Álbum gravado pelo trio entre Rio de Janeiro, Recife, São Paulo e Lisboa soa como se nascesse de um único território negro
por Fabiano Moreira
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O álbum “Criolo, Amaro & Dino” é o resultado do encontro artístico entre os brasileiros Criolo, 50 anos, um dos nomes mais importantes do hip-hop brasileiro e de São Paulo, com flertes com samba, o pianista pernambucano Amaro de Freitas, 34, e o algarvio de ascendência cabo-verdiana Dino D´Santiago, 44. A partir de um encontro em estúdio, em Portugal, eles compuseram e gravaram “Esperança”, lançada no último maio e nomeada ao Latin Grammy. O álbum é um desdobramento dessa amizade e traz temas urgentes como a ecologia. “As pessoas acham que amanhã vamos comer carros e aviões, vamos nos alimentar de óleo diesel e nos banhar de portas e parafusos, descansar aos pés de algum escombro que vamos pintar de verde e chamar de árvore”, me conta o simpático e elegante Criolo, sobre uma das faixas mais potentes do álbum, “Amazônia (A-i´ahu)”. “Como olhar pra frente e vislumbrar um mundo melhor, se a gente está destruindo tudo já há tanto tempo? Então, vambora. É urgente. Esse contemporâneo grita. Preservação do planeta é um tema banalizado. E a gente retoma isso mais uma vez. Infelizmente, isso é tema, o que deveria ser o óbvio do óbvio”, enfatiza. O álbum une o rap de Criolo, o piano inovador de Amaro de Freitas, que redesenha o jazz a partir das tradições rítmicas de Pernambuco, como maracatu, frevo e baião, aqui unidos ao batuku, canto-resposta, e o funaná, intimamente associado ao acordeão diatônico, contribuições de Dino.
Moreira – Esse encontro começou em Lisboa, quando gravaram “Esperança”, lançada no último maio e canção nomeada ao Latin Grammy. Foi o ponto de partida para esse álbum “Criolo, Amaro & Dino”? Como vocês se conheceram e como surgiu essa ideia de colaborarem? Precisamos de mais lusofonia, integrar mais os povos que falam língua portuguesa? Há muito mais que nos atravessa do que a língua, né?
Criolo – Salve, salve, família. Obrigado pelo espaço. Vamos lá. Esse encontro começa, antes de tudo, eu conhecendo o Amaro, pelas bênçãos do mestre Milson Nascimento. Nós tínhamos duas músicas para gravar, para terminar um disco nosso, que teve o início com o arranjo do Arthur Verocai e direção de Daniel Benjamin. Isso ficou parado por um tempo e, quando a gente retoma, a equipe do Bituca e o próprio Bituca acenam com uma novidade. O Bituca tinha acabado de conhecer o Amaro, um jovem pianista pernambucano, que ele tinha gostado demais. Então, a partir disso, ele é convidado para fazer os arranjos das músicas. E assim eu o conheço. Faltando, acho que, uma semana para o lockdown da pandemia, eu conheço o Amaro Freitas, pelas bênçãos do nosso amado, querido e incrível mestre Milton Nascimento. Depois de um tempão, eu voltando de Sevilha, voltando do Grammy, eu estava indicado ali com o Planet Hemp, “Melhor Música Alternativa”, por “Distopia”, e indicado também com “Melhor Canção”, uma canção que foi escrita por mim e por Arnaldo Antunes e foi interpretada por Ney Matogrosso, “Algoritmo Íntimo”. Aí, ao voltar de Sevilha, eu paro em Lisboa. Quando eu paro em Lisboa, já tinha marcado esse encontro com o Dino, da gente se conhecer, e ele marcou na Associação Cultural de Cabo Verde. Chegando lá, tinha uma exposição dos “Mandinga – uma história mal contada”, a representação dos mandingas (*grupo étnico da África ocidental, com uma população estimada em 45 milhões de pessoas, remanescentes do Império do Mali), e um trabalho de artistas plásticas feito pelo jovem Amadeu Oliveira, que é um artista plástico caboverdiano muito incrível. Ele queria muito que eu chegasse na Associação Cultural de Cabo Verde, dentro desse ambiente, sendo protegido pelas imagens dos Mandingas. E assim eu conheci o Dino. O convidei para um disco de samba que eu tinha pronto, para a gente cantar junto, interpretar juntos esses sambas. Nessas indas e vindas de estúdio, nasce a música “Esperança”. A gente ali, gravando essa música, a gente parou um pouco com o samba, fomos gravar essa música, logo pensei no Amaro, se ele poderia trazer a alma do piano dele para essa música que já nascia tão forte. E foi assim que aconteceu esse trio. Com o passar do tempo, a gente foi entendendo que aquele encontro estava fazendo muito bem para a gente, e que a gente podia se encontrar mais. E assim nasceu uma necessidade muito maior de celebrar nossa amizade, nossas histórias, nossas trajetórias, nesses possíveis ou impossíveis encontros, pois as agendas do Dino e do Amaro são bem complicadas. Foi assim que se deu e a gente foi entendendo a força. A força da palavra, a força da nossa cultura e para além. O Dino abre para a gente portas no universo dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (Palop) (*também conhecidos como África Lusófona, com Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e a Guiné Equatorial), de um jeito muito generoso. E toda a grandiosidade da cultura, da música desse povo, nosso povo, gente nossa. E o Amaro traz essa alma do Recife, a alma do Brasil nesse piano. Então a gente percebe ali uma força maior, e a gente quer que todo mundo esteja participando disso, que a língua portuguesa é tão linda. E, quando ela vem com o tempero dos países africanos que falam essa língua, tudo se transforma. Então, nos atravessa essa nova língua portuguesa, esse ressignificar. E, junto a isso, a língua crioula, que o Dino nos presenteia com essa beleza. E são muitas histórias ali contadas e tecidas que acabam influenciando diretamente o som que a gente estava fazendo ali como uma forma de celebração. E sim, há muito mais que nos atravessa.
Moreira – Vocês carregam, individualmente, o som da diáspora africana, mostrando que a “música também é lugar de reparação”, como diz o belo release escrito por Kalaf Epalanga Ângelo, da banda Buraka Som Sistema. “A música negra não é um gênero; é uma conversa permanente sobre liberdade”, ele completa. Ele acompanhou o processo desse álbum? Como a questão da raça e da diáspora é tratada no disco?
Criolo – É tratada simplesmente pela nossa existência, a nossa existência já é o tudo, é o núcleo e como se deu essa existência e o quanto a gente lutou para chegar nesse lugar de amor sincero a música, a música de amor sincero, a nossa cultura e isso é muito forte, isso é permanente e é único, então acredito que esse encontro nosso é uma potência para além do álbum, ela escancara essa essa urgência de que pouco se fala, de que pouco se percebe dessa força toda, então acredito. Muito que a nossa existência e a nossa resistência é o que pauta também toda essa musicalidade e que atravessa todos esses temas, porque o tema é o outro ler, e nós vivemos a nossa verdade, nada mais que a nossa verdade, porque, às vezes o outro ler entende ser distante, nós sentimos na carne, bem na carne, de modo profundo.
Moreira – Acredito que a questão mais urgente da contemporaneidade seja a ecologia e a preservação do planeta, que vem dando claros sinais de alarme e aquecimento, tema de “Amazônia (A-i´ahu)”., que tem bela interpolação de “Passaredo”, de Chico Buarque. “Corre, acorde ali tá pegando fogo, olha ali que tá pegando, a Amazônia está pegando fogo, não é só L.A. que tá pegando fogo”. Enquanto a ciência caminha para uma maior longevidade do ser humano, com a edição genética sendo estudada na USP, temos incerteza de aonde iremos habitar. É importante que os artistas abracem essas mensagens ecológicas?
Criolo – É de extrema importância abraçarmos isso, porque é nossa casa, e a nossa casa corre perigo já há tantos anos, há tanto tempo, e não vejo avanço no Marco Temporal, não vejo avanço sobre respeito aos territórios quilombolas, a gente não vê avanços sobre uma real preservação do nosso território, do território global em si, enfim, aqui, essa Amazônia nossa, pulmão do mundo, está tudo sendo muito banalizado, as pessoas acham que amanhã vamos comer carros e aviões, vamos nos alimentar de óleo diesel e nos banhar de portas e parafusos, descansar aos pés de algum escombro que vamos pintar de verde e chamar de árvore. A sociedade global escolhe para quem chorar, a sociedade global escolhe quem quer defender, e essas pautas vão ser sendo esvaziadas, surgem vez ou outra por interesse, talvez eleitoral, enfim, então, sim, é de extrema importância. Temos muitas pessoas sérias lutando sério é Célia Xakriabá, Sônia Guajajara, tantas outras pessoas lutando, e eu acho que a arte abre essa comporta realmente de que não dá mais para esperar e que as coisas tem que acontecer, porque sem futuro. O que a gente faz? Que sonhos serão tecidos? Que conversas vamos ter? Como olhar pra frente e vislumbrar um mundo melhor, se a gente está destruindo tudo já há tanto tempo? Então, vambora. É urgente. Esse contemporâneo grita. Preservação do planeta é um tema banalizado. E a gente retoma isso mais uma vez. Infelizmente, isso é tema, o que deveria ser o óbvio do óbvio. Muito obrigado a todos pelo espaço, pela oportunidade. E vambora, vamos pra cima. Não pode perder esperança nunca, a gente trabalha todos os dias para que as mudanças cheguem.
*Notas do jornalista
🌊🪼🫧🐚𓆝𓆟 Como uma onda no mar 𓆞𓆝𓆟𓇼🪼🫧🐚🫧🌊
Que alegria assistir ao meu amigo querido Victor Fonseca de volta à bateria após licença médica em “A espada era a lei”, que marca a transição da banda André Medeiros Lanches, da qual já falei antes aqui e aqui, para Lanches. A faixa, com título inspirado em filme de animação dos anos 60, ganhou clipe bacana da produtora Filmes do Mato, com os integrantes em uma festa do pijama, quando voltam a ser crianças. A banda é formada ainda por André Medeiros (vocal, guitarra), Stéphanie Fernandes (baixo), e pela queen undeground Amélia do Carmo (synths, percussão), da sextante Varanda. A banda já excursionou com a também sextante Pelados por palcos clássicos do underground, como Bar Alto e Picles (SP), Casa Matriz (BH) e Audio Rebel (RJ). A Filmes do Mato é uma produtora audiovisual independente fundada em 2018 por Bruna Schelb Corrêa e Luis Bocchino. A canção, com letra de André Medeiros, aborda o sentimento de alienação diante das demandas impostas por uma sociedade hiperconectada.
Além de ser um ávido consumidor de Drag Race em todas as praças criadas pela mamma Ru, estou completamente obcecado pelo reality competitivo “Traitors”, que já assisti em suas versões americana (Peacock), inglesa (BBC One) e portuguesa, e que vem desbancando a corrida nos prêmios Emmy. O programa teve seu formato criado, originalmente, na Alemanha, como “De Verraders” (2021), e depois foi reproduzido na Inglaterra, em 2022, e nos EUA, em 2023, junto à versão portuguesa, “Os Traidores”. Enquanto a versão americana, até agora feita somente com celebridades, está abrindo inscrições para uma nova edição com pessoas comuns, é apresentada por Alan Cumming, ator, diretor, produtor, escritor e ativista escocês ganhador do Tony Award por sua icônica atuação em “Cabaret”, a versão britânica, que tem a versão com pessoas comuns e também a versão celebrities, é comandada pela dark Claudia Winkleman, ambos em um castelo nas Terras Altas da Escócia, e a portuguesa, no Mosteiro de Alcobaça, no Oeste de Portugal, por Daniela Ruah. O jogo é inspirado no tradicional jogo de salão “Máfia”. Na primeira noite, são escolhidos três traidores que, a partir daí, matarão, por carta, um hóspede por dia. As vítimas, todas as noites, votam para eliminar um competidor que seja o assassino. Na temporada americana, sempre tem uma drag de RuPaul no elenco, como Peppermint, Bob, the Drag Queen, e, na temporada atual, temos Monét X Change. A série é eletrizante e, como o próprio nome indica, cheia de traições entre os próprios traidores. Viciante demais. A série também já chegou a Austrália, Bélgica, Canadá, Croácia, Tchéquia Eslováquia, Dinamarca, Finlândia, FRança, Alemanha, Grécia, Hungria, ìndia, Irlanda, Israel, Itália, Países Baixos, Nova Zelândia, Noruega, Polônia, Romênia, Rússica, Coréia do Sul, Espanha e mais. A melhor edição foi a Traitors UK Celebrities, com Alan Carr, sir Stephen Fry, Jonathan Ross, Celia Imrie, Joe Marler e grande elenco.
Impossível falar em séries do momento sem comentar “All her fault” (Prime Video), um thriller alucinante de comer de uma vez só no qual só tem um inocente, o gracinha do personagem vivido por Duke MacCloud, o mais bem vestido do Golden Globes, ao lado de Owen Cooper, de “Adolescência”, como dá pra conferir aqui. Muito legal ver uma série bem estruturada e que é uma obra em si, que tem fim e conclusão.
Também brilharam a ironia “Pluribus” (Apple), ficção científica pós-apocalíptica criada por Vince Gilligan e protagonizada brilhantemente por Rhea Seehorn. A sensação do momento mesmo é a broderagem que vira amor entre os atletas de hóquei no gelo vividos pela dupla carismática Connor Storrie e Hudson Williams, que também causaram no Golden Globes, “Heated Gilvetry”, que está chegando na HBO, em fevereiro, e é inspirado na coleção de livros “Game Changers”, da autora Rachel Reid, sobre casais LGBTQIA+ no hóquei no gelo. A segunda temporada já está confirmada, e a série foi gravada no Canadá pela Crave, pela maior liberalidade nos costumes.
Mas as pupilas estão mesmo bem dilatadas para duas aguardadas estreias. A primeira é no domingo (18), com a prequel “A night of seven kingdoms”, com os acontecimentos um século depois de “A Casa do Dragão” e cem anos antes de “Game of Thrones”. A dinastia dos dragões e dos Targaryen ainda governa, e a série mostra a história da nobreza pela perspectiva do povo, acompanhando Sor Duncan, o Alto (Dunk), que tem seu destino mudado ao cruzar o caminho de Egg, um garoto insolente que insiste em ser seu escudeiro e é, na verdade, Aegon Targaryen. E a segunda é a terceira temporada de “Euphoria”, em 12 de abril, com a Rue (Zendaya) mais lascada do que nunca (com uma lágrima caindo no poster) e toda a sorte de problemas da juventude, como drogas, sexualidade, vida on-line, gordofobia e muito mais.
Sou apaixonado por Novos Baianos e Os Mutantes, duas bandas que formaram meu caráter musical e marcaram um período da juventude, nos anos 90, quando ouvia a essas belezas ainda em CD, entrando na faculdade. Em 2021, logo no começo da Sexta Sei, fui tremendamente impactado pelo álbum “Além da boca”, especialmente por “Ligeiro demais”, em dueto com Tim Bernardes, o que me fez ficar mais atento ao artista. Celebrando todas as fases dos Novos Baianos e reunindo composições marcantes de diferentes momentos da trajetória do grupo, ele lança, agora nas plataformas, pela Deck, o álbum “Paulinho Boca Canta Novos Baianos”, gravado ao vivo em Salvador, em 2007, com sucessos como “Mistério do Planeta”, “Brasil Pandeiro” e “Preta Pretinha”. “Esse álbum traz versões ao vivo de músicas do primeiro álbum do grupo, o ‘Ferro na Boneca’, que nunca mais havíamos tocado, até canções também de álbuns que vieram depois do ‘Acabou Chorare’ como o ‘Futebol Clube’, ‘Novos Baianos ao Vivo’ e ‘Farol da Barra’”, conta Paulinho.
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