O astral de Clara Castro

por Francis Hempi
transcrição de áudio: Dinossauro Jr.

Conheci a Clara numa virada de ano muito doida em SP, dois anos atrás, e, na minha bolha, recheada de amigos em comum. Eu não sabia que ela gostava de pão com sorvete. O contexto dessa entrevista é isso, ela tá lançando trampos novos e eu to perguntando de trás pra frente. Segue o cometa!

“…quando toquei Rita Lee pros estudantes adolescentes do ifet num evento da escola e muitos pareciam estar descobrindo o rock brasileiro ali…”

Quando foi que você decidiu ser artista?
Cada vez respondo uma coisa quando me fazem essa pergunta. Acho que a compreensão, o processo de se ver como artista é um cadim mais lento, porque essa decisão é meio subjetiva, depende da gente e não depende ao mesmo tempo. E não tem caminho certo ou pré-determinado pra trilhar. Tem dias que sinto até como se não tivesse decidido ainda, pensa bem.

Mas ouvindo as histórias dos momentos de revelação que a galera conta, fico buscando quais foram as minhas revelações. E acho que tem a ver com primeiras vezes, tipo quando compus a minha primeira música pra valer e fiquei em êxtase, pensando: uau, gente, eu posso fazer isso!. Ou quando subi num palco com o violão na mão pela primeira vez e descobri um estado de espírito adrenalínico que eu quero visitar pra sempre. Ou quando toquei Rita Lee pros estudantes adolescentes do ifet num evento da escola e muitos pareciam estar descobrindo o rock brasileiro ali. Ou quando entrei no estúdio e ouvi os metais do arranjo de Inverno Astral sendo gravados.

É um transbordamento desses pequenos momentos, que me fazem (re-re-re-re-re)tomar essa decisão todos os dias.

O bebê Clara apalpando um piano.

Alguém te falou: Clara você canta bem! (?)
Sempre acompanhado de um: mas canta mais pra fora!

Você pode cantar pra fora e pra dentro pros nossos leitores entenderem?

 

Alguém te falou: Clara é melhor deixar a música como hobby…
Não num contexto depreciativo, mas quando me formei no ensino médio, fui fazer faculdade de administração na UFJF. Depois disso ainda fui fazer artes e design (por pouco tempo, é fato) e agora tô me formando em ciências sociais. Esses desvios de rota todos tiveram como pano de fundo a quantidade de vezes que ouvi as frases “melhor deixar a música como hobby” ou “você precisa ter um plano bê”.

Vampira

Capeta

Explica a diferença entre cantar e compor. O que vem primeiro? a vontade de cantar ou a vontade de escrever?
Dentro dessa comparação, quando falo “cantar” normalmente penso na canção já pronta; me vem mais à mente o ato de apresentar algo que já existe. Claro que enquanto estamos criando, usamos o canto como ferramenta, mas eu normalmente associo esse verbo a uma coisa mais pra fora, de “interpretar” a canção, colocar a música na boca. E compor seria o ato da criação em si, transitando entre melodia e letra. No meu processo, as duas coisas vem um pouco juntas. Às vezes até acontece da fagulha vir só em forma de melodia ou só em forma de palavra… Mas não tem regra, a vontade muda de acordo com a circunstância.

Fale da sua criação em Barbacena.. família, casa, bairro, escola, cidade…
Morei do meu nascimento aos vinte-e-poucos no sexto andar de um prédio onde mora quase toda a minha família por parte de mãe. Minha mãe é a décima de dez irmãos, oito mulheres, todas elas fortes e cheias de opinião, como a minha avó Suria. O nome do meu avô é Urias. Um nome dentro do outro por pura coincidência, só mudar o s de lugar, sempre achei isso uma pira.

Minha família de Barbacena é uma típica família tradicional mineira do interior de Minas Gerais, os de Castro. Minha avó é filha de um libanês e a descendência árabe é bem forte pra nós. E meu pai veio de Curvelo, cerrado, coração de MG. Aí já é outra paisagem, outro sotaque. Meu avô, ao invés de machucado, fala “machucão”. Poesia pura. Minha avó Marlene canta o salmo na missa toda semana. Canta lindo demais.

Vó Marlene

Vó Súria

PAUSA PARA COMIDA ÁRABE

Qual sua comida árabe favorita?
Sempre foi quibe, o quibe da minha vó. Mas ai minha vó fez um aulão de quibe para todas netas e filhos, filhas e netos- e minha família é muito grande, minha mãe tem dez irmãos, e netos vinte e quatro- então ela fez um super aulão e fez uma apostilinha escrita com a letra dela xerocada para cada pessoa. E a esfiha é escrita “esfiha deliciosa”. E depois que rolou isso da esfiha, intitulada por ela mesma de esfiha deliciosa, então virou “a esfiha”. 

Eu tenho um amigo que veio da Síria, e ele cozinha direto pra gente, e ele achava um absurdo a gente misturar as comidas, ele servia as coisas super diferentes que ele fazia e falava “primeiro esse depois esse”, até o dia eu falei “cara desculpa mas a graça que eu vejo na comida é misturar, sabe?!”. Hoje em dia ele mistura, foi abrindo mão… Ele entendeu a explosão que é…

 

Você comete algum crime na cozinha? algo com catupiry?
Pão com sorvete, amo. Também gosto do salgadinho fofura com Nucita. Miojo com milho verde, to comendo agora.

Você já roubou no supermercado ou outro pequeno delito?
Não, nem nunca colei na escola, tenho pânico… eu tenho um negócio, um negócio de capricórnio.

Capricorniano tem tipo uns dez mandamentos?

 

Artistona

Minha mãe sempre se envolveu com cultura. Ela é artistona de alma. Teve um cinema em Barbacena, o Cine-Theatro Apollo, que recebia muitos shows, peças, filmes. Ela também trabalhou durante muito tempo na secretaria municipal de cultura. Foi uma das fundadoras do Museu da Loucura, movimentou a cena e foi muito atuante. Meu pai me contava histórias de dormir que inventamos juntos. Um cara super prático, mas extremamente criativo, jeitoso pros artesanatos. Ele sempre teve loja de sapato (hoje não mais).

Enfim, cresci me equilibrando entre uma mãe mais livirinha e um pai (literalmente) mais pé no chão. Minha mãe, que antes de mim já tinha decidido nunca ter filhos, sempre lidou comigo como gente grande. 

Mamãe

Papai e Vovô

“sempre gostei de um palquinho”

Meu parque de diversões era o corredor do prédio, onde eu tinha duas amigas inseparáveis. E ali a gente fazia de tudo, do comércio de miçangas à quebra de portas dos vizinhos jogando queimada. De corridas de patins a shows super produzidos com ingressos a 10 centavos. Esse corredor tem uns 10m. Na época era uma cidade. Fui criança crescida em apartamento, o que não impediu em nada as estripulias boas na época.

Sempre gostei de um palquinho, apesar de ser uma criança séria numa boa parte da infância. Lembro de, desde sempre, levar muito a sério as apresentações. Fiz balé e em todo vídeo que tem daquelas peças de fim de ano, eu apareço com uma carinha braba, concentradíssima. Não nego jamais meu lado capricorniany. 

E não negava também um espacinho pra qualquer coisa que fugisse do padrão da escola. Festa junina, etc. Toda quadrilha eu dançava com todo mundo que não tivesse par, queria ser oradora de formatura, tocar violão na gincana, mesmo sem saber, o que tivesse pra apresentar eu tava lá feliz da vida. Aparecida, porém tímida. Sempre gostei muito também de brincar sozinha. Nunca tive muito senso espacial, sempre fui uma pessoa bastante distraída. Quebro tudo, bato em tudo, derramo tudo, desde sempre.

Enfim, vai dar pra ter um gostim dessas memórias em “Ana”, no álbum completo tem várias imagens de vhs da minha infância e é exatamente pra essa história que eu olho agora com mais carinho. Depois desse processo criativo eu enxergo tudo o que veio antes de mim de uma outra forma.

Andando de elefante

Não sou muito de atividade física (odeio, não contaaaa), prefiro ler um livrinho, pegar uma frestinha de sol, no máximo um alongamento.

Você também é atriz, né? Será que é por isso que o vídeo “Corpo Só” é tão expressivo? mesmo você debaixo do pano a maior parte do tempo? Isso é expressão corporal?
(hahahahah) Sim, estou bem imersa nesse universo do teatro nos últimos tempos. Acho que a primeira coisa que eu senti que amava, bem antes de cantar, foi atuar. Teatro é um trem muito maravilhoso, é um tesão danado a possibilidade de fazer uma história, uma pessoa, uma experiência nos atravessar, ser contada através de nós. Sobre a expressão corporal, atualmente é uma busca, mas sinto que tô engatinhando. 

Sou um pouco cerebral (não que eu ache bom). Não sou muito de atividade física (odeio, não contaaaa), prefiro ler um livrinho, pegar uma frestinha de sol, no máximo um alongamento. Mas com minhas duas hérnias de disco na lombar, a conta tá chegando. 

Por isso tô voltando aos poucos a ativar o corpitcho, principalmente no teatro. Além disso, atualmente moro com uma educadora física (Cimarrara, deusa) que tá reforçando em mim – na prática – uma outra perspectiva: a de que eu não tenho um corpo, eu sou um corpo. E isso muda tudo, é um outro universo que se abre: o de perceber, inclusive, a dimensão política do corpo. 

Em “corpo só” eu não tinha consciência do que seria expressão corporal enquanto ferramenta. Eu tava pra te dizer agora que ali eu era apenas uma pessoa esbaforida embaixo de um pano. Mas pensando nas gravações, lembrei de sentir muitas coisas que me faziam querer me mover daquela forma. Em algum lugar fui ativada para buscar uma saída, me desvencilhar. E aquele era o jeito que meu corpo se expressava diante da situação, era impulso-movimento-impulso-movimento. Nada era coreografado ou ensaiado. Então acho que sim, ali tem expressão corporal, mas só se cê estiver considerando a informalidade da coisa, técnica mesmo não tinha nenhuma.

Direção: Céline Billard

Como é o seu processo de composição, pode ser bem detalhista e técnica, pois nossos leitores são fofoqueiros.
Não tenho um processo único pra compor. Cada música costuma vir de um jeito, mas como também não acredito nada nessa tal “inspiração divina”, precisamos estar sempre em prática, exercitando a criatividade. 

Busco manter uma constância em pelo menos uma das coisas: escrever/compor, estudar ou tocar. Mas como sou só uma – e hoje a gente precisa fazer absolutamente tudo da nossa carreira – tenho fases e fases. Nos últimos tempos, por exemplo, não tenho criado muito. Considero que estou na entressafra, depois de gravar “Ana”. Com as demandas do lançamento, as ideias mais recentes foram ficando pela metade.

Mas no geral, busco primeiro uma fagulha que é ou um temininha no violão ou uma melodia curta, de vez em quando com letra. Normalmente isso vem de alguma coisa que dá vontade de falar sobre, algum acontecimento, etc. Aí começo a insistir na ideia, experimentar caminhos. Quase sempre nessa parte eu pego o violão e fico viajando, cantando em cima possibilidades de melodia, de quebras, ritmos diferentes. A letra é uma grande aliada nesse processo, pra mim funciona bastante descobrir a melodia a partir da palavra, apesar disso não ser uma regra.

Clara e seu mino, Nathan Itaborahy, que também faz um som.

Para ilustrar de onde vem esses temas das canções, em “Fome de Gritar” foi uma conversa ao telefone com uma amiga, em “Gênesis”, uma viagem com a minha mãe, em “Fé na Fé” a movimentação dos nossos vizinhos da frente durante a quarentena, em “Astronauta” uma conversa minha comigo mesma criança.

Mas da fagulha à canção, a verdade é que não tenho muito critério, nem técnica, só pego o embalo e vou fazendo.

E aí tem música que nasce numa sentada, outras que demoram meses, outras que a gente muda com o passar do tempo. Eu normalmente fico bem ansiosa pra elas ficarem prontas, porque tenho maior tesão em apresentar novidades. E o termômetro que me diz se devo ou não dar continuidade àquela ideia é a minha própria emoção. Dei uma choradinha, arrepiei tocando, senti um trem no peito, vale insistir. Lembrando que muita, muita coisa fica pelo caminho. Mas tudo sempre vale a pena pelo exercício.

Tem também a onda das parcerias, que eu adoro. Aí depende muito de quem tá junto no processo. Tem gente que gosta mais de fazer letra, tem gente que gosta mais de fazer melodia, eu já gosto um cadim de tudo, tendo provocação criativa, tá valendo.

Como é o rolê de gravar com outros instrumentos Você dá umas brifada tipo “faz um groove ai tipo isso”, “vou meter fogo nesse seu pedal wah wah…”? Ou é mais uma somada do que cada um faz de melhor?
Tenho trabalhado pra ser mais participativa nesses processos, porque nos últimos tempos estou mergulhada na descoberta de quais sonoridades me representam. Comecei a fazer esse trabalho de um jeito mais profundo no meu álbum visual, “Ana”, que fiz em voz e violão exatamente pra conseguir chegar mais ao fundo desses “sons de dentro” e trazê-los mais à tona quando vier o próximo álbum. Percebi a importância de ter essa base interior sólida, mas também acredito muito na liberdade criativa de quem tá comigo. Por isso, busco me rodear de pessoas que percebam a música de um jeito parecido com o meu e que gostem de se divertir tocando, porque também só tem graça se a gente se surpreende, escuta, amplia o olhar pro que o outro tem a oferecer de perspectiva pro som. Sempre rola de propor, de provocar, mas acredito que o barato esteja na troca.

na dentista

Sobre um tema recorrente: paradoxo. Será que tá velho? Eu adoro falar disso. Porque é assim que eu me sinto, nessa constante confusão.

Desde o início da sua carreira até agora, quais os temas abordados nas suas músicas? teve algum que veio e ficou? Ou que vai e volta?
Sempre parti da minha experiência pra escrever. Me identifiquei muito com o que a Laura disse na entrevista que deu aqui, eu também escrevo sobre o que eu vivo, sobre o que vejo e sinto. Então acaba que tudo pode virar tema. Uma pedrinha que a gente chuta sem querer na rua, a chegada do mês de setembro, a tpm, minha mãe, uma unha encravada, sei lá.

Suas letras mostram uma ginga na língua portuguesa… isso me lembra Adriana Calcanhoto, faz sentido?
(Achei chique ter uma ginga na língua portuguesa, vou colocar no meu currículo).  Comecei a lidar com a palavra – brincar com ela – antes de começar a lidar com o som. Antes de compor, eu já gostava de escrever. Acho que muito também por gostar de ler. Já achava chique rabiscar uns poemas melosos (ou revoltados) nos meus cadernos de escola, diários, tentava escrever livros (que nunca passavam da página 2).

Com isso, quando fui experimentar compor, a canção acabou vindo muito da palavra mesmo. E ela continua sendo importante pra mim quando estou compondo, no meu processo criativo. Mas acho que isso se tornou um exercício também. Pensando na canção, eu era mais desprendida, deixava as letras e melodias muito do jeito que elas vinham. 

Hoje ainda mantenho muita coisa como chega, mas penso muito mais, revejo, refaço, rabisco horrores o caderninho. Tenho uma exigência bem maior. 

E a Adriana Calcanhotto era uma ídola da minha infância. Eu amava um disco dela de 2000, “Público”. Era um dos mais tocados nas nossas viagens pra Curvelo, pra casa dos meus avós. 

Lembro de admirar muito aquela mulher autossuficiente, criadora, que não precisava de nada além daquilo pra apresentar sua pira – ao vivo. Tem um poema do Mário Sá Carneiro que ela musicou que eu até hoje amo, foi uma das primeiras músicas que eu me lembro de ficar mentalmente tentando decifrar: “Eu não sou eu, nem sou outro/ Sou qualquer coisa de intermédio/ Pilar da ponte de tédio que vai de mim para o outro.”

Sim, continua fazendo sentido. 🙂

O que você gosta de escutar?
Tenho gostado de sacar o que tem sido feito nos últimos tempos, principalmente o trampo de mulheres. O que mais tenho ouvido esses dias é Jadsa e Ana Frango Elétrico. Escuto também Tulipa, Anelis, Luedji, Josyara. Além dos clássicos da música brasileira. Mas acima de tudo, escuto a cena autoral de Juiz de Fora, de Barbacena e outros artistas que conheço e boto fé, que também estão na lida como nós. Acho importante ressaltar que existem pessoas muito talentosas fazendo arte, que moram do nosso lado e precisam muito da nossa força para continuarem existindo. Deixo aqui minha playlist de artistas-que-moram-ao-lado. Faça também a sua, bem.

Seu primeiro disco e single foram lançados pela Som Livre, você pode nos dizer como foi a relação com a gravadora? O que significa uma gravadora grande para o artista na era do streaming?
Minha relação com a Som Livre foi de distribuição do álbum “Caostrofobia”, por intermédio da Nomad Produções. Naquele momento a relação foi interessante porque levou Caostro a outra dimensão, tivemos um resultado legal de plays nas plataformas, principalmente nas músicas que entraram pras playlists da gravadora.  Pensando nos tempos de streaming, isso não exclui a necessidade de fazermos também um trabalho independente em paralelo.

em Barbacena, show do primeiro disco

Fale sobre a Bituca? Como você entrou e como você saiu da Universidade de Música Popular ?
A Bituca foi uma fase muito importante pra mim. Durante muito tempo a minha passagem por lá reverberou. Quando montamos o show de Caostrofobia, por exemplo, quase todo mundo tinha de alguma forma passado por lá. Acho que a principal magia é ser um lugar de encontros, de muitas possibilidades. 

Na época eu também fiz uma residência artística com o Grupo Ponto de Partida, que dirige a escola, e foi pra mim o grande divisor de águas na entrada pra vida profissional. Foi lá que comecei a compreender a arte como ofício e também a conhecer todo o trampo que existe por trás de qualquer obra. Foi também um aprendizado incalculável vivenciar de dentro o funcionamento de um coletivo.

Dentro de todo esse processo, minha experiência pessoal foi de muito amadurecimento. Entrei insegura, com muita dificuldade em projetar a voz. Cantava baixinho, baixinho e tinha até vergonha de me apresentar nas aulas. Foi lá que comecei a me libertar, a entender o que eu tinha pra dizer, a “calejar de palco” e tudo mais. E também foi onde encontrei pessoas que carregarei pra sempre em mim.

“O negócio tá em quando a gente começa a querer ultrapassar esse lugar “aceitável”. É muito difícil nos ver ocupando lugares de instrumentistas, tocando alguma coisa além de cantar, ou mesmo tendo espaço pra interferir em questões técnicas, arranjos…”

A gente entrevistou a Laura Conceição que jogou uma pedra boa, tipo “para de falar rap de mina, é rap!. Podemos inferir que é “pra parar de falar MPB de mina, é MPB!”?
O que a Laura Conceição diz, eu tô com ela! (sou fã). Apesar de não ouvir muito o termo “MPB de mina”, essas caixinhas chegam pra gente também. Acho que por uma via um pouco diferente, porque acontece que na MPB existe uma penetrabilidade maior pras mulheres, quando são cantoras. É bastante comum vermos mulheres vocalistas de bandas desse estilo musical.

O negócio tá em quando a gente começa a querer ultrapassar esse lugar “aceitável”. É muito difícil nos ver ocupando lugares de instrumentistas, tocando alguma coisa além de cantar, ou mesmo tendo espaço pra interferir em questões técnicas, arranjos, etc. São pouquíssimas as referências que temos, se compararmos com a quantidade de homens nesse rolê.

Eu, por exemplo, inconscientemente pensava que não podia tocar violão nas minhas gigs, porque acreditava que jamais tocaria no nível dos caras que costumavam me acompanhar. O novo EP ter sido gravado só em voz e violão é uma resposta a isso também.

Uma compreensão de que eu posso sim ter o meu jeito de tocar, inventar meus arranjos, estudar harmonia e expandir meu espaço na música. Tive a sorte de cruzar com mulheres que, como a Laura, me mostraram que esse espaço é nosso sim. E que precisamos e vamos ocupá-lo. Precisamos sempre de mais referências que nos encorajem a quebrar esse silenciamento, que por tantas vezes nos fez desaparecer historicamente. Chega, né?

Curtindo uma missa com a tataravó

Amiga irmã, Milena

Balezeira

direção Ananda Banhatto

Recentemente, você lançou “A Torre” com participação da Laura Jannuzzi. Queria saber do desenrolo da parceria e como é gravar em um take único.
Foi muito legal. A Laura é uma querida, a gente se identifica super, já tínhamos uma musica juntas um pouco antes de gravarmos essa , então estávamos em uma troca bem intensa de música e referências. E foi muito massa poder gravar uma música com ela, porque foi uma música já sendo pensada em todo contexto das cartas que eu estava pirando na época, e já tinha todo o repertório e ai veio a “torre” como uma música que a gente compôs pra ocupar exatamente o lugar que ela ocupa, sabe?! 

E gravar em take único eu digo que foi uma das maiores experiências de desapego, porque sou uma pessoa extremamente perfeccionista e tenho muita dificuldade de aceitar os deslizes e tudo mais, e foi assim: uma oportunidade maravilhosa de me desprender e perceber mesmo a importância do “aqui agora”. Vai ter um momento que você respirou esquisito; vai ter um momento que a notinha podia ter ido melhor; um momento que a gente não vai ficar satisfeita e isso que é legal de gravar em takes únicos, de você olhar o deslize e aceitar como uma parte de quem eu sou, porque a gente não é perfeito em momento nenhum, por que nos disco a gente tem que ser?! 

Só completando essa ideia. É que assim, ser esse transporte significa que é isso, não é sobre você que está falando ali. É a música, é o que está passando ali, o que está atravessando e sendo contado. É sobre aquela coisa, não é sobre você.

Fome de gritar foi o primeiro single do Ep Ana, seguido de A Torre. Queria saber sobre a ideia de soltar os singles gradualmente.. você acha que é mais alinhado com o comportamento de consumo da música hoje em dia?
É. Foi bem pautado na forma de como as pessoas consomem música hoje. Quando eu terminei de gravar e tudo mais, e eu tinha o álbum pronto, ele sempre foi pensado desde o começo pra ser visto como uma coisa só, sabe?! Tipo um filme, que tem uma sequência de narrativa entre as músicas e entre os momentos. Tinha uma narrativa criada antes. E pra mim foi uma crise lançar dois singles antes. E até lançar os áudios separados do audiovisual. Porque a minha ideia era como se fosse um filme mesmo, sabe? Um curta de 28 minutos e pouquinho – são sete faixas. E pra mim, no começo, nossa, foi chato ter que pensar antes. Mas como no roteiro tinha essa ideia de ser dividida em atos, trazendo essa linguagem do teatro, acho que foi um pouco isso, sendo revelado um pouco da história e agora as pessoas vão enxergar essa história do contexto. Mas foi total por causa da forma que as pessoas ouvem música, porque se fosse pelo meu mundo ideal rsrs nem as faixas estariam soltas no mundo. Enfim, acho que essas coisas inevitáveis dos tempos atuais acabaram me dando uma outra leitura também da história que eu tinha criado.

Bruxona

Qual é da bruxaria invocada nos dois singles e como isso se encaixa no álbum? 
Esse lance da bruxaria é em nome de todas as mulheres que foram taxadas de bruxas simplesmente por serem livres, por ter ideias de mais. A gente toma pra si esse nome para falar de poder, do nosso lugar e de que sim somos bruxas. Sejamos bruxas.

Sobre “poder”. Eu não gosto muito dessa palavra, “poder”. Mas, no sentido do encontro, sabe?! porque existe uma potência muito foda quando a gente se encontra com pessoas semelhantes que podem compartilhar referências, experiências e mostrar pra gente que a gente pode sim fazer.

E eu acho que minha ideia foi muito celebrar esses encontros que encorajam a gente seguir nesse rolê dos mergulhos de ocupar espaços. Então a motivação inicial de tudo foi sem dúvidas a minha relação com essas mulheres artistas, de ter a coragem e a compreensão de que eu podia, sim, fazer um álbum voz e violão.

no set de Ana

Tudo começou quando encontrei uma caixa de fita vhs lá em casa…

Quando começou a pandemia eu voltei pra Minas, para casa dos meus pais em Barbacena e achei uma caixa com várias fitas, muitas memórias, e ficamos horas vendo vídeo do passado com aquela estética maravilhosa do vhs. E eu fiquei encarando a minha mãe ali da minha idade hoje, com aquela força absurda, um sangue nos olhos que me inspirou demais. E essa investigação começou, que é onde eu posso chegar antes de pensar na minha estética, o que é tudo isso que veio antes de mim, o que é isso tudo que me construiu, esses tijolos que fez a Ana e a Clara, e essa passagem e tudo mais.

Aí eu fui me dando conta ao longo do processo, sabe?! E eu encontrei meu mapa astral e tem toda história da Vera Leitão, que é a astróloga que lê meu mapa, e eu achei o mapa junto com as fitas, então foi outro reencontro maravilhoso. A Vera eu não a conheço, ela já até se foi dessa dimensão, mas é uma pessoa que cruzou na minha vida por acaso durante muito tempo. Quando a gente ensaiava pro show da Caostrofobia, na antiga casa dela, olha que louco.

E esse questionamento, depois do Caostrofobia, ficou muito pulsante na minha cabeça, “por que você canta?” E a resposta foi chegar naquele lugar de que a arte não é pra mim, mas algo que passa por mim. Então essa foi minha maior lição de ter vivido esse processo todo, falando sobre mim, pra chegar a conclusão que não é sobre eu. E o final do álbum é esse encontro, essa eterna caminhada, esse processo de aceitar as coisas como tal e como pontos inacabados o tempo todo.

Meu signo é leão e o seu é capricornio.. Podemos dizer algo dessa entrevista?
Dizem que esse encontro rende ótimos papos.

Alto astral!

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