente passa mais da metade do álbum num embate psíquico com o outro. O outro, digo, alteridade. É falta, é raiva, é escândalo, é escárnio, é estrago….. e nessa neurose toda que a gente tá expondo ali tem algo de muito erótico nela, a linha entre aquilo que é repetição e produz pulsão de morte tá muito próxima daquela que movimenta libido, desejo e abre caminhos para novos movimentos. O álbum tá nesse (não) lugar que fica bem no meio disso tudo, na liminaridade. E eu, pessoalmente, acredito que tocar nesses temas embalados por nossas vozes roucas junto aos arranjos melados dos nossos instrumentos, pode ser uma experiência bem transante.
Abaixa que é tiro!💥🔫
Muito bem produzido por Paulo Emmery o álbum de estreia de Lorena Moura, “Mata-Leão”, que saiu essa semana, pela Cavaca Records. Melancolia, sedução, mistério, tédio e coragem são combustíveis das letras assinadas pelo poeta, compositor e historiador da arte Luca Fustagno. A música que embala essa poesia tem uma levada de jazz. O leão do título é aquele, diário, que todos temos a assassinar. “Em ‘Mata-Leão’ , o álbum, os desafios são os dias em si. Dias com cara de fim dos dias, que confrontam os personagens das músicas e a própria voz que os canta”, explicam, juntos, Lorena e Luca, que são melhores amigos desde o tempo da escola. Envolvente e elegante, “Mata-Leão” conduz o ouvinte por uma experiência sonora completa. Ao longo de oito faixas, passa pela literatura, fazendo alusão a Adília Lopes e Hilda Hilst, e reverencia grandes nomes da música brasileira, como Guinga, Hyldon, Evinha e Rita Lee. No disco ainda reverbera a influência de artistas da nova geração, como Ana Frango Elétrico, Bruno Berle e Dora Morelenbaum. “Minhas primeiras composições foram numa época em que eu estava vidrada na Angela Ro Ro. Ela, pilotando o piano e seduzindo a melancolia. Acho que foi com isso que comecei”, conta Lorena.
Uma dessas entrevistas que reanimam, Chediak lança, nesta sexta, com a carioca Clara Ribeiro, o EP “Desabafos”, com quatro faixas que renovam o interesse dessa geração pelos beats quebrados do drum’n’bass,. Esse é o segundo EP da dupla, que também lançou “Amor para além do Atlântico Sul”, pelo selo Speedtest. Entre beats de drum’n’bass, reggae e camadas eletrônicas pouco exploradas no Brasil, a artista abre espaço para mostrar vulnerabilidades, dores e sonhos, costurados em letras de uma entrega sincera da artista. O processo foi de troca constante, Chediak trouxe beats, samples raros de vinis japoneses e composições próprias, e até a inclusão de um coral infantil em uma das faixas, enquanto Clara moldou arranjos, letras e interpretações para que o resultado tivesse sua marca íntima.
Adoro a perspectiva marxista que marca o trabalho da dupla de artistas plásticos Mariana de Andrade e Rodrigo Dias, que abre, na nova Galeria Nívea Bracher, localizada no Mercado Cultural AICE, a mostra “Entrega Efetuada”, feita a partir de retratos de entregadores impressos em embalagens de pizza com óleo vegetal e verniz, uma crítica sociorracial à precarização e à exploração dos profissionais do setor de entregas, especialmente os que utilizam bicicleta. Aberta à visitação de terça a sexta-feira, de 11h às 21h, e aos finais de semana de 11h às 16h, até o dia 7 de dezembro, a mostra tem como uma de suas inspirações a canção “A Carne”, imortalizada na voz da consagrada Elza Soares. “A ideia é relacionar a carne/alimento com a carne/corpo humano para simbolizar o quão esgotante e perigoso é esse processo, ao qual inúmeros cidadãos, em sua maioria negros, são submetidos diariamente em busca de sobrevivência e sustento de suas famílias, sem qualquer respaldo trabalhista”, explica Mariana Andrade. Instalações com as mochilas vermelhas dos entregadores e com enormes pedaços de carne com carteiras de identidade. A dupla já tinha recriado rostos de dez ambulantes da Avenida Brasil a partir de mosaicos feitos com os produtos que vendem em “É dia de feira!” e também destacou a relevância dos tecidos nas cerimônias de matriz africana em “Manto Sagrado – Manto de Axé”. Pra ficar de olho.
Na próxima sexta (21), não teremos página, por causa do feriado.
Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta. Todas as playlists de 2024, 2023, 2022, 2021 e 2020 nos links
Para melhores resultados, assista na smart TV à playlist de clipes com John Cage + Charli xcx, FKA Twigs, Terno Rei, Allie X, Daft Punk, Clara Bicho, Lia Clark + MC Carol, Bruxa Cósmica, Enme, Kalli, Los Otros, Khruangbin, Ice Spice, Lolo Zouai, Flor ET, Georgia, Baco Exu do Blues + Zeca Veloso, Little Mix, John Newman, Max Cooper, Vivendo do Ócio + Paulo Miklos, Robyn, Sumerian, Rapha Moraes
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