Gravado em fita de rolo, sem um único overdub, todo o instrumental que se ouve, no disco, são dos músicos tocando juntos
por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com
Já troquei tantos emails com Marina Mole, 34 anos, sobre o trabalho de outros artistas divulgados pelo selo, agência de assessoria de imprensa e consultoria aonde ela trabalha, a Café8, que já imaginava que, além de artista, a gata é multiartista, como pode se ouvir, ver, vestir e sentir em “Azucrim”, seu álbum de estreia, que chegou nesta quinta (10) às plataformas, com uma bem humorada mitologia criada para o anjo caído que chega à terra ao som de um berrante. A filosofia do epistemólogo francês Gaston Bachelard (1884-1962) ensinou que “a imagem ascendente é muito mais rica do que a imagem descendente. Ele fala sobre essa coisa do voo, da verticalidade. Aí entendi que precisava disso no disco: uma imagem ascendente”, conta, sobre “Sonho de voo”. Falamos como foi se expressar pela música, pela moda e pelas artes plásticas, nessa abordagem multiplataformas do álbum. “Quando eu era mais nova, ficava em crise com isso, queria fazer de tudo, tinha interesses demais, livros, filmes, imagens, e a própria música. Aí eu entendi que não tinha como ser diferente. Eu sou muitas coisas ao mesmo tempo. Foi um longo processo para amadurecer isso, entender como conciliar tudo sem ficar prolixo, excessivo, com muita informação. Eu fui criando métodos pra mim mesma e as coisas foram fazendo sentido. O Azucrim pra mim é muito especial porque é a consolidação de anos investigando esse lugar de multiartista. É o primeiro trabalho em que me enxergo absolutamente”, me conta, neste papo para a #SextaSei. Sobre grabar o álbum em fota de rolo, ela conclui. “Eu amo o analógico, é onde o mistério se materializa. Os erros surgem com uma beleza e espontaneidade que é impossível de reproduzir sem esse lance do acaso que acontece. E a minha brisa com música tem muito a ver com o encontro também, não tô afim de ficar na frente do computador fazendo nada, gravando 20 takes de guitarra. Ou a gente se junta, toca e grava no máximo três takes, ou eu não tenho vontade de fazer. Risos. E gosto da estética analógica, o que é digital demais não me atrai”.
Moreira – É interessante como você fez um disco cruzão, de rock, a cozinha básica do rock com o pau comendo, no melhor sentido da palavra, mas teve o cuidado de embalar tudo em uma história, esse mito do “Azucrim”, que vem de azucrinar, um anjo que vem à Terra viver como humano e chega ao som de berrante, em vez de trombeta, na faixa de abertura “Descida”. Ser roqueiro tem esse lado azucrinante mesmo, né? De questionar o estabelecido. Essa história foi o começo de tudo ou você construiu isso no caminho, ao longo de quatro anos deste processo?
Marina Mole – Fui construindo no caminho. A primeira coisa que chegou foi a palavra Azucrim. Amei que soava como nome de anjo, ao mesmo tempo em que a palavra já trazia por si só um desconforto – justamente por ser aquele que azucrina. Quase todo mundo pra quem eu falava que ia fazer um álbum chamado Azucrim ficava intrigado. Minha mãe, que é crente, não gostou nada. A inteligência artificial do Google falou pra ela que era algo demoníaco, sendo que não tem nada disso, e o anjo nem existe. Risos. Depois, fui estudando pra entender como ambientar o anjo. Eu tinha dúvidas como: mas por que ele azucrina Deus? Busquei respostas na cabala, mas foi no gnosticismo que tudo fez sentido, essa ideia de um Deus que é bom, mas remoto, e que não se envolve com os assuntos da Terra. O Azucrim tem uma certa imaturidade nos seus questionamentos, ele vir à Terra é justamente o caminho para um amadurecimento, para entender melhor a existência.
Moreira – O álbum é inspirado na filosofia do epistemólogo francês Gaston Bachelard (1884-1962), que explorou a relação entre a ciência e a imaginação, questionando as noções tradicionais de conhecimento e realidade. A faixa “Sonho de voo” tem o mesmo título do primeiro capítulo do livro “O ar e os sonhos”, leitura fundamental durante o processo do álbum. Como o pensamento dele te influenciou na feitura de “Azucrim”?
Marina Mole – Influenciou tudo. Risos. Ler o Bachelard foi uma experiência profunda pra mim, tanto no que diz respeito ao estudo de entender onde está a força de uma imagem (imaginação é criar imagens, né?), quanto no sentido mais poético da coisa, a forma como ele escreve é muito inspiradora. O álbum, pra mim, é como uma imagem que fui compondo, existe um cenário, uma narrativa, uma busca por significado. A primeira faixa se chama “Descida”, e é justamente o anjo iniciando a jornada, descendo… Nesse capítulo de “O ar e os sonhos” que deu nome a “Sonho de voo”, o Bachelard fala que a imagem ascendente é muito mais rica do que a imagem descendente. Ele fala sobre essa coisa do voo, da verticalidade. Aí entendi que precisava disso no disco: uma imagem ascendente. E compus essa música. Então o Bachelard me ajuda a preencher as lacunas, a levar o meu trabalho mais longe simbolicamente.
Moreira – O clipe de “Luneta azul” é como se Elton John e os muppets estivessem há seis meses em um tlatlamento on acid. Mas também mostra como o encontro com esses músicos foi especial, alegre, festivo, tem uma energia muito legal, de festa, de gente feliz, de surf music. Como montou essa banda com o sextante e maluquete Lucas Monch (baixo) 🫶 , cleozinhu (bateria e backing vocal) e Vitor Wutzki (guitarra e backing vocal)?
Marina Mole – Sim, teve algo muito divertido nesse encontro mesmo, e todos são pessoas com um senso de humor extremamente peculiar, acho que isso transparece no clipe, né. O cleozinhu já era meu amigo há muito tempo, e enquanto eu estava em Portugal, era a pessoa pra quem eu ia mandando as demos das músicas. O Monch, de quem eu também já era amiga há anos, morou em Portugal por um tempo, e nós nos encontramos lá enquanto eu estava compondo algumas das faixas e ele acompanhou um pouco esse processo. O Vitor eu só conheci quando voltei pra São Paulo, e fiquei fascinada pelo jeito dele de tocar guitarra. Tava todo mundo muito afim de gravar o álbum, e isso é uma máxima pra mim, não chamo pessoas pra trabalhar pelo currículo, mas pela vibe, em primeiro lugar – mas o currículo deles é ótimo também. Rs. Eu brincava que éramos tipo personagens do Capitão Planeta, cada um tem um signo de um dos quatro elementos. Todos temos referências muito diferentes, mas com várias coisas em comum. Acredito que isso trouxe pro álbum uma diversidade de sonoridades muito rica.
Moreira – Acho legal também esse lance de ser multiartista, de se expressar em diferentes plataformas, você mesmo fez a capa de “Azucrim”, inspirada no rosto alado que você viu no filme “Oh, Moon!”, de Reha Erdem, que tem uma gaivota mítica com cabeça de criança, e o figurino do clipe de “Slowdancing”, que continua contando essa história com pegada de mitologia. E de tudo estar envolvido e ter referências na arte, como “Fúria leve” é inspirado por poemas do livro “Altazor”, do modernista chileno Vicente Huidobro, “Cidade ou estrela”, é inspirada em poemas do livro “Uma faca nos dentes”, do surrealista português António José Forte, “Coração remendado” é um diálogo com a letra de “Coração Imprudente”, do Paulinho da Viola, “Terrível” poderia ser a música tema de um personagem do David Lynch. Acho legal quando uma obra nos remete a várias outras obras, muitas vezes, nos apresentando coisas novas. E mostra como você é envolvida com a arte e o pensamento.
Marina Mole – Sim! Quando eu era mais nova, ficava em crise com isso, queria fazer de tudo, tinha interesses demais, livros, filmes, imagens, e a própria música. Aí eu entendi que não tinha como ser diferente. Eu sou muitas coisas ao mesmo tempo. Foi um longo processo para amadurecer isso, entender como conciliar tudo sem ficar prolixo, excessivo, com muita informação. Eu fui criando métodos pra mim mesma e as coisas foram fazendo sentido. O Azucrim pra mim é muito especial porque é a consolidação de anos investigando esse lugar de multiartista. É o primeiro trabalho em que me enxergo absolutamente.
Moreira – O show de lançamento acontece na Casa Rockambole, em São Paulo, nesta sexta (11), com participação da sextante Madre, projeto solo de Luiza Pereira, e discotecagem em fita K7 por D. Selvagi, dialogando com o fato de o álbum ter sido gravado em fita de rolo. Vocês gravaram todos tocando juntos, ao vivo, ou na técnica de overdubbing, gravando canal a canal, reproduzindo o canal previamente gravado? Por que essa ideia de ser analógico em tempos digitais?
Marina Mole – Não tem um único overdub no álbum. Todo o instrumental que se ouve somos nós tocando juntos. Só as vozes finais foram gravadas depois. Nós ensaiamos muito pra isso! Eu amo o analógico, é onde o mistério se materializa. Os erros surgem com uma beleza e espontaneidade que é impossível de reproduzir sem esse lance do acaso que acontece. E a minha brisa com música tem muito a ver com o encontro também, não tô afim de ficar na frente do computador fazendo nada, gravando 20 takes de guitarra. Ou a gente se junta, toca e grava no máximo três takes, ou eu não tenho vontade de fazer. Risos. E gosto da estética analógica, o que é digital demais não me atrai.
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Paulista de Marília, a banda jonabug mal lançou seu álbum de estreia, “Três tigres tristes”, em julho do ano passado, e já está de volta com o EP “Torpor”, firmando seu nome na cena shoegaze nacional ao refletir sobre transformações e amadurecimento. Essas reflexões impactaram diretamente nas letras e na sonoridade do EP, que tem influências de grupos como Hum, Lush, My Bloody Valentine, Ludovic e da banda sergipana Cidade Dormitório, que participa do trabalho na faixa “entre o certo e o errado”. Acho bonitinho que, em um mundo em CAPS LOCKS, a jonabug chega assim, bem joaninha, escrevendo tudo em caixa baixa. “torpor” tem como conceito a associação metafórica entre a condição biológica de sobrevivência e a música como forma catártica de lidar com as transformações da vida.
“É uma ‘economia de energia’ adotada por certos animais – como morcegos, beija-flores, esquilos e ursos –, para sobreviver a condições climáticas extremas ou à escassez de alimentos. Nós associamos essa palavra ao nosso EP porque sugere justamente o momento de vida quando passamos por inúmeras mudanças, algumas doloridas demais para dar conta e, estar em estado de torpor, no nosso caso, é termos feito essas músicas como uma resposta a tudo que vem acontecendo“, explica a vocalista e guitarrista Marília Jonas, que forma a banda junto a Dennis Felipe (baixo), Samuel Berardo (bateria) e Thales Leite (guitarra), que estreia agora como parceiro nas composições. O EP foi gravado em junho no estúdio Rockambole, com produção assinada por Roberto Kramer. A capa é de Nicole Wünsch, com a cor azul que sugere frieza e paralisação, e a vermelha, os sentimentos guardados que explodem.
Tenho adorado acompanhar os singles da banda paulistana Bad Luv na construção de seu segundo álbum, “O medo não me parou”, que chegou na última terça às plataformas com uma mistura de post-hardcore, emocore e metal moderno. A faixa homônima ao álbum ganhou clipe que fala sobre a luta constante contra doenças consideradas invisíveis, como a depressão. As gravações começaram logo após ao lançamento do álbum de estreia, “Nós” (2025), quando o guitarrista Gee Rocha, estava prestes a se tornar pai, e o álbum foi gravado antes do nascimento de Nara. “Esse é um disco muito confessional pra mim enquanto letrista, e essas músicas descrevem exatamente o turbilhão de sentimentos que é inerente a praticamente todas as pessoas. Fala sobre medos, inseguranças, luto, revolta, mas também aponta que existem motivos simples e reais que fazem a vida valer a pena, como o amor, a partilha e a esperança”, reflete o vocalista Caio Weber.
Badauí, vocalista do CPM 22, participa de “Dias difíceis”, após ter encontrada o baterista Vitor Peracetta, em um bloco de carnaval na época das gravações. “O medo não me parou” é um trabalho que aproxima ainda mais a banda do público ao abordar temas tão sensíveis quanto comuns. “Ele quebra essa barreira entre fã e banda, mostrando que somos uma coisa só, estamos no mesmo barco. Dividimos os mesmos medos e inseguranças e, juntos, podemos enfrentar qualquer adversidade”, finaliza João Bonafé (baixo).
Está uma delícia o segundo álbum da carioca Maria Maud, “Minha confusão”, cuja faixa “Doce, sujo & tropical” passou aqui pela última playlist sextante, falando de uma paixão intensa e de um desejo carnal com batidas marcantes e guitarra. Filha da atriz Cláudia Abreu, ela construiu um repertório que transita entre o indie pop, o rock alternativo e a MPB contemporânea, com covers cheios de personalidade para “Acontecimentos”, de Marina Lima e Antonio Cicero, e “Down em mim”, de Cazuza. Seu sucesso veio também com um cover, de “Dengo”, sucesso na voz de João Gomes que ultrapassou 15 milhões de execuções no Spotify. A produção é assinada por Jadeco, Pedro Malcher, Rafael Casqueira, Teago Oliveira e Ariel Donato, construindo uma sonoridade que combina guitarras, texturas orgânicas, elementos acústicos e uma estética contemporânea, delicada e cinematográfica para embalar composições que transformaram perguntas em matéria-prima. O álbum foi construído ao longo de um ano e meio de intensa imersão criativa.
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Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta, com álbuns de Marina Mole, Froid, Bad Luv, Boy Harsher, Camilo, FKJ, Bonobo, Rachel Chinouchuri, Jhené Aiko, Fraterna, magnólia, Spice Girls, Hercules & Love Affair + Hips & Lips, EP de Jonabug e +. Todas as playlists de 2025, 2024, 2023, 2022, 2021 e 2020 nos links
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