Com quantas facadas se faz um Gaspacho?

por Francis Hemp

Eliza e Juliana estão putas pra caralho. Resumindo o sentimento de um ano em apenas um minuto, PANDEMÔNIO é o single de estreia da dupla mais punk de Minas Gerais.

Por que Gaspacho? 

Liz: O nome foi ideia do Du (Pug Records), que sempre tem um bom nome na manga e a gente curtiu por ter essa coisa do vermelho, um visual meio comunista rsrsrs

Ju: antes a gente tava pensando em Bubble Wrapped mas putz, muito difícil de falar kkk 

Liz: pelo menos rendeu ideia boa pra uma música rs (segredo).

Você e Juliana são amigas virtuais, pode falar um pouco como são amizades a distância e quais as afinidades musicais de vocês? 

Liz: a gente se conheceu na banquinha do show do Séculos Apaixonados com Filipe Alvim em 2016 (acho que foi esse ano), e depois a gente foi trocando ideia sobre zine e de ter uma amiga pra trocar ideia de som, mas de tudo um pouco também. Em questão de afinidades, punk de olympia, como Beat Happening, Frumpies e Bikini Kill com certeza é algo que nos une bastante. Acho que os clássicos do indie dos como Sonic Youth, Pavement, Guided by Voices também…. Mas nem tudo bate 100%, acho que a Juliana saca mais das ondas góticas e os punks mais clássicos tbm.

Ju: acho bem doido como a gente consegue fazer coisas à distância que às vezes não fluem com pessoas que moram na nossa cidade. E acho mais doido ainda a gente já ter começado a gravar à distância antes disso ser praticamente uma necessidade pra artistas né. Quanto às afinidades, acho que a gente se liga muito pelo barulho e pelo riot grrrl. Eu tô sempre descobrindo algum som novo com a Liz. Acho que a troca de referências e de ideias sobre zine nos mantém bastante conectadas. 

 

O que você destacaria no processo de criação de pandemônio a distância? 

Liz: acho que a forma como as músicas foram sendo feitas, eu sempre esperava uma bateria vir antes. A gente começou tentando fazer uma música meio Polara, a Ju tinha me mandado uma letra e um vocal super legal, mas eu não consegui criar nada por cima porque não entendo muito de arranjo. Então pedi pra ela mandar uma bateria e ai eu fiz uma guitarra, e depois foi meio nesse sentido, tinha a bateria, as vezes ela mandava letra e vocal também e a gente foi criando. Foi diferente porque as coisas foram surgindo em partes, quando você apresenta um som pra sua banda presencialmente, é bem mais difícil de pegar a ideia, sei lá.

Ju: eu gosto do que o Du escreveu na biografia, porque eu sempre fiz as baterias com alguma sugestão do que poderia ser a música, e a Liz acabou escolhendo a “possibilidade de música triste” pra fazer Pandemônio, que acaba sendo uma música triste se você pensar na realidade nacional.

O que a masterização trouxe de novidade para você?

Liz: melhorou o som no geral, porque foi tudo gravado no celular ou no pc mas com aqueles microfones pra pc mesmo. Então acho que o Victor deu uma preenchida, aumentou os volumes e também criou um ambiente, em Pandemônio achei que fez toda a diferença.

Batata onipresente

Ainda sobre a criação em dupla, pode nos contar sobre os fanzines feministas?

Ju: eu vi a zine da Liz pela primeira vez no insta e fiquei completamente encantada com a ideia. Foi quase que meu primeiro contato com zine, eu sacava que podia ser sobre qualquer coisa mas a possibilidade de fazer uma tava meio longe. Quando ela me enviou vários exemplares da primeira No Lost Girls eu fiquei tipo putz preciso fazer isso!!!! Depois de uns meses surgiu a Garotas No Ataque, focada em mulheres bateristas, e a Liz diagramou pra mim. A gente fez meio que um “selo” de zines, o Faça Você Mesma, que sempre foi e acho que sempre vai ser nosso lema. Quase sempre nossas conversas resultam em ideia pra zine. Esse ano ainda acho que a gente vai conseguir produzir umas duas. É o jeito mais direto de passar informações e de manter elas fisicamente em algum lugar né.   

Podemos inferir que “Pandemônio” tem uma abordagem “literária”? 

Liz: acho que sim.

Outrora um amigo me disse “Bolsonaro ganhou… não faz sentido cantar em inglês”. Concorda? 

Liz: foi a primeira letra em português que eu consegui fazer, acho que graças ao caos.

Ju: as pessoas precisam entender que tá tudo um caos po, acho que Pandemônio só podia existir cantada em português mesmo.

Estava refletindo sobre a frase “Facada mal dada, tô puta pra caralho”, com certeza estou viajando, mas percebi que essa frase pertence a dois grandes universos, o introspectivo (quando você bate o dedinho no pé da cama) e o terrorista (quando você diz que o presidente deveria estar morto). Pode nos relatar o momento que a letra brotou?  

Liz: na verdade a letra surgiu da parte da cloroquina, quando eu descobri que a minha mãe tinha me dado pra tomar o vermífugo que o Bolsonaro falou que matava a covid. Ai fiquei bolada, e ela falou que tomaria cloroquina se pegasse o vírus e isso me deixou muito puta. A primeira vontade era tirar a minha vida com uma caixa de cloroquina como protesto, falei isso pra Camila da Olympia e ela disse que daria uma boa música, fiquei com isso na mente. Eu queria fazer algo meio Fellini e tinha essa bateria da Ju com o nome de “possibilidade de música triste”, quando eu li achei que ia ser algo meio emo, mas era bem porrada com essa parte lentinha que criava um clima no meio da música. Fiz a guitarra, baixo e depois fiz a letra, não foi feito desde o começo pensando que essa seria a Pandemônio. Sem dúvida o Bolsonaro poderia estar morto, ele quase morreu várias vezes e a vida dele ameaça a minha e de muita gente, principalmente num cargo de poder.

Que pé que tá o disco? Ele segue a sonoridade do single? E as temáticas? Você pode me contar algumas fofocas?

Liz: o disco tá com seis faixas, contando com Pandemônio, já quase finalizadas, vamos regravar uma e tentar gravar mais duas agora em dezembro. Acho que muda um pouco do single, porque todas as outras músicas são em inglês e são mais pessoais, menos políticas. Quero tentar fazer mais uma em português, mas eu acho muito difícil, não farei promessas. Acho que a Juliana desembola as letras melhor que eu.

Ju: acho que ainda não dá pra saber em que língua vão ser as outras duas kk acaba que depende da mensagem que a gente quer passar, se abrir emocionalmente em português parece um pouco mais difícil porque todo mundo vai sacar mais rápido do que se trata, diferente de um som de protesto que você quer que as pessoas entendam na hora, mas eu também queria fazer uma em português. De modo geral, acho que a sonoridade de todas as faixas casa muito bem, a gente meio que criou nossa estética e independente do idioma ou do tema vai ser um disco bem coerente. E vai ter menos de 30 minutos, o que eu acho perfeito kkk

O que você acha da ideia de que a facada foi armação? 

Liz: eu fico meio dividida nessa ideia, acho que o jogo mudou depois da facada, ou pelo menos parece que sim, e trouxe vantagens pro cara, por outro lado, era muito tentador dar uma facada nele, não acha? Só que tinha que ser bem dada!

Se você tivesse a chance de conversar com o Adélio, o que diria?

Liz: é complicado. Acho que ele deve sofrer um bocado, escutaria mais ele do que falaria qualquer coisa.

Você gosta de bloody mary?

Liz: já tomei uma vez numa reunião da faculdade rs. Não era ruim, mas ainda parece que to bebendo molho de tomate.

Tava lembrando daquele atentado com batatas fritas rsrsrsrsrs já pensou se fosse faca?

Liz: kkkkkkk nunca pensei. Aí sim seria o sustinho da madrugada!

Quais as temáticas do disco? não falamos disso…

Liz: é bem pessoal mesmo, a Juliana fala bastante de família, ela fez a maioria das letras, a que eu fiz é ataque de pânico uidhidahsidhuas.

Me conta do ataque de pânico? Já tive um prestando concurso público…

Liz: Eu fiz essa letra num dia que a gente ia ensaiar com a Olympia no estúdio do Baapz e fiquei muito ansiosa porque fazia muito tempo que a gente não ensaiava. Tava muito nervosa, queria tocar, mas não queria ser chata, a Carime tinha vindo de SP e era pra ser algo relax, mas eu tava com um sentimento ruim rs Acho que juntou também com aquela época das tretas, com aquela música, me deixou travada pra tocar um tempão. Infelizmente eu cheguei mais cedo que todo mundo na casa do Baapz e não queria subir pra não ser a primeira a chegar, fiquei esperando alguém aparecer escondida na rua suando frio e escrevi a letra rs mas no final deu tudo certo, entrei na terapia.

Nesse dia eu acho que a gente gravou a música da batata frita lá rs a “Don’t wanna become a problem”, da Olympia.

 

Demo de I don’t wanna become a problem

 

Você se lembra bem do dia da batata? 

Liz: Na verdade eu acho que eu lembro do que você me contou kkkkkkkkkk


O que eu te contei?


Liz:
A gente chegou no Maquinaria, o Colares foi conversar com uma conhecida dele, fomos andando do Canil até lá, tava todo mundo muito doido com a pupila dilatada. Você me contou que tava na porta do estúdio, que tava muito lotado, e tava com um prato de batata-frita e perguntou: “quer batata liz?” ai eu falei “quero”, peguei um mãozão de batata e taquei na banda rs. Depois que saí do Maquinaria vi a Carime e o Lucão com o olho arregalado, tinham saído de um show no Necessaire, e depois o Fred passou de carro e acabou a noite. Acho que não dormi até o dia seguinte. Vou aproveitar aqui e pedir desculpas ao Lupe de Lupe pelo lance da batata rs.

Foi uma onda boa?

Liz: frenética kkkkkkk aquela que da vontade de entrar numa briga, eu tava nesse clima, mas foi só batata rs ainda bem… hifhusdihudfish relatando a minha intimidade…espero que a minha mãe não leia isso!

Intimidade é tudo que o internauta quer…

ESCUTE

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