O Paraquedas de Fi

Por Ginno (Dino) João
Fotos e frames: FIlipe Furtado (Fi)

Para uns Fi é de filho. Meu filho. Mo Fi. Para outros é apenas um som (nem mesmo uma palavra!). Para outrens é uma palavra onomatopeica faltando o u.  A mim lembra som de passarim, som do sem-fim, do  fim-fim, Tapera naevia e Euphonia chlorotica respectivamente. Mas aqui o Fi é de Fi de Filipe Furtado, que acaba de lançar o vídeo Paraquedas pela Cachorro Molhado com participação da G7 crew, e com quem batemos um papo informal sobre o vídeo e sobre ele e maisumascoisasamais.

Filipe Furtado, especialista em macarronada. Foto: Dinossauro Jr.

Frame de Paraquedas, Piriquitão

Eae, meu bem, como você está?
To quase.

Apresente-se Fi, por favor.
Me chamo Filipe Furtado, sou skatista, fotógrafo e videomaker natural da cidade de Rio Pomba – MG, onde nasceu a CMcrew.

Paraquedas é seu sexto vídeo pela Cachorro Molhado. No começo já temos uma dica do porquê do título com a fala do Periquitão, to certo? Fale do título e o por que.
Sim. O nome do vídeo surgiu desse take que já tinha selecionado pra usar, mas até então o vídeo não tinha nome. Inclusive fiquei muito tempo apreensivo pq não conseguia encontrar um bom título que definisse bem a ideia do vídeo. Depois de um tempo editando fiquei pensando nessa metáfora pra mochila que o Piriquitão soltou. Pensei em como a forma que a gente grava é bem roots, sem carro pra ir pro picos, mtas vezes sem nem transporte público, atravessando a cidade com nossos ”paraquedas” pra levar os equipamentos e nossas coisas pessoais. Percebi que a gente realmente fica sobrevoando as áreas urbanas com esse equipamento e achei esse conceito bem legal. Além do take ser muito engraçado e fazer referência a uma certa proteção, ”qualquer coisa você puxa e ele abre” hahaha.

Oh Fi, o vídeo tinha uma direção? Porque como testemunha do processo e sendo seu amigo, o vídeo só surgiu por conta da quarentena né?! A edição pelo menos (e depois vamos voltar a ela). Como se deu a fabricação do vídeo? Tinha um projeto em mente?
Zero direção! Sim, acho que pode se dizer que esse projeto surgiu por causa da quarentena. Na verdade eram dois projetos diferentes, o da CM e o da G7. O da Cachorro Molhado estava longe de acabar e o da G7 quase pronto. Viajei pra BH com o Piriquitão e o Fabrício, mas a prioridade era filmar a gangue de lá pra finalizar o vídeo. Pra mim faltava umas bombas pra fechar, até pq fazia um tempo que eu não ia pra capital e o pessoal evoluiu muito, então parti pra lá nessa missão. Mas deu tudo errado, não rendeu muito. A gente tomou vários kickouts dos picos, era shape que quebrava, bateria que acabava… Foi foda. Mas no meio disso tudo, apesar de não ser o foco, eu consegui fazer alguns registros dos meninos de JF também, o que salvou muito a viagem no sentido de render. A pandemia pegou a gente no meio dessa trip e tivemos que ir embora depois de uma semana lá. Logo pensei: Puts agora fudeu, não vai dar pra terminar nem um nem outro. Eu queria fazer um projeto maior do que os outros que já tinha produzido então tive a ideia de juntar os dois. Como as duas crews já coligam a um tempo, eu achei que poderia encaixar legal. Como eu disse antes, na real eu tinha dois projetos em mente, mas ao mesmo tempo eu estava filmando de forma bem despretensiosa, sem deadline, como sempre faço. Desse jeito funciona melhor pra mim, flui mais.

Fabrício

Frames de Paraquedas, Kin

Tá ótimo. Então, fala brevemente pra nós sobre essas crews que você registrou, a Cachorro Molhado e a G7.
Falar da CM brevemente é um pouco difícil pra mim mas vou tentar resumir. O nome vem de uma bebida que a gente tomava sempre, que nada mais é do que o refrigerante de cola mais barato que tiver com, cachaça da roça. Depois de misturar bem, quando se abre a garrafa, sobe um cheiro de cachorro molhado haha. Era a galera do skate que se juntava com a galera que curtia um rock pra se divertir a noite, mas o pessoal do skate que aderiu esse nome como crew. Nos primórdios era eu, Alemão, Juninho, Mumu, Max, Dabilinha, Jojo, Leozinho, Grete, Fred, Renzo, principalmente, mas tinha mais uma banca… Depois veio mais uma geração foda, com os irmão Pinella (Vitinho e Caio) e Menicucci (Biel e Gui), João Lucas, Álvaro, Hugo, Bozinho… Muita gente se uniu e criou laços de amizade muito fortes por causa dessa bebida horrorosa mas que é linda por esse motivo. Depois comigo morando em JF e a galera sempre colando lá, fomos conhecendo mais gente que se identificava com a ideia e agregando mais uns cachorros pra crew, como o Batata e o Lalaw. Já a G7 eu conheci por causa do Alexandre Grilo. Ele morou a maioria do tempo em BH mas a mãe dele reside em JF, então a gente se conheceu lá quando ele ia passar umas temporadas. Depois de um tempo acabou que ele me convenceu a ir morar com ele em BH, hahaha, e cai de paraquedas no que viria a se tornar o QG da G7 no centrão de BH. Aí já era né, conheci a banca toda e fui muito bem recebido por todo mundo, amo essa galera. Um tempo depois que eu me mudei, o Kin (Raphael Alves) foi morar com a gente e fudeu, nós fechamos demais pra filmar e produzir, era skate o tempo todo que a gente não estava ralando. Eu e o Kin vemos o skate de uma forma bem parecida e tínhamos uma vontade imensa de fazer algo diferente. Isso, além de outras coisas, fez com que a gente ficasse muito próximo e rendesse muito, ele tem uma parte muito importante nesse projeto, andando, nas filmagens e nas ideias.

Então vamos falar de quem participou do processo do vídeo. O Meninsk que fez a mixagem do som e o João Lucas com a arte. Eles já estavam desde o começo da edição ou surgiu durante? Como foi? Conta pra gente.
O Meninsk (Biel) estava fechado com o projeto antes de eu começar a editar, a gente pensou no conceito da trilha juntos e também dividimos a mixagem, até pq já temos um histórico juntos com vídeos de skate. Desde que ele lançou sua primeira beat tape, fiz questão de sempre trabalhar com ele por que acho que os beats dele fluem muito bem com skateboard, é muito bom dar um rolê ouvindo seus trampos. Agora ele está começando com a @catiorosrecords, que é mais uma vertente da crew, em breve vocês verão as novidades. O João (w//o arte) entrou no projeto logo quando comecei a editar. Eu queria produzir as animações dos títulos mas tinha tanta coisa pra fazer que decidi tentar fechar com um terceiro, e logo de primeira pensei nele. O trabalho do João encaixa muito bem com a vibe da CM, além dele já produzir materiais para a crew como o ”chris e greg”, que também saiu durante a quarentena. Ele topou na hora e fez um trabalho lindo de animação com papéis pintados a mão e refinados digitalmente.

Din

Logo sai o Manual de Entrevista do Baixo Centro

Os rolês tem sempre uma vibe muito boa e engraçada, misturando as bebedeiras e as conversas, as risadas, e tudo mais. Você não pensa em levar isso para os vídeos?  Ou não gosta de gracinha?
Eu já trago isso para os meus vídeos, mas de forma mais discreta. Acho que nada no filme pode sobrepor o skate, ou sequer dividir espaço com ele. O foco não é esse. Mas penso em talvez soltar um raw com as palas, aí acho bacana.

Falando de vídeo, você pensa em ficar só no skate ou explorar outras coisas?
Por enquanto ficar só no skate, estou focado mais na fotografia no momento. Eu e o Biel já pensamos em produzir um curta de um conto dele quando nós dois estávamos morando em Rio Pomba, mas ele se mudou pra BH e a ideia acabou ficando na gaveta. Ainda tenho que estudar bastante e adquirir mais equipamentos para produzir esse material do jeito que eu quero também, então enquanto estou com outro foco vai ficar parado. Mas penso sim em produzir trabalhos como curtas e vídeoclipes futuramente.

Tem uma passagem em Apuleio que me lembra muito você, que diz assim: “seguir, em marcha errante, um itinerário invariável”. Você tá sempre por BH, Jufas e Rio Pomba, e agora em Caxambu, vai plantar raiz em algum lugar?
Não penso nisso por enquanto, eu gosto de mudanças. Sempre que vou pra um lugar diferente aprendo muita coisa. Quero voltar pra BH para passar mais uma temporada lá e depois sair do estado. Mas acho que no fim vou acabar voltando pra Minas, sou muito apegado a essa terrinha, as pessoas, as comidas, os costumes interioranos. Só tem trem bão e coisa boua.

E a fotografia? como apareceu pra você? através do skate?
Sim. Na real tudo que eu sei fazer e conheci foi por causa do skate, inclusive as amizades. Você acha que a gente seria amigo se não fosse o skate? Só por isso a gente se aguenta kkkk. Obrigado skateboard ❤️

Mas agora você tem fotografado outras coisas além do skate, né?! Explorando muito paisagem e sombra, pode falar sobre?
Me interessei por fotografia por causa do skate, mas sempre fotografei de tudo por hobby né, gosto muito de registrar os lovemeusamigos haha. Agora to curtindo muito fotografia de rua, documentar paisagens naturais e urbanas, eventos culturais, skate. O lance de sombras, contrastes e PeB são questões de gosto sobre a estética mesmo, e também um pouco pq acredito que a falta das cores fazem com que a atenção do espectador não se perca tão facilmente do objetivo fotográfico. Essa estética é influenciada por filmes que eu amo a fotografia, com “Rashomon” e ”O Cavalo de Turim”.

Kin

Frame de Paraquedas, Fabrício

Renzo e Simba. Foto: Filipe Furtado

Você tem escutado muito reggae ultimamente, não passou na sua cabeça colocar como trilha?
Eu curto trilhas nacionais. Não tem muitas bandas brasileiras de reggae que eu goste. Mas te falar que eu coçei pra colocar um Itamar Assumpção… Porém eu queria criar uma trilha mineira e decidi manter isso. Quem sabe no próximo.

Como você edita? Você planeja antes, é por instinto, começa do começo, pela trilha, como é? Ou é segredo?
Geralmente edito em cima da trilha, mas não tenho um método, uma regra, ou uma ordem a seguir, vai fluindo. Nesse vídeo por exemplo, a primeira parte foi a última a ser editada. Eu curto focar nas transições das partes, o que vem entre elas vai surgindo naturalmente, as vezes parece que já tá tudo no subconsciente, só vai.

Você durante o processo de edição disse para mim que preferia filmar a editar; cogitou mandar as imagens para o Ian Dias; seu computador que vacilava. Deu trabalho esse vídeo? 
Eu gosto de editar também, mas prefiro filmar pq é melhor estar no skate com os amigos do que na frente de um PC né. Nossa deu trabalho demais, muito por conta da máquina. Meu note tem 2gb de ram, quando ia exportar um teste achava que ele ia decolar, sinceramente eu não sei como ele deu conta. Eu pensei em mandar as imagens de JF pro Ian pra ele somar no novo projeto dele pq ainda não tinha tido a ideia de juntar com as de BH, as imagens de Jufas eram poucas pra fazerem um trampo da hora sozinhas, aí preferia somar com ele. E claro, to doido pra voltar pra rua e produzir muito mais.

Vai ter continuação desse então? já tem algo em mente?
Não, Dino. Eu coloquei isso no final só de sacanagem pra criar uma expectativa. Brincadeiras à parte, foi legal vc perguntar isso. Claro que eu já queria filmar mais essa galera, mas a ideia do ”continua” foi mais pq na real eu senti que esse vídeo não acabou, que não tinha como eu colocar um final nele com o material que eu possuía. Até pq ele foi interrompido pela pandemia e faltou muita gente à ser registrada.

E minha parte? Vai fazer não? Um sponsor me
Claro! To doido pra fazer seu welcome na CM com o Sean Malto.

Quais os vídeos de skate que você gosta e que são referência pra você?
Eu não tenho vídeo favorito, cada hora eu entro em uma vibe. Os que são mais referência pro meu trabalho atualmente são os da GX1000 eu acho, curto essa ideia de vídeo mais cru, é o skate, uma boa trilha, e o que acontece na rua enquanto se está filmando. Pronto. Também sou muito influenciado pelos vídeos da galera de Jufas, como o “Exaustos” (Ian Dias), “Casual” (Xin), ”Momentos” (vc)… Juiz de Fora é bem rica na produção de vídeos de skate, as vezes é mais fácil achar um vídeomaker pra te filmar do alguém pra você registrar o rolê hahaha.

Quando eu andava com os moleques do Vitú e comecei a colar com vcs  geral te chamava de roqueiro. Você é roqueiro, Fi?
Hahahahha acho que a coisa que eu menos ouço hoje em dia é rock, mas eu gosto muito. Então sou rockeiro também né? Mas não conta pra ninguém não, esse rótulo é muito feio pqp kkkk. Todavia acho que isso vem mais de quando eu era mais novo, nos anos 2000 o skate era bem dividido entre os defons e os gangsta, digo divido em questão de estilo, não de amizade, e eu era do time dos calça apertada. Mas grazadeus hoje minhas calças já estão bem larguinhas hahaha

Quais suas referências além das do skate?
Música, filmes, fotografia, animação… Arte em geral na real.

Você transa por todas as áreas né?! desenha, toca guitarra, fuma maconha, fotografa, edita, mais o que?
Também bebo, ando de skate e sou especialista em macarronada.

O Pirquitão no começo do vídeo realiza a proeza que ficou tão famosa por ter sido feita pelo Carlos Drummond, e depois por Fernando Sabino, que é atravessar o viaduto Santa Tereza pelo arco, como se deu isso?
Hahahahaha essa historia é boa. Um dia antes a gente tinha passado por lá a noite e falamos com ele que a galera costumava atravessar o arco e ele surtou, não estava acreditando, falou que o povo de BH era doido. No dia seguinte passamos no viaduto de novo, eu estava com a câmera em mãos pq estávamos tentando fazer uma do Kin num pico do lado, quando chegamos lá, tinha um cara atravessando de mochila nas costas tranquilinho, como se nada estivesse acontecendo, a rua estava lotada. Aí o Piriquitão ficou doido, falou que se o boy tava atravessando ele ia também kkkk. Não pensou duas vezes e foi mesmo, quando eu vi ele já tava na metade da subida. Foi espontâneo, teve nada armado não.

Uma das partes que eu mais gosto do vídeo é dos tratores e as fotos das árvores, aquilo entrou pra preencher espaço?
Foi pra fazer a transição de uma parte de BH para Jufas, dar um respiro antes de mudar e trazer mais pro interior. Achei que a trilha não só possibilitou mas também pediu isso nessa hora.

Você fala muito e gosta muito de companhia, tá ficando doido na quarentena? Que que você tem feito?
Completamente. Mas estou fazendo as mesmas coisa online. Tipo fazer vídeo chamada de 40 minutos com o Batata chapadão sem falar uma palavra, só rindo kkkkkkk.

Infelizmente pra ser vagabundo há um gasto né, Fi? você tá trabalhando ou tá querendo trabalhar em algum lugar?
Vagabundo não é facil, como diria Galvão e Moraes, mas to tranquilo nesse período na casa da minha mãe. Eu to só de freela, movimentando a CM novamente (logo tem produtos novos) e também trabalhando com ela nos seus novos projetos. Ela faz encadernação artesanal e livros de artista, eu faço a diagramação deles e crio as fotos que vão conversar com o texto e o contexto do trabalho quando é necessário. Por enquanto é um manifesto artístico, mas estamos caminhando no sentido de desenvolver uma marca, quem sabe, dentro ainda desse conceito do fazer artístico e autoral.

O que você acha que eu deveria ter perguntando e não perguntei?
Cala a boca aí e acaba com isso logo. 

Depois disso acho que vamos ter que dar um tempo na nossa amizade
Por favor.

Paraquedas

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