Sexta Sei: Matuto S.A. faz rap com os modão, do interior pro interior, com um pé na rua e um na roça

“Terra Vermelha: do interior pro interior” é o resultado de uma pesquisa feita pelo MC e trompetista Vinícius Comparini Arcolino, 35 anos

por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com

Fotos: Gustavo Francisco

“Terra Vermelha: do interior pro interior” é o resultado de uma pesquisa feita pelo MC e trompetista Vinícius Comparini Arcolino, 35 anos, o Matuto S.A., de Franca, interior de Sçao Paulo, que usou o sistema empregado por Chico Science na criação do mangue bit para criar o seu “Regional Beat”, que coloca a cultura caipira pelas lentes do hip hop, atravessando rap, graffiti, MC, breaking, DJing e o conhecimento, elementos da cultura das ruas. A obra, enraizada no interior paulista, traduz território, memória e identidade em uma linguagem contemporânea. A pesquisa foi parar até nas roupas, no chapéu customizado pelo graffiti,  e nos “filetes” que “são como “pixos” e “tags” em um outro contexto e também uma arte manual que nós do movimento regional beat apreciamos muito, trazer isso pra identidade visual com as roupas da Laís e da Jéssica é mais uma vez uma reafirmação da nossa origem interiorana”, me conta Matuto, em papo por e-mail. “Na musica ““R” Retroflexo”, eu falo “morar no campo virou fashion, elitizaram a talha de barro o cimento frio é o novo eco, a roça tá na moda, mas nóis é pique Mazzaroppi, cêis acha que o Jeca Tatu é burro, nóis te “engorpi” e ocês nem descobre”. Vejo que existe um romantismo sobre a vida no campo que podemos dizer que, após a pandemia, cresceu muito, movimento chamado neo ruralismo”, aponta. Falamos também da importância da participação do violeiro Paco Sabino, filho de Ronaldo Sabino, um dos maiores violeiros do Brasil. “Ele começou a tocar viola com a gente, pois ele também já fazia rap, fazia uns beats e tem dado muito certo essa parceria”, finaliza.

Moreira – Assistindo ao documentário “Regional Beat: uma antena parabólica fincada na Terra Vermelha”, achei muito interessante a analogia que você faz com o processo do Chico Science no Mangue Bit, algo que o baiano J. Velloso também usou na feitura do “Recôncavo Experimental”, em resumo, uma forma contemporânea, antropofágica, de reinventar tradições. Como surgiu essa ideia de misturar a cultura caipira das formações conhecidas como “regional”, geralmente com viola caipira, rabeca e acordeão, a elementos do hip-hop, como o MC, o grafite, o break?

Matuto S.A – O quinto elemento da cultura Hip Hop, além de Graffiti, MC, Breaking e o DJ é o conhecimento. Este, primeiramente precisa ser o autoconhecimento, saber de onde viemos, nossas raízes, nossa cultura, é algo que, teoricamente, vem em primeiro lugar, porém, quase nunca é assim, a gente consome muito a cultura de outros países ou até mesmo de regiões diferentes do Brasil e não olha para o que está do nosso lado. Comigo foi assim, conheci o rap norte americano, a música jamaicana, o jazz, o afrobeat e o rock e me identifiquei “naturalmente”, porém, a música caipira, que sempre fez parte da minha vida até certo ponto, era música de “velhos”, quando eu comecei a pesquisar mais sobre esse universo da música caipira e perceber sua beleza, sua lírica e suas história e as estórias que nela continham e me apaixonei por algo que sempre esteve aqui. Naturalmente, querer trazer isso pra minha arte foi algo que fez muito sentido. Nesse processo, me lembrei muito do movimento “Mangue Beat” (*rapaz, é bit mesmo, de informática, a antena parabólica fincada na lama) e me inspirei muito nesse processo de fincar uma antena parabólica, só que dessa vez, na nossa Terra Vermelha do interior.

O look do Matuto S./A. incorpora os filhetes, elementos dacorativos das carretas de caminhão

Moreira -Achei também muito interessante como você se propôs a criar um visual de moda, trabalho sensível da estilista e costureira Laís “Ocupadona”. A história  de construir uma linguagem com os filhetes de caminhão ficou muito bacana, de onde veio esse insight? O chapéu também ficou lindo, e remete muito mesmo a Chico Science, e combina com os óculos “Juliette”.

Matuto S.A – O chapéu, no caso, tem haver com o trabalhador rural que, diferente do proprietário da fazenda que, geralmente, usa um chapéu de couro, o lavrador utiliza a palha. Trazer um Graffiti ou um pixo no chapéu é justamente a síntese da ideia de um pé na rua e outro na roça. Os filetes são como “pixos” e “tags” em um outro contexto e também uma arte manual que nós do movimento regional beat apreciamos muito, trazer isso pra identidade visual com as roupas da Laís e da Jéssica é mais uma vez uma reafirmação da nossa origem interiorana.

Capa de Gustavo Pasti a partir de foto de Gustavo Francisco

Moreira – Seu trabalho também propõe dar centralidade criativa para narrativas do interior, que passam a estar no centro criativo, e não margem. Acho que esse trabalho encontra ressonâncias nos trabalhos de Roça Nova, Bemti, Gabeu, artistas que têm reprocessado a música caipira, assim como a Mestre Ambrósio. Está na moda se olhar pro interior?

Matuto S.A – Na musica ““R” Retroflexo” eu falo “morar no campo virou fashion, elitizaram a talha de barro o cimento frio é o novo eco, a roça tá na moda, mas nóis é pique Mazzaroppi, cêis acha que o Jeca Tatu é burro, nóis te “engorpi” e ocês nem descobre”. Vejo que existe um romantismo sobre a vida no campo que podemos dizer que, após a pandemia, cresceu muito, movimento chamado neo ruralismo. O que penso sobre isso já disse na musica acima. Musicalmente falando, não acho que está na moda, muito pelo contrário, são poucos artistas que propõe essa fusão atualmente, Gabeu, meu conterrâneo, eu gosto muito, acho um trabalho inovador e muito potente, Roça Nova também conheço os manos, são muito gente boas, eles também gostam do meu trabalho e temos uma identificação nesse sentido da ZR, mas não vejo como um movimento de massas, artisticamente falando, porém, eu espero sim que o Regional Beat seja algo que as pessoas possam se identificar e querer reproduzir esteticamente.

Moreira – Você trabalhou com produtores importantes dentro da cultura hip-hop, como  como Dropallien, Mangueman,  Odextera e Barba Negra, e também dos soundsystems de reggae, caso do Selecta H-Dub, como se deu essa troca entre vocês e a incorporação e processamento da música caipira pela cultura DJ? 

Matuto S.AEu sou da Cultura Hip Hop há muitos anos e da Cultura Sound System também, essas duas me deram a base pra construir essa ideia de “Regional Beat”. Eu gosto de produzir também, apesar de não me considerar um beatmaker ou até mesmo um produtor musical (uma vez que respeito muito esse trabalho) então, no álbum, eu quis trabalhar com vários produtores, justamente por cada um trazer sua identidade também, ser um álbum coletivo e de muita experimentação. O elemento DJ no caso é algo que eu valorizo muito, no álbum, a música “De Kool Herc a Tião Carreiro”, o refrão é só com o DJ fazendo scratches, no caso o próprio Kool Herc, um DJ jamaicano que foi um dos precursores do Hip Hop, então já ta tudo implícito ali também.

Moreira – Foi importante ter um violeiro, o Paco Sabino, acompanhando esse processo criativo e trazendo a música de viola de raiz para o projeto? Ajuda a manter a autenticidade e a raiz?

🌊🪼🫧🐚𓆝𓆟 Como uma onda no mar 𓆞𓆝𓆟𓇼🪼🫧🐚🫧🌊

Fausto Fawcett e o Chelpa Ferro. Fotos: Ivi Maiga Bugrimenko

Uma das páginas mais legais dos últimos tempos, Fausto Fawcett volta ao estúdio, dessa vez com os artistas experimentais do grupo Chelpa Ferro, que  transforma o “ruído humano” contemporâneo no álbum “Pesadelo Ambicioso”, que abriu aqui a última playlist sextante com “Grito motor”, que cita Juiz de Fora. O álbum marca o encontro entre trajetórias que se cruzam há décadas: é o quarto disco do jornalista, compositor, cantor e escritor carioca Fausto Fawcett e, ao mesmo tempo, o sétimo do grupo formado por Barrão, Sergio Mekler e Luiz Zerbini, referência nos campos da música experimental e da arte sonora. Um trabalho que transforma esse excesso de sons, estímulos e colapsos em matéria de criação, condensando experiências, linguagens e obsessões em permanente fricção. Com produção do craque Thiago Nassif, o álbum, feito para ouvir diversas vezes, é lançamento do selo Outra Música, do querido Chico Dub.

Capa: João Sanches / Estúdio Baren

O trabalho articula guitarras, baixo, bateria eletrônica, teclados, synths, samplers, gravações de campo e ruídos, criando uma arquitetura sonora que sustenta a poesia falada de Fawcett. Não se trata de canções no sentido tradicional, mas de pulsos, ritmos, melodias em loop, texturas e interferências que dialogam diretamente com o texto de Fausto. “Pesadelo Ambicioso” foi apresentado, pela primeira vez, em formato instalativo no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, em 2021, dentro do projeto Audiodrama, com curadoria de Chico Dub e César Augusto. Em 2022, ganhou versão em livro, com edição da Numa Editora, e em 2024, foi apresentado em caráter performativo no Rio de Janeiro, durante o Festival Novas Frequências. Agora, finalmente, assume sua forma definitiva em áudio. “Pesadelo Ambicioso” constrói uma paisagem de inquietação, precariedade e perturbação.

Pedro Salvador, músico e produtor alagoano, apresenta seu álbum homônimo, com capa de Aloísio Correia

Muito interessante o terceiro álbum, homônimo, do músico e produtor alagoano Pedro Salvador, boa azeitada mistura de referências do rock progressivo, jazz, soul e psicodelia, fruto de quatro anos de pesquisa e experimentação sonora. O clima já foi antecipado pelo clipe de “Flores Mortas parte 1”,  que ganhou nova roupagem sete anos após sua primeira versão. Dialogando com o rock progressivo brasileiro dos anos 1970, soul e funk, Pedro expande essas referências ao incorporar bateria próxima do drum & bass, além da presença do órgão e texturas de sintetizadores. No novo trabalho, Pedro constrói uma identidade sonora guiada pela liberdade estética e pela recusa em se prender a fórmulas rígidas de gênero musical. Ritmos da música popular nordestina contemporânea – como o arrocha e o pagodão baiano – aparecem como influência na sequência final do disco. Impressiona também o lado instrumental do lançamento, como em “Gênese e Destruição parte 1”, que conta com a participação do mestre Chau do Pife, Patrimônio Vivo da Cultura Alagoana. Na música, o instrumento tradicional é inserido em uma linguagem experimental e próxima do jazz, reforçando o encontro entre herança cultural e criação contemporânea que atravessa o projeto. Entre os músicos convidados, estão as vozes de Ana Gal, Mary Alves, Arielly Oliveira, Nego Pedru, Alyne Sakura, Bárbara Castelões, Toninho ZS, Diogo Oliveira, Myrna Araújo e May Honorato, além dos instrumentistas Chau do Pife, Everaldo Borges, Vitor Moreira e Dinho Zampier. As gravações foram realizadas de forma caseira, com Pedro Salvador assumindo a execução de quase todos os instrumentos. Ao longo das dezoito faixas, Pedro Salvador constrói uma narrativa marcada por reflexões sobre violência, consciência crítica e insurgência.

Honorius Causa é o projeto solo de hardcore, thrash e nu-metal do músico e compositor português Pedro Honório, que acaba de fazer sua estreia com  “Miúdos do subúrbio esquecido”. “Miúdos do subúrbio esquecido” é um soco direto ao estômago, uma declaração de amor raivoso às periferias de Lisboa e às gerações que cresceram sem ser vistas. Com raízes no hardcore urbano português e influências do thrash e nu-metal dos anos 90, a música funde guitarras agressivas, baixo denso e letras de forte carga social. A faixa conta com a participação do vocalista convidado Tiago Leonel, e foi distribuída globalmente via TuneCore Professional. Pedro Honório é baixista, compositor e figura histórica do metal underground português. Com mais de 35 anos de carreira na cena hardcore e metal, Pedro foi co-fundador dos 605 Forte, em 1991, banda pioneira do hardcore urbano português que marcou uma geração. Entre 2006 e 2011, integrou os Bruteforce, banda de Ultra-Brutal Thrash/Death Metal portuguesa. 

Agora, Pedro está radicado em Dublin (Irlanda), e assina as letras do novo projeto, inspiradas nas suas experiências de vida e na realidade da classe trabalhadora dos subúrbios de Lisboa – emigração, resistência, juventude esquecida, crítica social. “Esta música fala dos miúdos que cresceram nos subúrbios de grandes cidades, invariavelmente sem o tempo e educação dos seus pais, que tinham de trabalhar de sol a sol para conseguir sustentar a família – mas sobretudo dos que partiram cedo demais, vítimas de acidente, doença, droga e outros problemas. Trinta e cinco anos depois de ter começado a fazer música, ainda é isso que me move.” A faixa irá integrar o álbum  “Solidão”, previsto para 2026.

O agendão das maravilhas segue nos destaques do meu Instagram, separado por cidades, e em thread infinita no X.

Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta, Todcom álbuns de Matuto/SA, Adriana Moreira, C4triel e Paco Amoroso, Ladytron, Slim Soledad, Zhu, Antonio Neves e Thiaguinho Silva, mixtape MC Luanna. As as playlists de 2025, 2024, 2023 2022, 2021 e 2020 nos links

Para melhores resultados, assista na smart TV à playlist de clipes com Alice Caymmi, Yseult, Dorian Electra, Luísa Sonza, Juliano Gauche, Amanda Sarmento, Nas & DJ Premier, Xamã + L7nnon, Pedro Sampaio + El Bogueto, Shenseea  + Vybz Kartel & Rvssian, beaabadoobee, Kneecap, Ca7riel & Paco Amoroso +Jack Black, Carlão,Jack Harlow, Tiê, Detonautas, Traemme, Murda Beatz + Zukenee,Bones, Kream, Inimigos do Rei, Flagboy Giz, Psychobuildings, SPVIC + Muzzije, Ozuna, Paris Paloma, Renan Inquérito e Jovem Dionisio

A campanha de crowdfunding da coluna continua, já atingimos 45,7%. Prefere fazer um PIX? O pix da coluna é sextaseibaixocentro@gmail.com