As roubadas de Stéphanie Fernandes

por Francis Hemp

Conheci Stéphanie sete anos atrás quando filmei um videoclipe da sua primeira banda, Go Spllash. De lá pra cá, Sté cantou e tocou nos conjuntos Alles Club, Cinnamon Tapes, Papisa e Baco Doente. Além do baixo e da música, Stéphanie também trabalha com produção cultural à frente da A Gira Produtora. Por essas e outras, ela tem boas histórias pra contar.

Voodoo Friday, Go Spllash, 2014. Inhamis

 

Quero te entrevistar sobre produção, pode?
Claro.

Fale sobre o seu trabalho de produzir artistas, como é?
Dá trabalho, risos.

Como lidar com egos? Você tem que ter um lado terapeuta, né?
Haja paciência! Super Nanny e pedagoga.

O que você pode fazer de mais necessário e efetivo para um artista?
A parte de produção mesmo, para que a vida do artista fique mais prática e ele foque apenas em ser artista, na parte criativa.

Com a Alles Club. Foto: Natália Elmôr

Você está no eixo SP/JF, pode nos falar sobre?
São Paulo sempre foi um epicentro cultural onde as bandas costumam migrar para ter algum tipo de sucesso e alcançar um público maior, mas hoje eu acredito que se o artista consegue se divulgar bem e circular num cenário interessante, São Paulo é apenas mais um lugar onde tem muita coisa acontecendo.

E Juiz de Fora? Como que tá?
Ouvi boatos de que está na sua fase mais efervescente, com um monte de banda produzindo. Tem uma cena autoral muito interessante rolando e se fortalecendo.

Você acha que existe uma desunião por parte das bandas da cidade?
Tem uma despretensão e um pouco de ingenuidade nessas bandas de agora que tornam os trabalhos autênticos. Acho que por ser uma cidade pequena, onde todos se conhecem, acaba rolando uma obrigação de todo mundo ter que se apoiar. Eu sofri pra entender essas picuinhas que rolam, mas agora já me conformei que se cada um fizer o seu sem se preocupar tanto em descer o cacete no trabalho do coleguinha, já tá bom demais..

Tocando com Cinnamon Tapes. Foto: Filipa Aurélio

Tocando no Clube Necessaire com a Baco Doente.
Foto: Filipe Furtado

Criança saudável antes de se envolver com bandas.
Foto: acervo pessoal

Você também toca, isso te dá uma expertise diferente?
Sim, acabo entendendo um pouco mais de como tudo funciona, do backstage ao palco, parte técnica, burocrática, etc.

Qual vacilo é recorrente por parte dos contratantes de shows?
Atraso de pagamentos, falta de divulgação do evento, equipamentos divergentes do que foi acertado antes. Ah, e achar que tá prestando um grande favor pro músico ao ceder o espaço.

Fale sobre isso, do mapa de palco, rider técnico…
A maior parte das bandas menores acham que é frescura, mas é o que assegura que cheguem lá no cafundó do judas e não esteja faltando um amplificador de guitarra, ou mesmo um simples banco de bateria que impossibilite de rolar o show.

 

Stéphanie canta “Voando” da Alles Club

Papisa na casa de caldos

Tocamos em BH num bar muito chique, tínhamos direito a open bar de vinhos, tinha técnico de som, equipamento bom, tudo lindo. No dia seguinte, fomos de ressaca tocar em Ouro Preto. A Rita me falou o nome do lugar e achei meio estranho, porque lembrava ser um restaurante. Mas como o show era parte de um evento de um coletivo conhecido na cidade, fiquei quieta. Chegamos lá, era realmente um restaurante, com uma lousa na porta: Noite de Caldos com Música ao Vivo: Papisa (SP). Os garçons indicaram onde era pra gente montar nosso equipamento: no meio da brinquedoteca do lugar. Fizeram uma correria lá na hora pra conseguir as peças de bateria emprestadas, um cara chegou com uma mesa de som, outro com um ampli de voz e assim foi indo…. 

Você se lembra quais eram as opções de caldo?
Lembro que até no feijão amigo tinha algum tropicão e a Rita (vegetariana) ficou com fome . E lembro também que a gente tinha direito a 1 caldo!

Qual você escolheu?
Acho que misturei um pouco de cada, kkkkk.

Qual a meta, visão e valores da A Gira?
Ave Maria! A meta é fazer intercâmbio de bandas: trazer o máximo de bandas interessantes pra Jufas e fazer com as que as daqui circulem em lugares legais também. Além disso, trazer shows maiores e quem sabe, um festival. Visão e valores: não trabalhamos. Rs.

Fala sobre seu envolvimento com música. Quando criança, o que você ouvia em casa?
Tão cafona falar que eu gosto de rock, né? Mas é o que mais ouvi a vida inteira. Estamos aí tentando perpetua-lo.  A galera agora tá com implicância com guitarra. Legal é sintetizador e apertar botãozinho.

Quando você vê um monte de pedal, que sentimento te desperta?
Eu acho interessante. Fico curiosa pra saber o que faz cada um, mas eu mesma, só uso um.

E se a Basement Tracks e a Alles Club tirassem metade dos pedais?
Seria o fim das duas bandas. Rs.

Papisa toca “A Velha” na NCSSR Sesions

Você toca em banda só de minas e só de caras, fala sobre algo peculiar entre as duas.
Banda de mulher é uma delícia, é muito acolhedor, a gente acaba se ajudando mais. Com os caras, eu não me sinto pra trás em nada, mas percebo que querendo ou não, eu sou a única mulher ali, e que eles tem que tomar um cuidado a mais em deixar algumas besteiras pra falarem mais tarde. 

O que significa A Gira?
Gira = tour, turnê. Achei interessante essa ideia de movimento, em espanhol.

Qual sua relação com o espanhol? visto que você também produz empanadas com o legítimo sabor portenho.
Tudo obras do acaso e nem tinha percebido. Tenho descendência, mas não tenho nenhum tipo de tradição cultural familiar espanhola.

Quem está na Gira atualmente?
A Gira sou só eu. Quando preciso, agrego mais gente, mas pretendo continuar sozinha. Tem muito produtor que faz o mesmo, mas gosta de tratar as coisas como empresa pra parecer mais profissional, acho estranho: nós da Gira desejamos a todos um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo!

Às vezes soa pejorativo ser enquadrado como empresa.. principalmente no meio artístico, você também acha isso?
Eu acho que soa pejorativo querer ser o que não é.

 

Pós show, com Baapz e Ana Frango Elétrico, em Jufas.
No corre com o Víctor da Basement Tracks na São Mateus, Jufas.

Foto: Gabriela Zuninga

Ácaro turnê, com Cinnamon Tapes

Uma vez fui tocar no Sul com a Cinnamon Tapes. Descemos de carro e a primeira parada foi em Curitiba, o show foi na Casinha. No dia seguinte, partimos cedo pra Blumenau. O nome da casa era Cafundó, e o único indicio de que o rolê era firmeza era que os Boogarins e Carne Doce já tinham tocado lá. Pegamos uma baita chuva na estrada, chegamos em cima da hora da passagem de som, porém, a produtora que nos recebeu, nos deu a notícia que estavam faltando algumas peças da bateria. A casa era num bairro afastado, tinha uma pista de skate, um ar meio hippie decadente e vários banners de propaganda de escola de inglês, com um tiozão com cara de gringo em tamanho real. Esse era o dono do Cafundó.

Quando chegamos no palco, numa cabana de madeira, encontramos o bumbo da bateria, umas peças aleatórias e uma cadeira de madeira como banco… a Ana já fez aquela cara, falou que não ia dar altura… a produtora se adiantou e pegou umas almofadas pra ajudar. Pediu para irmos com ela ate uma cidade vizinha pegar as partes que faltavam da bateria. Como não tinha outro jeito, fomos… azedas já. Na volta, a dj que ia abrir a noite, já tinha chegado, com vários cases de vinil. Ficamos super animadas por ser uma mulher tocando vinil, mas já desconfiamos um pouco que o look dela tava meio fora da ocasião. Ela abriu a noite com “Chorando se Foi” e a música que botou pra encerrar seu set, segundos antes da gente começar o show, foi “A Cor Dessa Cidade”, que fez um contraste com as primeiras notas e a voz grave da Susan.

Pelas fotos dá pra sentir o pé mofando.

Toquei o show inteiro segurando com o joelho o bumbo da Ana,que estava amarrado ao resto da bateria com um cadarço de sapato. O clima ficou meio pesado, o público com cara de enterro, não entendendo nada! A Susan encerrou o show antes do previsto, já irritada com aquela situação nada a ver. Quando desligamos o equipamento, chegou uma galera pedindo os instrumentos emprestados pra fazer uma jam e já atacaram uma Janis Joplin no último volume. Apesar de estarmos na cidade da Oktoberfest, lá só tinha brahma litrão e foi o que nos restou.

A esposa do dono estava meio travadona e nao deixava a gente ir dormir, mas nos levou a contra gosto pra uma casinha próxima ao palco, onde, na entrada já vimos umas cadeiras de rodas estacionadas. A casa era dos pais do dono, que haviam falecido. E o clima era estranho, como se ninguém nunca tivesse mexido em nada dessa morte deles, porém deixaram umas coisas do bar que nao tinham onde por… o cheiro de mofo era forte. Nosso quarto tinha um pole dance, uma cadeira de dentista antiga e uma cabeça de papel machê do Milton Nascimento… era ácaro pra tudo quanto é lado. A Ana teve uma crise respiratória de tanto mofo e de tanto rir. Fizemos até um curta no celular com as cenas…

Acordamos no dia seguinte e saímos fora correndo.

Com as Malditas, de Juiz de Fora

Com a Cinnamon Tapes e um gordinho do Sonic Youth

Sim, ela tem uma faixa de aniversário 🙂

Tô morrendo com essa fita de Blumenau! Em relação a pedidos dos artistas, qual o mais excêntrico que você recebeu?
O Emicida pede 3 pezinhos de arruda e uma travessa de arroz doce em todo show/evento. Já tive que fazer e levar uma vez, porque não encontrava pra comprar em SP. Uma vez também tive que ir até uma padaria dessas de bairro e conversar com o dono. Ele riu, chamou a cozinheira e perguntou se ela sabia fazer. Já passei raiva com isso, mas acho que é pro santo dele, porque ele nem mexe.

A Karol Conka pede toalhas de rosto VERMELHAS. Tive que correr atrás disso no Rio, em plena olimpíadas e não achava por nada. Deve ser pra pomba gira dela.  Alguns artistas pedem as toalhas brancas pra terem certeza que são novas. Essa de ser colorida/escura é porque sai maquiagem enquanto se limpam no meio do show e fica igual ao santo sudário.

Você não tem um santo pra te dar um help nesses casos?
Tenho uma terapeuta bem boa.

 

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