Máscaras, Vida e Sociedade

por Marizótica
Ilustração: Valpero

Como explicaremos 2020 daqui há 10 anos?

A transmissão do coronavírus alcançou a escala global em poucos meses e ao mesmo tempo, o acesso a informação, que seria um dos poucos pontos positivos dessa hiperconectividade do mundo globalizado, ainda é extremamente falha, seletiva e nada democrática. Essa é a ironia no mundo em que vivemos. Somos rápidos para destruir e lentos para cuidar.

No início disso tudo, as publicações sobre a importância do uso das máscaras foram confusas, não era para comprar porque havia o medo do estoque acabar e faltar para os que mais precisariam, os profissionais de saúde. Mas logo o movimento de conscientização começou a tomar mais força e o uso das máscaras foi colocado como indispensável.

Como tudo na geração das fake news, logo começaram a surgir opiniões que contradiziam as pesquisas científicas, acusando as máscaras de causar diversos danos respiratórios. E somado à avalanche de informações que vieram da corrida científica, é também compreensível que certas incertezas surjam. Mesmo assim, é importante que no fim de cada dia, nós ainda tenhamos ao menos alguns instrumentos de segurança para a contenção de um mal pior.

Não somos uma geração que sabe lidar com o inconstante e estamos desesperados a procura de ao menos uma grande verdade para usar como bóia salva- vidas.

O mínimo que podemos fazer é usar máscaras.

Trago então um resumão de algumas poucas certezas e um tanto de outras preocupações para tentar ganhar uma maior perspectiva disso tudo.

O que são?

 Este pequeno acessório é a maneira mais simples de combater dois grandes males do momento. O primeiro seria o vírus em si, servindo como uma barreira mínima, reforçando o distanciamento físico. Mas para o segundo grande mal, o caso se mostra mais complexo, porque mesmo nos alimentando de informações confiáveis, ainda estamos rodeados por uma névoa de ignorância que, somada ao nosso distanciamento social, só reforça a atmosfera de pessimismo fatalista.

Assim, quem usa máscara, se atentando para seu uso devido faz, por consequência um esforço para compartilhar dessa nova cultura de cuidado com outros a sua volta, negando a lógica da necropolítica que se instaurou sobre o Brasil.

Para que servem?

Como eu disse, no dia de hoje já existem milhões de estudos sobre o assunto. O site do Ministério da Saúde traz as condições básicas que devem ser seguidas para que funcione como uma barreira física para a Covid:

  1. Que seja de utilização individual
  2. Que tenha duas camadas de tecido
  3. Podem ser de tecido de algodão, tricoline, TNT ou outros tecidos
  4. Devem ser  higienizadas corretamente
  5. A máscara deve cobrir totalmente a boca e o nariz, ajustando- se ao rosto sem deixar espaços nas laterais

Em Maio, o podcast do Foro de Teresina também lançou no especial Luz no Fim da Quarentena, o episódio #13, “Máscara, vírus e camisinha”, que discute um estudo publicado  pela American Chemical Society que mediu a capacidade de filtragem de diversos materiais e frisando dois elementos importantes no uso da proteção: o filtro (que depende da quantidade de fios na trama do tecido) e a vedação das máscaras.

É interessante notar aqui como tecidos nobres como algodão 600 fios e a seda pura, apresentaram maior eficácia na filtragem das gotículas do ar, apontando para o fato de que, mesmo que dê para produzir máscaras de muitos tecidos fáceis de encontrar e de baixo custo, os que realmente protegem, são caros e nada acessíveis. O que nos mostra como, mais do que nunca, o direito à saúde não é para todos.

Mas mais do que ler sobre o devido uso das máscaras é importante também que todos enxerguem o que acontece quando se usa uma máscara. E graças à ciências (amém) temos boas imagens para os que precisam ver para crer:

  1. Best Masks to Keep COVID-19 to Yourself
  2. How Well Do Masks Work? (Schlieren Imaging In Slow Motion!)

*Para quem não manja do inglês, basta ver as imagens.

De onde vem?

É interessante observar o que acontece quando uma nova necessidade é apresentada.

No início houve a corrida que limpou estoques inteiros, e o comércio aproveitou do desespero aumentando seus preços. Também temos a opção de investir no comércio local, com as costureiras que fizeram da demanda uma maneira de trazer uma nova renda para casa. Alguns artistas também têm aproveitado essa nova trend para criar estampas e promover novos álbuns ao mesmo tempo que conscientizando os fãs.

Gostaria de destacar também a produção independente de máscaras, daqueles que precisam só quebrar o galho e fazer funcionar o aparato da melhor forma possível. Sabrina Sedlmayer, no texto “Saco plástico na cabeça: a Gambiarra na pandemia” faz uma análise interessantíssima sobre a produção de gambiarras nestes tempos catastróficos, trazendo um arsenal de fotos ilustrando a criatividade humana em todo o seu esplendor, fazendo da precariedade global uma tragédia cômica.

Quais os desafios?

A vida está mais anormal do que antes e é difícil saber se estamos fazendo as coisas certas, a máscara é uma pequena precaução, mas que para certas pessoas, ainda representa um desafio e necessita de todo um preparo psicológico para ser encarado.

Acho que o primeiro nível desse desafio poderia surge com a comunicação. É desconfortável, a fala sai abafada, o tecido raspando na boca, a vontade de coçar o nariz ou arrumar a máscara. E quando a gente conversa não é só pela fala, a expressão do nosso rosto desempenha um grande papel nisso e deficientes auditivos e surdos sentem ainda mais o impacto dessa ausência. Libras é uma língua gestual-visual que demanda não apenas o movimento das mãos, mas também da expressão facial. Algumas pessoas fazem o movimento de aprender leitura labial, como uma maneira de acessar informações em meios que não tomam o devido cuidado de serem acessíveis, como as notícias. Mas de nada adianta esse conhecimento se agora, não só os jornalistas, mas toda a comunidade adquiriu máscaras que não agregam grupos que desviam da ideia normativa do homem padrão, deixando no escuro uma parcela considerável da população.

Como contrapartida existe a opção das máscaras com uma parte de plástico transparente que permite visibilidade para a boca, agora resta apenas que a utilização desse acessório se torne comum a todos. E existe um movimento para tornar o uso dessas máscaras obrigatório, alterando a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência incorporando a nova necessidade em tempos de calamidade pública.

O desconforto no uso das máscaras também é mais agudo em alguns casos, pois elas podem sim, engatilhar ansiedades e aguçar sensibilidades, principalmente para as pessoas que tem algum transtorno psicossocial. Estes enfrentam desafios específicos com o uso da máscara, o que acaba forçando um um tipo de isolamento que vai além do físico e do social. O que mostra como o simples uso das máscaras não é tão simples assim.

Olhando para o fluxo nas ruas, quantas vezes vemos nas ruas mães usando máscaras, mas com crianças desprotegidas? Não adianta dizer que deveriam deixar seus bebês em casa, porque muitas brasileiras não têm esse privilégio. E não existe negociação com muitas crianças, algumas recusam o desconforto, outras reagem com medo vendo um mundo mascarado a sua volta. É claro, com tempo e paciência, existem maneiras criativas de contornar o problema, mas como eu disse: com tempo e paciência, coisa que todos gostariam, mas poucos tem nessa precária vida pandêmica.

O que esse novo adereço pode dizer sobre nós e o mundo em que vivemos?

Por último quero mencionar a recusa do uso das máscaras por um grupo específico, que não cansa de dar vexame. Um estudo saído de uma parceria entre as universidade de Sussex e Berkeley mostram como o gênero masculino têm maior tendência a não usar a máscara. Mas com os exemplos de Bolsonaro e Trump, infelizmente, isso não é tão chocante. Este grupo que reflete a ignorância engatilhada no condicionamento da masculinidade tóxica ainda acha que a gripezinha vai passar e que quem tiver que morrer, vai morrer. Pensar assim é como jogar as mãos pro alto e se render à frustração ou pior, à preguiça que vem quando vida não corre como gostaríamos. No fim das contas isso é mais uma expressão do pensamento fatalista que acompanha o egoísmo dos nossos tempos. É a redenção daqueles que não conseguem reconhecer o quanto ainda tem a perder. Nada está tão ruim que não possa piorar, então é crucial qualquer esforço para melhorar, nem que seja apenas amarrar um pedaço de pano para cobrir a boca e o nariz.

Quando algo afeta o mundo nessas proporções é importante lembrar justamente do que esse mundo é feito. É necessário lembrar que existem muitas vidas, muitos cenários diferentes e que no fim, a sensação de uma vida normal era simplesmente uma sensação permitida à poucos. O controle que tínhamos sobre qualquer coisa já era muito pouco e agora, se existe essa possibilidade, por que não começar pelo cuidado com o eu? Depois com o outro… E assim vamos adiante.

Deixo aqui um beijo babado e a performance “Ensaio para fuga #1” do artista Noah Mancini.

Gostou? Não? Que pena…

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