Diego Neves, vocalista da Legrand, lança “Mexicana” primeiro single solo.

por José Hansen e Francis Hempi

Foto: Elisa Chediak

Você é carioca e fez uma música ambientada na cidade, por que?
Moro aqui há quase 7 anos e tenho uma relação de muito carinho por JF. Aqui eu vivi experiências que no Rio eu não tinha conseguido, como iniciar uma carreira solo, por exemplo. Mas, além disso, eu tive um relacionamento duradouro com uma menina daqui e as coisas boas desse relacionamento foram, em grande parte, vividas aqui na cidade. Somos amigos, mas terminamos faz um tempo. A saudade dos momentos bons que tivemos foi o que me inspirou a escrever Mexicana

Mexicana é a pastelaria, conta pra gente um pouco da sua relação com o pastel mais famoso de Jufas.
Quando eu cheguei na cidade, todos os meu amigos me diziam que eu precisava comer o melhor pastel de Juiz de Fora. Achava curioso o fato de ser uma pastelaria móvel, que tem um ponto fixo no centro da cidade. Não me lembro exatamente a primeira vez que comi lá, mas lembro que a Mexicana nos foi uma opção, por várias vezes, na volta pra casa depois das manifestações que rolaram nos últimos 5 anos aqui em JF.

De quais manifestações você fala?
Contra o Impeachment de Dilma Rousseff, contra o corte dos direitos dos trabalhadores, à favor dos professores…

Você é estudante de ciências sociais, a faculdade influência nas suas composições?
De alguma forma sim. As composições são expressões de como enxergamos as situações que passamos, como lemos o mundo. Essa visão e essa leitura são uma equação de tudo que internalizamos, conhecimento que acumulamos. É inegável que a experiência da faculdade faz parte disso. Assim como as sessões de terapia e as conversas de bar.

Qual é o discurso por trás do seu som? Nos conte um pouco sobre as suas temáticas e motivações.
Nesse projeto solo eu busco abordar temas que cabem na história de qualquer pessoa, como as paixões, as reflexões sobre o futuro, sobre quem somos, o que queremos. Mas tudo de um modo mais sossegado, com uma certa leveza. Acredito que com a linguagem que escolhi usar nas composições, consigo dialogar com mais pessoas, de um modo suave.

Você acha que cabe suavidade no momento que estamos?
O momento é difícil e a delicadeza anda em falta, não sem motivo. Existe um universo explodindo a cada notícia lida. Pandemia, má gestão da situação no país, uma indignação genuína diante do negacionismo e das consequências que ele tem nos trazido, um presidente que, com sua ações, parece legitimar a opressão e os preconceitos. São sim tempos difíceis, de afastamento e de saudade. Mas, ainda assim, sempre há aquela mensagem que chega em forma de música, ou conversa, há sempre aquela palavra, aquele alguém que ajuda a trazer um alívio quando o peito parece que vai explodir de ansiedade. Tem sempre aquele amigo, a mãe, o pai, namorado que nos conforta nesse caos. Acho que nisso está a suavidade, é onde ela cabe nesses tempos.

Você começou a fazer música na cidade com o Legrand? Pode falar um pouco sobre essa safra de bandas?
Sim, meu primeiro projeto sólido com música foi a Legrand. É engraçado pensar que já faz 5 anos isso. Juiz de Fora é uma cidade rica de bandas e artistas, no meu ponto de vista. São estilos e vertentes variados, mas que conversam muito entre si. Lembro de banda que a gente viu crescer junto com a gente, como a Blend 87, por exemplo. A gente tem bandas como o Roça Nova, Baco Doente, BAAPZ, a Grogues, que entrou precocemente em hiato. Acredito que JF tenha uma safra de artistas únicos, que merecem ser vistos e ouvidos pela própria cidade.

Legrand. Foto: Bruno Amaral

Como artista, você se sente valorizado aqui?
É difícil falar disso. Sempre difícil. Mas acho que temos casas que buscam suprir de alguma forma a falta de espaços mais democráticos, que dão a chance do artista se sentir valorizado. O Maquinaria é uma casa que sempre nos deu espaço como artistas independentes e autorais. Isso nos faz sentir valorizados, mas essa não é uma unanimidade na cidade. Acho que se não fossem espaços como NCSSR e Maquinaria, por exemplo, seria muito mais difícil a gente conseguir espaço pra se fazer visto, ser valorizado. Acho que é necessário repensar como tratamos os artistas locais.

No single você cita alguns logradouros da cidade, Diego Neves é do clube dos amantes ou dos odiadores da cidade?
100% Amante!!! Eu sou realmente apaixonado nessa cidade

Juiz de Fora é uma cidade romântica?
Não sei dizer se romântica é a palavra que caberia como definição pra cidade, mas, pelo menos comigo foi assim, é uma cidade que sabe inspirar e abrigar amores.

Quando você recebe alguém de fora, qual lugar acha representativo para apresentar a cidade?
O MAMM é um espaço que eu recomendo a todos que vierem aqui. Um museu batizado com o nome de um poeta ímpar e um artista incrível que é um símbolo juizforano. Acho que o MAMM abriga nele um valor simbólico muito grande e representativo. Mas somo aí um passeio pela UFJF é uma visita ao Morro do Cristo. Dois lugares que representam a cidade e de onde temos uma vista maravilhosa.

Você pegou a fase das festas frequentes na UFJF? Pode contar algum caso?
Cara, entrei na UFJF em 2014. As festas ainda rolavam, mas eu sempre fui muito pacato. Acho que por ter entrado na universidade mais velho, entrei aos 27, meu ritmo foi outro. Não participei de nenhuma festa que rolou lá, mas meus amigos sempre estavam. Participei de duas calouradas só, nas duas eu estava tocando. Hahahaaha. Mas as calouradas não eram na UFJF.

Queria saber sobre os ensaios.. quando vi um show da Legrand achei tudo muito redondo, uma banda ensaiada e muito comprometida com a execução do show…. Daí sou curioso com o ensaio.. como fazer do ensaio produtivo e criativo, como banda e artista solo
Legal ler isso! Então, nossos ensaios levaram um tempo pra entrar no ritmo. Conciliar horários é o pesadelo de toda banda. Então a gente definiu um horário semanal, sempre depois das aulas. Isso já foi muito importante. E nos ensaios, geralmente, a gente chega com uma pré produção gravada em casa e começa a criar em cima dela. Quanto aos shows, a gente costuma ensaiar com o setlist na ordem, incluindo os momentos de pausa pra falar com o público. E outro fator que mudou muito nossa forma de ensaiar e tocar é ensaiar com click. A gente usa muitos recursos de backtrack, então é fundamental ensaiar no tempo certinho. Essa preocupação de levar o ensaio pro palco ajuda muito. E não posso negar: nossos ensaios são divertidos, então o clima acaba sendo de um encontro com os amigos. Isso ajuda bastante a não encarar o ensaio como uma coisa “chata”. Ali é nosso momento.

O que é backtrack?
São faixas complementares de instrumentos que a gente, por falta de integrantes, não consegue executar. Por exemplo: nas músicas da Legrand usamos muitos synths com várias funções diferentes. Como somos só 4 pessoas no palco e usamos 5, 6 synths diferentes, a gente usa esses synths gravados no show. Assim não fica diferente o que você ouve no disco e o que você ouve ao vivo.

Cyro, batera da Legrand, não tocou no solo mas vai entrar pela virtuose.

Cabelos aparados

Cabelos ao vento

Porque todo esse capricho com o som ao vivo? to falando do legrand mas vale pro solo… mas quem é o maestro do ensaio?? aquela palavra final.
A gente enxerga o show como um momento singular. Cada show é diferente do outro, porque tem sempre alguém que ainda não nos assistiu ao vivo. Esse capricho de levar o disco pro palco é comum a nós 4. Soa diferente, pelo menos pra nossa proposta, que é entregar um show com uma qualidade técnica no mínimo razoável. Isso facilita muito. Eu diria que nós quatro discutimos o que queremos e chegamos num consenso. Mas, na verdade, por usarmos bastante o click, o Cyro (baterista) é o cara que nos dá um norte do que rola ou não fazer no palco. No solo é a mesma coisa, apesar dos poucos shows que fizemos, é mesmo tocando sem click ainda, eu costumo levar as ideias, mas sempre valorizando o que a cozinha (baixo/bateria) acha mais viável.

E quem participa com você no projeto solo?
No solo quem tocou comigo nós dois shows foi o João Paulo na bateria e o Vini Fonseca (guitarra da Legrand) no baixo. Na composição e gravação eu fiz tudo sozinho, em casa.

Você já acorda com uma letra e uma melodia na cabeça ou é um processo, uma construção mais pensada, conta um pouco do seu processo?
Não tem muita regra. Na maioria das vezes eu tenho uma ideia melódica a partir de uma harmonia e depois vem a letra. Mas não é uma regra. A única coisa que não muda, que eu gosto muito de fazer, é tratar a letra como uma crônica ou poesia. A letra tem uma estrutura narrativa de texto literário. Acho que isso ajudar a deixar a composição mais rica, ajuda muito com a métrica e abre muitas possibilidades na hora de escrever.

Porque você escolheu masterizar e mixar suas músicas fora da cidade?Foi uma surpresa isso. Eu tava no Instagram, passando o feed, quando vi um post de um estúdio que eu sigo, que é de São Paulo. O post dizia: “OFEREÇO SERVIÇO DE MIX/MASTER GRATUITO OU A PREÇO SIMBÓLICO”. Por causa da pandemia, o Rubens Adati (Inhame Estúdio) quis ajudar. Ele é um cara que já trabalhou com muita banda boa de São Paulo, gravando uns projetos audiovisuais, gravou algumas guitarras do ep do Vella (Felipe Vellozo – baixista da Duda Beat), já fez trabalhos com a Raça. Quando vi o post, entrei em contato, troquei ideia, ele fez a primeira música de teste e dali deslanchou o projeto.

Fale um pouco sobre lançar um single exclusivamente nos meios digitais, sem poder toca-lo ao vivo graças ao Covid-19.
É uma forma de se manter atuante, de se fazer ouvido. O palco é, sem dúvida, uma experiência muito mais orgânica, de olho no olho, presença. Isso faz MUITA FALTA. Mas, a arte é o que tem nos servido como escape nesses tempos. Sendo assim, mesmo que seja exclusivamente digital, nossa arte se mantém viva, promovendo novos encontros, alcançando novas pessoas. Isso também é inspirador e gratificante.

Fazer sua própria direção de arte facilita a relação do som com o visual? Tem alguma experiência na área plástica que queira relatar?
O disco da Legrand é uma experiência que eu mais uso como exemplo. Queríamos criar uma atmosfera espacial, usar sons que remetessem às constelações e planetas. Assim eu fui criando um planeta pra cada umas das 12 músicas do disco e essas imagens nos davam muitas ideias sobres sons de ambientação e efeitos. Por não ter um intermediário facilita muito!

Vem mais música nova por aí?
Sim! Com toda certeza podem esperar que vem mais sons!!

Quer deixar uma mensagem ou falar algo que não abordamos aqui?
Acho que o clichê necessário: valorizem-os artistas locais, porque JF é um universos de artistas incríveis! Fiquem em casa, se cuidem, tenham calma e tudo vai ficar bem, em algum momento.

Gostou? Não? Que pena…

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