Sexta Sei: Com “histeria agressiva 100% neurótica”, MC Taya faz ativismo antifascista por meio do Metal Mandrake, o Fock

A mistura de funk brasileiro, rap e trap ao metal veio para educar jovens contra onda fascista e redpill e acolher mulheres e LGBTs

por Fabiano Moreira
sextaseibaixocentro@gmail.com

Fotos Matt Soulz

Não demorou muito para a carioca de Nova Iguaçu Tatiane Pereira de Oliveira Gomes empunhar um contrabaixo, aos 12 anos de idade, encarnar e se transformar na Tay Massacre, mais tarde, e em 2023, MC Taya, alter ego sem idade declarada que lançou os fundamentos do metal mandrake, ou fock, modalidade do nu metal que mistura elementos estéticos e sonoridades de funk brasileiro, rap e trap ao metal. Ela surgiu para o mercado em 2019, com “Preta Patrícia”, com produção do DJ MU540 que evidenciava a MC, mas ainda não a metaleira. No ano passado, ela fechou contrato com a gravadora Deck, formando a banda MC Tava com Spieker nas guitarras e DJ e Salva na bateria e gravando o segundo volume do EP “Histeria agressiva 100% nervosa”.  Spieker é integrante da Isotopx, que ajudou a MC a criar as bases do metal mandrake. Batemos um papo, aqui para a #SextaSei, no qual ela me contou que o apreço pelo rap veio da construção da autoestima como mulher negra. “Em 2019, trabalhando em São Paulo com publicidade para artistas, voltei a ter vontade em fazer música, na época, eu estava distante e muito triste com a cena reacionária e conservadora no rock, o que fazia com que eu só escutasse rap/trap/funk, o que pra mim, na época, era mais disruptivo e me dava uma autoestima como mulher negra que o rock nunca me deu”, explica a artista que, na Deck, está ao lado de outras bandas com sonoridades e ideologias semelhantes, como a Black Pantera, a Punho de Mahin e a Eskröta, essa última banda com quem Taya excursiona com a Mantra Tour, que passa por mais de dez cidades em quatro estados do Brasil, inspirada na participação da MC no último álbum da Eskröta, “Blasfêmea” (2025), que rendeu papo aqui. Os shows acontecem em São Paulo, passando por São Carlos (02/04), Americana (03/04), Diadema (10/04) e Jundiaí (11/04); Rio Grande do Sul, em Porto Alegre (30/04); Santa Catarina, por Florianópolis (01/05) e Blumenau (02/05); Paraná, em Curitiba (03/05); Distrito Federal, em Brasília, no Festival Porão do Rock (22/05) e de volta a São Paulo, em Campinas (29/05). “Todas as bandas de Metal Mandrake e seus frontleaders são marxistas haha Eu não me coloco como marxista, mas sim, me vejo como uma ativista antifascista. Acredito que o capitalismo está lado a lado com o racismo e que, juntos, são armas de opressão de massa”, arremata, sobre o conteúdo de suas canções.

Moreira – Do single “Preta Patrícia”, com o craque M540, para o metal mandrake de agora, na Deck, seu som teve um grande amadurecimento, abraçando as influências do metal e soando bem mais pesado. Como foi a construção do Fock, esse estilo de nu metal que mistura elementos estéticos e sonoridades do funk brasileiro, rap e trap ao o está relacionado ao funk em São Paulo, funk bruxaria, a festa Submundo, o beat bolha dos capixabas. E também tem referência ao Bonde do Rolê e ao “tesouro” Chernobyl, da Comunidade Nin-Jitsu, bandas que formaram meu caráter.

MC Taya – Minha carreira musical começa quando eu tinha 12 anos, quando formei minha primeira banda de Nu Metal com referências de KoRn, Kittie, Otep, se chamava Menocide. Tive diversas bandas de nu metal/metalcore durante a adolescência até decidir desistir da música de vez. Em 2019, trabalhando em São Paulo com publicidade para artistas, voltei a ter vontade em fazer música novamente, na época eu estava distante e muito triste com a cena reacionária e conservadora no rock, o que fazia com que eu só escutasse rap/trap/funk, o que pra mim, na época, era mais disruptivo e me dava uma autoestima como mulher negra que o rock nunca me deu. Por isso, “Preta Patrícia” e toda a carreira no rap, mas após os anos, eu senti que necessitava voltar ao rock. O rap já estava (e está) com muitas mulheres negras incríveis e o rock ainda tinha esse déficit, essa lacuna vaga. Resgatei minhas memórias, minhas dores nesse espaço e resolvi voltar mais forte porém com toda a bagagem que aprendi no rap/trap/funk. Já era uma pesquisa bem antiga minha, eu sempre achei que o rock (especialmente o Nu Metal, pelas suas misturas de gêneros) e o funk tinham uma sinergia que eu deveria explorar. Foi quando conheci a bruxaria paulista, pela Dj Dayeh, que me foi apresentada pelo Mu540 e tudo fez sentido. Bonde do Rolê, Chernobyl e etc. foram grandes referências ao longo da vida do que eu sempre quis fazer. 

Foto: Victor Takayama

Moreira – Um dos elementos que mais gosto do seu trabalho é que ele é, essencialmente, anticapitalista e antifascista. Você fala sobre a raiva e o sofrimento de uma mulher negra, as síndromes da a solidão da mulher negra e da mulher negra raivosa, críticas sociais, genocídio e negligência de jovens periféricos. Tem mensagens contra a escala 6X1, o Crivella, a força policial, e um discurso claramente marxista, a favor do proletariado. O metal Mandrake é revolucionário?

MC Taya – Sim, totalmente! Todas as bandas de Metal Mandrake e seus frontleaders são marxistas haha Eu não me coloco como marxista, mas sim, me vejo como uma ativista antifascista. Acredito que o capitalismo está lado a lado com o racismo e que, juntos, são armas de opressão de massa. O Metal Mandrake tem como objetivo ser divertido, mas também educar os jovens contra essa onda fascista e redpill que estamos vivendo. Queremos acolhimento para mulheres e LGBTs que se sentem amendontrados por essa onda de violência.

Moreira – Você conhece os meninos da Casa F3ia? Acho que é o estilo mandrake na tatuagem, os moleques são gigantes com a tatuagem de estética ignorante, sujeira total. Sou fã.  

MC Taya – Simmm! Invocado e Fumorreu são muitooo Metal Mandrake, o Fumorreu sempre brinca que vamos fazer um feat musical um dia. E a gente ver que o Metal Mandrake tem crescido tanto que tem virado estética: de tatuagem, de moda, de estilo. E isso faz com que vire um movimento bem legal! Como figurinista formada, fico muito feliz com isso! Minha pesquisa em arte e moda sempre veio por meio da música, e acho muito bacana quando os movimentos englobam tudo!

Fotos: Victor Takayama

Moreira – Outro dia, no X, falamos que você estava ansiosa para um show na Rua do Rock, na oficina mecânica. Aquela rua é uma doideira, né? Tem uma energia que emana do chão. Como foi o show lá?

MC Taya – Seria do Garage? Se sim, foi muito bom! Lugar histórico pro Rock no RJ né? Eu ia com a minha irmã bem novinha pra lá e achava o máximo. Então foi um showzão muito legal!

Moreira – Como foi a formação da banda que te acompanha agora? Hoje, a banda conta com Spieker nas guitarras e DJ e Salva na bateria, que produzem musicalmente as músicas do power trio. Spiker é integrante da Isotopx, que, contigo, criaram as bases do metal mandrake?

MC Taya – Conheci o Salva por meio do produtor da DJ Dayeh, minha amiga e parceira musical em várias músicas. Eu estava precisando de um produtor musical fixo pra fazer o EP “Histeria Agressiva 100% Neurótica vol 1” e essa pessoa precisava sacar muito de rock/metal e de funk/trap pra ter o resultado que eu queria. E o Salva era o cara perfeito pra isso e, de bônus, descobrimos que éramos vizinhos (morávamos no Centro de SP, literalmente uma rua atrás do outro), colamos um no outro. Aí veio a minha participação no show da The Mönic no Knotfest que mudou tudo, porque colocamos o evento abaixo, eram 15 mil pessoas gritando e curtindo uma música que nunca tinham ouvido, ali o Salva viu meu potencial como frontwoman e disse que queria ser meu baterista e que iríamos montar uma banda, a banda MC Taya, eu concordei, pois, no fundo, já era o que eu queria mesmo, e começamos a correr atrás de um guitarrista, porém, ele precisava ser DJ também hahaha. Na época, eu já havia conhecido o Spieker por causa da Isotopxs, que eu já tava muito fã, e ele tava se mudando para São Paulo justamente para trabalhar como produtor musical. Foi quando eu e o Salva postamos nas nossas redes e ele veio falar com a gente dizendo que queria super integrar a banda, ali vimos que seria incrível nos juntarmos (até pelo crescimento de cena em formação do Metal Mandrake) e foi o que aconteceu! E estamos aí há quase dois anos e já com muitos feitos legais! E é só o começo!

🌊🪼🫧🐚𓆝𓆟 Como uma onda no mar 𓆞𓆝𓆟𓇼🪼🫧🐚🫧🌊

Sara e Nina no estúdio da Betina Polaroid

As drag-queens cantoras Sara e Nina, que sextaram aqui, voltaram ao estúdio da Betina Polaroid para clicar as fotos de divulgação de seu terceiro álbum, “Com lágrimas nos olhos”, o segundo a revisitar o cancioneiro romântico, quase sempre beirando o kitsch, depois de “Minhas mulheres tristes – Uma ode furiosa ao samba-canção” (2023). Produzido e muito bem arranjado por Jadeco, com versões inusitadas, elas revisitam oito sucessos românticos que marcaram as carreiras de seis importantes vozes femininas brasileiras entre os anos de 1970 e 90, como Alcione, Fafá de Belém, Zizi Possi, Diana, Martinha e Jurema, que cantavam no período ainda muito machista do mercado fonográfico, o repertório dialoga diretamente com o posicionamento artístico da dupla, que aborda gênero, corpos dissidentes e deslocamento.

O repertório privilegia canções consideradas “lados B” da memória popular, nas quais as personagens estão mais fortes, mais conscientes de si, reagindo às dores sem tanta tragédia. São músicas que choram a desilusão, mas trazem uma ideia de ternura e reconstrução. E que caem como uma luva na estética drag, kitsch e exagerada. “Gostamos muito das músicas desse período porque elas falam do amor de uma maneira diferente dos sambas-canção que gravamos no disco anterior. Aqui, as personagens estão mais potentes, mais conscientes de si, reagindo às dores sem tanta tragédia. É um repertório que emociona porque, além do choro, traz ternura, fortalecimento e reconstrução”, explica Nina Bellohombre, drag incorporada pelo cantor, ator, diretor e dançarino Alessandro Brandão. A dupla, que já foi um casal, e se apresenta em duo desde 2014, e começou a carreira com o autoral “Céu de Framboesa”, em 2021, tinha a ideia de fazer um álbum era produzir um disco mais solar, que se chamaria “Momentos Felizes”, reunindo sucessos mais alegres daquela época. Mas, durante a pesquisa, a dupla acabou mergulhando em nova safra de sofrências do cancioneiro romântico nacional. São composições assinadas por homens, mas que ganharam permanência na memória afetiva brasileira nas vozes dessas cantoras. Minha preferida é “Porque brigamos”, versão em português de “I Am… I Said”, de Neil Diamond, lançada por Diana nos anos 1970.  “Muitas dessas músicas foram enormes sucessos, mas hoje quase não são mais ouvidas. Algumas ainda carregam o rótulo pejorativo de ‘cafona’ ou ‘brega’, o que só aumenta nosso amor por elas”, destaca Sara Bellohombre, drag do ator e cantor Gabriel Sanches. Os arranjos são tão ricos que algumas canções chegam soando bem diferente aos ouvidos, com novas sonoridades, timbres e levadas atuais, criando um disco mais doce. O show de estreia está previsto para o mês de abril, com as queens interpretando Nuvem de lágrimas”, “Bilhete”, “O que eu faço amanhã” e mais.

Foto: Jeton Bakalli
Foto: Mathieu Zazzo
Fotos: Jamie Spillet

São grandes as expectativas para a estreia em álbum da dupla de dance-pop estadunidense Fcukers, formada por Shanny Wise (vocais) e Jackson Walker Lewis (baixo, teclas, produção), que estreia no dia 27, com “Ö”,  pela Ninja Tune, sucessor do EP “Baggy$$” (2024). Eles estão de passagens compradas para São Paulo, aonde irão abrir aos shows da turnê “Together Together” de Harry Styles, nos dias 17 (esgotado), 18, 21 e 24 de julho, no Estádio Morumbis. Os singles que saíram antes do álbum, como “If you wanna party, como over to my house”, “Beatback”, “L.U.C.K.Y”, “Play me” e “I like it like that” enchem a imaginação de domínios e prometem um dos melhores e mais dançantes álbuns do ano. O aguardado álbum de estreia foi produzido por Kenneth Blume (FKA, Kenny Beats) e gravado durante uma intensa sessão de estúdio de duas semanas que sucedeu o encontro inicial entre o trio. 

O disco foi mixado pelo engenheiro Tom Norris (Lady Gaga, Charli XCX, The Weeknd), com produção adicional de Dylan Brady, do 100 Gecs, em três faixas. Detentores do status de principais agitadores de festa de Nova York, eles abriram para o LCD Soundsystem durante a residência de 12 noites da banda no Knockdown Center, comandaram festas da Celine, escolhidos pessoalmente por Hedi Slimane, inauguraram a Louis Vuitton em Manhattan com Mike D, do Beastie Boys e discotecaram na after party privada de Coachella de Charli XCX.

Fotos Odara Barbosa

Celebrando as raízes negras da house, a produtora carioca radicada em São Paulo Aya Ibeji lança álbum de estreia, “Ativação Travesty”, no qual faz uma síntese de suas influências, como house, o vogue beat da ballroom, presente na faixa-título, club music, techno e funk. Com passagens pelos palcos de Lollapalooza, Mamba Negra, Nova Affair e Rock The Mountain, ela é amiga do kingo do house mineiro, Kabulom, e já participou da Rua do House, projeto pioneiro no Viaduto de Santa Teresa, em Beloryhills. A estreia é uma afirmação de suas raízes pretas e LGBTQIA+, elevando a própria cena da qual faz parte. “Esse álbum reflete sobre a ideia da existência de ritmos, formas e vivências ancestrais que, a partir de uma ativação, se desenvolvem em diversos caminhos de reflexão do nosso próprio Orí (orixá pessoal) e de quem nós somos”, aponta Aya Ibeji. Nos visuais, a artista contou com a fotografia de Odara Barbosa e arte de Gabriel Furmiga, além de beleza de Anddy Williams, reunindo  time de pessoas pretas e LGBTQIA+. Ela já havia lançado, em 2024, os EPs “Ibeji” e “Mutante Club Kween”.

O agendão das maravilhas segue nos destaques do meu Instagram, separado por cidades, e em thread infinita no X.

Playlist com as novidades musicais da semana, que consolida às 2h da sexta, com álbuns de Chocorn and the Sugarcanes,Aya Ibeji, Haute & Freddie, Getúlio Abelha, Kim Gordon, Jack Harlow, Jorge Drexler, Sara e Nina, Sonika, Gabriel Leone, EPs de Jonnata Doll e os Garotos Solventes + YMA, Henri Vasques e mais.

Todas as playlists de 2025, 2024, 2023 2022, 2021 e 2020 nos links

Para melhores resultados, assista na smart TV à playlist de clipes com Cobrah, Baby Keem + Kendrick Lamar + Momo Boyd, Harry Styles, Jorge Drexler + Rueda de Candombe, Pneu + Paulo DK + Maffalda, Bleachers, Guilherme Arantes, Jefferson Placido + Bia Ferreira + Padre Júlio Lancellotti, Kassel, Abbot, Benny Benassi + Axis Zero, Phoebe Rings, Mariana Nolasco,Jáder + Totô de Babalong, TZ da Coronel + MC Cabelinho, Mø, Maui, Bebe Rexha & Faithless, Rodrigo José, Jonas Blue & Malive, Charlie Puth + Hikaru Utada, Johnny Hooker, Jonnata Doll e os Garotos Solventes + YMA, 1000vall + Bearcubs, Yemi Alade, Alewya + eejebee, Arlo Parks, Mari Froes, Kacey Musgraves, Dornelles + S4TAN + CyberKills + Hiran + Claudinho, Cochise, Peso Pluma+ Tito Double P + Armenta e Robyn

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