Chuck 12 vai à formatura

Freestyle assinado por Chuck 12, antigo pixo do sãoma.
Ilustrações por Valpero 

Hospedado com amigos em uma pensão no centro da cidade Chuck partiu para o banheiro no fim do corredor para se preparar para o grande baile de formatura do amigo da escola. 

Estava puto porque sempre foi o último no ciclo de vida dos ternos que entravam na família, nesta ordem, do vô pro tio, depois pro pai, depois o irmão e por último ele, que se sentia uma palhaço prestes a ouvir didi mocó sonrisal.

O formando era um amigo do bonde escolar mas tinha uma forte tendência a se relacionar com sujeitos playboys e pagodeiros, os homens que iriam ficar com as mulheres mais desejadas do baile. Isso não é um clima highschool, é clima de cidade de alto IDH segundo Cofi Anão.

Chuck e mais dois amigos  partiram a pé para o baile de formatura, já alcoolizados.  A missão, proposta por Chuck, era um pit stop rápido na boca de fumo para abrilhantar a noite, desenvolver a auto estima, aguçar a sinceridade, eloquência e principalmente proporcionar algo menos patético e mais entusiasmante que um monte de playboy de faculdade federal berrando gritos de guerra chapados de red bull. Estudantes de engenharia em universidades federais se acham fodas e se comportam como  uma péssima tradução dos fratern boys americanos.

– o orgulho de não pagar pelo diploma deve ser ridicularizado até o fim.

Duas garotas se aproximaram em uma praça: “é por ali” (a biqueira). Era um morro de cidade pequena, permeada por casas com janelas que davam direto pra rua. Algumas luzes acesas, barulho de televisão e o bufo dos três idiotas subindo o morro tudo suado e fedido. 

O garoto responsável pela venda conferiu o dinheiro de Chuck e o conduziu por uma escada até um barraco. Chuck retornou com uma quantidade significativa de brizola, aquela mistura que só o aroma já faz cagar.  

O clube da cidade ficava a algumas quadras e no percurso os conhecidos de longa data comemoravam o êxito da missão, tecando nos orelhões. Corta para o baile.

– todo baile de formatura de universidade federal é escabroso. As famílias ostentam uisques, energéticos e uma falsa alegria de ver a cria ganhando arrogância e vontade de poder.

Chuck entrou no banheiro e notou que o suporte de papel estava quebrado. Procurou o lugar mais adequado para tecar com elegância no lugar vomitado. A movimentação intensa o deixou coagido e noiado, tipico comportamento cracudo. Apoiou os pés na parede, esperou alguns velhos no mictório e correu as mão no bolsos internos do paletó.

Saiu transtornado lambendo os dedos e coçando o nariz. Caminhou até a pista e percebeu que ali estavam os fortes, com dinheiro no bolso, gasolina no tanque e silicone nos peitos da namorada. Ele também queria apalpar peitões com silicone mas isso já era ansiedade sexual do pó. 

Chuck convidou amigos para o brilho da noite e distribuiu a mistura por todos os lados. Entre idas e vindas do banheiro, logo se instalou um burburinho sobre a qualidade do produto. Entre diversas hipóteses, a mistura com lidocaína soava um elogio.

Chuck cruzava o salão com o copo na mão, chupando pedras de gelo. Gostava de desfilar louco entre os esbanjadores roubando bebida. A banda começa a tocar. Chuck dança animado com a terceira idade. Foda-se se o nariz sangrar, a arritmia bater ou o rejunte colar a mucosa, ele estava animado.

Agora conversa exaustivamente com a família do formando, uma classe distinta de médicos, professores universitários e promotores de justiça. Após falar exaustivamente sobre como dominar Miami com uma rede de móteis (para transar), Chuck partiu.

Não lembrava do que tinha feito dez minutos antes, mas percebeu que não tinha mais o produto. Colocou as mãos no bolso do paletó e revirou. Encontrou um isqueiro, uma carteira de identidade e cinco reais sabor hepatite.

Chuck deixou o salão e seguiu debaixo das primeiras rajadas de sol. Foi acompanhado e voltou sozinho, sem brilho, amigos, ou cigarro pra fumar. Desesperado, foi checar as narinas na vitrine da padaria. Reparou o caimento do terno, se sentiu robusto e bem vestido, o terno agora parecia de alfaiate. Tinha dúvidas se estava inchado, pressionou a pele e contou os segundos. Estava saudável. Na pousada os amigos o aguardam:

– porra Chuck, todo mundo te procurando, você trocou o paletó com o tio da mina que tava formando. O cara é delegado, ficou louco, falou que o terno era foda, e o seu era de camelô.

Chuck partiu para o banheiro arrastando os pés no chão de sinteco zoado. Pela primeira vez na vida sentiu orgulho e saudades do paletó, ficou confuso, efusivo. Abaixou as calças e procurou o trono. Um amigo bateu na porta:

– e o produto, cuzão?
– no terno do delegado.

Gostou? Não? Que pena…

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